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CAPA: Johnny Freak

TRADUÇÃO: Abguar Bastos

PREPARAÇÃO DE TEXTO E REVISÃO DA TRADUÇÃO: Edison Cardoni

DIGITAÇÃO: Mara Bellucci

PRODUÇÃO GRÁFICA: Pricila Ursula dos Santos (Gerente), Leonardo Borgiani, Alberto Veiga e André Braga

Copyright desta edição © 2005 by Conrad Editora do Brasil Ltda. Título original: Le Capital – Extraits faits par M. Paul Lafargue

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Marx, Karl, 1818-1883.

O capital : extratos por Paul Lafargue / Karl Marx ; [tradução Abguar Bastos]. -- 2ed. -- São Paulo : Conrad Editora do Brasil, 2005.

Título original: Le capital : extraits faits par M. Paul Lafargue Bibliografia. ISBN 85-7616-011-0

1. Capitalismo 2. Comunismo 3. Conflito social 4. Economia 5. Marx, Karl, 1818-1883 6. Marx, Karl, 1818-1883. O capital - Crítica e interpretacão 7. Socialismo I. Lafargue, Paul, 1842- 1911. I. Título.

03-0319 CDD-335.412

Índice para catálogo sistemático: 1. Marxismo : Conceitos econômicos : Economia política 335.412

NOTA DO EDITOR9
O CAPITAL1
• Capítulo I – A mercadoria13
• Capítulo I – Das trocas31
• Capítulo I – Circulação das mercadorias37
• Capítulo IV – A fórmula geral do capital73
• Capítulo V – Contradições da fórmula geral do capital81
• Capítulo VI – Compra e venda da força de trabalho87
• Capítulo VII – Produção de valores de uso e produção de mais-valia97
• Capítulo VIII – Capital constante e capital variável115
• Capítulo IX – Taxa de mais-valia129
RECORDAÇÕES PESSOAIS DE KARL MARX135

SUMÁRIO PRIMEIRA PARTE: MERCADORIA E MOEDA SEGUNDA PARTE: A TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL NOTA BIOGRÁFICA DO TRADUTOR ..................................................157

Com este livro a Conrad Editora coloca à disposição do leitor brasileiro um clássico da economia política. A presente edição de O Capital foi publicada em 1893, organizada pelo médico e socialista francís Paul Lafargue (1841-1911), genro de Karl Marx (1818-1883), membro do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores (também conhecida como I Internacional) e fundador, junto com Friedrich Engels (1820-1895), da I Internacional. O texto, supervisionado por Engels, é uma seleção das partes fundamentais da edição integral da monumental obra de Marx. A origem destes extratos organizados por Lafargue está na necessidade da difusão da teoria de Karl Marx ao movimento operário francês do final do século XIX.

mercadoria é um objeto produzido pelo trabalho humano, que é trocado por seu produtor em vez de ser por ele consumido e que, por suas propriedades, satisfaz às necessidades humanas de qualquer natureza, diretamente como meio de subsistência ou indiretamente como meio de produção.

A utilidade é então a mais importante e indispensável qualidade da mercadoria. A utilidade, que se realiza no uso ou no consumo, confere à mercadoria o seu valor de uso.

E é unicamente porque a mercadoria possui um valor de uso que adquire um valor de troca. Um produto absolutamente inútil não poderia se tornar permutável.

As mercadorias de natureza diversa são trocadas em diferentes proporções: não se troca 1/2 quilo de ferro por 1/2 quilo de ouro, nem um litro de trigo por um litro de diamantes; mas várias centenas de quilos de ferro por 500 gramas de ouro e vários hectolitros de trigo por um diamante.

1. Karl Marx, Le Capital, volume I, capítulo I, itens 1 e 2 (edição francesa e 4a edição alemã).

OS DOIS FATORES DA MERCADORIA: VALOR DE USO E VALOR DE TROCA (OU VALOR PROPRIAMENTE DITO)1

Para que duas mercadorias de natureza e proporções diferentes cheguem a ter um valor equivalente é preciso que ambas contenham em igual quantidade uma substância comum mensurável. Um quadrado e um triângulo só são considerados iguais quando suas linhas delimitam uma mesma superfície: a superfície é a substância comum de todas as figuras da geometria plana.

