Amostragem de solo

Amostragem de solo

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Capítulo 6. Amostragem de Solo

Introdução

No Estado do Acre, a terra tem sido utilizada predominantemente com pastagens e sistema de cultivo itinerante praticado pela agricultura familiar, sendo esse último mais comum em projetos de assentamento. Outras formas de uso da terra são o extrativismo vegetal (principalmente borracha e castanha) e a exploração madeireira. Cada um desses usos constitui agroecossistemas com características peculiares, exigindo, portanto, diferentes formas de amostragem de solo, para que a fertilidade desses sistemas possa ser avaliada de maneira precisa.

A amostragem de solo é uma das etapas fundamentais para a avaliação da fertilidade, sendo mais importante que as próprias determinações analíticas realizadas em laboratórios, pois de nada adiantará ter determinações químicas e físicas de alta precisão se a amostragem não for representativa.

O procedimento da amostragem do solo tem por objetivo coletar o material mais representativo possível de determinado espaço físico e que tenha influência sobre o crescimento das plantas.

Por esse motivo, a amostragem é considerada a etapa mais crítica de todo o processo de análise. Se por qualquer razão a amostra não for representativa, seus resultados não corresponderão à realidade da gleba amostrada, já que no laboratório não há possibilidade de se efetuar qualquer tipo de ajuste ou correção. Com isso, dependendo da magnitude do erro associado a

ARAÚJO, E. A. ; AMARAL, Eufran Ferreira Do ; LANI, João Luiz . Amostragem de solo. In: Paulo Guilherme Salvador Wadt. (Org.). Manejo do solo e recomendação de adubação para o estado do Acre. Rio Branco: Embrapa/CPAF-Acre, 2005, v. , p. 229-243.

Como citar este artigo:

amostragem do solo, decisões errôneas poderão ser tomadas e, ao invés de se obter benefícios com o uso dos resultados, é mais provável que haja prejuízo. Embora seja possível refazer resultados imprecisos, a partir de uma nova amostragem, somente quem coletou tem condições de definir se dada amostra é representativa ou não.

O objetivo deste capítulo é contribuir com aspectos relacionados à análise de solo, em particular, no processo de amostragem, de modo a se obter uma adequada recomendação de corretivos e fertilizantes para os diferentes agroecossistemas do Acre.

Conceito de Amostragem e Variabilidade

A amostragem de solo consiste na primeira etapa do processo de recomendação de fertilizantes, corretivos ou técnicas de manejo visando melhorar ou conservar a sua fertilidade (Fig. 1).

Nessa etapa é necessário várias operações para extrair de um sistema porções que, combinadas e reduzidas a tamanho ou volume apropriado, resultam em uma amostra com características representativas. Cada uma dessas porções, chamada de amostra simples, é combinada para formar uma amostra composta.

Fig. 1. Etapas para análise de solo: da coleta da amostra no campo à recomendação técnica de aplicação de calcário e fertilizantes.

Fonte: Silva (1999).

A tarefa de coletar amostras torna-se importante, pois na impossibilidade de analisar o solo por completo, é necessário colher amostras representativas para que possam ser extrapoladas a uma determinada área. Geralmente, utiliza-se uma quantidade muito pequena de solo para efetuar as análises no laboratório (Fig. 2).

Fig. 2. Esquema representativo de uma gleba de 1 ha e as quantidades de solo utilizadas.

Isso significa que um volume de 10 gramas de solo, utilizado na determinação analítica dos seus principais nutrientes, representa 2 mil toneladas de solo se a amostra for retirada de uma área de apenas 1 ha. Esse cálculo serve para exemplificar a importância da amostragem na análise da fertilidade, pois quantidades muito pequenas usadas em laboratório (10 g) devem ser representativas de milhares de toneladas de solo (supondo um solo com densidade de 1 g cm-3).

Outra importância inerente à amostragem diz respeito à variabilidade espacial, que tanto pode ocorrer na horizontal (em superfície) como na vertical (em profundidade). Os solos do Acre são pedogeneticamente novos, apresentando maior heterogeneidade que em outras regiões onde os solos foram sujeitos a processos de intemperismo mais intenso. Assim, as unidades amostrais devem ser definidas com bastante critério, separando-se a área a ser amostrada no maior número possível de unidades amostrais uniformes, conforme descrição adiante.

