ANAIS V Encontro Regional de História: Escrita daHistória

ANAIS V Encontro Regional de História: Escrita daHistória

(Parte 1 de 7)

Esta coletânea de textos tem sua origem nos trabalhos apresentados durante a realização dos Simpósios Temáticos do V Encontro Regional de História: Escrita da História, evento organizado pela Associação Nacional de História – Núcleo Regional de Mato Grosso – ANPUH/MT, ocorrido em novembro de 2008, na cidade de Cáceres/MT.

O V Encontro Regional de História, intitulado "Escrita da História”, foi a principal atividade científica organizada pela ANPUH/MT. O encontro possuiu como foco central um tema de discussão escolhido de acordo com a importância do mesmo, para o aprofundamento dos estudos relacionados à História e à produção do conhecimento histórico.

O evento destaca-se como momento privilegiado de debates e articulações entre os diversos professores/pesquisadores sobre os estudos realizados ou em desenvolvimento, congregando as diferentes abordagens na produção e usos do conhecimento histórico. É um ponto de encontro e intercâmbio entre os profissionais e estudantes de História e áreas afins para apresentar, debater e avaliar o andamento da produção do conhecimento histórico e sua relação com as necessidades sociais e educacionais do Estado de Mato Grosso.

O encontro oportunizou debates e intercâmbios entre pesquisadores, professores, alunos de graduação e pós-graduação em História e demais interessados com os rumos da produção historiográfica e da sua importância para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da sociedade, fortalecendo a área de História no Estado de Mato Grosso por meio da interação entre os diversos pesquisadores e grupos de pesquisa, da discussão historiográfica e dos debates sobre as fontes históricas e suas possibilidades de exploração. Os participantes tiveram a oportunidade de entrar em contato com as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudiosos de Mato Grosso e convidados de outros Estados e universidades.

O encontro oportunizou o aprofundamento das discussões sobre o campo da escrita da História em suas diversas perspectivas e possibilidades, auxiliando os profissionais da área na compreensão e renovação do saber histórico. Esse aprendizado repercutirá nas concepções e ações que esses profissionais irão desenvolver dentro de seus campos de investigação/ação e no ensino de História.

A realização do encontro mostrou também as preocupações da Associação

Nacional de História e do Núcleo Regional de Mato Grosso – ANPUH/MT - em proporcionar espaços para o debate, a divulgação de pesquisas e a troca de experiências entre pesquisadores de universidades brasileiras, com o objetivo de envolver os diferentes campos de abordagem e produção do conhecimento histórico. Assim, o V Encontro Regional de História: Escrita da História visou a fortalecer os laços entre pesquisadores, profissionais e estudantes de História, contribuindo para a difusão do conhecimento e colaborando para a formação continuada, por intermédio de atividades de aperfeiçoamento destinada a todos os níveis.

O trabalho de investigação e reflexão acerca da escrita da História carrega consigo algumas questões representativas da atual situação da produção historiográfica brasileira e das problemáticas presentes na pesquisa, no ensino e na difusão do conhecimento histórico. Essas questões apresentam-se como desafios aos historiadores e professores preocupados com a melhoria da qualidade da escrita e do ensino de História.

Os caminhos possíveis para a construção de um conhecimento histórico e de um ensino de História encontram, nas novas abordagens teóricas e metodológicas, nas novas linguagens e tecnologias, subsídios para ampliar o conhecimento em relação às diversas possibilidades de pesquisa e produção do saber historiográfico, proporcionando mudanças em suas concepções e ações voltadas à reflexão da escrita da História como campo de investigação e compreensão da sociedade contemporânea. Toda mudança e melhoria na produção do conhecimento histórico repercutirão nas ações desenvolvidas pelos professores de História em sala de aula e, consequentemente, na sociedade em que a escola está inserida, dando sentido ao papel político e social da mesma.

A reunião de mais de cinquenta textos sobre as mais diversas abordagens historiográficas, da literatura e História, das diferentes temáticas relacionadas ao ensino de História, suas tecnologias e linguagens, representam uma preocupação bastante expressiva sobre a produção, a inovação e a aplicabilidade do conhecimento histórico. Esse conjunto de trabalhos compõe um acervo rico e revelador dos olhares dos professores e pesquisadores, suas perspectivas de diálogo teórico/prático, visando ao desenvolvimento de novos saberes e conhecimentos históricos e suas propostas de diálogo com os leitores.

