Cuidados inovadores para condições crônicas

Cuidados inovadores para condições crônicas

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Fonte: Ministério da Saúde de Botsuana, Divisão de Serviços de Saúde Comunitários, Unidade de Controle Epidemiológico e de Doenças.

Óbitos

1. Condições Crônicas: ODesafio da Saúde no Século 21

Até o ano 2020, as condições crônicas, incluindo lesões (como as causadas por acidentes de trãnsito que resultam em invalidez permanente) e os distúrbios mentais, serão responsáveis por 78% da carga global de doença nos países em desenvolvimento.

Doenças transmissíveis, maternais e perinatais, e desnutrição

Condiçoes não transmissíveis

Disturbios Mentais

Países de renda baixa e média são os que mais contribuem para o aumento na carga das condições não transmissíveis. Na China ou Índia, isoladamente, existem mais óbitos atribuídos a cardiopatias do que em quaisquer outros países industrializados combinados. De fato, em 1998, 7% do total de óbitos em decorrência de condições não transmissíveis ocorreram em regiões de renda baixa e média, bem como 85% da carga global de doença. Infelizmente, esses países enfrentam o grande impacto das condições crônicas enquanto continuam a lidar com doenças infecciosas agudas, desnutrição e problemas relacionados à saúde materna.

O aumento da incidência de diabetes em países em desenvolvimento é particularmente preocupante. Essa condição crônica é o principal fator de risco para cardiopatia e doença cérebro-vascular e, normalmente, ocorre associada à hipertensão - outro importante fator de risco para problemas crônicos. Os países em desenvolvimento contribuem com ¾ da carga global de diabetes. Em 1995, havia 135 milhões de diabéticos; as projeções indicam que esse número irá atingir 300 milhões no ano 2025. Tudo indica que a Índia terá um aumento duas vezes maior. ! ! !"

Os problemas de saúde mental ocupam cinco posições no ranking das 10 principais causas de incapacidade no mundo, totalizando 12% da carga global de doenças. Atualmente, mais de 400 milhões de pessoas são acometidas por distúrbios mentais ou comportamentais e, em virtude do envelhecimento populacional e do agravamento dos problemas sociais, há probabilidade de o número de diagnósticos ser ainda maior. Esse progressivo aumento na carga de doenças irá gerar um custo substancial em termos de sofrimento, incapacidade e perda econômica.

Transição Demográfica

Em todo o mundo, as taxas de natalidade estão recuando, as expectativas de vida avançando e as populações envelhecendo. Na década de cinqüenta, por exemplo, o número de filhos que uma mulher teria, em média, era seis; hoje a taxa de fecundidade total diminuiu para três. Além disso, neste último século, as expectativas de vida tiveram um aumento de cerca de 30 a 40 anos em países desenvolvidos. Essa longevidade deve-se, em parte, aos avanços científico e tecnológico, bem como a uma melhora substancial nos parâmetros da saúde pública ao longo dos últimos 100 anos.

Uma conseqüência dessa mudança demográfica é o aumento concomitante na incidência e prevalência de problemas crônicos de saúde. Enquanto há uma queda na taxa de mortalidade infantil e um aumento nas expectativas de vida e na possibilidade de exposição ao risco de problemas crônicos, as condições crônicas tornam-se mais expressivas.

1. Condições Crônicas: ODesafio da Saúde no Século 21

O que é um DALY? Em se tratando de problemas de saúde prolongados e suas decorrentes incapacidades, mensurar a

“carga global de doenças” é uma forma significativa de examinar a magnitude relacionada. Essa metodologia utiliza um indicador denominado DALY - sigla em inglês para anos de vida ajustados pela incapacidade - para quantificar o número de óbitos prematuros e de incapacidade. Um DALY coresponde a um ano perdido de vida saudável. A carga de doença, por sua vez, é considerada a diferença entre o estado real de saúde de uma população e um estado ideal de envelhecimento saudável sem incapacidade.

Todas as regiões do mundo podem prognosticar transições semelhantes na dinâmica populacional e nos problemas de saúde. Contudo, o período em que essas mudanças ocorrerão irá diferir de região para região. Haverá uma mudança contínua no equilíbrio relativo das condições crônicas e agudas aliada a progressivos aumentos na prevalência de transtornos prolongados, a menos que esses agravos sejam evitados. Em outras palavras, aumentos na longevidade não levam inevitavelmente a maiores taxas de condições crônicas; porém, são necessárias ações para prevenir o aparecimento de problemas crônicos.

