GUIA Técnico Ambiental de Indústria de Cerâmica - série P L

GUIA Técnico Ambiental de Indústria de Cerâmica - série P L

(Parte 2 de 9)

Por meio de seu Departamento de Meio Ambiente, a Fiesp intensificou as ações nesta área. Especialistas acompanham e desenvolvem ações na gestão e licenciamento ambiental, prevenção e controle da poluição, recursos hídricos e resíduos industriais. Enfim, todo empenho está sendo feito pela entidade, incluindo parcerias com instituições como a Cetesb, para que a indústria paulista avance cada vez mais na prática ecológica, atendendo às exigências da cidadania e dos mercados interno e externo.

Paulo Skaf Presidente da Fiesp

O Sindicato da Indústria da Cerâmica para Construção do Estado de São Paulo – SINDICERCONSP- entende que “Os Guias Técnicos de Produção mais Limpa”, com especificidades e aplicações em distintos segmentos das indústrias, entre os quais o setor de cerâmica voltada para a construção civil, se caracterizam como um importante documento rico em informações e orientação para técnicos, empresários e todos os interessados na implementação de medidas ecologicamente adequadas nas unidades fabris. Trata-se, portanto, de leitura fundamental para a implementação de uma das mais significativas ações de responsabilidade social, ou seja, a defesa do meio ambiente e qualidade da vida.

O SINDICERCON-SP agrega-se à parceria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP – e da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – CETESB – na publicação desse guia de produção mais limpa voltado para o setor cerâmico, que muito contribuirá para que nossas indústrias, além do devido respeito aos preceitos da produção mais limpa, também venham contribuir para a consequente economia de matérias-primas, água e energia e também dos expressivos avanços quanto à eliminação de materiais perigosos, bem como, na redução, no processo produtivo, de quantidades e toxicidade de emissões líquidas, gasosas e de resíduos. Esse guia reunirá e formatará de maneira a sistematizar e unificar fatos e procedimentos que de alguma maneira já vem ocorrendo em nossas empresas.

Com esse projeto ganham o setor, as empresas, a economia e, sobretudo, todo o conjunto da sociedade, considerando a implicação e o significado do respeito ao meio ambiente e ao crescimento sustentável.

O SINDICERCON-SP tem contribuído com informações setoriais, bem como com as nossas ações desenvolvidas em P+L, e em conjunto com a CETESB que aloca toda a sua experiência e conhecimento no conteúdo desse guia, que o torna um produto de fundamental importância para a visão de sustentabilidade do setor.

Desejamos que esse Guia seja uma referência para o setor e que esse projeto prossiga no sentido de somar como uma garantia de buscarmos cada vez mais uma relação pautada na responsabilidade social e na sustentabilidade de nossa atividade.

Atenciosamente

Walter Gimenes Felix Presidente

Introdução

Este Guia foi desenvolvido para levar até você informações que o auxiliarão a integrar o conceito de Produção mais Limpa (P+L) à gestão de sua empresa.

Ao longo deste documento você poderá perceber que, embora seja um conceito novo, a P+L trata, principalmente, de um tema bem conhecido das indústrias: a melhoria na eficiência dos processos.

Contudo, ainda persistem dúvidas na hora de adotar a gestão de P+L no cotidiano das empresas. De que forma ela pode ser efetivamente aplicada nos processos e na produção? Como integrá-la ao dia-a-dia dos colaboradores? Que vantagens e benefícios traz para a empresa? Como uma empresa de pequeno porte pode trabalhar à luz de um conceito que, à primeira vista, parece tão sofisticado ou dependente de tecnologias caras?

Para responder a essas e outras questões, este Guia traz algumas orientações teóricas e técnicas, com o objetivo de auxiliar você a dar o primeiro passo na integração de sua empresa a este conceito, que tem levado diversas organizações à busca de uma produção mais eficiente, econômica e com menor impacto ambiental.

Em linhas gerais, o conceito de P+L pode ser resumido como uma série de estratégias, práticas e condutas econômicas, ambientais e técnicas, que evitam ou reduzem a emissão de poluentes no meio ambiente por meio de ações preventivas, ou seja, evitando a geração de poluentes ou criando alternativas para que estes sejam reutilizados ou reciclados.

Na prática, essas estratégias podem ser aplicadas a processos, produtos e até mesmo serviços, e incluem alguns procedimentos fundamentais que inserem a P+L nos processos de produção. Dentre eles, é possível citar a redução ou eliminação do uso de matérias-primas tóxicas, aumento da eficiência no uso de matérias-primas, água ou energia, redução na geração de resíduos e efluentes, e reúso de recursos, entre outros.

