Anotações sobre cultura e natureza nos pantanais

Anotações sobre cultura e natureza nos pantanais

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Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 9, n. 1, p. 167-188, 2005

ANOTAÇÕES SOBRE CULTURA E NATUREZA NOS PANTANAIS1

Eudis Fernando Leite2

Resumo. O conteúdo deste artigo apresenta algumas observações a respeito das relações cultura versus natureza no Pantanal sul-mato-grossense. Recorrendo a fontes orais enquanto base informativa, procuro discutir alguns aspectos que relacionam a cultura pantaneira e a natureza local, enfatizando marcadores dessa cultura como a oralidade. Abordo ainda a construção da representação construída a partir da imagem do Pantanal enquanto paraíso.

Palavras-chave: Pantanal; cultura; natureza; oralidade.

Abstract. The content of the present article presents some observations about the culture versus nature relationship at Pantanal (a swamp area) located in the State South Mato Grosso, Brazil. Using oral resources as an informative base, I try to discuss some aspects which relate Pantanal culture and local nature, emphasizing markers of such culture, such as oral history/oral tradition. I also approach the representation construction based on the image of Pantanal as paradise.

Key words: Pantanal; culture; nature; oral history/oral tradition.

Hoje me sinto mais forte; Mais feliz quem sabe; Só levo a certeza; De que muito pouco eu sei; eu nada sei. (“Tocando em Frente”: Almir Sater e Renato Teixeira)

Os debates sobre as ligações entre o homem e a natureza têm se tornado insistentes e freqüentes em diversas áreas do saber. Na história tal situação não é distinta, até porque a discussão é intrínseca à própia

1 Versão preliminar deste texto foi apresentada na mesa-redonda: Cultura e Natureza nos

Pantanais, durante o Encontro Regional “Memória da Gente Pantaneira”, ocorrido na cidade de Poconé-MT, entre os dias 17 e 18 de outubro de 2002.

2 Professor Doutor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul/Campus de Dourados.

168 Leite existência do saber histórico, quando pensado a partir das ações humanas ao longo do tempo. Ademais, a discussão em questão surge com vigor juntamente com o fortalecimento das preocupações com o meio ambiente e sua preservação, colocando em destaque uma forma de pensamento que questiona as profundas alterações impostas ao meio ambiente pela ação humana. Tais preocupações parecem ganhar vigor a partir dos anos 1950, embora em momentos anteriores seja possível perceber insatisfações a respeito da destruição ambiental. É provável que a explicação para esse fenômeno seja resultado das insatisfações angustiantes do imaginário contemporâneo, uma vez que nem todas as culturas abraçam natureza e paisagem com igual ardor, e as que as abraçam conhecem fases de maior ou menor entusiasmo. (Schama, 1996, p. 25)

características peculiares ao Pantanal

Neste texto tomo como linha mestra a preocupação com o meio ambiente, mas volto minha atenção especialmente para o Pantanal brasileiro. A opção por enfocar essa problemática se liga ao objetivo de discutir a presença do homem pantaneiro em sua histórica ação sobre o ambiente local, de maneira a perceber que essa interação é parte significativa na identidade regional; identidade que parece almejar se descolar da noção identitária mato-grossense. Assim, a trajetória percorrida consiste em problematizar as relações entre o homem pantaneiro e sua presença na região, em direta ligação com as

De chofre, focalizo a questão tomando uma das mais tradicionais formas de trabalho na região, na qual a natureza desdobra-se enquanto paisagem construída pela ação humana no exercício da tarefa de conduzir bois no Pantanal e, mesmo, para outras áreas externas a esse ambiente.

O que reconto na seqüência se passou no início do século X.3 Se não se fez história, bem poderia ter sucedido. O caso é que contemplo uma boiada sendo conduzida da região de Poconé, no interior de Mato Grosso, para a capital, Cuiabá. O mês era agosto, mês de cachorro louco, período seco, de pouca ou nenhuma chuva; em seu andar lento e constante a boiada segue ao som dolente de uma cantiga. Seriam mágoas de boiadeiros?

