Anais 2007

Anais 2007

(Parte 1 de 6)

Dennis Rodrigo Damasceno Fernandes

Fabiano Coelho

Giani Vendramel de Oliveira José Miguel Garnica Júnior

Maria Celma Borges

Regivan Antônio de Saul Renan Gonçalves Bressan

X SEMANA DE HISTÓRIA 2007

História em movimento: caminhos, culturas e fronteiras

24 a 28 de setembro de 2007

Campus de Três Lagoas – UFMS Unidade I

Reitor: Manoel Catarino Paes - Peró Vice-Reitor: Amaury de Souza

Obra aprovada pelo CONSELHO EDITORIAL DA UFMS Resolução 1/07

CONSELHO EDITORIAL Célia Maria da Silva de Oliveira (Presidente) Antônio Lino Rodrigues de Sá Cícero Antonio de Oliveira Tredezini Élcia Esnarriaga de Arruda Giancarlo Lastoria Jackeline Maria Zani Pinto da Silva Oliveira Jéferson Meneguin Ortega Jorge Eremites de Oliveira José Francisco Ferrari José Luiz Fornasieri Jussara Peixoto Ennes Lucia Regina Vianna Oliveira Maria Adélia Menegazzo Marize Terezinha L. P. Peres Mônica Carvalho Magalhães Kassar Silvana de Abreu Tito Carlos Machado de Oliveira

Dados Internacionais de Catalogação na publicação (CIP) (Coordenadoria de Biblioteca Central – UFMS, Campo Grande, MS, Brasil)

Semana de História 2007 (10. : 2007 : Três Lagoas, MS)

[et al.], organizadores. -- Campo Grande, MS : Ed. UFMS,

Anais. X Semana de História 2007 : história em movimento : caminhos, culturas e fronteiras : 24 a 28 de setembro de 2007, Campus de Três Lagoas, UFMS Unidade I / Dennis Rodrigo Damasceno Fernandes 2007. 426 p. ; 21 cm.

ISBN: 978-85-7613-112-0

1. História – Pesquisa – Congressos. I. Fernandes, Dennis Rodrigo Damasceno. I. Título.

S471a

CDD (2) 907

Dennis Rodrigo Damasceno Fernandes

Fabiano Coelho

Giani Vendramel de Oliveira José Miguel Garnica Júnior

Maria Celma Borges

Regivan Antônio de Saul Renan Gonçalves Bressan

X SEMANA DE HISTÓRIA 2007

História em movimento: caminhos, culturas e fronteiras

24 a 28 de setembro de 2007

Campus de Três Lagoas – UFMS Unidade I

Campo Grande - MS 2007

Projeto Gráfico, Editoração Eletrônica, Impressão e Acabamento Editora UFMS

Revisão A revisão lingüística e ortográfica é de responsabilidade dos autores

Imagem da Capa Mapa Geográfico de América Meridional, Juan de la Cruz Cano y Olmedilla, 1775. MA (Apud COSTA, Maria de Fátima. História de um país inexistente: Pantanal entre os séculos XVI e XVIII. São Paulo: Estação Liberdade: Kosmos, 1999)

Direitos exclusivos para esta edição

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL Portão 14 - Estádio Morenão - Campus da UFMS Fone: (67) 3345-7200 - Campo Grande - MS e-mail: editora@editora.ufms.br

Editora associada à

ISBN: 987-85-7613-112-0 Depósito Legal na Biblioteca Nacional Impresso no Brasil

A X Semana de História, realizada de 24 a 28 de setembro de 2007, aborda a temática: “História em Movimento: Caminhos Culturas e Fronteiras” e tem como objetivo proporcionar a aproximação entre pesquisadores de História e outras áreas das Ciências Humanas. Além disso, se propõe a realizar um debate amplo com a participação não só da comunidade acadêmica como também de alunos e professores da rede de ensino fundamental, médio e demais interessados.

A semana organizada pelo curso de História do CPTL – UFMS é coordenada pela professora Maria Celma Borges que com competência tem mantido sempre o entusiasmo, mesmo durante a travessia das dificuldades. O projeto, desde o seu início, foi coletivo envolvendo em suas atividades alunos, professores e outros colaboradores tanto do CPTL como da comunidade não universitária. Essa atividade representa os esforços que o curso de História vem realizando nos últimos anos, tendo por objetivo fortalecer o ensino, a pesquisa e a extensão oferecendo assim, uma educação pública de qualidade. Portanto, a X Semana de História e a publicação dos Anais representam concretamente os resultados dessa jornada.

