Bacias Sedimentares Brasileiras

Bacias Sedimentares Brasileiras

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As rochas sedimentares que preenchem essas bacias compõem seis seqüências cratônicas, relacionadas a seis ciclos tectonossedimentares maiores (Almeida et al. 2000), no sentido proposto por Sloss (1963). Neste sentido, elas correspondem a “unidades litoestratigráficas de hierarquia superior a grupo, megagrupo ou supergrupo, traçáveis através de grandes áreas de um continente e limitadas por discordâncias de âmbito inter-regional”.

As rochas pertencentes a essas seqüências ocorrem nas bacias interiores, sejam elas sinéclises, do tipo strike-slip ou riftes abortados (Fig. I.1, I.2, I.3). Essas seqüências foram formadas por sucessivos eventos maiores de imersão da superfície da plataforma abaixo do nível de base regional e seu soerguimento subseqüente. Discordâncias inter-regionais separam essas seqüências, cada uma das quais corresponde a um ciclo tectonossedimentar maior (Almeida et al. 2000).

As primeiras tentativas de definição dessas seqüências foram feitas por Gomes (1968), seguindo-se as de Almeida (1969), Ghignone (1972), Fúlfaro e Landim (1972), culminando com a de Soares et al. (1974; 1978) que, com poucas modificações, tem sido amplamente utilizada (cf. Almeida et al. 2000; Brito Neves, 2002).

O acervo de informações obtido a partir da exploração petrolífera em diversas bacias brasileiras levou a PETROBRAS, em 1987, a organizar um grupo de trabalho com o objetivo de

Figura I.4 – Limites das seqüências cratônicas nas sinéclises brasileiras segundo diversos autores e sua correlação com as do cráton da América do Norte. AM = bacias do Acre, Solimões e Amazonas; PB = Bacia do Parnaíba (Província Sedimentar do Meio Norte); PR = Bacia do Paraná (Província Sedimentar Meridional), segundo Soares et al. 1974

Figure I.4 – Limits of the cratonic sequences in the Brazilian syneclises according to several authors and their correlation with the North American cratonic sequences. AM = Acre, Solimões and Amazonas basins; PB = Parnaíba Basin (Meio Norte Sedimentary Province); PR = Paraná Basin (Meridional Sedimentary Province), after Soares et al. 1974

* Nota dos editores: Em outros capítulos desta obra o termo “Bacia do Paraná” refere-se àquele previamente descrito na literatura e não a uma subdivisão da Província Paraná, conforme proposta deste capítulo.

I. Bacias Sedimentares Paleozóicas e Meso-Cenozóicas Interiores61 padronizar essas informações sob a forma de cartas estratigráficas. Essas cartas foram revistas, atualizadas e padronizadas em 1993, tendo sido publicadas em fevereiro de 1995, no Boletim de Geociências da PETROBRAS (vol. 8. n.º 1, 1994), obra que se tornou um documento síntese básico para o estudo das bacias sedimentares fanerozóicas do Brasil.

No presente texto, a coluna sedimentar das bacias abordadas por aquela coletânea (Acre, Amazonas, Paraná, Parnaíba, Recôncavo–Tucano–Jatobá, Solimões e Tacutu) está dividida nas seqüências sedimentares utilizadas por aquele grupo de trabalho. Nas demais bacias, as seqüências foram correlacionadas como tentativa tanto com as da PETROBRAS, como com as de Soares et al. (1974, 1978), de acordo com as estimativas de idade disponíveis.

As descrições das bacias sedimentares estão agrupadas de acordo com as Províncias adotadas nesta obra: Superprovíncia Cráton Amazonas, Província Parnaíba e Província Paraná. Diversas bacias que estão fora da área dessas províncias foram descritas como BACIAS INTERIORES DO ESCUDO ATLÂNTICO.

Superprovíncia Cráton Amazonas

Bacia do Acre (Província Amazonas)

A Bacia do Acre, do tipo IS (Kingston et al. 1983), está situada no setor brasileiro da Bacia Marañon–Ucayali–Acre, cuja área total é de 905.0 km2 (Milani e Thomaz Filho, 20; Fig.

I.5). Esta bacia integra o sistema de Bacias de Antepaís Retroarco, da Cordilheira dos Andes.

