Bacias Sedimentares Brasileiras

Bacias Sedimentares Brasileiras

(Parte 6 de 8)

Albuquerque (1970) formalizou esta estratigrafia, denominando as unidades K1, K2 e K3 de formações Antenor Navarro, Rio Piranhas e Sousa, reunidas no Grupo Rio do Peixe (Mabesoone e Campanha, 1973 e 1974). Uma característica importante dessas bacias são as pegadas de dinossauros (terópodes e ornitópodes), tanto isoladas como em pistas, além de icnofósseis (pistas e escavações de artrópodes e anelídeos), encontrados nas bacias de Brejo das Freiras e Sousa (Leonardi e Carvalho, 2000).

Bacia Sanfranciscana

A Bacia Sanfranciscana, com 150.0 km2 de área, abrange partes dos estados do Tocantins, Bahia, Goiás e Minas Gerais. Devido a diferenças tectônicas, estratigráficas e ambientais, ela está dividida em dois domínios: Sub-bacia Urucuia, a norte, e Sub-bacia Abaeté, a sul; o Alto do Paranaíba a separa da Província Sedimentar Meridional (Campos e Dardenne, 1997).

A bacia – intracratônica do tipo Depressão Interior (IS) – está desenvolvida sobre rochas sedimentares neoproterozóicas clásticas e carbonáticas do Grupo Bambuí. As rochas vulcanossedimentares que preenchem a bacia estão reunidas em quatro Grupos e uma formação, separados por discordâncias: Grupos Santa Fé (Carbonífero-Permiano), Areado (Valanginiano a Albiano) e Urucuia-Mata da Corda (Cenomaniano a Maastrichtiano), interdigitados entre si, e a Formação Chapadão do Plio-Pleistoceno (Fig. I.14). Essas unidades correspondem às seqüências Delta, Épsilon e Zeta, de Soares et al. (1974).

O Grupo Santa Fé (Seqüência Delta) compreende as formações Floresta e Tabuleiro, compostas por diamictitos, folhelhos com clastos caídos e arenitos maciços com intercalações argilosas, correlacionáveis tanto à seqüência Gondwana I da Bacia do Paraná (ver adiante) como à Carbonifero-Triássica da Bacia do Parnaíba.

Profunda discordância, entre o Permiano e o Barremiano, separa o Grupo Santa Fé do Grupo Areado que, juntamente com os Grupos Mata da Corda/Urucuia, pertencem à Seqüência Épsilon, de Soares et al. (1974; 1978).

As Formações Abaeté (conglomerados), Quiricó (folhelhos) e Três Barras (arenitos) compõem o Grupo Areado que é separado dos grupos Mata da Corda/Urucuia, por outra discordância de menor abrangência, marcada pela efusão de derrames alcalinos (Sgarbi et al. 2001; Fig. I.14). Estes dois Grupos englobam as formações Posse e Serra das Araras (Urucuia) e Capacete e Patos (Mata da Corda).

As formações componentes do Grupo Urucuia foram depositadas essencialmente por sistemas eólicos; as do Grupo Mata da Corda consistem-se de rochas epiclásticas (Capacete), rochas alcalinas máficas e ultramáficas e rochas efusivas e piroclásticas, que predominam (Patos).

A Formação Chapadão (Seqüência Zeta) consiste-se de coberturas inconsolidadas, tais como sedimentos aluvionares, coluvionares e eluvionares.

A evolução tectônica da Bacia Sanfranciscana, de acordo com Sgarbi et al. (2001), compreende cinco ciclos tectonossedimentares, separados por discordâncias, correspondentes aos grupos supracitados.

Depósitos cenozóicos

Esses depósitos compreendem os sedimentos depositados na Era Cenozóica, ou seja, mais novos que 65 Ma. Eles consistemse tanto de bacias sedimentares quanto de coberturas diversas, muitas vezes com denominações litoestratigráficas, porém sem configurar verdadeira bacia, sob os pontos de vista de extensão superficial e espessura. As principais bacias e coberturas cenozóicas do Brasil são descritas nos itens seguintes.