Qual é este não sei quê comum a todas as mercadorias? Não pode ser uma propriedade natural, porque as propriedades naturais são precisamente aquelas que diferenciam as mercadorias.

Seria a utilidade essa propriedade realmente comum a todas as mercadorias?

Não, porque que se trocam por um diamante, de uma utilidade tão restrita, dezenas de litros do cereal mais útil para a alimentação humana – o trigo – e se dão por 500 gramas de ouro várias centenas de quilos do mais útil dos metais – o ferro. Nos tempos homéricos, quando o bronze servia para a fabricação de espadas e diferentes peças da armadura, os heróis da Ilíada consideravam o ferro um metal precioso. Um dos progressos da produção civilizada consiste em fazer com que os objetos de primeira utilidade sejam trocados, em maior proporção, por objetos de menor utilidade.

Além da utilidade, as mercadorias só têm uma única outra propriedade comum: todas são produtos do trabalho humano, porque sua criação necessitou de um dispêndio de força humana.

Pouco importa qual tenha sido a forma desse dispêndio de trabalho. Quer seja para procurar um diamante, transportar água ou costurar uma roupa, ele representa sempre um desgaste da máquina humana. É assim que pouco importa de que forma se consome a energia de uma tonelada de carvão: quer seja para puxar vagões, tecer algodão, imprimir jornais, produzir eletricidade e luz; ela implica gasto de combustível, um dispêndio de calorias e, afinal de contas, um dispêndio de movimento. E foi somente quando Meyer encontrou o equivalente mecânico do calor que os físicos puderam seguir, em todas as suas transformações, a força única, o movimento. O valor é o nó górdio da economia política, como observava Ricardo2: quem conhece o elemento constitutivo do valor tem em mãos o fio de Ariadne que o guiará através do labirinto da produção e da troca das mercadorias.

A força de trabalho do homem é a força única que cria valores, e as mercadorias só são consideradas valores porque contêm trabalho humano.

Antes de entrar na troca, a mercadoria já é um valor; isto é, um acumulador de força humana, e ela só é trocada porque é um valor. A água de um rio e o ar atmosférico, ainda que indispensáveis à vida, não são valores porque não contêm trabalho humano. Mas, incorporando-se trabalho humano ao ar, comprimindo-o, e à água, transportando-a a uma casa ou ao Saara, imediatamente a água e o ar se tornam valores e passam a ser permutáveis.

Como se mede o valor? Vejamos um caso corriqueiro. Quem, ao se informar do preço de duas mercadorias de igual matéria-prima e utilidade – por exemplo, duas cadeiras de carvalho, das quais uma tivesse os pés torneados e as costas trabalhadas –, já não ouviu o fabricante responder: “Esta é mais cara porque exigiu mais trabalho do que aquela, cujos pés e dorso são retos”. Essa frase, banal como uma verdade de La Palisse, é a única resposta à pergunta há pouco formulada. Porque, dizem Smith e Ricardo, “é muito natural que aquilo que é normalmente produzido em dois dias ou em duas horas de trabalho valha o dobro daquilo que, comumente, exige apenas um dia ou uma hora de trabalho”3.

Mas há trabalhos e trabalhos, como há teorias e teorias. Se o valor de uma mercadoria é determinado pelo quantum de trabalho despendido durante sua produção, poderíamos imaginar que quanto mais preguiçoso ou inábil um homem, tanto mais valor teria sua mercadoria, porque ele empregou mais tempo para fabricá-la. Mas o trabalho que compõe a substância do valor das mercadorias é trabalho igual e indistinto, gasto de uma força de

2. David Ricardo (1772-1823), eminente economista inglês. (N. E.) 3. Esta passagem de Adam Smith, extraída do capítulo VI, livro I, da Richesse des Nations, está citada por David Ricardo em seu capítulo “Valeur normale ou naturalle.” trabalho uniforme. A totalidade da força de trabalho da sociedade, a qual se expressa na soma dos valores de todas as mercadorias, é aqui considerada uma massa homogênea de força de trabalho humana, embora ela se componha de inumeráveis forças individuais. Cada força de trabalho individual é igual a todas as outras, desde que possua a característica da força social média e funcione como tal; quer dizer, desde que a produção de uma mercadoria empregue somente o tempo de trabalho necessário em média ou o tempo de trabalho socialmente necessário.

