A flor do sertão:imagens femininas em A Violeta

A flor do sertão:imagens femininas em A Violeta

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Carlos Alexandre Barros Trubiliano Carlos Martins Júnior

Resumo: O Estado Novo (1937-1945) foi um período de significativas mudanças para o Mato Grosso. O programa de colonização intitulado Marcha para Oeste, anunciado pelo Presidente Vargas, em 1937, renovou não só as perspectivas de desenvolvimento para o Estado, mas, ao mesmo tempo, abriu a possibilidade da chegada de novos agentes sociais. Levando-se em consideração essa configuração e que, sobretudo na primeira metade do século X, os jornais se apresentavam como espaços privilegiados nos quais as elites dominantes travavam seus embates, expressavam pontos de vista políticos e emitiam seus projetos de desenvolvimento econômico e ordenamento da sociedade, este trabalho centrou no estudo sobre a revista mato-grossense A Violeta entre 1937-1945, observando especificamente a maneira como a imprensa representava as mulheres, por que e de que maneira eram reproduzidas tais representações e qual o lugar social de sua produção.

Palavras-chave: Imprensa. Mulher. Identidade. Representação. História.

Abstract: The New State (1937-1945) was a period of significant changes for the state of Mato Grosso. The so called ‘Marcha para Oeste’ settlement program, which was announced by President Vargas in 1937 renewed not only

Carlos Alexandre Barros Trubiliano. Mestre/SED. trubiliano@hotmail.com Carlos Martins Júnior. Doutor/UFMS. cmartins@dr.com

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A flor do sertão: imagens femininas em A Violeta the perspectives of development for the state but at the same time opened the possibility for new social agents’ arrivals. In the first half of the twentieth century newspapers were privileged spaces for the dominant elites to defend their theories, express political points of view, and present their projects of economical development and society order. Considering this configuration, this work is centered on the study of the Mato Grosso magazine ‘A Violeta’ (1937-1945) specifically observing the way press represented women, why and in which way representations were re-produced and what was the social place of that production.

Keywords: Press. Woman. Identity. Representation. Histor y.

Discutir periódicos femininos como A Violeta é pensar sobre as configurações identitárias femininas construídas na imprensa do século X. Essas podem ser entendidas como produtos de convenções e estruturas de legitimação socialmente construídas e historicamente localizadas, que não apenas refletem as visões de mundo dos agentes envolvidos em sua construção, mas também contribuíram para a construção das identidades e da memória social da época.

No entanto, para que seja possível discutir o papel desses meios de comunicação na normatização de um modelo feminino, é necessário entender o seu uso, não apenas para transmitir informação e conteúdo simbólico, mas principalmente considerar que o uso desses meios implica na transformação das interações sociais e, muitas vezes, no surgimento de novas formas de práticas sociais. Segundo o cientista social John B. Thomson, “de um modo fundamental, o uso dos meios de comunicação transforma a organização espacial e temporal da vida social, criando novas formas de ação e interação, e novas maneiras de exercer o poder,

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Carlos Alexandre Barros Trubiliano, Carlos Martins Júnior que não está mais ligado ao compartilhamento local comum”.1

Sendo assim, é importante não perder de vista que o processo de formação ou configurações identitárias se tornou mais reflexivo e aberto com o desenvolvimento das sociedades modernas, na medida em que, para construir uma identidade coerente para si mesmos, os indivíduos dependem cada vez mais da alteridade2. Concomitantemente, estes processos são cada vez mais alimentados por formas simbólicas mediadas, que expandem as opções disponíveis, à medida que enfraquecem a conexão com o local, pois permitem o acesso crescente a um conhecimento não local. Contudo, é preciso considerar que a identidade, ou melhor, as configurações identitárias, não são produtos de sistemas simbólicos externos, nem entidades fixas. Pelo contrário, são projetos que o indivíduo constrói ativamente com os materiais simbólicos a que tem acesso e com os quais “vai tecendo uma narrativa coerente da própria identidade”3, a qual se modifica com o tempo, à medida que novas experiências são vividas, gradualmente redefinindo a identidade.