I. Bacias Sedimentares Paleozóicas e Meso-Cenozóicas Interiores79

Figura I.14 – Estratigrafia da Bacia Sanfranciscana. Principais litótipos: 1 – seqüência pelitocarbonática; 2 – arcóseos e siltitos; 3 – diamictitos, tilitos e tilóides; 4 – folhelhos com clastos caídos; 5 – arenitos heterogêneos; 6 – arenitos maciços calcíferos com intercalações argilosas; 7 – conglomerados e arenitos; 8 – folhelhos; 9 – arenitos; 10 – lavas e piroclásticas alcalinas; 1– arenitos vulcânicos; 12 – arenitos eólicos; 13 – conglomerados de terraços e 14 – areias (segundo Sgarbi et al. 2001)

Figure I.14 – Stratigraphy of the Sanfranciscana. Major lithotypes: 1 –pelite-carbonatic sequence; 2 – arkoses and siltstones; 3 – diamictites, tillites and tilloids; 4 – shales with dropstones; 5 – heterogeneous sandstones; 6 – massive limy sandstones with clayey intercalations; 7 – conglomerates and sandstones; 8 – shales; 9 – sandstones; 10 – alkaline pyroclastics and lavas; 1 – volcanic sandstones; 12 – eolian sandstones; 13 – terrace conglomerates and 14 – sands (after Sgarbi et al. 2001)

Parte I – Geologia80

Amazônia (Províncias Amazonas Norte e Sul)

No sudoeste da Amazônia, na região da fronteira com a Bolívia, os sedimentos cenozóicos estão representados por depósitos continentais denominados Bacia do Guaporé (Bahia e Pedreira, 2001), distribuídos ao longo do sistema fluvial Guaporé–Mamoré–Alto Madeira. Esses depósitos, de acordo com Scandolara et al. (2001), são constituídos por cascalhos, areias e argilas; ocasionalmente podem formar terraços e ter níveis de turfa intercalados. Além dos depósitos fluviais, existem depósitos pantanosos, constituídos por material argilo-arenoso rico em matéria orgânica e lacustres, formados por sedimentos arenosos finos e também argila.

Sobre o domínio mais oriental da Bacia dos Parecis, está a sub-bacia do Alto Xingu. Os sedimentos cenozóicos pertencentes a ela consistem-se de conglomerados, areias e siltes, denominados de Formação Araguaia (Santos e Loguércio, 1984).

Na região ocidental da Amazônia, os sedimentos cenozóicos estão divididos nas Formações Solimões, inferior (Mioceno-Plioceno) e Içá, superior (Pleistoceno). De acordo com Maia et al. (1977), os sedimentos da Formação Solimões consistem-se de argilitos, siltitos e arenitos e os da Formação Içá são predominantemente arenosos. A Formação Içá é coberta por depósitos eólicos que formam os campos de dunas Araçá, Anauá e Catrimâni (Santos et al. 1993).

Na região entre o estado de Roraima e a Guiana aflora a

Formação Boa Vista, depositada em bacia aparentemente rasa, ovalada e alongada na direção NE–SW. Ela é composta por arenitos arcoseanos a conglomeráticos, friáveis (Reis et al. 2001). Na mesma bacia e sobre a Formação Boa Vista, depositaram-se leques aluviais e sedimentos de planície aluvial. Tais sedimentos foram descritos por Maia (1980) em um furo de sondagem e Reis et al. (2001) referem-se a eles como Formação Viraquim. Os campos de dunas e areia existentes no domínio de sedimentação da Formação Boa Vista foram denominados por esses autores como Formação Areias Brancas, seguindo Berrangé (1973).

Escudo Atlântico

Os sedimentos cenozóicos distribuem-se no Escudo Atlântico, de forma semelhante à Amazônia: como bacias formalmente denominadas e como coberturas, formadas essencialmente por arenitos e folhelhos/argilitos, além de conglomerados e, ocasionalmente, rochas vulcânicas. As descrições a seguir restringem-se a algumas bacias mais importantes e com área suficiente para a sua representação na escala 1:2.500.0.

Na Província Parnaíba, os sedimentos cenozóicos ocorrem principalmente como coberturas inconsolidadas, sobre as diversas sub-bacias que a formam.

Na Província Borborema, encontra-se a Bacia de Boa Vista, situada 60 km a sudoeste de Campina Grande (PB). Ela é constituída por arenitos conglomeráticos, arenitos finos, siltitos e argilas, sobrepostos por derrames basálticos e lapili tufos, que preenchem depressões. Os derrames foram datados pelo método K-Ar em 38,6 Ma e 30,4 Ma, Eoceno-Oligoceno e Oligoceno, respectivamente (Barbosa e Souza, 1999). Essas rochas sedimentares são interpretadas como flúvio-lacustres. Além dela, existem bacias menores e coberturas com denominações litoestratigráficas, a exemplo da Formação Moura (Cruz, 1962), composta de cascalhos com seixos e calhaus com até 15 cm de diâmetro, subarredondados e subangulares, superpostos por cerca de 2 m de areias, que compõem a cobertura cenozóica da Bacia de Iguatu.