A Bacia do Acre é a parte mais distal da cunha sedimentar cuja idade compreende o intervalo do Cretáceo ao Plioceno (Feijó e Souza, 1994), preenchendo o domínio de antepaís da Bacia Marañon–Ucayali–Acre. Sua estrutura consiste-se do conjunto de falhas reversas de direção norte–sul, da qual a mais importante é a Falha Batã, que marca a terminação oriental da seqüência sedimentar paleozóico-jurássica que se estende desde os Andes (Milani e Thomaz Filho, 2000). O seu limite oriental com a Bacia do Solimões é o Arco de Iquitos (Fig. I.1). Os 6.0 m de rochas sedimentares da Bacia do Acre (Milani e Thomaz Filho, 2000) estão distribuídos em quatro superseqüências: carbonífero-permiana, jurássica, cretácea e terciária (Feijó e Souza, 1994). Superseqüências correspondem a ciclos de segunda ordem, com duração entre 3 e 50 m.a. (Emery e Myers, 1996) que, de acordo com esses autores, podem ser causados por mudanças na taxa de subsidência da bacia ou na taxa de soerguimento da área-fonte das rochas sedimentares que a preenchem.

A superseqüência carbonífero-permiana compreende as formações Apuí, composta de conglomerados formando cunha clástica, Cruzeiro do Sul, contendo carbonatos e evaporitos, e Rio do Moura, arenitos. Feijó e Souza (1994) interpretam o ambiente de sedimentação dessas formações como inicialmente aluvial, passando a nerítico. A Superseqüência Jurássica é inteiramente composta pela Formação Juruá-Mirim, que contém arenitos e red beds, intercalados com evaporitos e derrames de basalto, depositados em ambiente continental. Diversas formações compõem a superseqüência cretácea: Moa, Rio Azul, Divisor e Ramón, compostas por arenitos, folhelhos e

Figura I.5 – Localização da Bacia do Acre em relação à Cordilheira dos Andes e ao território brasileiro (segundo Milani e Thomaz Filho, 2000)

Figure I.5 – Location of Acre Basin in relation to the Andean Cordillera and the Brazilian territory (after Milani e Thomaz Filho, 2000)

Parte I – Geologia62 calcarenitos, depositados em ambiente flúvio-lacustre, na Bacia de Antepaís (flexural), adjacente à cadeia andina (Feijó e Souza, 1994). Ainda durante este episódio flexural, a superseqüência terciária, representada pela Formação Solimões, depositou-se em onlap contra o embasamento, possivelmente como conseqüência da Deformação Incaica na Cordilheira dos Andes (Ramos e Alemán, 2000). A superseqüência cretácea e a terciária somam mais de 3.0 m de espessura (Milani e Zalán, 1998).

Bacia do Solimões (Província Amazonas)

Esta bacia (Fig. I.1), juntamente com a do Amazonas, corresponde à primitiva Bacia do Amazonas, dividida em três domínios: Alto, Médio e Baixo Amazonas, separados, respectivamente, pelo Alto de Purus e pelo Alto de Monte Alegre. Apesar da designação prévia de Bacia Solimões ter sido aplicada para a cobertura cenozóica do oeste da Amazônia (Santos, 1974), Caputo (1984) sugeriu a substituição do nome Alto Amazonas por Solimões. O nome da Bacia do Amazonas atualmente corresponde à antiga Bacia do Médio e Baixo Amazonas (Eiras et al. 1994a) sendo que as duas bacias (Amazonas e Solimões) estão separadas pelo Alto de Purus que corresponde aproximadamente ao limite entre as províncias Tapajós–Parima e Rio Negro (Santos et al. 2000). A Bacia do Solimões com ca. 500.0 km2 de área é limitada a oeste com a Bacia do Acre, pelo Arco de Iquitos; a leste, com a Bacia do Amazonas, pelo Alto de Purus. Dentro da bacia, o Arco de Carauari a divide em duas sub-bacias: Jandiatuba a oeste, sotoposta por rochas ígneas e metamórficas, e Juruá a leste, com 3.800 m de espessura de sedimentos, sobre substrato semelhante, além de riftes proterozóicos (Eiras et al. 1994a). Isto permite classificar essas sub-bacias e, conseqüentemente a Bacia do Solimões, como IF/IS (Fratura Interior/Depressão Interior).

O preenchimento da bacia consiste-se de pacotes sedimentares separados por discordâncias bem marcadas, formando seis superseqüências (Eiras et al. 1994).

