Entre o paraíso e o inferno: a natureza nas representações da conquista dossertões do Cuiabá e do Mato Grosso (século XVIII)

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Entre o paraíso e o inferno: a natureza nas representações da conquista dos sertões do Cuiabá e do Mato Grosso ( século XVIII)

Profª Ms. Thereza Martha Borges Presotti

Departamento de História/ UFMT-Universidade Federal de Mato Grosso e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da UnB

Em nossa contemporaneidade, a espacialidade conhecida geopoliticamente como estado de Mato Grosso e centro da América do sul, além de conter em seu território os biomas do Pantanal, Cerrado e Amazônia, compondo uma condição de especial biodiversidade ecológica, 38 nações indígenas têm neste mesmo espaço suas terras “reservadas” desenhando fronteiras de complexa diversidade cultural, em permanentes relações com a sociedade nacional.

pressionadas, vão vivenciar violentos conflitos

O Pantanal, nome dado no século XVIII ao ambiente que compreende uma rede de rios formadores da bacia do rio Paraguai/Prata, além de Parque Nacional e Patrimônio da Humanidade, passou a ser considerado pela Unesco como Reserva da Biosfera do Planeta. Portanto, esta “natureza” vem sendo representada nas décadas finais do século X e entrada deste novo milênio como mais um cenário de responsabilidade global, fronteira de reserva ecológica para a conservação da biodiversidade e do clima planetário. Neste mesmo complexo de águas a proposta de construção da Hidrovia Paraná-Paraguai, para atender o Mercosul, vem provocando polêmicos embates. Quanto ao Cerrado, apesar da criação de Parques ou áreas de preservação nas últimas décadas, a expansão das monoculturas de arroz, soja, algodão, e as pastagens, dominam a paisagem, causando outros sérios problemas ambientais e sócioculturais. Na Amazônia, a expansão da fronteira agrícola desencadeada principalmente a partir da década de sessenta do século X, viabilizada através de projetos de colonização de capitais públicos e/ou privados, a construção de estradas como a BR 364 (Cuiabá/Porto Velho-RO) e a BR 163 (Cuiabá-Santarém-PA), fizeram surgir diversas cidades, grandes agro-pecuárias, causando fortes impactos na floresta com a exploração madeireira e uso de queimadas para liberação de grandes áreas para pastagens, além dos garimpos, que ainda vêm provocando irreversíveis danos nos solos e nas águas. As diversas comunidades indígenas, novamente

Teses com discussões a respeito das relações da sociedade com a natureza no século

XIX e primeira metade do X, evidenciaram nas narrativas de viajantes estrangeiros e nacionais, nos discursos de autoridades políticas e empresariais e da imprensa, um conjunto de representações da Província e do atual estado de Mato Grosso, como lugar pobre e longínquo, habitado por “selvagens indômitos”, onde a natureza em sua exuberância e abundância precisava ser vencida pelo avanço da “civilização”.1 E em tempos de colonização mais recente, é possível constatar que o imaginário dos migrantes que vem de outras regiões do país está povoado de uma série de “causos”, onde no Mato Grosso, os “índios selvagens” podem atacar até nas ruas das cidades junto a feras perigosas como onças, jacarés, cobras etc.2

Por outro lado, na onda do eco-turismo, imagens pela mídia divulgam a atrativa natureza pantaneira mato-grossense em toda sua exuberância paradisíaca: paisagens repletas de pássaros e jacarés, uma grande fartura de peixes, a emblemática sucuri e a temida onça, e outros tantos curiosos animais a “conviverem” nas pousadas e/ou fazendas de gado. Freqüentes matérias jornalísticas também tratam do Cerrado e da Amazônia, esta última em maior evidência atualmente, seja para a divulgação de pesquisas ecológicas, de encontros científicos ou eventos voltados para políticas de desenvolvimento sustentável que anunciam e reforçam idéias da rica biodiversidade, potencialidades a serem “descobertas”, a abundância das águas e das terras, as culturas exóticas etc. Neste mesmo sentido, atraem grande audiência imagens de indígenas recém contatados, o conhecimento da floresta ou o tema dos rituais xamânicos com uso de ervas curativas.