Duas coberturas importantes na Província São Francisco são a Formação Capim Grosso (Brito Neves e Feitosa, 1969) e as Dunas do Médio São Francisco (Barreto et al. 1999).

A Formação Capim Grosso, que aflora a leste da cidade de

Jacobina, é composta por sedimentos clásticos inconsolidados, os quais cobrem área superior a 30.0 km2. Ela começa por um conglomerado basal de forma e continuidade irregulares e espessura variável entre um e três metros. Sobre esse conglomerado, repousam areias maciças de coloração clara que geomorfologicamente constituem tabuleiros. Sua espessura, na rodovia BR–324 (Capim Grosso-Jacobina), é de, no máximo, 34 m (Brito Neves e Feitosa, 1969).

As Dunas do Médio São Francisco consistem-se de campo de dunas inativo, de idade pleistocênica (Barreto et al. 1999), que está delimitado pelo Rio São Francisco e a Serra do Estreito, entre as cidades de Barra e Pilão Arcado, estado da Bahia. Ele possui área de aproximadamente 7.0 km2 e espessura superior a 100 m. Barreto et al. (1999) reconheceram neste campo de dunas cinco domínios geomorfológicos: 1) depósitos fluviais; 2) lençóis de areia; 3) dunas com morfologia nítida; 4) dunas com morfologia tanto nítida, como tênue; e 5) dunas dissipadas. Segundo os autores citados, esses domínios são aparentemente representativos de distintas gerações de dunas eólicas, sendo também indicadores de paleoclimas.

Na Província Mantiqueira, as rochas cenozóicas têm ampla distribuição, desde o estado de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul. A leste do Quadrilátero Ferrífero estão as Bacias de Gandarela e Fonseca, esta contendo sedimentos arenosos e argilosos da Formação Fonseca, contendo abundante paleoflora, superpostos por canga ferruginosa da Formação Chapada da Canga (Mello et al. 2000). A sul do estado de Minas Gerais, está localizada a Bacia de Aiuruoca, onde as rochas cenozóicas ocorrem sob a forma de afloramentos isolados e descontínuos, ao longo de uma faixa de direção ENE–WSW, com 25 km de largura e 60 km de extensão (Santos et al. 1999). Segundo esses autores, as rochas sedimentares que preenchem esta bacia consistem-se de arcóseos,

I. Bacias Sedimentares Paleozóicas e Meso-Cenozóicas Interiores81 diamictitos e brechas sedimentares, secundados por conglomerados, argilitos e folhelhos papiráceos. Essas litologias compõem o Grupo Aiuruoca, dividido nas formações Pinheirinho de fácies conglomerática e Entre-Córregos, de fácies lacustre.

Ainda na mesma província, existe uma série de bacias cenozóicas no sudeste do País. Essas bacias, Volta Redonda, Resende, Taubaté, São Paulo e Curitiba (Fig. I-1), depositaramse em grábens supostamente formados pela reativação de antigas falhas transcorrentes, por processos neotectônicos, ligados à evolução da costa brasileira (Suguio e Martin, 1996). A sedimentação cenozóica nas bacias Volta Redonda, Resende, Taubaté e São Paulo foi estudada por Melo et al. (1985); Bigarella e Salamuni (1962), Coimbra et al. (1996) e Salamuni et al.(1999) estudaram a Bacia de Curitiba. Essas bacias e as características do seu preenchimento são mostradas na Tab. I.1.

Finalmente, na Província Tocantins, as principais bacias cenozóicas são as do Pantanal e do Bananal: a Bacia do Pantanal que é uma das maiores bacias intracratônicas cenozóicas, possui área de 60.0 km2 e cerca de 600 m de espessura de sedimentos (Fig. I.1). A área-fonte dos sedimentos está a leste da bacia: trata-se de planaltos resultantes da erosão regressiva das rochas paleozóicas da Bacia do Paraná. A Bacia do Pantanal é vasta planície aluvial, caracterizada por inúmeros canais abandonados e pequenas lagoas (Rabelo e Soares, 1999).

A Bacia do Bananal é constituída por pacote de sedimentos da Formação Araguaia depositados nas margens do Rio Araguaia, representada por sucessão de camadas que inicia por conglomerado basal seguida por siltes e areias mal estratificadas parcialmente lateritizadas, com espessuras entre 170 a 320 m, estimadas a partir de dados sísmicos (Araújo e Carneiro, 1977), e exibindo área de ocorrência de 67.500 km2.

