As Festas que a República Manda Guardar

As Festas que a República Manda Guardar

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Taunay vai uma longa distância. Quintino Bocaiúva, republicano hislÓrico, um dos autores do Manifcsto Republicano de 1870, faz a defesa da americanidade da República. Florença,

Gênova e Holanda são mencionados como testemunhos hislÓricos do regime republicano; entretanto, modernamente, a liberdade estaria simbolizada nos

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Estados Unidos da América. Faz"rvlo referências criticas li Alemallha,

Inglaterra, Rússia e Áustria, Quíntino reitera a posição dos Estadcx Unidos da

América como "a nação mais forre e

poderosa, a mais unida e a mais sólida, a

mais rica e a mais satisfeita, a mais tranqüila no seu trabalho, e a mais segura dos seus futuros destinos"

(Bocaiúva, 1986, \"01. I, p. 630).

"A América é a República, a América é a liberdade; é o repúdio da vassala gem a !oda e qualquec influência tradi cional ou institucional, cujas raizes se prendem ao solo da Europa e às suas constituiçOcs políticas" (Bocaiúva, 1986, vol. 2, p. 151). Frente a esta posiçao, pode-se entender melhor a de Eduardo

Prado e de seu livro, procurando moslrar que a política e o mundo americano eram uma ilusão cultivada pelos republicanos.

Em discurso no Senado, em julho de 1895, por ocasião do falecimento de

Floriano Peixoto, Quintino reafirma a posiçao do ex-presidente na memória da pátria: por ter representado em um momento crítico para a República um ponto de convergência de todas as energias, Floriano deve ser o símholo e o elo entre todos os republicanos.' Acentuando O caráter comum de

se refere a Floriano: "() um homem

todos os grandes heróis, Quintino assim modesto, singelo, de estirpe obscura, de virtudes comuns, de qualidades vulgares:

modesto e vulgar enfim como foi

Washington, como foi Lincoln, como foi

Guilherme TeU, como foram tantos outros, cujos nomes resplandecem na história da humanidade" (Bocaiúva,

1986, vol. 2, p. 268)

Os republicanos instituíram suas festas procurando estabelecer uma continuidade com eventos históricos pas sados; valorizaram a lembrança de feitos e !heróis até enlllo perdedores. A

República os resgatava em sua dignidade e valor. A proposta ,da .tradição re publicana n!lo destacava a singularidade

frawidade com palses e/ou momentos

do pais e sim seu pertcncimento a uma visualizados como representantes do lema: liben1ade, igualdade, fn!Il;",idade.

rv. O "'OPk!o110

Emília VioUi da Costa (1987) retoma com muita peilinência as (llIas versOes sobre a República. Citando textos de época,' ela sintetiza a argumentação dos republicanos: o regime republicano sempre foi uma aspiraçao nacional (haja vista as revoluçOes anteriores); a monarquia era uma anomalia na

América (argumento presente desde o

Manifesto Republicano de 1870); no Império, o poder moderador cecceava a liberdade através de arbitrariedades e abusos; havia uma centralização excessiva. A monarquia, por sua própria natureza, estava condenada.

A síntese da versão monarquista acentuava que a monarquia tinha dado ao pais setenta anos de paz interna e ga rantido a unidade nacional, o progresso, a liberdade e o prestigio internacional. A unidade nacional garantida pelo

Império e a ameaça de desmembramento produzida pela República constitui o eixo central da argumentação monar quista. São os monarquistas também que falam da proclamação como um levante militar, alheio li vontade do povo, e dão pouca atenção à atuação dos poHticos republicanos.

A historiografia monarquista contou, além de Eduardo Prado, Afonso Celso e Joaquim Nabuco, já mencionados, com O visconde de Taunay, Oliveira Lima e

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Rocha Pombo, entre outros. ISlO não significa a ausência de figuras menores c esquecidas nas hOSlCS monarquistas. Mas quem, nos dias de hoje, já ouviu falar em

Oscar Araújo ou Felício Buarque? O mesmo não se pode dizer de Nabuco ou Taunay.

EslCS dois grupos -republicanos e • monarqUistas -conslrulram suas memórias específicas e lutaram por lorná-las mais eSláveis. A memória nacional, por OUlrQ lado, procura superar as versões e consuuir símbolos, sínlCses que unifiquem, apaguem as diferenças e diluam as lembranças distimas.

Nossa hipótese é a de que o novo universo simbólico não foi capaz de conferir legitimidade à nação repu blicana. Os monarquistas, por outro lado, não foram suficientemente fortes para restaurar a monarquia; entretanto, foram-no o bastante para garantir a supremacia de sua inlCrpretação sobre o

Brasil.