As comunicações enviadas como artigo estão agrupadas por afinidades temáticas: os eixos constituídos são:

1 -Do Passado ao Presente: Histórias, Culturas e Memórias do

Sul de Mato Grosso ao Mato Grosso do Sul. 2 -História Indígena em Mato Grosso do Sul 3 -Da Colônia Portuguesa à Guerra com o Paraguai 4 -A Arte, a Cultura e a Ficção: interrelações na História 5 -Os Mundos do Trabalho e do Capital 6 -As Fontes e os Lugares da Memória na Produção da História 7 -Questão Agrária: Olhares na História e na Geografia 8 -Entre o Gênero e a Saúde Mental: considerações de Pesquisa 9 -Da Religiosidade às Fronteiras do Crime e da Justiça

Em todos esses trabalhos, o pesquisador recolheu, organizou vestígios e informações que estavam dispersas. Enfrentando os desafios da pesquisa, os dados foram interpretados tornando-se compreensíveis. No conjunto dos artigos existe uma pluralidade de leituras teóricas e metodológicas. Utilizando-se do escrito, do oral e do visual como fontes e interdisciplinaridade, podemos perceber o alargamento das fronteiras na construção da História que vem ocorrendo nas últimas décadas.

O evento ainda proporciona amplos debates nas conferências, mesas-redondas, mini-cursos e exposições, somando-se ainda o espaço para as comunicações e para a apresentação de painéis. Destacamos aqui o lançamento do Guia do Núcleo de Documentação Histórica Prof. Honório de Souza Carneiro do CPTL que foi organizado pelo Prof. Vitor Wagner Neto de Oliveira junto aos alunos. Esta publicação oferece o conteúdo do acervo para todos aqueles que pesquisam a historia regional.

Portanto, a X Semana de História e a publicação dos Anais são uma oportunidade de aprofundamento do diálogo entre pesquisadores e demais membros da sociedade. Sabemos que as experiências acumuladas na academia só têm sentido quando levadas além das suas fronteiras, proporcionando uma reflexão crítica e troca de vivências, sendo assim possível favorecer mudanças efetivas na sociedade.

As pesquisas já concluídas ou em andamento que estão sendo apresentadas procuram compor o conhecimento histórico analisando o passado relido pelo olhar do presente, pois como afirmava Benedetto Croce nos seus escritos sobre a teoria da História “toda verdade histórica é contemporânea”.

Esperamos que as análises aqui propostas possam contribuir, de forma, mesmo que modesta, para um maior conhecimento da sociedade atual que, mergulhada numa ordem mundial globalizada, vivendo sob o signo da precariedade, do provisório, do descartável e do desamparo, busca na aventura do saber novos caminhos e respostas para suas inquietações. Neste volume dos Anais está a síntese dos nossos esforços, pois acreditamos no pensamento criador e critico como possibilidade de um devir melhor.

Agradecemos aos pareceristas pelo empenho e seriedade na avaliação dos artigos. À PREAE por novamente ter contribuído para que fosse possível a publicação destes Anais. Também a todos aqueles que das mais variadas formas se empenharam neste projeto, nossa gratidão.

Giani Vendramel de Oliveira José Miguel Garnica Junior Norma Marinovic Doro

Regivan Antonio de Saul

Primavera de 2007

APRESENTAÇÃO......................................................................................... 5

Saulo Alvaro de Mello15

Ladário e o trem naval de Mato Grosso - história e memória (1837-1935)

Fernanda Amélia Leal Borges Duarte28

A missão Franciscana no antigo Mato Grosso: a perseguição dos frades em Paranaíba

Carlos Martins Junior38

Rumo à brasilidade: Mato Grosso e a Marcha para o Oeste (1937-1945) Carlos Alexandre Barros Trubiliano

Celeida de Souza Silva54

As festas escolares e a cultura cívica em Mato Grosso do Sul (1972-1987)