As vantagens são significativas para todos os envolvidos, do indivíduo à sociedade, do país ao planeta. Mas é a empresa que obtém os maiores benefícios para o seu próprio negócio. Para ela, a P+L pode significar redução de custos de produção; aumento de eficiência e competitividade; diminuição dos riscos de acidentes ambientais; melhoria das condições de saúde e de segurança do trabalhador; melhoria da imagem da empresa junto a consumidores, fornecedores, poder público, mercado e comunidades; ampliação de suas perspectivas de atuação no mercado interno e externo; maior acesso a linhas de financiamento; melhoria do relacionamento com os órgãos ambientais e a sociedade, entre outros.

Por tudo isso vale a pena adotar essa prática, principalmente se a sua empresa for pequena ou média e esteja dando os primeiros passos no mercado, pois com a P+L você e seus colaboradores já começam a trabalhar certo desde o início. Ao contrário do que possa parecer num primeiro momento, grande parte das medidas são muito simples. Algumas já são amplamente disseminadas, mas neste Guia elas aparecem organizadas segundo um contexto global, tratando da questão ambiental por meio de suas várias interfaces: a individual relativa ao colaborador; a coletiva referente à organização; e a global, que está ligada às necessidades do país e do planeta.

É provável que, ao ler este documento, em diversos momentos, você pare e pense: “mas isto eu já faço!” Tanto melhor, pois isso apenas irá demonstrar que você já adotou algumas iniciativas para que a sua empresa se torne mais sustentável. Em geral, a P+L começa com a aplicação do “bom senso” aos processos, que evolui com o tempo até a incorporação de seus conceitos à gestão do próprio negócio.

É importante ressaltar que a P+L é um processo de gestão que abrange diversos níveis da empresa, da alta diretoria aos diversos colaboradores. Trata-se não só de mudanças organizacionais, técnicas e operacionais, mas também de uma mudança cultural que necessita de comunicação para ser disseminada e incorporada ao dia-a-dia de cada colaborador.

É uma tarefa desafiadora, e que por isso mesmo consiste em uma excelente oportunidade. Com a P+L é possível construir uma visão de futuro para a sua empresa, aperfeiçoar as etapas de planejamento, expandir e ampliar o negócio, e o mais importante: obter simultaneamente benefícios ambientais e econômicos na gestão dos processos.

De modo a auxiliar as empresas nesta empreitada, este Guia foi estruturado em quatro capítulos. Inicia-se com a descrição do perfil do setor, no qual são apresentadas suas subdivisões e respectivos dados socioeconômicos de produção, exportação e faturamento, entre outros. Em seguida, apresenta-se a descrição dos processos produtivos, com as etapas genéricas e as entradas de matérias-primas e saídas de produtos, efluentes e resíduos. No terceiro capítulo, você conhecerá os potenciais impactos ambientais gerados pela emissão de rejeitos dessa atividade produtiva, o que pode ocorrer quando não existe o cuidado com o meio ambiente.

O último capítulo, que consiste no “coração” deste Guia, mostrará alguns exemplos de procedimentos de P+L aplicáveis à produção: uso racional da água com técnicas de economia e reúso; técnicas e equipamentos para a economia de energia elétrica; utilização de matérias-primas menos tóxicas, reciclagem de materiais, tratamento de água e de efluentes industriais, entre outros.

O objetivo deste material é demonstrar a responsabilidade de cada empresa, seja ela pequena, média ou grande, com a degradação ambiental. Embora em diferentes escalas, todos contribuímos de certa forma com os impactos no meio ambiente. Entender, aceitar e mudar isso são atitudes imprescindíveis para a gestão responsável das empresas.

Esperamos que este Guia torne-se uma das bases para a construção de um projeto de sustentabilidade na gestão da sua empresa. Nesse sentido, convidamos você a ler este material atentamente, discuti-lo com sua equipe e colocá-lo em prática.

1. Perfil do Setor

A indústria cerâmica desempenha importante papel na economia do país, com participação estimada em % no PIB (Produto Interno Bruto). A evolução das indústrias brasileiras, em função da abundância de matérias-primas naturais, fontes de energia e disponibilidade de tecnologias embutidas nos equipamentos industriais fez com que diversos tipos de produtos do setor atingissem um patamar apreciável nas exportações do país.

Em função de diversos fatores, como matérias-primas empregadas, propriedades e utilização dos produtos fabricados, os diversos segmentos que compõem o setor cerâmico possuem características diferentes, e podem ser classificados da seguinte forma:

