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CURSO BÁSICO DE MERGULHO (Elaboração Raimundo Sampaio)

1. HISTÓRICO DO MERGULHO

Permanecer embaixo d’água pôr um tempo indeterminado parece ter sido o sonho de todos aqueles que se compraziam na apnéia. Podemos imaginar, numa época de tecnologia praticamente nula, tal qual era na antigüidade, a falta completa de conhecimentos que fossem capazes de materializar este ideal.

Os objetivos que despertavam este interesse certamente não se dirigiam para o lazer.

Somos inclinados a pensar que reis e governantes, caso pudessem e soubessem permanecer respirando sob as águas, tratariam imediatamente de procurar todos os tesouros e valores que, muitas vezes, a vista dos próprios olhos, submergiam em naufrágios comerciais ou guerreiros.

Nas antigas épocas, sendo pôr todos sabido que tal proposta era impossível ao ser humano, a imaginação e a fantasia tomavam o lugar da tecnologia e sempre se conseguia alguma razão mágica para se iniciar contos ou odisséias em que o herói dispunha de possibilidades de praticar suas façanhas sob o mar. Importa nisso descobrirmos que, pôr baixo de todo “pensamento mágico” de então, ficava evidenciada esta aspiração da humanidade.

É partir do período conhecido como Renascença (onde o gênio de diversos notáveis estudiosos e artistas evidenciou-se) que vamos observar os primeiros rudimentos do domínio tecnológico de então ser empregado em função do mergulho. Não obstante a Lei de Boyle ter sido enunciada, pela primeira vez, no ano de 1660, a maioria dos projetos antigos era fantasiosa demais. Uma vez postos à comprovação, geralmente não funcionavam, encerrando-se com frustrações e até acidentes letais para o “mergulhador de prova”.

Em 1669, partindo do já conhecido (desde a antigüidade mais remota) “sino de mergulho”, Denis Papin descobriu um sistema que era capaz de fornecer ar fresco para o interior deste, em fluxo contínuo. Isso prolongava consideravelmente a permanência de um mergulhador no interior do sino e, pôr conseguinte, sob a água.

Tal fato se constituiu num grande salto e revolucionou as técnicas de mergulho, tendo sido adotado com freqüência, até recentemente, sob a forma de escafandria, que nada mais do que o sino de mergulho colocado em volta da cabeça do mergulhador e com fluxo contínuo de ar, fornecido a partir da superfície.

A seqüência de inventos, desde 1669, foi vasta e ingênua, muitas vezes. Na tentativa de obterem notoriedade, alguns inventores apresentavam resultados que, hoje sabemos, jamais poderiam ter sido obtidos.

Em 1715, um inglês chamado John Lethbridge projetou um “tanque” de couro, onde o mergulhador se deitava, mas tinha a possibilidade de deixar os braços para fora. O dispositivo era baixado pôr um cabo. O inventor dizia já ter descido nesse tanque lacrado profundidades superiores a 10 braças (próximo dos 20 metros), pôr mais de 100 vezes. Não havia suprimento de ar. Provavelmente o inventor também deve ter se confundido ao relatar os resultados.

Em 1865, Benoit Rouquayrol e Auguste Denayrouze, idealizaram e construíram um engenho que permitia ao mergulhador levar uma pequena quantidade de ar comprimido, nas costas. Este pequeno reservatório estava conectado à superfície pôr meio de uma mangueira de ar que partia de um compressor. Isso tinha pôr finalidade manter o pequeno tanque cheio, enquanto durasse o mergulho.

Como tal equipamento permitia que o mergulhador se desligasse da mangueira de ar que o mantinha conectado à superfície (e que também servia para o constante reabastecimento do seu tanque), datam desta época os primeiros movimentos do homem se deslocando livre e solto pelo fundo do mar. Naturalmente o equipamento era bastante rudimentar, quando comparado a qualquer similar atual, mas já possuía um regulador que ajudava a controlar o fluxo de ar, do mini reservatório de mergulho até a boca do mergulhador. A permanência, “livre” e respirando ar sob o mar era bastante curta, mas acontecia.

Em 1878, Henri Fleuss inventou um equipamento de respiração que fornecia oxigênio puro ao mergulhador, cujas exalações eram filtradas pôr um agente químico, para evitar o dióxido de carbono.

Em 1888, George Comheines inventou um regulador semi-automático; Fixado num reservatório de ar comprimido. Já era alguma coisa com funcionamento bem mais

CURSO BÁSICO DE MERGULHO (Elaboração Raimundo Sampaio) semelhante ao que hoje se usa. Infelizmente, naquele tempo de pioneirismo, o inventor morreu num dos primeiros mergulhos realizados.

Em 1938 um grupo de marinheiros fundeia um escaler proveniente do cruzador

Suffren, da marinha francesa, em frente da praia de Porquerolles, na Reviera Francesa. Um jovem oficial chamado Jacques-Yves Cousteau lança-se mar a baixo, testando um equipamento de respiração a oxigênio, praticamente de sua autoria. Vai até os 14 metros de profundidade e, a partir, daí sente os lábios e as pálpebras tremerem. Percebendo que vai perder os sentidos, descarta o cinto de lastro e aflora, inconsciente na superfície. Os marinheiros recolhem o oficial a bordo do escaler.