3 Nesta parte faço paráfrase do conto “Sabedoria de Vaqueiro”, de Feliciano Galdino. In:

_. Lendas Matogrossenses. Cuiabá: Typ. Calháo & Filho, 1919, p. 128-134. Esse trecho integra o I capítulo da Tese de Doutorado Marchas na História: comitivas, condutores e peõesboiadeiros nas águas de Xarayés, conforme Leite (2000).

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Grande é [era] a manada, assombroso o aspecto (Galdino, 1919, p. 18).

Aquele mundo se agita, aves e animais produzem ruídos ou, até mesmo, visões estranhas impõem o estouro da boiada. Um dos touros, animal indolente, lânguido, desgarra-se, e o cavalo, antes mesmo da decisão de seu cavaleiro, sai em caça do fugitivo. Consegue alcançá-lo.

A comitiva estava composta de um pessoal experiente e ousado.

Vaqueirada boa a que passava, rapaziada sacudida e zanfimera, como se diz na bela e lendária terra poconeana (Idem, p. 130). Bem próximo, distante meia légua, habitava um certo Pai Joaquim, como era chamado pelos moradores da redondeza. Joaquim Gomes, como fora registrado, construíra, nas proximidades de seu rancho, um grande curral em que se encerrariam mil bois. De fato, fundara uma moradia! Os que assim desejassem, ali poderiam pernoitar com sua boiada, trocar um dedo de prosa, desfrutar do tereré ou do guaraná e repousar o corpo moído nas andanças!

incompetência daqueles rapazes em lidar com o gado naquela situação

A peonada era boa e tentava, sem sucesso, recolher o gado no curral. Parava rodeios, buscava pacificar o gado que finalmente não atravessava a porteira. Pai Joaquim observava e severamente ruminava a O velho já havia dado baixa do serviço de vaqueano, mas lhe parecia que haveria de morrer logo se não estivesse a ouvir continuamente o mugir do gado por perto do seu rancho (Idem, p.131). Um dos boiadeiros se achega ao velho Pai Joaquim reclamando das dificuldades com o gado, atribuindo o refugo do rebanho em adentrar o mangueiro a supostas visões da cuca. O velho boiadeiro resmunga negativamente, discordando do rapaz e já adiantando suas observações e censuras a respeito da incapacidade da peonada.

O rapaz afirma ao velho pantaneiro que viera aconselhar-se porque o tinha como a pessoa que poderia resolver aquele problema. Pai Joaquim era tido como o sábio do sertão, o profundo conhecedor da arte boiadeira (Idem, 1919, p. 134). Em resposta, o velho disse que era preciso, primeiramente, organizar o rodeio, para só depois rezar um padre-nosso, uma ave-maria e um creio-em-deus-padre. Cumprida essa devoção, deveriam os boiadeiros falar em voz alta: assim como os advogados nunca refugaram a porta do Inferno, assim também vocês bois, não refugarão a porta do curral (Idem, p.133-4). Logo após, berrariam em direção aos bois: para dentro (Idem, p. 133-4). Só assim o gado obedeceria imediatamente.

O jovem vaqueano (Idem, p.134) retornou à comitiva. Procederam àquela homilia sertaneja de Pai Joaquim e tantos outros recursos, após o que, um a um, os bois foram entrando no curral, obedientes.

Pai Joaquim, o jovem vaqueano e a comitiva, a boiada, os animais e as intempéries, a simpatia e seu sucesso são fragmentos de uma história

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170 Leite rural, sertaneja, mato-grossense, pantaneira. Nela se destacam formas de vida e a construção de representações nas quais o homem comum se ajeita no tempo e no espaço do qual faz parte.

O texto de Galdino, por sua vez, foi escrito com as cores de uma história possível, sincretizando muitas outras factualizadas na Literatura, na Sociologia, nas músicas, sobretudo, e algumas vezes na história construída. A migração imposta aos bovinos, eqüinos, caprinos e muitas outras espécies permitiu que uma forma de trabalho e de vida se constituísse para dar conta de conduzir esses animais - nesse caso, uma boiada e seus acompanhantes, tangedores de sua história ao lado de bovinos e eqüinos.