Mudanças nos padrões de consumo e no estilo de vida

Os fatores de risco modificáveis para as condições crônicas, tais como cardiopatias, doença cérebro-vascular, diabetes, HIV/AIDS e câncer, são bastante conhecidos. Em verdade, o estilo de vida e o comportamento são elementos determinantes para essas patologias, pois podem prevenir, iniciar, ou agravar esses problemas e as complicações decorrentes. Comportamentos e padrões de consumo não saudáveis implicam de forma predominante no surgimento das condições crônicas. Tabagismo, ingestão excessiva de alimentos não saudáveis, sedentarismo, abuso de bebidas alcoólicas, práticas sexuais de alto-risco e estresse social descontrolado são as principais causas e fatores de risco para as condições crônicas. Infelizmente, o mundo está passando por uma transformação incontestável em virtude desses comportamentos prejudiciais à saúde.

O tabagismo é um exemplo flagrante dos efeitos comportamentais sobre a saúde.

Constitui uma das principais ameaças à saúde e suas conseqüências negativas são reconhecidas há mais de quatro décadas. O hábito de fumar causa inúmeras condições crônicas, incluindo cardiopatia, derrame, câncer e problemas respiratórios crônicos. Há evidências claras de que esse hábito está associado à morte prematura e incapacidade; todavia, há pouca divulgação sobre o fato de que fumar é prejudicial à saúde. Além disso, os sistemas de controle do tabaco são inadequados na maior parte do mundo. De

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África Sub-sahariana Mediterrâneo Oriental Índia

Outras partes da Ásia e Ilhas

América

Latina e Caribe

China

fato, se por um lado o consumo de cigarro diminuiu em países desenvolvidos, por outro está aumentando nos países em desenvolvimento em cerca de 3,4% a cada ano. Dessa forma, 82% dos fumantes são oriundos de países de renda baixa e média. No momento, o tabagismo é responsável por aproximadamente quatro milhões de óbitos por ano no mundo. Dez milhões de óbitos irão ocorrer a cada ano até o ano 2030, emais de 70% dessas mortes ocorrerão nos países em desenvolvimento. 1. Condições Crônicas: ODesafio da Saúde no Século 21

Mudanças não saudáveis nos hábitos alimentares, sedentarismo e uso crescente de drogas ilícitas podem parecer de menor importância frente aos danos causados pelo fumo. Não obstante, essas mudanças negativas no estilo de vida estão se propagando no mundo e devem ser tratadas com extrema seriedade no que concerne aos problemas crônicos de saúde. Todos esses comportamentos prejudiciais mencionados acima são reconhecidos como fatores de risco para uma variedade de problemas crônicos, incluindo doença cardiovascular, diabetes e derrame. Cada vez mais, a dieta alimentar é reconhecida como um determinante fundamental para problemas crônicos de saúde.

Urbanização e marketing mundial

O termo “doenças da urbanização” é atribuído às condições crônicas e surgiu em função do crescente número de pessoas que migram para áreas urbanas. Entre 1950 e 1985, a população urbana dos países industrializados dobrou e a dos países em desenvolvimento quadruplicou. Os centros urbanos de nações em desenvolvimento, que já possuem conjuntos de habitações populares ilegais onde vivem populações carentes, contribuíram com um adicional de 750 milhões de pessoas entre os anos de 1985 e 2000. O problema desse crescimento acelerado é a falta de meios e serviços para o “pobre urbano”, os quais são essenciais para uma boa saúde. Essas deficiências envolvem habitação, infra-estrutura (e.g., estradas, água encanada, saneamento, sistema de esgoto e eletricidade), além de serviços básicos (e.g, coleta de lixo doméstico, atenção primária à saúde, educação e serviços emergenciais de resgate).

Paralelo à migração populacional do campo para as cidades, verifica-se um extraordinário aumento na propaganda e promoção de produtos nocivos à saúde nos países em desenvolvimento. Essas regiões são mercados atrativos para as indústrias que comercializam produtos prejudiciais à saúde. Indústrias de cigarro, álcool e alimentos identificaram países em que as regulamentações nacionais e os programas de educação em saúde pública são ineficazes ou, em muitos casos, inexistem. Países vulneráveis são os principais alvos para estratégias de marketing criativas que, em muitos casos, parecem tirar proveito da privação social. A combinação de privação e exposição precoce a produtos prejudiciais afigura-se especialmente rentável para empresas que comercializam matérias-primas nocivas. Infelizmente, o sucesso dessas campanhas de marketing é proporcional à devastação que acarretam à saúde, à economia e ao bem-estar social dos países e suas populações.