Para pensar a produção dos periódicos femininos citados, recorreu-se a algumas perspectivas de Theodor Adorno que, ao analisar a cultura popular, assinala o caráter da repetição, da mesmice e da ubiqüidade. Tal fato, ao invés de acelerar o processo de conscientização, transforma-se em meio de controle psicológico, minimizando as forças de resistência individual, tornando o indivíduo automatizado.4 A fim de corresponder às expectativas de um público supostamente desiludido, atento e calejado, será esse o modelo que as publicações populares, dirigidas principalmente à mulher, irão empregar.5

Nas receitas que prescreve, a imprensa feminina não altera os princípios do conformismo e convencionalismo, dando já prontas ao público soluções para seus conflitos. O cotidiano da mulher é captado por tais publicações e as leitoras, muitas vezes, acabam seTHOMSON, John. B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ:

Vozes, 1998. p.14.GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de janei- ro: Jorge Zahar, 2002. p.29.THOMSON, John. B. Op. cit., p. 183.ADORNO, Theodor. A indústria cultural. In: COHN, Gabriel (Org.). Comunicação e indústria cultural: leituras de análise dos meios de comunicação na sociedade contemporânea e das manifestações da opinião pública, propaganda e cultura de massa nessa sociedade. São Paulo: Nacional,

1975. p. 293.NUNES Aparecida Maria. Uma História mal contada: A imagem da mulher nas publicações populares. Publicado em CD-ROM, XXIV Congresso Brasileiro da Comunicação. Campo Grande, MS. setembro, 2001.

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A flor do sertão: imagens femininas em A Violeta identificando naquelas páginas, na conversa mansa, no retrato do seu dia-a-dia.

Muitos dos assuntos tratados pelos periódicos dedicados à mulher são reinterpretados conforme os padrões de comportamento vigentes, falam de trivialidades. São receitas de bolo, cuidados com a beleza, conselhos sentimentais, notas de eventos. Enfim, um universo multifacetado que, apesar do caráter eclético, vive à margem do contexto jornalístico. Geralmente, as publicações dirigidas ao público feminino, acabam se transformando em um reflexo da vida cotidiana, da economia doméstica, das relações sociais, dos sonhos, dos desejos e das frustrações da mulher contemporânea.6

Nesse contexto, surgiu A Violeta, periódico de variedades que circulou em Cuiabá, nas cidades do interior Estado de Mato Grosso, bem como por algumas localidades do Brasil, durante a primeira metade do século X, mais especificamente entre 1916 a 1950. Criado e mantido por uma associação literária feminina, o Grêmio Júlia Lopes de Almeida7, fundado na capital mato-grossense em 27 de abril de 1916, a revista fomentou parte da vida literária e intelectual da capital e do Estado durante o mesmo período. 8

Em seu primeiro número, datado de 16 de dezembro de 1916, A Violeta, apresentava-se como: “o escrínio singelo que encerrará em cada uma das suas páginas os nossos primeiros ensaios na vida jornalística (...) a todas que conosco quiserem colaborar para o engrandecimento moral da nossa estremecida terra”9. Noutros, temos o periódico que pretendia ser um espaço para as novas escritoras iniciarem-se na profissão, na mesma medida que também se liga profundamente ao desígnio de moralizar a “estremecida terra” mato-grossense.

Segundo Yasmim Nadaf, a iniciativa da criação do

Grêmio e da Revista, surgiu a partir de um grupo de estudantes normalistas da “Escola Normal de Mato Grosso”, em Cuiabá. Essas estudantes, ligadas a algu-Idem. p.02.Júlia Lopes de Almeida (1862-

1934), escritora e feminista, nasceu no Rio de Janeiro. Descendente de portugueses que se estabeleceram no Rio de Janeiro, onde Júlia aprendeu a ler com a mãe. Quando a família mudou-se para São Paulo, deu início à carreira literária. Escrevia constantemente matérias para diversos jornais. Partindo de um ponto de vista crítico, condenava, entre outras coisas, a escravidão, a violência sexual contra a mulher, a negação do voto feminino e a supremacia masculina. Foi atuante na defesa de seu ponto de vista, chegando a publicar diversos livros como O livro das noivas, 1896; Llivro das Donas e Donzelas, 1906, entre outros.O Grêmio foi criado em 26 de novembro de 1916 e o primeiro número de A Violeta foi publicado em 16 de dezembro do mesmo ano, em Cuiabá. A

Violeta, 31/05/1935. p.2-5.NADAF, Yasmim Jamil. Sob o signo de uma flor. Estudo da revista A Violeta, publicação do Grêmio “Júlia Lopes” – 1916 a 1950. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1993, p. 23.