O tempo de trabalho socialmente necessário à produção das mercadorias é o exigido por qualquer trabalho executado com grau médio de habilidade e intensidade e em condições normais, relativamente ao meio social considerado. Após a introdução na Inglaterra da tecelagem a vapor, precisou-se talvez da metade do trabalho antes necessário para transformar em tecido certa quantidade de fios. Enquanto isso, o tecelão manual continuou precisando do mesmo tempo de antes para realizar essa mesma tarefa. Porém, desde então, o produto de sua hora de trabalho individual passou a representar apenas a metade de uma hora de trabalho social e, em conseqüência, passou a ter metade do valor primitivo.

Portanto, é somente o quantum de trabalho ou o tempo de trabalho necessário para produzir um artigo, numa dada sociedade, que determina a quantidade de valor desse artigo. Cada mercadoria em particular é tomada como exemplar médio de sua espécie. As mercadorias que contêm quantidades iguais de trabalho ou que possam ser produzidas no mesmo tempo têm, por conseqüência, igual valor. O valor de uma mercadoria está, para o valor de qualquer outra, na mesma proporção que o tempo de trabalho necessário à produção da primeira está para o tempo de trabalho necessário à produção da segunda.

A quantidade de valor de uma mercadoria permaneceria evidentemente constante se o tempo de trabalho necessário para sua produção também permanecesse constante. Mas esse tempo varia a cada modificação da força produtiva; ou seja, da produtividade do trabalho que, por seu lado, depende de diversos fatores. Entre eles, figuram a habilidade média dos trabalhadores, o desenvolvimento da ciência e o grau de sua aplicação tecnológica, as combinações sociais da produção, a extensão e a eficácia dos meios de produção, assim como as condições do meio ambiente. Por exemplo, a mesma quantidade de trabalho poderá ser representada por 800 quilos de trigo, se o clima for favorável, ou por apenas 400 quilos, no caso contrário. A mesma quantidade de trabalho extrai maior quantidade de metal nas minas ricas do que nas minas pobres. Os diamantes só se apresentam raramente à flor da terra, por isso, para encontrá-los é preciso um tempo considerável, de modo que eles representam muito trabalho num pequeno volume. Com minas mais ricas, a mesma quantidade de trabalho estaria contida numa maior quantidade de diamantes, cujo valor baixaria. Se, com pouco trabalho, fosse possível transformar o carvão em diamante, o seu valor cairia talvez abaixo do valor de um simples combustível como o briquete. Quanto maior a produtividade do trabalho, menor será o tempo necessário à produção de um artigo; e quanto menor é a massa de trabalho cristalizada nesse artigo, menor seu valor. Inversamente, quanto menor é a produtividade, maior será o tempo necessário à produção de um artigo e maior seu valor. A quantidade de valor de uma mercadoria varia, portanto, na razão direta do quantum (o tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la) e na razão inversa da força produtiva do trabalho (a produtividade) que foi aplicada na produção dessa mercadoria.

Conhecemos agora a substância do valor: é o trabalho. Conhecemos a medida de sua magnitude: é a duração do trabalho.

Um objeto, uma coisa, pode ser um valor de uso sem ser, necessariamente, um valor. Basta, para isso, que seja útil ao homem sem que provenha do seu trabalho. Tais são o ar, as pastagens naturais, um solo virgem etc. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano sem ser mercadoria. Aquele que produz unicamente para satisfazer suas próprias necessidades só cria valor de uso pessoal. Para produzir mercadorias, deve-se não somente produzir valores de uso para consumo próprio, mas também valores de uso para outras pessoas; em outras palavras, valores de uso sociais. Enfim, nenhum objeto pode ser valor se não for coisa útil. Se for inútil, o trabalho que encerra é despendido inutilmente e, dessa forma, não cria valor.