Em 1939 o persistente oficial repete a experiência, trazendo uma válvula reguladora mais aperfeiçoada. O equipamento ainda utiliza oxigênio. Aos 14 metros de profundidade o mergulhador é acometido pôr contrações e convulsões, chegando novamente inconsciente à superfície. E assim Cousteau descobre e aprende que o oxigênio puro é extremamente perigoso a partir já dos 7 metros de profundidade. O oficial abandona o uso do oxigênio em suas experiências.

Em 1942, durante a guerra, Cousteau conhece, casualmente, em Paris, um engenheiro perito em equipamentos de gás. Chamava-se Émile Gagnan e tinha construído uma válvula reguladora para alimentar com gás os motores de automóveis, uma vez que a gasolina era escassa. Poucas semanas depois, Cousteau e Gagnan realizam a primeira experiência no mar, mergulhando com um equipamento pôr eles construído. Tal equipamento consistia numa garrafa com ar comprimido, feito de aço. Dela saia uma válvula de respiração que controlava automaticamente o fluxo do volume de ar fornecido ao mergulhador, de acordo com o princípio distribuidor de gás de Gagnan.

Entretanto tal equipamento só funcionou satisfatoriamente quando o mergulhador ficou na posição horizontal. Descoberta a modificação que precisava ser feita, o equipamento foi ajustado e funcionou perfeitamente, conforme nova experiência realizada em Paris, em tanque de água doce.

Em junho de 1943, Cousteau realizou o primeiro passeio submarino em seu equipamento de mergulho autônomo, recebendo ar comprimido em condições satisfatórias e, a partir daí, marcou o início de uma outra modalidade de submersão que permitia ao mergulhador usufruir, finalmente, de um estado de liberdade.

Conforme podemos constatar, o desenvolvimento da arte de submergir permaneceu quase estagnada pelos três últimos séculos, vindo a receber o impulso decisivo só muito recentemente. O problema técnico que obteve solução significativa foi à formulação do princípio de funcionamento da válvula reguladora do suprimento de ar a fluxo regulado. A partir de um protótipo aceitável, diversas variações e aperfeiçoamentos não cessaram de ocorrer até os dias de hoje. Interessante é ressaltar que, até bem pouco tempo o processo era muito empírico. Problemas como narcose ou intoxicação pôr oxigênio, antes de serem equacionados produziram muitas vítimas. A Doença Descompressiva (D) espalhou seus efeitos durante muitos anos, de maneira desordenada, desafiando mergulhadores e pesquisadores. Barotraumas, os mais diversos ainda ocorriam com freqüência na década de 60 e o mergulho possuía, aos olhos de muitos espectadores, uma mística de atividade de considerável risco. Quanto ao mergulhador, era um desbravador ou um insensato.

O panorama atual do mergulho se reveste de conotações bastante diferenciadas, quando em comparação à década acima citada. O grande segmento do mergulho de lazer, hoje, é uma realidade permitida a qualquer pessoa que queira experimentá-lo. Regulado e conhecido, é atividade segura, benéfica e desmistificada. Sobre esta conquista estruturou-se o mercado do turismo subaquático, propiciando o desfrute do visual submarino a gerações de jovens e idosos, ao mesmo tempo em que cria e assegura empregos a uma faixa considerável, direta ou indiretamente, da população.

1.1 Conceito de Atividade Adaptada

As atividades recreativas, esportivas, praticadas por pessoas portadoras de deficiências, são consideradas adaptadas. Refletindo sobre o significado da palavra “adaptada” e compreendendo a deficiência como, diferença característica da individualidade, podemos perceber que adaptados são os recursos e técnicas utilizadas para a realização da atividade.

As adaptações são meios para respeitarmos as necessidades individuais. Partindo deste princípio, nosso aluno pode realizar, com ou sem auxílio, o conjunto de habilidades

CURSO BÁSICO DE MERGULHO (Elaboração Raimundo Sampaio) necessárias para sua formação, pois o importante é a realização que explore o potencial de ação e compreenda a limitação. Podemos concluir que o mergulho adaptado é o mesmo para todos e a designação adaptado representa um sentido de referência quando participam da atividade pessoas portadoras de deficiência.

Histórico do Mergulho Recreativo Adaptado

Fundação e desenvolvimento da HSA O mergulho Adaptado foi reconhecido formalmente em 1981, através da Fundação

Handicapped Scuba Association International, na Califórnia, pelo Instrutor e Biólogo James Gatacre (Jim). A HSA viabilizou a certificação de mergulhadores portadores de deficiência físicas, visuais e auditivas, rompendo com a marginalização por falta de informação a respeito das potencialidades de pessoas rotuladas como deficientes, incapazes. Jim trabalhou em conjunto com médicos, profissionais do mergulho, mergulhadores portadores de deficiências, entre outros, para desenvolverem a certificação multinível.