Wagner Cordeiro Chagas69

De Harry Amorin a Zeca do PT: breve análise dos governos estaduais de Mato Grosso do Sul SUMÁRIO

Giovani José da Silva81

Caminhos, culturas e fronteiras: olhares na História indígena em Mato Grosso do Sul

Dennis Rodrigo Damasceno Fernandes92

Estudo da proposta pentecostal frente a etnia Terena: em Brasilândia-MS

Vivian Maria de Oliveira109

O mito da colonização na construção da história do Brasil

Renan Gonçalves Bressan122

Brasil colônia: A descoberta e construção da empresa a serviço da metrópole Luso-européia

Bruno Mendes Tulux133

A guerra do Paraguai: Racismo na Formação dos exércitos platinos

Valdson Luciano Corrêa Diniz149

A imigração – o caso de Abdelmalek Sayad e Nélida Piñon

Vânia Maria Lescano Guerra159

Sobre a identidade da cultura transgressora Jefferson Barbosa de Souza

A guerra que o Paraguai venceu: uma história alternativa do maior conflito sul-americano Rodolfo Rorato Londero ......................................................................... 171

Wagner Barbosa dos Santos185

O conceito de alienação no modo de produção capitalista

Juliano Alves da Silva200

Trabalho – uma questão a ser repensada

Hajime T akeuchi Nozaki209

A crise do capital na fronteira do século XXI

Vitor Wagner Neto de Oliveira227

Núcleo de Documentação Histórica

Lays Matias Mazoti236

A utilização das fontes na pesquisa histórica: problemas e metodologias Thalita da Silva Gonçalves

Alan da Silva Junqueira246

Novas tecnologias: uma história do computador e Internet

Odilon Cadeira Neto260

A negação da história: o caso da Editora Revisão

Mariana Esteves de Oliveira273

Entre fazer a história e produzir a memória

Tiago de Jesus Vieira286

Fanzines e Punk rock: O uso da contracultura como grito de uma juventude amordaçada em Ilha Solteira/SP 1994 à 2006

Os camponeses e a questão agrária brasileira: breves considerações Maria Celma Borges ............................................................................... 301

Rosemeire Aparecida de Almeida314

A terra e a comida como elementos centrais da sociabilidade camponesa

Fabiano Coelho329

O historiador e o tempo presente: considerações de pesquisa

Andrey Minin Martin340

Representações e a memória: contribuições teóricas para o estudo da questão agrária

Mariana Quadros Gimenez357

Travestis profissionais do sexo sob a perspectiva do estudo de gênero

Vânia Aparecida de Jesus Queiroz369

A reforma psiquiátrica: considerações sobre o movimento da luta antimanicomial

Marcelo Dalla Vecchia379

História e percurso da atenção à saúde mental: questões psicossociais

Aline Alves Bertuci393

Ritos, entidades, praticantes. A umbanda social

Ricardo Lopes Batista405

Os processos urbanos e as fronteiras do crime

Sociedade, língua e direito: fragmentos de teoria Daniel de Mello Massimino .................................................................... 415

LADÁRIO E O TREM NAVAL DE MATO GROSSO HISTÓRIA E MEMÓRIA (1873-1935)

Saulo Alvaro de Mello1

O projeto pombalino, executado pelos luso-brasileiros, no sentido de avançar ruma às terras castelhanas resultou na ampliação da colônia portuguesa em cerca de mais dois terços do território brasileiro. Os caminhos fluviais, como o Rio Paraguai, o Rio São Lourenço e o Rio Cuiabá, percorridos pelo bandeirante Pascoal Moreira Cabral, permitiram o acesso ao estratégico lugar onde se assentou Cuiabá e possibilitou a ocupação e o povoamento rápido de Mato Grosso (BRAZIL, 1999, p. 120). A colonização portuguesa envolvendo ocupação, povoamento e segurança dos espaços lindeiros de Mato Grosso redundou no surgimento de algumas cidades coloniais, como Diamantino, Vila Bela, Cuiabá, Cáceres, Corumbá, Ladário, Miranda entre outras. Foram cidades que nasceram para atender ao plano geoestratégico da política portuguesa, sob as estritas “Instruções” da Coroa metropolitana.

