As Festas que a República Manda Guardar

As Festas que a República Manda Guardar

(Parte 4 de 7)

g) 12 de outubro -Descoberta da

América; h) 2 de novembro -Mortos; i) 15 de novembro -comemoração da pátria brasileira. (Otávio, 1893)

A essas datas decretadas pelo Go verno Provisório, acrescente-se o 24 de fevereiro, quando se comemora a pro mulgação da Constituição da República, festa nacional decretada pelo Congresso Nacional.

Antes de analisarmos o que essas datas festejam, convém lembrar que o livro F estas nacionais (1893) de

Rodrigo Otávio,' que servirá aqui para analisarmos a constituição da história re publicana, leve, até 1905, três edições e foi indicado como leitura para a moci dade brasileira.

As festas republicanas 'podem ser di vididas em duas calegoria;: aquelas que privilegiam a fraternidade universal (1 de janeiro; 14 de julho;' 12 de outubro e

2 de novembro) e as que se referem dire tamenle à fralernidade nacional (21 de abril; 3 de maio; 7 de setembro e 15 de novembro). Outro ponto relevanle é que estas festas pretendem assinalar a continuidade entre as gerações, a con tinuidade com o passado ou com par1e deste passado, estando distante da idéia de um novo marco, o ponto zero, na tradição brasileira. A inspiração intelectual dessas comemorações está longe de indicar princípios revo lucionários e parece ser muito próxima do pensamento positivista de Comle. Deixando de lado as datas que comemoram a fraternidade universal, vamos ver duas delas que falam da história brasileira e das gerações que merecem a solidariedade republicana.

1. SeI. de Setembro

"O Brasil que os fugitivos de Lisboa vieram encontrar em 1808 era já quase uma nação" (Otávio, 1893). A expulsão dos holandeses, a luta paulista depois da dominação espanhola, a conspiração mineira (na qual TiradenleS representa a encarnação da idéia revolucionária), o movimento baiano de 1798 e o de Per nambuco de 1817 são lembrados para ressaltar o caráter republicano e o espí rilO do governo que a nação desejava e pelo qual havia sido derramado o sangue generoso dos patriotas. Para Rodrigo Otávio (1893), os aconleCirnentos do dia

7 de setembro de 1822 só fizeram piorar a situação brasileira, prolongando a dominação portuguesa:

"Era bem acentuado o espírito do movimento separatista e a república teria sido uma realidade se a ingênua generosidade desse povo não se houvesse acalentado com promessas vlls de completa liber dade sem lutas e não se houvesse es pavorido com a ameaça infundada da repetição das cenas de 89 e do Terror e, sobretudo, com O receio

AS FESTAS QUE A REPÚBUCA MANDA GUARDAR 183 voo de ver fragmentado, em vários estados fracos, esse enorme corpo que constitufa o Brasil."

2. QuInze de Nombro •

o Brasil é apresentado por Rodrigo

Otávio corno país novo, sem tradições monárquicas, e que deveria, ponanto, organizar seu governo com elementos nacionais, sem sofrer o jugo e a domi nação estrangeira. Otávio relembra os movimentos durante o período colonial, já mencionados, destacando as figuras de Felipe dos Santos, Amador Bueno,

Henrique Dias, Tiradentes e, após o sete de setembro, a Confederação do Equador

(1824), onde se destaca, entre outros, Frei Caneca do Amor Divino. Mas será após a abdicação que o grito revo lucionário tomará conta do país, Ira ?.cndo novamente à tona a idéia repu blicana. Foi quando "se operou no país a mais honrosa convulsão" por que passou

• a patrla. Após mencionar os movimentos revoltosos de meados do século XIX,

Rodrigo Otávio declara que daí começou "a profunda degenerescência do espírito cívico, o abastardamento do caráter nacional".

O Segundo Reinado representou para esse autor "quarenta anos de mentiras, de perfídias, de prepotência, de usurpaçoo". Otávio destaca a atuação de

Caxias, sufocando todas as aspirações liberais e, por fim, a cisão do Partido

Liberal, que resultou na criação do

Partido Republicano. Menciona o trabalho de Rui Barbosa, Quintino

Bocaiúva, Rangel Pestana, América de Campos, Júlio de Castilhos e Martins

Júnior, doutrinando o povo e pregando a república.

Neste estado de espírito, o último gabinete imperial cavou sua ruína, atinge

O Exército, em cujas meiras "dois bra vos soldados", Deodoro e Benjamin

Constanl, velaram pela independência e pelo desenvolvimento moral e material das forças armadas. A causa da demo cracia foi ganha com a confraternização patriótica saudada pela salva de arti lharia a 15 de novembro.