A organização desta coletânea de textos não está ancorada em referenciais teóricos ou tendências historiográficas pré-estabelecidos, nem se reduz a textos meramente descritivos ou a uma linearidade histórica. A diversidade de temas e propostas de trabalho aqui apresentadas representam uma pluralidade de leituras oriundas de experiências desenvolvidas por seus autores em diversas regiões do Estado de Mato Grosso e outras regiões do país.

Entre as temáticas desta coletânea, encontramos abordagens significativas sobre as questões relacionadas às análises sobre a escrita da História na antiguidade romana e medievo português; as impressões e registros históricos de viajantes sobre as minas de Cuiabá no século XVIII, assim como a análise sobre a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e o Mato Grosso na formação da nação brasileira. As fugas de escravos negros no século XVIII e a formação de Quilombos na fronteira oeste, assim como as espacializações portuguesas na Capitania de Mato Grosso, constituem importantes abordagens relacionadas à História do Estado de Mato Grosso.

Ainda sobre o século XIX, encontramos estudos que analisam projetos geopolíticos do governo imperial, a memória, a política e a identidade brasileiras a partir da fundação da Revista do IHGB, a defesa da província de Mato Grosso e o comércio com a Bolívia durante a guerra do Paraguai, assim como o olhar dos viajantes estrangeiros sobre os ribeirinhos do Pantanal norte.

As preocupações sobre a História da educação em Mato Grosso aparece em estudo sobre a questão da indisciplina dos alunos no início do século X, tomando como referência de investigação o Colégio Lyceu Cuyabano. A invenção da identidade mato-grossense, a partir da criação do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso na primeira metade do século X e as representações da imprensa do Estado Novo sobre a primeira visita de Getúlio Vargas ao Mato Grosso, também são analisadas nesta coletânea.

A década de 1970 é estudada por meio de temas como a tentativa de construção do poder popular no Chile de Allende, a militância católica em São Félix do Araguaia no período da ditadura militar, projetos de colonização do Mato Grosso, assim como a ocupação de terras amazônicas, a abertura de estradas e os efeitos sobre a nação indígena kreen-akarôre.

A fundação da Universidade Federal de Mato Grosso sobre uma perspectiva histórica também faz parte dos estudos aqui apresentados.

Questões mais recentes como as pesquisas sobre a formação de professores de

História, o ensino de História e suas diversas possibilidades de abordagens, assim como a diversidade étnico-racial no ensino de História a partir da Lei 10.639/03, a História ambiental e o ensino de História, as análises sobre os livros didáticos de História e a questão de gênero e raça neles presente, assim como pesquisas sobre as representações de professores sobre o ensino de História durante o regime militar brasileiro e sobre

Zumbi e Tiradentes na memória didática, representam a diversidade de abordagens atuais sobre a produção do conhecimento histórico e sua relação com o ensino.

As possibilidades de abordagens no ensino de História estão presentes em estudos que analisam a produção cultural e histórica a partir da música como documento histórico em sala de aula.

A questão de gênero e a construção das representações sobre a mulher como “sexo frágil” no século XIX, assim como análises referentes à domesticação dos corpos e mentes, a cultura material e a automatização do espaço doméstico e a questão da prostituição, mulheres chiquitanas: identidade e memória na fronteira são temas recorrentes em alguns textos desta coletânea.

Abordagens que articulam literatura e História estão presentes em estudos que analisam a memória e poética mato-grossense, História e literatura na escrita de Alfredo Taunay, os caminhos de Fernando Morais, jornalista e literato que reivindica o socialismo e as interfaces entre História e literatura.

A diversidade de temáticas abordadas está presente também em estudos que investigam a construção das representações sobre o trabalhador informal na fronteira entre Brasil e Bolívia, a constituição dos espaços japoneses na cidade de Cáceres e os tempos ao longo do caminho da BR-163 e a questão da fronteira.