As superseqüências ordoviciana e siluro-devoniana, compreendendo, respectivamente, as formações Benjamim Constant (clásticos neríticos) e Jutaí (clásticos e calcários neríticos), são restritas à Sub-bacia de Jandiatuba (Eiras et al. 1994a). A Superseqüência devoniano-carbonífera abrange as rochas sedimentares marinhas e glácio-marinhas do Grupo Marimari (formações Uerê e Jandiatuba), que ultrapassam o Alto de Carauari, estendendo-se para a Sub-bacia de Juruá. A Superseqüência carbonífero-permiana consiste-se de clásticos, carbonatos e evaporitos marinhos e continentais do Grupo Tefé (formações Juruá, Carauari e Fonte Boa), tem o topo truncado por grande discordância (170 Ma), correspondente ao Diastrofismo Juruá com idade comparável à orogenia tardiherciniana (Eiras et al. 1994a). A seqüência Cretácea corresponde aos depósitos fluviais da Formação Alter do Chão, preservados devido à subsidência relacionada à orogenia andina. Finalmente, os pelitos e os arenitos pliocênicos da Formação Solimões constituem a Superseqüência Terciária, enquanto a Formação Içá é produto de sedimentação pleistocênica. A Formação Içá é coberta por depósitos eólicos que formam os campos de dunas Araçá, Anauá e Catrimâni (Santos et al. 1993).

Bacia do Amazonas (Província Amazonas)

As rochas sedimentares da Bacia do Amazonas, que possui 515.0 km2 de área (Fig. I.1), estão em onlap sobre as rochas pré-cambrianas dos escudos das Guianas a norte e Brasil Central a sul. Seu limite ocidental é com a Bacia Solimões (Alto de Purus) e o oriental, com o rifte mesozóico de Marajó, é a ombreira do rifte, denominada de “Arco de Gurupá”. A espessura total das rochas sedimentares que a preenchem atinge 5.0 m (Cunha et al. 1994).

A implantação do rifte precursor da Bacia do Amazonas está associada a movimento de pluma mantélica que produziu a província magmática Piranhas (Santos et al. 2002) no Cambriano Médio (507 Ma). Isso indica que o início do rifte é posterior ao encerramento do ciclo Brasiliano, não estando associado a esse ciclo (Cunha et al. 1994) e também que é pós-Vendiano, ao contrário do que propõe Teixeira (2001). O rifte foi inicialmente preenchido por rochas da Formação Prosperança, de ambiente de leque aluvial-fluvial, cuja idade máxima é 1030 Ma, idade obtida por U-Pb em zircão detrítico (neste trabalho, Capítulo IV). Por ser concordante com a Formação Trombetas, a deposição da Formação Prosperança é considerada pela CPRM como sendo cambro-ordoviciana (Santos et al. 1974, Schobbenhaus et al. 1984). Apesar de alguns trabalhos (e.g. Cunha et al. 1994) considerarem uma idade proterozóica ou até mesmo paleoproterozóica (Amaral, 1984) para a Formação Prosperança, o mais provável é que sua sedimentação tenha-se restringido ao princípio do Paleozóico como admitido por Schobbenhaus et al. (1984) e Milani e Zalán (1999).

A fase sinéclise, iniciada desde a deposição da Formação

Acari, de ambiente transicional, ou da Formação Autás-Mirim, nerítica, está pontuada por orogêneses, responsáveis pelas discordâncias que separam as diversas superseqüências. Considerando o rifte preenchido pela Formação Prosperança como precursor da formação da bacia, ela pode ser classificada como IF/IS.

Neste último caso, em concordância com Cunha et al. (1994), a evolução da Bacia do Amazonas começa pela deposição da Superseqüência ordoviciano-devoniana composta pelos clásticos marinhos das formações Autás-Mirim, Nhamundá, Pitinga e Manacapuru, reunidas no Grupo

I. Bacias Sedimentares Paleozóicas e Meso-Cenozóicas Interiores63

Trombetas; sua deposição é encerrada pelo reflexo da Tardiocloyica (ca. 400 Ma) responsável pelo hiato que a separa da Superseqüência devoniano-carbonífera. Esta é composta pelas formações Maecuru, Ererê, Curiri, Oriximiná e Faro, que representam a sedimentação flúvio-deltaica e nerítica dos grupos Urupadi (as duas primeiras) e Curuá (as três últimas). Este último foi acompanhado por sedimentação glacial e seguido por um hiato deposicional correspondente a orogênese Tardichânica (ca. 330 Ma).