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Carlos Alexandre Barros Trubiliano, Carlos Martins Júnior mas senhoras e senhoritas das elites cuiabanas, desejavam “cultivar as letras femininas e patrícias”10. Portanto, já em sua fundação, A Violeta e o Grêmio ligavam a sua existência ao público leitor feminino e escolar, além de uma parcela também feminina da sociedade cuiabana que quisesse (ou tivesse condição) de cultivar as letras.

Inicialmente, a proposta de circulação de A Violeta foi bimensal, mas com o decorrer do tempo oscilou para a mensal e, posteriormente, à circulação de um número a cada quinzena, definido-se, a partir de 1920, pela circulação mensal, havendo, desde aí, dois números referentes ao mesmo mês somente nos casos de falhas de produção em algum mês anterior.1

É interessante observar a estrutura física de A

Violeta que, apresentando pequeno formato de brochura, 15x 23cm, em muito se assemelhava a um caderno escolar, livro de lições ou ainda a um diário íntimo, de uso muito comum das moças da época, em que, não raro, registravam poesias, provérbios e máximas de sua autoria ou de seus autores de preferência, escritos que também podiam ser encontrados nas páginas da revista.

Outro elemento importante a ser observado são as capas que, via de regra, publicava fotos de autoridades e personalidades ilustres estaduais e nacionais por ocasião de suas visitas a Mato Grosso, ou os homenageando em seus aniversários. Também há de se destacar a publicação de fotos registrando os festejos cívicos e militares. Além desta configuração, mas funcionando no mesmo sentido “instrutivo, útil e oficial”, mostrava-se também a ilustração de localidades públicas, como as igrejas, escolas, bibliotecas e praças.

A revista, sem diagramação sofisticada em seu formato e apresentação, é capaz de revelar a significação do novo papel da mulher, não mais restrito à esfera privada do lar, da intimidade familiar e conjugal, mas associado à esfera pública da sociedade. Contudo, é importante observar que nas páginas de A Violeta es-NADAF, Yasmim Jamil.

Op.cit., 1993, p. 23.A periodicidade de publicação da revista variou nas décadas de 1930-1940, havendo números trimestrais e meses em que houve mais de um número. Mais dados sobre a periodicidade das publicações da revista em NADAF, Yasmim Jamil. Op.cit.

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A flor do sertão: imagens femininas em A Violeta ses novos espaços de atuação feminina não dissociavam as mulheres dos papéis socialmente designados a elas: de obediente filha, dedicada esposa e virtuosa mãe. Como destacou Júlia Lopes de Almeida:

sentimentos de um filho () Ser mãe não e fácil, desde que a

Não sei que haja, para uma mulher de coração, prazer comparável ao de criar seus filhos! Eu confesso, sinto um grande desvanecimento e um Íntimo orgulho quando olho para o meu filho, criança robusta, que espalha por toda a casa o seu riso; e para a minha filhinha, que tem ainda o olhar dos que principiam apenas a viver (...) Não há mais nada encantador do que acompanhar o desenvolvimento de uma criança; e só a mãe pode seguir com atenção desde que crie, o desabrochar da inteligência e dos gente queira ser — como deve ser.12

Outro aspecto importante na estrutura das edições da Revista é sua abertura, que começa com uma Chronica abordando os mais diversos assuntos, desde comportamento até reivindicações de construção de obras públicas, e o seu fechamento com a seção Noticiário, que cumpre o roteiro fixo de relatar os acontecimentos sociais da capital e do Estado, tais como casamentos, visitas ilustres a Mato Grosso, viagens de personalidades das elites estadual, aniversários, nascimentos e notas de falecimentos.

Essa estrutura é significativa, uma vez que a vida real aparece tematizada na abertura e fechamento de cada número, haja vista que enquanto a Chronica tematizava reivindicações de progresso, o Noticiário pretendia descrever o cotidiano civilizado no sertão. No espaço entre essas duas seções, a variedade era grande, não havendo rigor no estabelecimento de seções.

Entretanto, durante o Estado Novo (1937-1945), constata-se a continuidade, o surgimento e o desaparecimento de alguns títulos. Em grande parte, eram artigos de entretenimento, que surgiram em determinado exemplar da revista e permaneceram temporari-A Violeta. Cuiabá. Maio de

Caderno Espaço Feminino, v.18, n.2, Ago./Dez. 2007351NADAF, Yasmim Jamil.