Outros estudos analisam a presença de jovens negros nos processos criminais, a origem do movimento guerrilheiro colombiano e seus atores, as comunidades campesinas e a identidade indígena em San Matias (BO), as denuncias de trabalho escravo em Mato Grosso e, por fim, a cidade e a invenção de seus “outros” e as artes do fazer e dizer em Michel de Certeau.

na área de História, como nos demais campos do conhecimento humano

Como podemos perceber, a pluralidade das abordagens está presente tanto nos temas como na temporalidade, com trabalhos e investigações que perpassam desde o período colonial até a historiografia do tempo presente. Isso nos apresenta, por um lado, a precisa dimensão da riqueza nas discussões encetadas durante o V Encontro Regional de História, e, por outro, enriquece sobremaneira a disponibilização de material de boa qualidade aos interessados na sua utilização em atividades diuturnas de trabalho, tanto

Conteúdos, opiniões, abordagens, configurações críticas e questões formais expressos nos artigos que compõem estes Anais são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

INDISCIPLINA: UM OLHAR SOBRE AS CONDUTAS DE ALUNOS DO “LYCEU CUYABANO” ENTRE OS ANOS DE 1900 A 1907

Cláudio José Santana de Figueiredo1

Marineide de Oliveira Silva2 Débora Roberta Borges3

No dia-a-dia das escolas, é muito comum que os profissionais da educação manifestem várias queixas sobre a conduta de alguns alunos, considerados indisciplinados, no ambiente da sala de aula. No intuito de tentar manter o controle das atividades pedagógicas, nem sempre com êxito, freqüentemente os professores estabelecem algumas regras a fim de restringir ações não desejáveis e viabilizar a convivência em sala de aula. A pergunta a ser feita é: A indisciplina escolar é um fenômeno da atualidade?

Para responder esta e outras indagações, elaborou-se um trabalho que pudesse desvelar como do Liceu Cuiabano, primeira instituição de ensino público secundário de Mato grosso (ZANELLI, 2002), considerava a indisciplina escolar cometida pelos estudantes do período de 1900 a 1930, como também pesquisar se naquele período, havia formas de violência física e/ou institucional, praticadas no dia-a-dia das atividades pedagógicas, dentre as quais podem caracterizar-se como ações punitivas, indo desde as mais visíveis até as mais veladas.

O pressuposto fundamental deste trabalho é a de que somente ao estudar o passado, pode-se encontrar vestígios para entender alguns fenômenos da atualidade que assolam o cotidiano das escolas, entre estes o da indisciplina escolar. Acredita-se que um estudo dessa natureza, possa proporcionar reflexões sobre a temática da indisciplina escolar que parece ser nos dias de hoje, um dos fenômenos que mais preocupa os segmentos da escola.

Teoricamente, realizou-se uma busca de documentos no intuito de elucidar como a indisciplina escolar era tratada entre os anos de 1900 a 1907, além da abordagem quantiqualitativa pautada nos estudos de Santos Filho & Gamboa (2002, 51), que afirmam que “os métodos quantitativos e qualitativos não são incompatíveis; pelo contrário, estão intimamente imbricados e, portanto, podem ser usados pelos pesquisadores sem caírem na

1 Mestrando em Educação/IE/UFMT 2 Pedagoga, Graduanda do Curso de Serviço Social e Bolsista de Iniciação Científica do Grupo de História e Memória/IE/UFMT. 3 Graduanda do Curso de História e Bolsista de Iniciação Científica do Grupo de História e Memória/IE/UFMT.

contradição epistemológica”, além de análises documentais como jornais, Relatórios de Diretores e inspetores da Instrução Pública, atas escolares e o regimento interno do Liceu Cuiabano.

Elizabeth Madureira Siqueira (2000) em seu livro Luzes e Sobras: Modernidade e

Educação Pública em Mato Grosso (1870-1889) relata que desde o século XIX, as escolas possuíam mecanismos coercivos para serem aplicados, se necessários, a fim de manter a ordem no ambiente da sala de aula e, a educação em Mato Grosso se incluía neste cenário.