E Rodrigo Otávio conclui: "Saiba agora a nação tirar em favor das liberdades pátrias, lodos os proveitos que devem necessariamente decorrer da revoluçoo e ter paciência para suportar as penurbações e mal estar que, por uma lei histórica, se seguem sempre às transformações radicais na sociedade e na poliúca." Além dessas questões políticas, o livro de Rodrigo Otávio incorpora a crítica à colonização ponuguesa, citando, por exemplo, nosso mais remoto historiador, frei Vicente do Salvador, quando este diz que os que aqui vieram ou aqui nascerain "usam da terra não como senhores mas como usufrutuários, só para a desfrutarem e a deixarem destruída. Donde nasce também que nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular."

Não é à toa que Raul Pompéia em sua cana-prefácio se diz tomado por sentimento estranho. O livro relembra as dificuldades na afirmação da pátria, menciona uma "escala de derrotas", sendo, portanto, uma afirmação verdadeira e cruel da ''pátria vencida". E

Raul Pompéia, em 1893, fala das amarguras da hora presente, onde não há

"garantias de glória". A obra deixa transparecer "a contradição fundamental das nossas glórias, a contingência trágica dos fastos da nossa grandeza pátria".

184 ESTIJDOS IDSTÓIUCOS 1989/4

"Na sucessão das gloriosas derrolaS, vamos sendo cada vez menos derro lados", esta é a esperança de Raul Pom péia e que, a seu ver, irradia do livro.

A versllo republicana da hislÓria do

Brasil, ou seja, a parte do passado que merece ser lem brada e ensinada, está presente em outras obras, como a de

Gonzaga Duque, Revoluções brasileiras

(1897), e a de Urias A. da Silveira, Galeria histórica da Revolução bra sileira de J 5 de novembro de J 889

(1890). São livros de época, que re tomam os movimentos precursores da república e assim tentam mostrar que este regime foi sempre uma aspiração nacional, ou seja, tem tradição, tem passado na história pátria. O novo regime tem origem no passado. Importa notar que livros de história publicados posteriormente, como o de Rocha Pombo, História do Brasil

(1925), incorpora as revoltas precursoras da República. A possível diferenciação entre a historiografia que aborda a hislÓria do Brasil produzida no Império e na República merece uma pesquisa mais detalhada, envolvendo uma comparação entre livros e manuais produzidos em cada uma destas épocas, o que não será desenvolvido aqui.

Mencionaremos apenas um arligo do visconde de Taunay, "O Tiradentes e nós, monarquistas", escrito em tomo de

1890 e republicado em sua obra Império e República (1933). Nele, Taunay protesta contra O "direi lO exclusivo da glorificação" de Tiradentes, reivinclicado pelos republicanos. Tiradentes sonhou com a libertação da terra natal, coisa que eles, monarquistas, souberam e puderam realizar. Ou seja, Taunay coloca

Tiradentes no panteão dos monarquistas.

Menciona uma sessão solene presidida por d. Pedro 1 e realizada no Instituto

Histórico e Geográfico Brasileiro a 4 de julho de 1889, na qual ele, Taunay, co memorando o centenário da morte de

Cláudio Manoel da Costa, ressaltou o

"espírito arrebatado, sôfrego, espon tâneo" de Tiradentes na luta pela independência. E termina o artigo dizendo que a república sonhada por

Tiradentes e seus companheiros nada tem a ver com "essa paródia ridícula e sanguinária do regime democrático", imposta por um grupo mínimo, "misto de pedantesca ciência e teOrias repelidas pelo simples bom senso".

Os republicanos, se não foram os únicos, foram os mais conwndentes glo rificadores de Tiradentes. Quintino

Bocaiúva (1986),' por exemplo, ao farer seu elogio em 1886, considera os repu blicanos seus herdeiros e sucessores, tendo como missão tornarem-se c1ignos do "legado que representa o sacriflcio do mártir". Dentro da idéia de buscar uma genealogia de mártires, Quintino en contra no passado "seu mais legítimo progenitor o mártir sublime que pereécu também na cruz pelo mesmo crime, de pretender reformar a humanidade e cujo nome fulgura ainda hoje na consciência cristA, como o Filho de Deus e redentor do mundo" (p. 582). Sem pretender ferir o sentimento religioso das pessoas,

Quinlino reafirma a semelhança, a identidade dos dois reformadores e da missão que se propuseram. Certamente entre esta memória de Tiradentes e a de

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