Mas, contraditoriamente, diante de interesses de grandes empresas multinacionais ou nacionais, visando atrair projetos e investimentos, a contínua reprodução de discursos que divulgam tais espaços “vazios” ou muito pouco aproveitados em suas riquezas, acompanhado do conhecido dito popular de que “é muita terra para pouco índio” já que habitada por índios no estágio primitivo da “idade da pedra”; e ainda àqueles debates que subvertem e depreciam veementemente os projetos de ONGs ambientalistas e indigenistas, principalmente quando tratam da criação de áreas protegidas ou demarcação de terras indígenas. Tais discursos denunciam enfim a incompetência e ineficácia da elite regional na exploração “racional” dos recursos naturais e a premente necessidade da expansão do “desenvolvimento” por novos bandeirantes, prontos a colonizar este “promissor” estado, para então retomar sua vocação de “celeiro do país” ou como área privilegiada de expansão da fronteira agrícola.

Este recorte de tempo presente é para lembrar de que o historiador, ao invocar vozes do passado, esta vivenciando um presente pleno de contradições (que aí estão para esquentar

1 Ver teses de doutorado de Lylia da Silva Guedes Galetti, Nos confins da “civilização: sertão, fronteira e identidade nas representações sobre Mato Grosso, São Paulo: FFLCH/USP, 2000; e de Inês Malta Castro, Sociedade e Natureza em Mato Grosso (1850 -1930), Brasília: CDS, UnB, 2001 2 Em Curso de Educação Ambiental “História de MT: Sociedade e Natureza” por mim ministrado (2002) em Juína, Castanheira e Juruena, cidades ao norte de MT, estas visões foram evidenciadas em entrevistas com professores.

ainda mais estas fronteiras) e que assim como neste presente, no passado, também havia projetos de futuro da sociedade em relação à natureza.

Proponho neste texto apresentar algumas reflexões preliminares e resultados parciais de minha pesquisa3, delimitados na fase inaugural da conquista dos sertões e minas do Cuiabá e do Mato Grosso, as três primeiras décadas do século XVIII, sob a administração da Capitania de São Paulo (1719-1748), tendo como pólo colonizador a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá onde estão enfatizadas as ligações no eixo sul, através das monções pelos rios da bacia do rio Paraguai, no ambiente do Pantanal; e o momento inicial de expansão da fronteira colonial na margem oriental dos Guaporé, ambiente de Floresta Amazônica, quando “descobertas” as minas do Mato Grosso nos sertões do Pareci. Observo ainda estar atenta ao quadro mais geral do contexto econômico, político, social e cultural-científico da Europa Moderna, no sentido de reconhecer os direcionamentos dados pelo Império português no processo de expansão das fronteiras coloniais nesta parte da América.

Para tornar mais explícito o meu objeto de estudo, proponho re-visitar nas temporalidades e espacializações da conquista e formação de uma sociedade colonial nesta parte central do continente sul-americano, as narrativas construídas ou “representações” acerca da natureza, caracterizada em suas mais diversas manifestações. E, ao tratarem dos costumes dos gentios, ver revelados os usos dos recursos naturais pelos habitantes “naturais” - os “índios”. Penso assim poder trazer contribuições para a compreensão de aspectos constitutivos das relações da sociedade com a natureza, as práticas sociais e culturais, vistas em suas dimensões históricas, seculares. Acredito ainda que ao incorporar resultados desta pesquisa no ensino de história, creio poder participar da construção dos novos paradigmas educacionais no campo da educação ambiental, introduzindo novos ângulos para repensar nosso passado e presente, onde a história contribua para refletir as relações históricas das sociedades com a natureza na produção de novas práticas sociais.

Penso que para compreender a teia de significações acerca da Natureza, em primeiro lugar, o entendimento de que se constitui em uma dada realidade social e que se formula e reformula ao longo dos processos históricos, sendo representações acerca do mundo natural, percepções elaboradas nas relações historicamente construídas por indivíduos em sociedades de onde emergem as práticas sociais, culturais. Portanto, é no campo da história cultural, no estudo das representações que busco assim “identificar o modo como em diferentes lugares e