A autora ressalta ainda que (2000, p. 238) tradicionalmente na escola, quando uma regra é transgredida, pode aparecer como fonte de condenação o castigo. Para essa autora “o castigo, de maneira genérica, significa a aplicação de um corretivo que pressupõem a transgressão de regras estabelecidas”. Enfoca ainda que os dispositivos disciplinares no século XIX eram utilizados para punir condutas consideradas indesejáveis e estas punições se efetivavam por meio da palmatória, utilizada pelos professores que batiam nas mãos dos estudantes considerados infratores. O artefato ─ palmatória ─ inicialmente era:

[...] feita de couro cru, engrossada em uma das extremidades, constituindo esta o cabo onde se pegava; era achatada e arredondada na outra extremidade, com extensão suficiente para cobrir a palma da mão. Depois passou a ser feita de madeira, quase no mesmo formato, tendo na parte redonda, destinada a cobrir a palma da mão, cinco buracos, os quais, sem ultrapassar toda madeira, serviam de sanguessugas [...]. No Brasil, além dos alunos faltosos, servia também para castigar escravos. (BRETAS apud SIQUEIRA 2000, p. 240).

Com a expansão dos sistemas escolares na modernidade, notadamente a partir do século XIX, surge a necessidade de criar mecanismos externos de controle. A sociedade naquele momento carecia de um veículo de propagação em massa que transmitisse signos, valores, modo de ser e de perceber o mundo. Sendo assim, os comportamentos, hábitos e costumes que fugiam ao modelo hegemônico da época em estudo.

No seu vasto trabalho sobre a construção das instituições punitivas modernas,

Foucault (1987) ressalta que estas possuem mecanismos intrínsecos de exclusão. O autor esclarece que,

[...] a divisão constate do normal do anormal, a que todo indivíduo é submetido, leva até nós, [...] a existência de um conjunto de técnicas e de instituições que assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais faz funcionar dispositivos disciplinares [...]. Todos os mecanismos de poder que, ainda em nossos dias, são os dispositivos em torno do anormal, para marcá-lo como para modificá-lo, compõem essas duas formas de que longinquamente derivam (FOUCAULT, 1987, p.165).

O conceito de indisciplina pode está associado ao conceito de disciplina, pois esta “consiste num dispositivo e num conjunto de regras de conduta destinada a garantir diferentes atividades num lugar de ensino. [...] A disciplina permite entrar na cultura da responsabilidade e compreender que nossas ações têm conseqüências” (PARRATDAYAN, 2008, p.8), por isso, entende-se que a falta da disciplina é que parece gerar ações indisciplinadas.

O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos (FOUCAULT, 1987, p.127).

A busca pela disciplina faz com que o General Doutor Caetano Manoel Faria e

Albuquerque, Presidente do Estado de Mato – Grosso, usando da autorização constante do art. 2 da Lei n. 713, de 20 de setembro do ano próximo passado, e da atribuição que lhe confere o art. 25 § 3 da Constituição do Estado, manda que no Liceu cuiabano se observe o novo Regulamento. Esse Regulamento rege o cotidiano escolar, em todos os sentidos, dos professores e alunos do Liceu Cuiabano. Um exemplo de como o Liceu Cuiabano tratava certas condutas consideradas como infrações encontram-se expressas na portaria nº 04 de 06 de março de 1901 em Mato grosso:

O professor servindo de Director da Instrução Pública, considerando que os alunos do 2º ano do Lyceu Cuyabano [...] portaram-se incorrectamente no interior do edifício. Commettendo actos offensivo aos transenntes; considerando que provesse motivos se acham incursos no § 8 do artigo 120 do regulamento em vigor; resolve suspendel-os das aulas do mesmo estabelecimento pelo tempo de 8 dias [...].

O estudante não se portou adequadamente na instalação do colégio, sendo punido com oito dias de suspensão. O direto tinha como embasamento vários artigos que falam sobre as penalidades que poderiam ser aplicada caso o aluno praticarem alguma infração:

Art. 109 – E vedado aos alunos promoverem, no recinto do Liceu subscrição ou coletas que não tenham caráter cívico e patriótico.

(Parte 1 de 7)

Comentários