O Grupo Tapajós, composto pelas formações Monte Alegre,

Itaituba, Nova Olinda e Andirá, possui um amplo espectro de ambientes de sedimentação: clásticos, carbonatos e evaporitos, tanto continentais como marinhos restritos, que formam a Superseqüência carbonífero-permiana. Esta superseqüência é seguida sucessivamente pela Orogênese Sanrafaélica (ca. 260 Ma.) e pelo Diastrofismo Juruá. No princípio do Jurássico, fazendo parte da Província CAMP – Central Atlantic Magmatic Province (Marzolli et al. 1999), ocorreu amplo magmatismo basáltico formando diques tipo Penatecaua e derrames não-aflorantes situados entre as formações Nova Olinda e Alter do Chão (Santos et al. 1978).

A sedimentação na Bacia do Amazonas é encerrada pela deposição de duas seqüências continentais, uma cretácea superior (Formação Alter do Chão) e outra cenozóica (formações Solimões e Içá), depositadas por sistemas fluviais e flúviolacustres.

Bacia dos Parecis

A Bacia dos Parecis está localizada na região centro-oeste do Brasil, no setor sudoeste do Cráton Amazonas (Fig. I.1), entre as províncias Rondônia–Juruena e Sunsás. Trata-se de bacia tipo IF, evoluindo para o tipo IS. A idade paleozóica da seção inferior é demonstrada pela presença de fósseis como acritarcas (Sysphaeridium sp.; Cruz, 1980), restos de plantas silicificadas (Psaronius), trilobitas e braquiópodes devonianos. A bacia está dividida, de oeste para leste, em três domínios tectonossedimentares separados respectivamente pelos altos de Vilhena e da Serra Formosa (Siqueira e Teixeira, 1993): de acordo com Siqueira (1989), o extremo oeste é depressão tectônica (Sub-bacia Rondônia), nome que está sendo revisto devido à anterior aplicação do nome “Rondônia” para granitos estaníferos), a região central é caracterizada por um baixo gravimétrico (Sub-bacia Juruena) e o extremo leste é bacia interior tipo sinéclise (Sub-bacia Alto Xingu).

A estrutura profunda da bacia (Braga e Siqueira, 1996) mostra que os grábens Pimenta Bueno e Colorado se estendem por baixo dela em direção sudeste. As principais deformações de média escala estão concentradas nas zonas de falha limitantes dos grábens Pimenta Bueno e Colorado, com brechas e silicificação.

No Paleozóico Inferior, a Região Amazônica foi afetada por evento extensional, quando se implantou sistema de riftes intracontinentais aproveitando zonas de fraqueza anteriores (Pedreira e Bahia, 2000), que foram preenchidas pelo menos em parte pela Formação Cacoal (Siqueira, 1989).

Em uma sinéclise desenvolvida sobre este sistema de riftes, depositaram-se, do Devoniano ao Cretáceo, as Formações Furnas, Ponta Grossa, Pimenta Bueno, Fazenda Casa Branca, Rio Ávila e Parecis (Fig. I.6). Essas unidades litoestratigráficas formam seqüências deposicionais separadas por discordâncias regionais, indicando a atuação de eventos tectônicos responsáveis por variações de suas fácies e espessuras dentro da bacia (Siqueira e Teixeira, 1993). Estas formações foram agrupadas em cinco superseqüências por Teixeira (2001): silurodevoniana, devoniana, carbonífero-permiana-triássica, jurocretácea e cretácea (Fig. I.6).

A Superseqüência siluro-devoniana restringe-se à Formação

Cacoal (Siqueira, 1989), composta de conglomerados, grauvacas, folhelhos e dolomitos, interpretados como depositados em leques aluviais, deltas e lagos. As Formações Furnas e Ponta Grossa (nomes sob revisão), componentes da Superseqüência devoniana, consistem-se, respectivamente, de arenito com seixos e folhelho (Costa et al. 1975; Ribeiro Filho et al. 1975); o seu ambiente deposicional determinado na Bacia do Paraná indica que essas rochas foram depositadas em ambientes transicional e marinho, respectivamente. A Superseqüência Carbo-permo-triássica compreende os tilitos, folhelhos e arenitos da Formação Pimenta Bueno e os conglomerados, arcóseos e folhelhos da Formação Fazenda da Casa Branca (Montes et al. 1974; Costa et al. 1975; Ribeiro Filho et al. 1975), que são interpretados como glaciais na primeira (Bahia e Pedreira, 1996) ou periglaciais na segunda (Caputo, 1984).

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