• Cerâmica branca: grupo bastante diversificado, o qual compreende os produtos obtidos a partir de uma massa de coloração branca, em geral recobertos por uma camada vítrea transparente e incolor, como por exemplo, louça de mesa, louça sanitária e isoladores elétricos; • Cerâmica de revestimentos: responsável pela produção de materiais na forma de placas, usados na construção civil para revestimento de paredes, pisos, bancadas e piscinas de ambientes internos e externos, os quais recebem diversas designações, tais como: azulejo, pastilha, porcelanato, grês, lajota, piso, etc; • Cerâmica vermelha: compreende materiais com coloração avermelhada empregados na construção civil (tijolos, blocos, telhas, elementos vazados, lajes, tubos cerâmicos e argilas expandidas), e também utensílios de uso doméstico e de decoração. Segmento formado em geral pelas olarias e fábricas de louças de barro; • Materiais refratários: abrange grande diversidade de produtos com finalidade de suportar temperaturas elevadas em condições específicas de processo e/ou de operação. Usados basicamente em equipamentos industriais, estão geralmente sujeitos a esforços mecânicos, ataques químicos, variações bruscas de temperatura entre outras adversidades. Para suportar estas condições, foram desenvolvidos vários tipos de produtos, a partir de diferentes matérias-primas ou mistura destas; • Isolantes térmicos: os produtos incluídos nessa classificação podem ser: - Refratários isolantes que não se enquadram no segmento de refratários,

- Isolantes térmicos não refratários, incluindo produtos como vermiculita expan-dida, sílica diatomácea, diatomito, silicato de cálcio, lã de vidro e lã de rocha, que podem ser utilizados, a temperaturas de até 00ºC; - Fibras ou lãs cerâmicas que apresentam composições tais como sílica, sílicaalumina, alumina e zircônia e que, dependendo do tipo, podem chegar a temperaturas de até 000ºC ou mais; • Cerâmica de alta tecnologia/cerâmica avançada: produtos desenvolvidos a partir de matérias-primas sintéticas de altíssima pureza, por meio de processos rigorosamente controlados e classificados, de acordo com suas funções. São usados em diversas aplicações como naves espaciais, satélites, usinas nucleares, implantes, aparelhos de som e de vídeo, suporte de catalisadores para automóveis, sensores (umidade, gases e outros), ferramentas de corte, brinquedos, acendedores para fogão, entre outros;

• Outros: - Fritas (ou vidrado fritado): importantes matérias-primas de acabamento para diversos segmentos cerâmicos que requerem determinados acabamentos. Constituídas por um vidro moído, são fabricadas por indústrias especializadas a partir da fusão da mistura de diferentes matérias-primas. É aplicada na superfície do corpo cerâmico que, após a queima, adquire aspecto vítreo, com o objetivo de melhorar a estética, tornar a peça impermeável, aumentar a resistência mecânica e melhorar outras características; - Corantes: constituem-se de óxidos puros ou pigmentos inorgânicos sintéticos obtidos a partir da mistura de óxidos ou de seus compostos. Os pigmentos são fabricados por empresas especializadas, inclusive por muitas das que produzem fritas, cuja obtenção envolve a mistura das matérias-primas, calcinação e moagem. Os corantes são adicionados aos esmaltes (vidrados) ou aos corpos cerâmicos para conferir-lhes colorações das mais diversas tonalidades e efeitos especiais; - Abrasivos: parte da indústria de abrasivos é considerada como segmento do setor cerâmico por utilizar-se de matérias-primas e processos semelhantes. Os produtos mais conhecidos deste segmento são o óxido de alumínio eletrofundido e o carbeto de silício; - Vidro, cimento e cal: três importantes segmentos cerâmicos e que, por suas particularidades relacionadas às matérias-primas, características de processo, porte e relevância econômica, são muitas vezes considerados à parte da cerâmica.

No Brasil todos estes segmentos encontram-se representados, com maior ou menor grau de desenvolvimento e capacidade de produção.

Por questões técnicas, neste documento serão abordados os processos, impactos e tecnologias mais limpas referentes apenas aos segmentos de cerâmica branca e de pisos e revestimentos.

Cerâmica branca

Bastante diversificado, o setor das cerâmicas brancas pode ser subdividido nos segmentos apresentados na tabela .

Tabela : segmentos do setor de cerâmicas brancas

* peças grandes Fonte: ABC- Associação Brasileira de Cerâmica (http://w.abeceram.org.br), 0

Vale ressaltar que o segmento de louça sanitária tem forte participação nas exportações, com mais de ,5 milhões de peças/ano, gerando um volume de exportações da ordem de US$ 0 milhões. Da mesma forma, o segmento de isoladores participa com mais de US$ milhões nas exportações.

Além dos segmentos apresentados acima, destaca-se dentre as cerâmicas brancas uma pequena produção de cerâmicas artísticas (decorativa e utilitária) e de cerâmica técnica (para fins diversos, tais como químico, elétrico, térmico e mecânico).

Cerâmica para revestimento

Com referência a este sub-setor, o Brasil ocupa hoje o segundo lugar em termos de mercado consumidor, depois apenas da China, e o quarto lugar na produção mundial, como pode ser visto na figura .

Segmento Louça de mesa

Louça sanitária

Isoladores elétricos

Nº empresas 0

( 9 fábricas) (9 fábricas)

Capacidade Instalada (peças/ano)

Produção (peças/ano)

Faturamento (US$ milhões)

Empregos Diretos

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