Ladário fundada para dar suporte agrícola a Praça Militar de

Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque (Corumbá) permaneceu como Retiro de Pescadores, enquanto a referida praça se transformou num importante entreposto comercial-fluvial a partir da segunda metade do século XIX. Para dar luz a compreensão deste profundo esquecimento institucional e da memória é basilar as lições de Jacques Le Goff, de como cada época fabrica mentalmente o passado histórico (LE GOFF, 1992), e entender seu atraso como fruto de “(...) um débil aparato estatal local” (QUEIROZ, 2003, p. 20), montado em Mato Grosso pela coroa.

Esse passado histórico envolveu a cidade de Ladário num manto de esquecimento. Ainda para Jacques Le Goff, há duas histórias: a da memória e a dos historiadores. A primeira é deformada e anacrônica, a segunda deve esclarecer e retificar os erros da memória. Para retificar a memória, é preciso entendê-la como um jogo de poder que aceita manipulação consciente ou inconsciente, portanto a história não deve usála para manipular fatos, mas na sua explicação (LE GOFF, 1992). Apesar do emudecimento da historiografia sobre o espaço urbano denominado Ladário, este simples Retiro de Pescadores passou à condição de Freguesia (1896), Sub-Município (1948) e, município (1953).

Parte das transformações verificadas nesta mancha urbana, esta ligada à fundação do Arsenal de Marinha de Ladário em 1873, que atraiu para a região centenas de operários. Os investimentos necessários às instalações das obras civis atraíram também comerciantes, promoveu o arruamento e construção de moradias, transformando Ladário em uma “Florescentíssima povoação”.

Para dar conta da problemática que elegemos como objeto e dar-lhe historicidade, procura-se aproximar da verdade histórica, tentando desmontar mitos forjados em torno dela. O historiador Jacques Le Goff lembrou que “(...) A história deve esclarecer a memória e ajudála a retificar seus erros” (LE GOFF, 1992, p. 29). Retificar os erros da memória histórica e coletiva sobre a Ladário e o Trem Naval de Mato Grosso é perseguir os fatos como meio de elucidar os juízos emitidos sobre eles. Na perseguição deste objetivo são importantes os ensinamentos de François Dosse de que o historiador tem o dever de memória e seu compromisso é com a verdade, contra aqueles que querem manipular a história (DOSSE, 2003).

A memória tem propriedade de conservar a informação as quais o historiador se baseia para atualizar as impressões do passado. Nas condições descritas pretende-se desvelar o significado desse trabalho para a vida social e material de Ladário. Ultrapassar a fronteira entre o dizível e o não dizível é revelar as zonas submersas dos silêncios, para assim construir uma história em torno dessas alterações e as contribuições da transferência do Trem Naval de Mato Grosso para Ladário e a fundação da Casa Bancária Nicola Scaffa.

Desnudar o esquecimento sobre essa importante fase da História de Ladário, trazendo a luz seu passado, é contribuir para preservar essa memória envolta no manto do silêncio dando vida aos seus contornos e imagens como afirma Maurice Halbwachs:

(...) se as imagens se fundem tão intimamente com as lembranças, e se elas parecem emprestar a estas sua substância, é que nossa memória não é tabula rasa, e que nos sentimos capazes, por nossas próprias forças, de perceber, como num espelho turvo, alguns traços e contornos ( talvez ilusórios) que nos devolveriam a imagem do passado” ( HALBWACHS, 1990, p. 28).

O Trem Naval de Mato Grosso e a Casa Bancária Nicola Scaffa partes da memória da cidade de Ladário, permaneceram bastante tempo no silêncio, que junto com os esquecimentos revelam os mecanismos de sua manipulação. Trazer para o presente seus contornos é dar-lhe inteligibilidade, pois o imobilismo é a antítese da história. A respeito das lutas travadas pelo pertencimento e dominação da memória, escreve Jacques Le Goff:

(...) a memória coletiva foi posta em jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 1992, p. 426).

Contra esses esquecimentos devem-se levantar as memórias subterrâneas das culturas dominadas, considerando que a memória da Cidade de Ladário esta intimamente ligada à transferência do Trem

Naval de Mato Grosso e a fundação da Casa Bancária Nicola Scafa (1935), que juntas vão contribuir para transformar a povoação daquela localidade, de um simples retiro de pescadores, numa “florescentíssima povoação”.

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