As Festas que a República Manda Guardar

As Festas que a República Manda Guardar

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"bacharéis fardados" (tenentes, alunos ou ex-alunos de Benjamin Constant) e os

"tarimbeiros" (oficiais superiores que tinham lutado na Guerra do Paraguai) possibilitou a ação polftica de proclamar a República. Essa unidade temporária resultante dos efeitos da QuesLllo Militar produziu uma ação política, mas não garantiu a institucionalização da nova ordem nem sua legitimidade. E, é preciso lembrar: "O núclco republicano civil mais poderoso e organizado, o paulista, tinha poucos contatos com os militares e muitas dúvidas sobre a conveniência de envolvê· los na campanha" (Carvalho, 1977: 217). Se é assim, cabe perguntar como se construiu a legitimidade da nova ordem e dos novos atores políticos. A antiga ordem havia se desagregado e a nova ainda nllo se consolidara sob a forma de instituçOes esláveis e aceitas. Esle tempo fone, composto de momentos de

176 ES11JDOS ID� 1989/4 efervescência da vida política, caracteriza os primeiros dez anos da

República (1889-98), também chamados de "anos entrópicos", nos quais a quantidade de desafios parece ser maior que a capacidade dos atores de erradicar a ignorância sobre o que se passava

(Lessa, 1988: 15). Nessa "década do caos" se buscou, sem êxito, construir as bases da obediência legítima, já que "a noçao de legitimidade não corresponde a nada além do reconhecimento espontâneo da ordem estabelecida, da aceitaçao nawral, não obrigatoriamente das decisões daqueles que governam, mas dos princípios em virtude dos quais eles governam" (Girarde� 1987: 8).

Memórias específicas compOem as versões em conflito. Essas imagens conSlruídas preenchem tanto uma funçllo explicativa capaz de fornecer parâmetros para a compreensão do momento presente quanto uma função mobi lizadora, quando o objetivo é alterar a ordem estabelecida. As versões ex pressam situaçOes opostas no quadro político, expondo as posições de diferentes grupos que fazem parte da mesma sociedade.

Monarquistas e republicanos cons tituíam os dois grupos em conflito explícito no início da República, conslruindo cada qual a Sua verslio dos fatos e dos desafios a serem vencidos.

Quem eram eles? O que pensavam?

Quais os seus heróis?

Os monarquistas ou, como na feliz expressa0 de Maria de Lourdes Janotti

(1986), os "subversivos da República" formavam um grupo de grande consistência ideológica, composto por políticos influentes, jornalistas, inte lechaais. ativistas, que se dividiam entre restauradores e adesistas ou neo- republicanos. Apesar de muitos deles terem aceito o novo regime como falO consumado, o grupo sempre esteve envolvido nas questOes políticas que marcaram a "década do caos", trazendo dificuldades à consolidaçllo republicana. Os defensores da monarquia con fiaram, em um primeiro momento, na possibilidade de rearticular sua força política por ocasião das eleições para a

Constituinte. Desejavam levar o povo, através de um plebiscito, a não refe rendar a açllo militar que proclamara a

República. Entretanto, dentro de suas próprias fileiras, enfrentavam algumas questões cruciais: desde a de res ponsabilizar o gabinete liberal de Ouro

Preto pela ruína do Império e a pas sividade de Pedro U em incentivar as ações restauradoras, até a dilTcil questllo dinástica que incluía a possibilidade de uma regência Os monarquistas esperavam e desejavam que as crises republicanas convencessem as forças políticas das ameaças de desmembramento e da validade da única salvação possível -a restauraçllo. Tinham esperança na ruína do regime, mesmo quando nllo estavam atuando neste sentido. Sofriam perseguições, eram vistos com desconfiança, principalmente os que aderiram ao novo regime e aceitaram jogar o jogo republicano! A Revolta da Armada foi o movimento mais sério em que estiveram envolvidos. Resultante do manifesto de J3 oficiais que, em nome da defesa da

Constituição republicana se rebelaram contra a posse de Floriano, esse mOVimento apareceu em um pnmcuo momento como uma reação legalista contra o militarismo que ameaçava tomar conta da República. A adesão do almirante Saldanha da Gama -

AS FESTAS QUE A REPÜBUCA MANDA GUARDAR 177 conhecido mODan!wsla -caracterizou o

movimento como restaurador e forneceu muniçao aos jacobinos que apoiavam

Floriano nG combate à revolla.

O fato de os monarquistas terem participado intensamente da luta política nao significa que tenham tido êxito. Entretanto, ressaltamos aqui sua su perioridade do ponto de vista de sua versao e de seus quadros. Inúmeros intelectuais sao seus porta-vozes, o que parece ter conferido mais estabilidade e consistência à sua interpretaçao.

Eduardo Prado, em seu livro Fastos da ditadura militar no Brasil (1902), reuniu artigos publicados (entre dezembro de 1889 e junho de 1890), na

Revista de Portugal, periódico dirigido por Eça de Queiroz. Sob o pseudônimo de Frederico S., Eduardo Prado denunciava as práticas da ditadura mililar republicana que se opunham às teorias e práticas liberais vigentes no

Império. O autor via no Império a presença liberal, enquanto a República se apresentava como a introdução do caudilhismo na política brasileira. A

República trazia a ameaça de dividir o

Brasil em múltiplos países, rompendo a unidade conseguida pelo Império.