Volta Redonda* ResendeFácies conglomerática de sistema fluvial

Derrame ankaramítico

Resende* Resende Leque aluvial/fluvial

Taubaté* Caçapava Fluvial

Tremembé Lacustre

São Paulo* São PauloFluvial

Itaquaquecetuba Leque aluvial

Curitiba** TinguisFluxos gravitacionais, sistemas lacustres

GuabirotubaLeques aluviais coalescentes (fluxos gravitacionais e debris flows)

* Melo et al. 1985** Salamuni et al. 1999

Tabela I.1 Principais bacias cenozóicas do sudeste do Brasil Table I.1 Major Cenozoic basins of Southeast Brazil

Referências Bibliográficas

Albuquerque, J.M. 1970. Inventário Hidrogeológico Básico do Nordeste: folha n. 15-Jaguaribe, Ceará. Recife, SUDENE, 187 p. (Série Hidrogeologia).

Almeida, F.F.M. 1969. Diferenciação tectônica da plataforma brasileira.

In: SBG, Congresso Brasileiro de Geologia, 23, Salvador, Anais, 29- 46.

Almeida, F.F.M., Brito Neves, B.B., Carneiro, C.D.R. 2000. The origin and evolution of the South American Platform. Earth Science Reviews, 50:7-1.

Amaral, G. 1984. Províncias Tapajós e Rio Branco. In: Almeida, F.F.M.,

Hasui, Y. (eds.) O Pré-Cambriano do Brasil, São Paulo, Blücher, 6-35.

Aragão, M.A.N.F. 1993. Arquitetura da Bacia do Recôncavo. In: SBGf,

Congresso Internacional da Soc. Bras. de Geofísica, 3, Rio de Janeiro. Resumos Expandidos, 143-145.

Aragão, M.A.N.F., Costa, I.P., Silva, O.B., Szatmari, P. 1999. Influence of Compressive Stresses on the Structure of the Recôncavo/Tucano/ Jatobá Rift and on the Tectonic Control of its Petroleum Accumulations. In: SBG, Simpósio Nacional de Estudos Tectônicos, 7, Anais, 5-58.

Araújo, J.B., Carneiro, R.G. 1977. Planície do Araguaia, reconhecimento geológico-geofísico. Belém, PETROBRAS-Região Norte, 1 p. (Relatório Técnico Interno, 348).

Parte I – Geologia82

Araújo, V.A., Olivatti, O. 1994. Programa de Levantamentos Geológicos

Básicos do Brasil: Folha SB.2-Z-D-Araguaína. Brasília, CPRM, 120p.

Bahia, R.B.C., Pedreira, A.J. 1996. Depósitos glaciogênicos da

Formação Pimenta Bueno (Carbonífero) na região de Rolim de Moura, sudeste de Rondônia. A Terra em Revista, 1:24-29.

Bahia, R.B.C., Pedreira, A.J. 2001. As Bacias do Setor Sudoeste do

Cráton Amazônico: Classificação Global e Evolução Tectônica. In: SBG, Simpósio de Geologia da Amazônia, 7, Belém, Anais, (CDROM)

Barbosa, R.V.N., Souza, S.Z. 1999. Tectônica da Bacia de Boa Vista

(PB), Terciário da Província da Borborema. In: SBG/BA-SE/ABGP, Simpósio Nacional de Estudos Tectônicos, 7, Lençóis. Anais, 4:51- 53.

Barreto, A.M.F., Suguio, K., Oliveira, P.E., Tatumi, S.H. 2002. O Campo de Dunas Inativas do Médio São Francisco, Bahia, Brasil. In: Schobbenhaus, C., Campos, D.A., Queiroz, E.T., Winge, M., Berbert- Born, M. (eds.). Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Brasília, DNPM/CPRM. 540 p. Disponível em: http://www.unb.br/ig/sigep/ sitio056/sitio056.htm

Barros, A.M., Alves, E.E.O, Araújo, J.F.V., Lima, M.I.C., Fernandes, C.A.C. 1977. Geologia. In: BRASIL. Departamento Nacional da Produção Mineral. Projeto Radar na Amazônia. Folhas SB.18/SC.18 Javari/ Contamana. Rio de Janeiro (Levantamento de Recursos Naturais, 13).

Basei, M.A.S. 1985. O Cinturão Dom Feliciano em Santa Catarina.

(Parte 6 de 8)

Comentários