Stanley Slein (1964) sugere que a imerpretação pr6-império foi dominanlC de 1889 a mcados de 1920. Seus expo entes: barJo do Rio Branco, Rocha Pom bo, Joaquim Nabuco e Oliveira Lima, entre outros, que mantiveram viva a ima gem de ordem, respeilO às autoridades, moderação, arislOCracia e paternalismo que seria o Império. Em sua figura simbólica, Pedro 1, o "imperador filósofo", teria concentrado o libera lismo, o humanitarismo, a sabedoria, enfim, o próprio e verdadeiro espírito do republicanismo. Stein observa com pertinência que a hislOriografia sobre o Segundo Reinado não pode ser divorciada das vicissitudes da República. São as agitações das décadas de 20 e 30 que produzem uma leilura de defesa do Império e de ataque à República inaugurada em 1889.

As comemoraç1lcs do centenário de nascimento do imperador, em 1925, rca tuaham O debate político-ideológico em lama da República. A avaliação do regi me se fazia de forma camuflada (sob o governo Artur Bernardes e sua Lei de

Imprensa), ao se julgar a figura de Pedro 1. Se no final do Império Pedro 1 era responsabilizado pelas fraquezas do regi me e VislO como fraco, versão que atri buía ao imperador o mote "d. Pedro Banana", agora exalLava-se a ordem imperial e o imperador virava "d. Pedro, o Magnânimo".

Afonso Celso (ainda Afonso Celso), ressalta em um discurso as qualidades de

Pedro 1, filósofo, sábio, estadista, magnânimo, enfim, um verdadeiro republicano, diferentememe dos repu blicanos exisLCntes. "A idcalização de D.

Pedro 1 revelava tudo o que os homens da República não eram, mas "deveriam ser": liberais. tolerantes, magnânimos.

eselarecidos, adversários da violência"

(Silva, 1988: 69). Esta reavaliação se dava � propósito de discutir o projeto que propunha considerar feriado nacional a data de nascimemo de Pedro 1 (Silva, 1988). Os deputados não votaram o projelO mas o presidente Artur Bernardes decretou feriado nacional a data de nascimento do imperador. Rcalizaram-se cerimônias e missas pela alma do imperador; festejou se no Colégio Pedro 1; comemorou-se no Instituto Histórico e Geográfico

Brasileiro. Ou seja, os brasileiros desiludidos com os republicanos -e com a capacidade e a honestidade dos homens públicos da República - fantasiavam o Império.

O jomal republicano O País retrata a questão: mas se o Império era esta maravilha que se está dizendo, por que se proclamou a República? Medeiros e

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Albuquerque também expressa a dúvida do momemo: "A República se fez para eliminar D. Pedro I!. Se se vem declarar que ele era um grande homem, um governante excepcional, a República foi um erro" (Silva, 1988: 6). Nesta tendência duas figuras con testam a interpretação dominante e de fendem o regime republicano, que fora deturpado pcla união das oligarquias. Vi cente Licfnio Cardoso e Gilbeno Amado "examinando o Império encontram um imperador medíocre, preso à rotina, um burocrata por excelência, cuja inca

mação da República (). Suas publi­
cações () sugerem que a inabilidade do

pacidade tornou inevitável a procla governo imperial para solucionar o problema da modernização tornou o regimc moribundo e abriu caminho para a Rcpública" (Stein, 1964: 103-4).

Vicente Licínio Cardoso está presente no volume À margem da história da

República (1924). Além de ser o organizador do volume, comparece com o texto "Benjamin Constant, o fundador da República". Entretanto, nesse volume está também Oliveira Viana, que atualiza uma versão positiva sobre o Império. A reinterpretação da mudança do re gime de império para república, dos có digos de honra e da (falta de) vinude cf vica necessária ao funcionamento do no vo regime tem obedecido às vicissitudes da vida política nos últimos 100 anos. Mesmo assim, consideramos que a interpretação dos intelectuais monar quistas, dizendo que O Império foi O garantidor da unidade nacional e fazendo

da unidade nacional a questão mais importante, mais crucial da vida política brasileira foi vitoriosa e deixou marcas que se prolongam até hoje. Os histo riadores monarquistas foram mais corn petentes, seja porque compunham a elite letrada de alta linhagem, seja porque construíram e divulgaram sua versão através de instituições corno o Instituto

Histórico c Geográfico Brasileiro, ou ainda porque foram mais longevos.'o

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