Uma dificuldade se apresenta, embaraçando muitos espíritos. Será possível comparar os diferentes gêneros de trabalho entre si para conduzi-los a uma medida comum? Será possível comparar o trabalho do carpinteiro e do lavrador ao do ourives artista e do agrimensor?

Essa dificuldade é resolvida na prática todos os dias, porque, pela moeda, são trocados trigo ou caçambas de madeira por jóias ou plantas topográficas. E o fato de se dar, por exemplo, 100 sacas de trigo por um anel ou uma planta de agrimensura prova que, sem grande alarde, estão sendo dosadas as quantidades de trabalho do lavrador, do carpinteiro e do agrimensor contidas nesses diferentes objetos. Mas o homem tem respirado e digerido antes mesmo de ter adquirido qualquer noção teórica a respeito da digestão e da respiração. Trata-se então de explicar, na teoria, esse fenômeno da troca das mercadorias.

Suponhamos que um mesmo indivíduo seja, ao mesmo tempo, lavrador, carpinteiro e agrimensor. Ele poderá então dizer: a caçamba para terraplanagem ou o mapa das terras aráveis do município custam-me tanto trabalho quanto 100 sacas de trigo. Pouco importa, para ele, a forma como despendeu sua atividade, os três objetos produzidos representam a mesma quantidade de trabalho.

Não há nenhuma fantasia em admitir a existência de um indivíduo que exerça as profissões de lavrador, de carpinteiro e de agrimensor: nas aldeias coletivas russas, ainda existentes, as partilhas das terras aráveis são feitas pelos próprios camponeses, e os agrimensores profissionais se admiram da maneira exata com que as terras são medidas e igualadas. Em nossos dias se vê freqüentemente, na França, o trabalho agrícola combinado com o trabalho industrial. A indústria mecânica, reduzindo as dificuldades técnicas das profissões, permite ao operário da grande indústria percorrer alternadamente uma série de profissões diversas. Ele pode então empregar a sua força de trabalho de diversas maneiras e comparar entre elas as mercadorias que assim tenha criado. Esses progressos da mecânica industrial permitem a uma dada porção do trabalho humano se oferecer hoje de uma forma e amanhã de outra, seguindo a direção variável da demanda de trabalho. Qualquer que seja o atrito causado por essas mutações da forma de trabalho, elas não podem deixar de ocorrer.

Afinal de contas, deixando de lado a questão de sua utilidade, qualquer atividade produtiva é um dispêndio de força humana. A lavoura, o transporte e a medição de terras, apesar de suas diferenças, constituem um dispêndio produtivo do cérebro, dos músculos, dos nervos, da mão do homem e, nesse sentido, um dispêndio do trabalho humano. A força humana de trabalho, cujo movimento muda apenas de forma, nas diversas atividades produtivas, deve certamente ser mais ou menos qualificada para poder ser utilizada desta ou daquela forma. Mas o valor das mercadorias representa pura e simplesmente o trabalho do homem, um dispêndio de força humana em geral. Ora, da mesma forma que, para a sociedade civil, um general ou um banqueiro desempenham papel importante, enquanto o homem puro e simples faz bem triste figura, o mesmo acontece com o trabalho humano. É um dispêndio da força simples, que todo homem comum, sem desenvolvimento especial, possui em seu organismo. O trabalho médio simples varia de característica, é verdade, nos diferentes países e segundo as épocas, mas numa dada sociedade ele é sempre determinado. O trabalho complexo (skilled labour, trabalho qualificado) é apenas uma potência do trabalho simples ou, antes, é apenas o trabalho simples multiplicado, de modo que uma dada quantidade do trabalho complexo corresponde a uma maior quantidade de trabalho simples. A experiência mostra que essa conversão se faz constantemente. Mesmo que uma mercadoria seja produto de trabalho complexo, seu valor a reconduz, numa proporção qualquer, ao produto de trabalho simples, do qual ela representa, por conseguinte, apenas uma quantidade determinada. As proporções diversas pelas quais diferentes espécies de trabalho são convertidas para trabalho simples, como suas unidades de medida, são estabelecidas na sociedade à revelia dos produtores e lhes parecem convenções fixadas pelo costume. Segue-se daí que, na análise do valor, toda variedade de força de trabalho deve ser tratada como força de trabalho simples.4

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