Se Sabedoria de Vaqueiro não é texto escrito por historiador, ele trata de história, mesmo se o incluíssemos entre as avocadas crônicas. A sabedoria do velho Joaquim Gomes é representativa de muitas outras inscritas na memória de peões e condutores de boi. Por sinal, o Joaquim Gomes de Galdino me faz relembrar outros joaquins, tais como o Barão de Vila Maria ou Joaquim José Gomes da Silva, ou ainda, de Joaquim Eugênio Gomes da Silva, o Nheco, também um peão, depois celebrizado como grande fazendeiro no Pantanal sul-mato-grossense.4 Mas Pai Joaquim também retoma a tradição de conduzir boiadas, liderar comitivas, enfrentar a natureza, rasgar o tempo e o espaço dos sertões e dos pantanais.

De um passado mítico, quase imemorial, surge uma história vivida, não por uma personagem literária; talvez por um de seus inspiradores. Não é prolixidade indagar e procurar compreender o mítico no fenômeno histórico. É importante

Perguntar se um novo conjunto de mitos é, realmente, o remédio que o médico prescreveria para nossos males não equivale a negar a seriedade de nossa situação ecológica, nem a urgência dos reparos e reformas necessários. Mas, e quanto aos velhos mitos? Pois, embora esses textos geralmente afirmem que a cultura ocidental evoluiu, abandonando seus mitos da natureza, estes, na verdade, nunca desapareceram. Se, como vimos, toda a nossa tradição da paisagem é o produto de uma cultura comum, trata-se, ademais, de uma tradição construída a partir de um rico depósito de mitos, lembranças e obsessões. Os cultos, que somos convidados a procurar em outras culturas nativas – da floresta primitiva do rio da vida, da montanha

4 Da alcunha “Nheco”, originou-se o nome da mais importante região de pecuária no Pantanal, a Nhecolândia.

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Anotações sobre cultura e natureza nos pantanais 171 sagrada -, na verdade estão a nossa volta, vivos e passando bem; resta saber onde procurá-los. (Schama, 1996, p.24).

O mito, nessa acepção, é um artefato histórico; acompanha o homem há tempos, fazendo-se presente nos campos pantaneiros. Ao mesmo tempo, no palco da história, encontro o senhor Fausto da Costa Oliveira, condutor de bois, nascido por volta de 1930, que narrou uma de suas muitas viagens, na qual sobejam objetos de historiador e de cronistas. Afastados mais de meio século, cronista e narrador mantêm elos comuns ao tratarem do trabalho de condutor e de suas implicações. O senhor Fausto, quando entrevistado, relembrou muitos momentos de sua vida, reelaborou e organizou sua memória, deu-lhe novo sentido ao descrever suas viagens e labutas como condutor-líder de comitivas. Também outros entrevistados5 contaram sobre suas vidas, alegrias e tristezas, invocaram os significados que conferiram legitimidade à memória por eles preservada. Nessas narrativas, a lida com animais como bovinos, muares e cavalares mapeia caminhos nos quais se encontram fatos importantes para a história de vida de homens habituados com a selvagem beleza do Pantanal.

Há ainda muitos “pais joaquins” espalhados no Pantanal, tal qual existem muitas magias e rezas para enfrentar a ferocidade dos bovinos e outros animais!

Este texto é muito mais do que a paráfrase de um dos contos de

Feliciano Galdino. O conto escrito por Feliciano Galdino me é útil porque encerra os aspectos essenciais do que estou discutindo aqui, ou seja, destaca elementos concernentes à relação homem versus natureza no Pantanal. E mais, expõe um dos aspectos mais robustos na discussão acerca da cultura pantaneira, que é a relação entre a história e a memória.

A sabedoria de Pai Joaquim, o som da mata, o trabalho com a boiada, a inexperiência dos jovens vaqueiros com o sobrenatural são integrantes de uma mesma história, uma cultura de nuanças várias, mas que conformam um todo.