Carlos Alexandre Barros Trubiliano, Carlos Martins Júnior amente, alguns sucessivamente, outros mais esporadicamente. Dentre as seções editadas nesse período podem ser arroladas a seção “Perfil”. Surgida no número 3 da Revista, em janeiro de 1917, perdurando até agosto de 1941, essa seção trazia a descrição do perfil de um cuiabano ou cuiabana anônimos, cujo nome deveria ser desvendado pelo leitor13. Como exemplo disso temos a descrição de um perfil feito por América Paes de Barros:

Convidada a colaborar n’a A Violeta (...) procurarei ser fiel e clara na minha descrição (...) descrevendo o perfil de minha escolhida, a distinta senhorita: C.M.B. É uma creatura adorável, dotada de muitos atrativos e de uma perceptibilidade admirável (...) Tem uns olhos escuros e grandes aos quais superpõem umas sobrancelhas finas e arqueadas, dando uma expressão carinhosa e meiga ao seu olhar (...) Simples nos seus modos, traja sempre com singeleza, dispensando os adornos e enfeites, da moda, por serem desnecessários para completar sua elegância e distinção. Despida de vaidades e preconceitos, tem um espírito elevado, não desfazendo de quem quer que seja (...) É bôa e caritativa, e por isso mesmo muito estimada. (...) Não há quem a conheça que não fique sua admiradora. Atenciosa e gentil, recebe sempre as amiguinhas com seu sorriso encantador.14

A rigor, a seção “Perfil” procurava elaborar modelos de conduta para homens, mulheres, rapazes e, sobretudo, moças, que, assim como a senhorita C.M.B., deveriam ter como qualidades a delicadeza, a bondade e caridade para com o próximo, além de se comportarem com elegância e distinção perante a sociedade.

Outro exemplo significativo é a seção “Correspondência de D. Marta”. Surgida a partir de agosto de 1918, perdurando até 1940, essa seção editou as cartas ficcionais de Dona Marta, personagem que, segundo Yasmim Nadaf, teria sido criada por Maria Dimpina Lobo, uma das colaboradoras da Revista. Dirigindo-se sempre às leitoras como “Minhas Amiguinhas”, em tom professoral, D. Marta dava conselhos às “amáveisA Violeta, Cuiabá. Agosto de

1941. Seção Perfil, p.13

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1938. Seção Correspondência de D. Marta, p. 8-9.

leitoras”, ou fazia reivindicações de progresso para Mato Grosso, como exemplificado abaixo:

Caras amiguinhas

Nesta correspondência pretendo referir-me ao asumpto magno que me prende a atenção presentemente; aquelle que se encerra nessa phrase que se tornou vulgar, graças a sua alta significação para os interesses da Pátria — Rumo ao Oeste! (...) É brado, intelligente e enérgico de quem comprehende o que é o Brasil (...) Pois foi comprehendido por S. Excia. o Snr. Dr. Getulio Vargas, ilustre filho do Sul (...) Rumo ao Oeste na representação verdadeira da sã política do Paiz, com a escolha de ilustres filhos desta nossa terra — D. Aquino, General Eurico Dutra, Capitão Filinto Müller, General Rondon para nobres e importantes missões; Rumo ao Oeste na defesa da saúde publica, no traçado das estradas, na construção de prédios na incentivação da agricultura e, por ultimo, coroando toda a sua benemerência pelo nosso Estado, a sua visita a esta Capital.15

Em consonância com o discurso do regime estadonovista, essa correspondência de D. Marta, editada em 1938, por ocasião da visita do presidente Vargas a Mato Grosso, também se traduzia no ideário da Marcha para Oeste: a imagem do progresso em marcha, sendo conduzido pelo grande líder da nação e os novos bandeirantes, ilustres filhos da terra que, juntos, seriam responsáveis pela pacificação e civilização do bravio sertão mato-grossense.

Também é possível destacar a publicação de alguns textos de renomados escritores da literatura universal e brasileira, tais como o de Rui Barbosa “5 de novembro – Dia da cultura”16, publicado em novembro de 1943, como parte das homenagens ao dia da Proclamação da República, e sonetos de Olavo Bilac como “Último Carnaval”17, publicado em fevereiro de 1940, que retratava a vida e morte de “herói folião”18. Tais textos compunham uma pequena amostra de seleção e intenção de formação de gosto dos leitoresA Violeta. Cuiabá. Novembro de 1943, p. 13.A Violeta. Cuiabá. Fevereiro de

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Carlos Alexandre Barros Trubiliano, Carlos Martins Júnior por parte da revista.

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