A HSA realiza Cursos de Treinamento de Instrutores (ITC), nos quais difunde, a nível internacional, o trabalho da certificadora, que reúne profissionais de diversas entidades e nacionalidades. A HSA possui mérito incontestável, pela criação e reconhecimento da atividade internacionalmente.

Implantação e desenvolvimento da HSA no Brasil

Lúcia Sodré, atual Presidente e uma das fundadoras da SBMA, formou-se em

Monitora de Mergulho em 1982. Em 1983, conheceu o esporte adaptado, e decidiu cursar Educação Física.

Mergulhando por lazer, descobriu que existia nos Estados Unidos, o Mergulho

Adaptado, e a vontade de realizar o trabalho tornou-se predominante. Em 1991 formou-se em Instrutora, e em agosto desse mesmo ano, realizou, na cidade do Rio de Janeiro, o primeiro curso de especialização em Mergulho Adaptado (ITC) no Brasil. Em agosto de 1993 em São Paulo, realizaram o segundo ITC. Neste curso, a HSA propôs oficialmente a criação da HSA - Brasil, com Lúcia na direção, a qual aceitou a proposta por acreditar que poderia desenvolver o trabalho. Em 1994, participaram do SUBAQUA (SP). Reuniram profissionais representantes de todas as entidades certificadoras existentes naquele período no país (PADI, SSI, CMAS, PDIC), e realizaram no Rio de Janeiro com a participação de 21 pessoas portadoras de deficiências, em agosto desse ano, o terceiro ITC da HSA no Brasil.

Fundação e Desenvolvimento da SBMA

“Buscarmos transcender as dificuldades que inviabilizam a realização do que idealizamos pode representar a necessidade de mudanças para que possamos prosseguir de acordo com nossos valores e prioridades, mobilizados pela alegria e significado em nossas ações.” Diz Lúcia Sodré.

A Handicapped Scuba Association Intenational mantém seu relevante valor. Porém, se tornou inviável o trabalho com uma estrutura tão cara e distante, no sentido da mobilização para nosso contínuo desenvolvimento.

A Sociedade Brasileira de Mergulho Adaptado (SBMA) é uma certificadora direcionada para o Mergulho Recreativo com pessoas portadoras de “deficiências” físicas e visuais. Idealizada em setembro 1995, reúne profissionais de diversas entidades. Atua predominantemente, nas áreas de especialização profissional e formação de mergulhadores.

Decidimos desenvolver áreas interligadas de trabalho, coordenadas por pessoas que participam, direta ou indiretamente, da atividade. estruturamos áreas de cursos, eventos, adaptações arquitetônicas e vendas. Criamos também a área de colaboradores, constituída por médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, instrutores, supervisores, assistentes, mergulhadores e todas as pessoas que participam de acordo com suas possibilidades, contribuindo preciosamente.

Compreendemos que a Sociedade cria uma imagem irreal quando associa deficiência à doença ou ineficiência. As pessoas não conseguem perceber que deficiência é diferença. É uma característica a mais sobre a individualidade de alguém, pois cada um de nós é portador de limitações e potencialidades.

Não existem pessoas deficientes. Existem pessoas portadoras de limitações, que não determinam impedimento para realizações, se as diferenças forem respeitadas. Deficiente é a sociedade, que necessita ser continuamente transformada para viabilizar a participação natural de todos que a constituem. Não existem super-heróis ou “vítimas”. Muito menos

CURSO BÁSICO DE MERGULHO (Elaboração Raimundo Sampaio) pessoas especiais. existem apenas pessoas que buscam viver da melhor forma, direcionando a vida para realizar seus objetivos e ideais.

Mergulhar é fascinante e está ao alcance de todos que desejam compartilhar com o mar. Para todas as dificuldades existem soluções. Para todas as limitações existem adaptações. O importante é o prazer pela realização.

Pretendemos utilizar o Mergulho recreativo como meio para somar ao processo de mudança de valores e ações, a partir da conscientização sobre a qualidade da individualidade humana, com suas limitações e potencialidades, rompendo com os conceitos errôneos a respeito das pessoas portadoras de “deficiências”, evitando a manipulação para fins autopromocionais e sensacionalistas da atividade, que possam prejudicar os objetivos almejados.

2. EQUIPAMENTOS 2.1 BÁSICO

2.1.1 Máscaras

O olho humano é naturalmente projetado para funcionar no ar. Diretamente em contato com a água a visão é distorcida, o olho não consegue foco (imagens precisas). A solução para que o ser humano consiga ver as imagens em foco quando com os olhos submersos é manter uma camada de ar entre os olhos e a água. A máscara desempenha este papel, contando com uma superfície de vidro transparente para que o mergulhador veja o mundo submerso corretamente. A manutenção da camada de ar entre os olhos e o vidro é feita por uma estrutura de borracha ou silicone que adere à face do mergulhador, represando este ar.

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