É indispensável apontar que a problemática que envolve o homem x natureza ou natureza e cultura não é simples e de fácil solução; mas é preciso acrescentar que a noção histórica na qual o homem se compreendeu como ente superior à natureza tem merecido críticas e reavaliações, recolocando a premissa de que o ser humano é parte da

5 Na bibliografia desse texto, anoto algumas das mais importantes entrevistas realizadas no desenvolvimento do projeto de pesquisa “História Oral e Memória: história e estórias”.

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172 Leite própria natureza, ainda que a exploração do meio ambiente seja condição para a sobrevivência da espécie humana.6 A concepção em que o homem surge em relação de superioridade à natureza aparece, por exemplo, no Gênesis, quando Deus ordena ao homem que cresça, multiplique-se e domine as outras espécies.7

Contemporaneamente, as preocupações com o meio ambiente envolvem nações, sociedades e estados em torno da questão da sustentabilidade ecológica, o que equivale a dizer, da sobrevivência da espécie humana. Presenciamos o estabelecimento de um paradigma social,8 envolto por diversas pretensões que se iniciam na própria preservação da natureza e alcançam interesses geopolíticos e político-estratégicos.

entendimento pretende queas relações entre humanidade e a natureza devem

A partir de movimentos voltados para a questão ecológica ganharam formas diversas vertentes de compreensão e ação, como, por exemplo, a versão do ecologismo conhecida como biocêntrica, cujo ser guiadas pela ética. O universo do comportamento moral não deve se esgotar nos seres humanos, mas se estender, também, a outras formas de vida e até ao elemento abiótico, ou seja, ao que os cientistas naturais, respectivamente chamam, de “comunidade biótica” e “ambiente abiótico”.9 Para alguns autores as raízes do biocentrismo localizam-se no liberalismo, particularmente no anglosaxão, o que por enquanto é de somenos importância aqui.10

Ao lado dessa perspectiva, deparamo-nos com a compreensão antropocêntrica, cuja essência encontra-se na premissa de que ao longo dos tempos, nas sociedades ocidentais, a relação entre natureza e cultura denota o predomínio da primeira sobre a segunda. Assim, nesse entendimento, a ascendência humana sobre o natural configura-se no emprego de ritmos culturais de manipulação e manejo do mundo físico, o

6 PAULA, Z. C. Uma Face da Relação Homem/Natureza. Revista Pós-História. Assis. Programa de Pós-Graduação em História/Unesp. V. 5, 1997. p. 185.

8 BARBOSA, Lívia N. de H.; DRUMOND, José A. Os direitos da natureza numa sociedade relacional: reflexões sobre uma nova ética ambiental. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 7, nº 14, 1994. p. 265

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Anotações sobre cultura e natureza nos pantanais 173 que realça um certo desprezo por formas e organizações sociais nas quais a natureza ocupa o papel dominante.1

Parto, fundamentalmente, da perspectiva antropocêntrica, pois creio que a própria essência do processo histórico, pensada sob a ótica da longa duração, está na relação cultura x natureza, em que a primeira decorre das ações das sociedades humanas na sua faina existencial desde muito tempo. Certamente essa concepção não se inclui em premissas simplistas, as quais julgam que a natureza existe plenamente para servir a um senhor, o ser humano, da melhor forma que lhe aprouver!

Logo, acredito que é preciso ter presente que o mito moderno do paraíso, e no que respeita ao Pantanal, o “paraíso ecológico, paraíso das espécies, refúgio, etc...” encerra, do ponto de vista do imaginário, noções edênicas e arcádicas em que a natureza encontra-se protegida do homem e sua ação nociva”. Essa idéia é profundamente devedora de concepções paradisíacas recriadas na medievalidade12 e inflamadas na pós-modernidade pelas formas de vida exaustivas verificadas nas grandes cidades do planeta, adquirindo, portanto, novos significados correlatos aos rumos existenciais da contemporaneidade: Afinal, a natureza selvagem não demarca a si mesma, não se nomeia. (Schama, 1996, p. 17). É claro que a ânsia e o desejo pelo paraíso, sensação que compartilhamos com o imaginário medievo-renascentista de Colombo, por exemplo, vai ao encontro da indústria do ecoturismo e, sobretudo, das empresas de turismo, o que me parece legítimo se pensado a partir da ótica do capitalismo.

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