3 Refiro-me à pesquisa de tese de doutoramento que desenvolvo na UnB, sob a orientação do Prof. Dr. Corsino Medeiros dos Santos com o título “Natureza e Sociedade na conquista colonial da Capitania de Mato Grosso: a parte central da América do sul (1718-1792)” momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”. 4 Os espaços e demais aspectos do ambiente natural são vistos, sentidos, definidos, desenhados, narrados por sujeitos em suas temporalidades, conforme suas relações sociais, econômicas, políticas. Então reflito com Keith Thomas:

O interesse pelo ambiente natural e as preocupações com a relação entre o homem e as outras espécies costumam ser vistos como fenômenos recentes (...) Para entender tais sentimentos atuais devemos retornar ao início do período moderno. Com efeito, foi entre 1500 e 1800 que ocorreu uma série de transformações de maneira pela qual os homens e mulheres, de todos os níveis sociais, percebiam e classificavam o mundo natural ao seu redor. Alguns dogmas desde muito estabelecidos, como o lugar do homem na natureza, foram descartados nesse processo. Surgiram novas sensibilidades em relação aos animais, as plantas e a paisagem.5

No sentido desta reflexão, Francisco Carlos Teixeira da Silva ao tratar do campo da “História das Paisagens” e da historicidade desta abordagem, diz da importância compreensão das relações de interdependência entre Natureza e Cultura:

prolongada atividade humana:“a natureza virgem não é mais do que um mito

Desde o final do século XVIII há, entretanto, uma sólida tendência de se pensar a natureza em oposição ao homem ou à “cultura”. Particularmente o idealismo e o romantismo alemães, no século XIX forçaram uma distância absoluta entre Natur e Cultur.(...) Tal visão contaminou fortemente a história, como as demais ciências sociais(...). Especialmente na história econômica a distinção assumiu aspecto absoluto. Aí a paisagem que envolvia os homens foi percebida como um dado da natureza, anterior e autônoma em relação ao homem (...) Mesmo o “olhar treinado” não percebia, de imediato, em paisagens ditas naturais - como a floresta equatorial úmida ou na savana -a decisiva ação do homem. (...) Devemos entender a natureza não mais como um dado externo e imóvel, mas como um produto de uma criado pela ideologia de civilizados sonhadores de um mundo diferente do seu.” 6

Ao tratar de percepções do mundo natural e colonização das terras na América do norte na fase de expansão colonial inglesa, o historiador Keith Thomas, reflete acerca de algumas questões que sugerem possíveis semelhanças no processo da conquista colonial no centro da América do sul.

4 Neste sentido tomo como referencia conceitual Roger Chartier, História Cultural: entre práticas e representações, 1990, p.16 5 Keith Thomas, O homem e o mundo natural.,1988. p. 18 6 Francisco Carlos Teixeira da Silva, “História das Paisagens”, in: Ciro Flamarion Cardoso & Ronaldo Vainfas, Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia, 1997, p. 204

Como teria progredido a civilização sem a limpeza das florestas, o cultivo do solo e a conversão da paisagem agreste em terra colonizada pelo homem? (...) Convertia a natureza em cultura. Terra não cultivada significava homens incultos.(...) E quando os ingleses setecentistas mudaram-se para Massachusetts, parte de sua argumentação em defesa da ocupação dos territórios indígenas foi que aqueles que por si mesmos não submetiam e cultivavam a terra não tinham o direito de impedir que outros o fizessem.7

Enfim, tratar da natureza em territorialidades8 indígenas na primeira metade do século XVIII no centro da América do sul, descritas por agentes da conquista colonial, remete a um conjunto de significados, representações de “sentidos” em um tempo e lugar pleno de historicidade, onde se compõem e articulam culturas, jeitos de ser e de fazer, no espaço concreto (natural e social-cultural) e transcendente.