O tabagismo irá causar mais óbitos do que qualquer outro motivo e os sistemas de saúde não serão capazes de financiar a longa e onerosa assistência que isso implicará. Dra. Gro Harlem Brundtland, Assembléia Mundial de Saúde

Qual o impacto das condições crônicas?

Impacto econômico: todos pagam o preço

Os encargos de saúde tornam-se excessivos quando as condições crônicas são mal gerenciadas. Todavia, o impacto dos problemas crônicos de saúde vão muito além dos gastos normais relacionados ao tratamento médico. Sob uma perspectiva econômica, todos pagam o preço:

•Pacientes (e famílias) pagam os custos econômicos mensuráveis, incluindo despesas relacionadas aos serviços médicos, redução da atividade laboral e perda do emprego. Além disso, os pacientes (e famílias) incorrem em ônus, tais como incapacidade em conseqüência da doença, redução do tempo e da qualidade de vida, que tornam irrealizáveis cálculos financeiros precisos.

•Organizações de assistência à saúde pagam a maior parte das obrigações referentes ao atendimento médico, além de cobrir diversas despesas embutidas no custo do tratamento.

•Profissionais da saúde sentem-se frustrados em relação à sua atividade profissional e ao trabalho de gerenciamento das condições crônicas, e os administradores dos serviços de saúde estão insatisfeitos com os resultados dos serviços e o desperdício de recursos.

•Governos, empregadores e sociedades padecem em virtude da perda de mão-deobra devido a óbitos, incapacidade e morbidade relacionada às condições crônicas. Além disso, as condições crônicas resultam em grandes perdas em produtividade.

Os estudos apresentados a seguir abordam os encargos relacionados às condições crônicas. Esses estudos variam em termos de método e padrão de rigor. Contudo, os resultados demonstram de forma clara os altos custos econômicos vinculados a essas condições crônicas.

Custo da asma em Singapura.

Os custos do tratamento da asma constituem 1,3% do custo total da saúde nesse país (i.e., US$ 3,93 milhões por ano). Chew FT, Goh DY, Lee BW. The economic cost of asthma in Singapore. Aust N Z J Med 1999;29(2):228-3.

As indústrias de cigarro visam países pobres onde as campanhas de educação em saúde pública são ineficazes ou inexistem.

Coeficientes de prevalência de HIV de 10-15%, que são bastante comuns atualmente, podem se traduzir em uma redução na taxa de crescimento do PIB per capita de até 1% ao ano. A tuberculose (TB) produz encargos econômicos equivalentes a US$ 12 bilhões por ano sobre a renda de comunidades pobres.

Custo da asma na Estônia

A asma absorve 1,4% dos custos diretos da atenção, ou seja, 2,1 milhões de EUR. As despesas com medicamentos equivalem a 53% desse total. Kiivet RA, Kaur I, Lang A, Aaviksoo A, Nirk L. Costs of asthma treatment in Estonia. Eur J Public Health 2001;1(1):89-92.

Custo de doenças cardíacas nos EUA

Os custos diretos do tratamento de doenças cardíacas importam em US$ 478 por pessoa a cada ano. Os indiretos, incluindo afastamento temporário do trabalho e perda em produtividade, incidem em US$ 3.013 anuais sobre a renda doméstica. Se considerarmos que todas esses pessoas estão empregadas, isso se traduz em um montante estimado em US$ 6,45 bilhões em perda de produtividade a cada ano. Hodgson TA, Cohen AJ. Medical expenditures for major diseases, 1995. Health Care Financ Rev. 1999;21(2):119-64.

Custo do diabetes em Taiwan, China

Mais de 2% da população têm diagnóstico de diabetes. Em 1997, os custos diretos da atenção a essa doença representavam 1,5% do custo total nesse país, sendo 4,3 vezes maior que o custo médio do tratamento de indivíduos não diabéticos. Lin T, Chou P, Lai M, Tsai S, Tai T. Direct costs-of-illness of patients with diabetes mellitus in Taiwan. Diabetes Res Clin Pract 2001;54:Suppl 1.

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