Outro livro de Eduardo Prado, A ilusoo americana, escrito em 18932 trata do período histórico que se estende de

1823, com a elaboraçao da doutrina Monroe, até 1892, com -a chamada política do big-stick, sob a inspiração de Blaine, quando o expansionismo nortc americano fez sua presença armada na América Central.

A ilusão americana condena a forma republicana apresentando-a como a cópia do modelo polftico norte-ame ricano. A crítica à República aparece já no prefácio, onde Eduardo Prado se refere a este regime como "dolorosa

provaçao que () tanto tem amargurado

a pálria brasileira", ou quando diz: "o governo republicano do Brasil, lristemente predestinado a reagir sempre contra a civilizaçãO".

A primeira parte de A ilusão americana centra-se na apresenlaçao de falOS da política externa americana frente aos paises da América Latina, com especial ênfase no caso mexicano e das Antilhas. A concJusao do autor é a de que O grande protetor da inde pendência dos países latinos sempre foi a

Inglaterra. A doutrina Monroe e sua execução estariam bem distantes da interpretação jacobina que os repu blicanos brasileiros estavam dando a ela.

Ao adotarem o modelo norte americano, os países da América espanhola renegaram suas tradições. "O Brasil, mais feliz, instinlivamente, obedeceu à grande lei de que as nações devem reformar-se dentro de si mesmas, como todos os organismos vivos, com a própria subslAncia" (prado, 1893: 53).

Em 1889, comelCu-se o mesmo erro dos países hispano-americanos: a imposiçao de um modelo que produziu, imedia larnenlC, a perda da liberdade. Eduardo Prado reconhece que a república americana fora criada em um período onde predominou o patriotismo e a abnegação. E, relembra Montesquieu em sua proposiçao de que as repúblicas precisam ter como fundamento a virtude.

Essa fora O fundamento da república americana ao tempo dos pais fundadores.

Os vicios, as falIaS atuais não eslavam presentes no seu inicio, tinham a ver com a sociedade burguesa. Do ponto de vista cultural, Eduardo

Prado aponta o encanlamento americano pela realeza e pelas aristocracias européias. Esta admiração tem sentido, já que "os Estados Unidos sao ainda uma

178 ESTUDOS IDSTORJCOS 1989/4 colônia. A civilização vem-lhe da Europa" (p. 116). Refere-se ao ame ricano como um parvenu enriquecido. O encanlamenlO pela realeza fez com que os ESlados Unidos dessem preferência pelo apoio à Alemanha, durante a guerra franco-prussiana, mesmo depois da proclamação da república francesa.

Aprovaram a guerra de 1870 e a conseqüente anexaçllo da Alsácia e da

Lorena. O aulOr deseja demonstrar que nllo há qualquer compromisso essencial mente republicano na política externa dos Estados Unidos.

Outro ponlO de deslaque é a questão da aboliçllo. Segundo Prado, a SOlUça0 norle-americana foi genuinamente republicana e none-americana, islO é, pela violência, pela força, pela guerra entre irmãos. No Brasil tivemos a soluÇllo monárquica. Nossa monarquia

"teve a glória de ser punida pela sua açao liberladora" (p. 131). Isto em si não é uma novidade já que, para Eduardo Prado, todas as grandes reformas sociais se realizam sob um governo monárquico. De acordo com Prado, "na geslAo dos negócios e dos dinheiros públicos, a monarquia arrisca a sua própria existência; é como uma firma solidária que responde com a sua pessoa e com a totalidade de seus bens. A República é uma companhia anônima de res ponsabilidade limitada" (p. 130-1). E complementa: "a forma republicana burguesa, como existe em França e nos

Estados Unidos, é a que mais protege os abusos do capilalismo" (p. 133).

Ao mesmo tempo em que combate a imitação -"sejamos nós mesmos, sejamos o que somos, e só assim seremos alguma coisa" (p. 169),

Eduardo Prado não considera serem os exemplos americanos dignos de qualquer apreço. Os Eslados Unidos mantinham um sentimenlO de indiferença e mesmo de superioridade para com os sul americanos. Os laços da amizade eram fictícios. A grande ajuda que recebíamos tinha sido e era a inglesa. A águia americana com que se sonhava não eslava protegendo e sim dominando toda a América -era a política imperial dos

Eslados Unidos.

Procuramos destaCar ponlOs do livro de Eduardo Prado em que seu pen samento apresenta, de forma mais explícila, a defesa da monarquia. Suas idéias o colocam como um digno represenlante do pantcão onde estão presentes figuras como Renan e Maurras.

Eduardo Prado, liberal, anglófilo e ardente monarquista. teria sido certamente, uma das mais destacadas presenças no mundo intelectual bra sileiro, não fosse sua morte prematura, aos 41 anos. Sua posição no mundo literário era proeminente, fazia parte de um grupo luso-brasileiro, junlO com Eça de Queiroz, Rio Branco, Ramalho Onigão, Oliveira Manins, Afonso

Arinos. Foi também um dos orga nizadores da Academia Brasileira de

Letras.

A proclamação da República trouxe Eduardo Prado para o mundo da luta político-ideológica através dos textos acima referidos. Ele foi, também, o responsável pela organização de uma série de conferências comemorativas do centenário de José de Anchieta, dentro do espírilO histórico e do renascimento do catolicismo no Brasil.

Além de Eduardo Prado, as fileiras monarquistas contavam, entre outros, com Afonso Celso (filho do visconde de Ouro Preto), autor de Por que me ufano do meu país?, e Joaquim Nabuco, político abolicionista que, com seu livro

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