Os sertões do Cuiabá e do Mato Grosso

Águas, terras, matos e numerosos reinos ou sertões de gentios foram percorridos no processo da conquista colonial desta parte mais central da América do Sul.9 Desde as primeiras décadas do século XVI, expedições espanholas em busca de lendárias riquezas navegam nos caminhos das águas do rio Paraguai, região que passa a ter registro na cartografia como Laguna de los Xarayés, evidenciando tanto a abundância das águas quanto numerosa presença de sociedades ameríndias.10

De ocupação desde tempos imemoriais por sociedades ameríndias, estas territorialidades foram nomeadas nas primeiras décadas do século XVIII por sertanistas apresadores de índios como “sertões do Cuiabá”, em referência ao rio Cuiabá, afluente do rio

7 Idem, Op. cit., p. 17 8 Este conceito está entendido aqui como territórios/lugares onde se incluem, além da forma de ocupação e demarcação do espaço, as relações de sociedades com o mundo natural e sobrenatural, que não se dão isoladamente, e sim em redes dinâmicas de entrelaçamentos sociais e culturais, perceptíveis no conjunto “dos usos e costumes” - a produção e reprodução dos diversos bens: da alimentação, da habitação, do transporte, do sagrado, do simbólico etc. 9 Consideramos a expressão “parte mais central da América do sul” como uma categoria conceitual explicativa para expressar a dimensão continental deste território e assim dar maior visibilidade às espacializações da expansão das fronteiras da conquista colonial na Capitania de Mato Grosso, estudada em seus mais diversos aspectos pelo Grupo de Pesquisa “A terra da conquista: a parte mais central da América do sul - século XVIII”, coordenado pelo Prof. Dr. Carlos Alberto Rosa, integrante da Linha 1 “Territórios e Fronteiras: Temporalidades e Espacialidades” do Programa de Pós-Graduação em História da UFMT 10 Ver Maria de Fátima Costa. Histórias de um país inexistente: o Pantanal entre os séculos XVI/XVIII, 1999.

Paraguai. No ano de 1719 paulistas e portugueses comunicam o “novo descobrimento das minas do Cuiabá” 1 onde foram formando arraiais com suas capelas.

Primeiramente, é interessante aqui recuperar o sentido da palavra sertão. Janaína

Amado nos informa acerca destes significados construídos durante a colonização lusitana:

Com certeza desde o século XIV os portugueses empregavam a palavra sertão ou certão para referir-se às áreas situadas dentro de Portugal, porém distantes de Lisboa. A partir do séc. XV, usaram-na também nomear espaços vastos, interiores, situados dentro das possessões recém conquistadas ou contíguos a ela, sobre o que pouco ou nada sabiam. (...).Sertão foi ainda bastante utilizado até o final do século XVIII pela

Coroa Portuguesa e pelas autoridades lusas nas colônias. (...) O rei D. João V cita estes sertões como lugar de minas de ouro, prata e pedras preciosas (1721). Os sertanistas, acostumados nas entradas aos sertões, ao pedirem auxílio à Coroa descrevem: “Senhor, não sei o que será feito desses fiéis servos de V.M., abandonados à sorte cruel entre os sanguinários selvagens habitantes desses sertões”. Se para o habitante de Lisboa, o Brasil todo era um grande sertão, para o habitante do Rio de Janeiro, no século XVI, ele começaria além dos limites da cidade (...) no obscuro, desconhecido espaço dos indígenas, feras e espíritos indomáveis; para o bandeirante paulista do século XVII e XVIII, o sertão eram os atuais Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, interiores perigosos mas dourados- lembro aqui da Serra dos Martírios - fontes de mortandades e riquezas, lócus do desejo; para os governantes dessas mesmas capitanias, entretanto, o sertão era o exílio a que haviam sido temporariamente relegados, em seus tão bons serviços prestados à Coroa, variando segundo a posição espacial do enunciante, “sertão” pôde ter significados tão amplos, diversos e aparentemente antagônicos. (...) Finalmente: se foi erigido como categoria pelos colonizadores e absorvido pelos colonos, em especial pelos diretamente relacionados aos interesses da Coroa, “sertão”, necessariamente foi apropriado por alguns habitantes do Brasil colonial de modo diametralmente oposto. Para alguns degredados, (...) para os muitos perseguidos pela justiça real e pela Inquisição, para os escravos fugidos, para os índios perseguidos, (...) para enfim os expulsos da sociedade colonial, “sertão” representava liberdade e esperança; (...) esperança de outra vida melhor, mais feliz. Desde o início da história do Brasil, portanto “sertão” configurou uma perspectiva dual, contendo em seu interior, uma

1 Ver Thereza Martha Borges Presotti. O novo descobrimento das minas e sertões do Cuiabá: a mentalidade da conquista. Dissertação de Mestrado, Brasília, UnB, 1996.

virtualidade: a da inversão. Inferno ou paraíso, tudo dependia do lugar de quem falava.12

Lembro ainda que o topônimo Cuiabá, além de ter evidência de origem tupi-guarani - cuya, cabaça que se faz vasilhas para água e alimentos, de usos diversos, - também foi referenciado como sendo nome de um lote de gentio chamado Cuiabás.13 Uma outra fonte nos leva à palavra Ikuia-pá, com som semelhante, significando “lugar de pesca com flecha arpão”,14 remetendo à micro-territorialidade bororo, indicando relações milenares com o ambiente. Mas o que quero destacar é o que este som que permaneceu como nome da capital do estado de Mato Grosso, identifica uma memória que faz recompor o passado da ocupação imemorial: territorialidade ameríndia, sociedades que ai viveram construindo experiências em suas relações com natureza, criando culturas, jeitos de ser e de fazer.

A primeira referência a esta parte mais central da América do Sul, com o nome minas do Cuiabá, em discurso historiográfico, é a de Sebastião da Rocha Pita, em sua História da América Portuguesa (concluída entre 1724 e 1728 e publicada em Lisboa no ano de 1730).

Assim apresenta alguns aspectos que caracterizariam as minas do Cuiabá:

Pouco tempo antes havia descoberto estas novas minas Pascoal Moreira Cabral (...). Estão em altura de vinte e oito até trinta graus ao poente de São Paulo, declinando para o sul.15 (...) trânsito desde a vila de Itu em grandes canoas, por continuados rios de perigosa e dilatada navegação(...), levando os mantimentos de que se haviam de sustentar naquele país inculto, enquanto o não cultivassem das plantas e sementeiras precisas para a numerosa gente daquela expedição que ia, assim para lavrar as minas, como para se defender do gentio bárbaro que habita aqueles distritos.16

Na narrativa do cronista José Barbosa de Sá, onde ele mesmo diz ser “dos segundos que cultivaram estes sertões e examinei tudo que nele havia”, busco algumas das primeiras versões da paisagem percorrida e nomeada no processo da conquista colonial dos sertões do Cuiabá e

12 Janaína Amado, “Região, Sertão, Nação”, in: Estudos Históricos: História e Região, 1995. p 145-151. 13 Citada por Antônio Pires de Campos como nome de nação de gentio habitante do rio Cuiabá em “Breve Notícia que dá o capitão (...) do gentio bárbaro que há na derrota da viagem das minas do Cuiabá e seu recôncavo, (...)” In: Afonso de Taunay. Relatos Sertanistas, 1981, p.191 14 Enciclopédia Bororo. 15 Esta localização do Cuiabá ou é puro desconhecimento, ou é ocultamento de seu lugar: a latitude é 16° e a longitude é 58° 25'. Silenciando sobre a proximidade do Cuiabá com assentamentos espanhóis circunvizinhos ao rio Paraguai, Rocha Pita mantém as novas minas em lugar praticamente desconhecido. Certamente não ignorava que em obra a ser publicada, não convinha detalhar a localização das novas minas - particularmente dada a vizinhança com espanhóis. É para notar que até 1745 autoridades espanholas de Assunção situavam as minas do Cuiabá próximas a Ouro Preto.(Apud. Carlos Rosa, 1996 p. 39) 16 Sebastião da Rocha Pita. História da América Portuguesa, , 1976, p. 283. Itálicos meus.

do Mato Grosso. Como ponto de partida, destaca a cidade de São Paulo, de onde partiam as entradas aos sertões:

Entre as mais colônias do Brasílico Estado ou América Portuguesa merece primazias a célebre cidade de São Paulo, formosa planta do venerável Padre José de Anchieta, aonde a fé plantou seu primeiro padrão e arvorou seus estandartes, fazendo celeiro da Divina Palavra, para a estender nas dilatadas sementeiras deste Largo Hemisfério cultivando os agrestes silvados do paganismo em frutíferos vergéis da Igreja Santa.17

Parece aí evocar o sentido da origem das povoações do Cuiabá e do Mato Grosso como fruto da obra inaciana, que deveria promover “a expugnação das barbaridades que

Lavoura, de onde colhiam almas para Deus e utilidades humanas” que, “se estendendo aos longes, tiraram muita soma de indivíduos e reduziam do agreste estado ao do cristianismo”.18 Apresenta estas fronteiras centrais do continente sul-americano como Largo Hemisfério povoado de uma gente de natureza “bárbara”, portanto a ser “cultivada”.

Este mesmo cronista, ao tratar das entradas dos paulistas nestes sertões, apresenta a paisagem [o Pantanal] em uma linguagem barroca/cristã que nos faz recordar o Paraíso, onde se pode ler:

Correndo os tempos e continuando aqueles aventureiros as suas conquistas, chegaram a navegar o rio Paraguai, descendo uns pelo [rio] Coxim, outros pelo Embotetei [atual rio Miranda-MS], (...) e entrando pelas grandes baías, foram achando tantas nações de gentes que não cabem nos arquivos da memória (...) Divertidos com estas gentes e fertilidade das terras, donde se colhem os frutos sem semear, esquecidos das pátrias, mulheres e filhos e sobretudo das obrigações de católicos, passavam as vidas anos e anos (...).19

Navegando então pelo hoje conhecido Pantanal, em suas “largas e dilatadas baías”, chegam ao rio Cuiabá. Na discussão da origem do nome, o reconhecimento do uso da natureza pela gente habitante das margens do rio acima e ainda revelando certa “naturalidade” diante do genocídio de indígenas:

Destes, o primeiro que subiu o rio Cuiabá, assim chamado dizem uns por acharem em suas margens cabaças plantados de que faziam cuias para seus usos, outros que

17 José Barbosa de Sá. Relação das Povoações do Cuiabá e Mato Grosso de seus princípios até os presentes tempos, 1975. p.9 ( Itálicos meus) 18 Idem, Ibidem( Itálicos meus) 19 Idem. Op. cit, p. 10 o nome Cuiabá procedeu de uma cuia que os primeiros que subiram este rio acharam sobre as águas, que ia rodando, por onde inferiram que havia gente por ele acima e por esta inferência subiram em procura dela, outros disseram que é apelido do gentio que nas margens deste rio habitava. (...) Foi o primeiro que subiu este rio, Antonio Pires de Campos, em procura do gentio Coxiponé; chegado a uma aldeia deles, (...), aí prendeu muitos e voltou para baixo, em procura das mais frotas que andavam por essas largas e dilatadas baías em procura das mais nações. No seguinte ano [1719] seguiu Pascoal Moreira Cabral o mesmo rumo em procura dos coxiponés e chegou ao lugar da aldeia velha já destruída. Não os achando subiu o rio Coxipó-mirim(...) acharam ouro em granetes cravados pelos barrancos. (...) Trataram logo de fabricar casa e lavouras de mantimentos pelas margens dos rios Cuiabá e Coxipó; extinguindo uma aldeia do gentio(...) Divulgada a notícia pelos povoados foi tal o movimento que causou nos ânimos que das Minas Gerais, Rio de Janeiro e de toda a Capitania de São Paulo se abalaram muitas gentes deixando casa, fazendas, mulheres e filhos botandose para estes Sertões como se fora a terra da promissão ou o Paraíso encoberto em que Deus pôs nossos primeiros pais.20

Imagens do Paraíso em sua narrativa do cenário natural. Evidentes os mitos, emblemas e sinais mentalidade conquistadora ibérica cristã, bem semelhante àquela do século XVI nas mesmas águas do Pantanal por espanhóis e jesuítas.21 E onde tem Deus, também o diabo e cenas que assemelham ao inferno:

Ano de 1720 partiram bastantes gentes para estas conquistas (...) padeceram grandes destroços, perdições de canoas nas cachoeiras(...).mortandade de gente por falta de sustento, doenças, comidos de onças e outras muitas misérias(...)Não sabiam pescar nem caçar nem o uso de toldar as canoas que tudo lhes apodrecia com as chuvas, nem o invento dos mosquiteiros para defesa dos mosquitos(...).pelo que padeceram os que escaparam da morte, misérias sobre misérias (...). [1722 ]chegaram gente de povoado com maior destroço que os anos antecedentes, morrendo muita gente, a fome, peste, comidos das onças, (...) pelas margens dos rios fazendas podres e corpos mortos(...).2

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