Amostragem de Solos

Plano de Amostragem

Para a amostragem é necessário elaborar um plano, ou seja, estudar previamente a forma como serão coletadas as amostras.

O passo inicial é separar a área total em áreas mais homogêneas o quanto for possível. Dentro de uma área homogênea espera-se que a variação entre os nutrientes e outras propriedades do solo seja mínima, de forma que as amostras compostas possam ser suficientes para caracterizar corretamente a área amostrada. Para tal, consideram-se a aparência superficial do solo, sua posição no relevo (topo, meia encosta, fundo de vale, margens do rio), o tipo de vegetação (mata, taboca, pluma), o tipo de uso (café, pastagem, capoeira) e o manejo dado à área (áreas aradas e não aradas que receberam calcário). Para qualquer variação observada quanto às propriedades do solo, deve-se separar a área em glebas4 para obter amostras compostas. Essas verificações devem ser feitas no local, não sendo recomendado utilizar mapas pedológicos em escalas menores que 1:100.0, nos quais 1 cm representa distâncias de 1 km, o que normalmente é muitas vezes superior à distância média entre dois pontos extremos de uma gleba homogênea. Os mapas atualmente disponíveis no Estado do Acre, em escalas de 1:1.0.0 ou 1:250.0, não possuem utilidade prática na definição da fertilidade do solo em qualquer gleba ou área a ser manejada para fins de adubação ou condução de uma lavoura qualquer. Muita embora possam ser úteis para nortear o técnico e ou pesquisador quanto as principais classes de solo existentes na região.

4Unidades de produção homogênea, como talhões, pastos ou pequenas roças.

Entre as variáveis que devem ser observadas, o relevo local é a mais importante, visto a possibilidade de ocorrerem zonas de enriquecimento e empobrecimento, devido à posição do solo no relevo. Assim, as partes mais elevadas do relevo são mais propensas a perdas de solo e nutrientes (zona de empobrecimento) do que as partes mais baixas. As áreas de baixada podem denotar áreas de acúmulo ou enriquecimento, o que já serve para estratificar tais ambientes.

A estratificação da área quanto ao tipo de vegetação e ao histórico de uso e manejo do solo depende muito da sensibilidade do técnico e da interação com o produtor. Normalmente, o produtor conhece bem a área que maneja, assim como as variações de textura, cor do solo, presença de impedimentos à drenagem ou ocorrência de plantas espontâneas endêmicas, entre outras importantes características que devem ser usadas para diferenciar as glebas. Comumente o que se encontra em muitas áreas é um mosaico de uso do solo, ou seja, áreas geralmente compostas de pastagem, capoeiras de várias idades e áreas de cultivo, que evidentemente deve ser estratificado de modo a se obter uma amostragem mais eficiente e eficaz.

Algumas plantas de ocorrência natural (invasoras ou erva daninha) em áreas desbravadas podem servir como indicadoras para estratificar determinados ambientes, assim como suas potencialidades e restrições (Tabela 1). Entretanto, as indicações obtidas pela presença dessas plantas não são, por si sós, suficientes para quantificar a fertilidade do solo, contudo, podem ser usadas para separar glebas homogêneas dentro de cada área amostrada.

Tabela 1. Plantas espontâneas indicadoras de ambientes e características relacionadas à fertilidade do solo.

Nome comum Espécie ou gênero Interpretação

Sapé1,2 Imperata brasiliensis Normalmente denota solos de caráter ácido e pobres quimicamente.

Excepcionalmente pode ocorrer em solo eutrófico

Tiririca1 Cyperaceae Indicativo de solo com impedimento de drenagem (solo raso)

Capim colonião 1, 2 Panicum sp. Planta exigente sob o ponto de vista nutricional, denota solos ricos quimicamente

Capim rabo de burro Gramineae Indica solos com forte restrição de drenagem. Normalmente está presente em baixadas úmidas

Capim jaraguá 2 Hyparrhenia rufa Geralmente eutrófico. Muito comum nas margens das rodovias na região leste do Estado. Foi uma das primeiras gramíneas forrageiras introduzidas no Acre

Assa -p eix e 3 Vernonia polyanthes Ocorre em pastagens e áreas ácidas. É considerada como padrão de terra de baixa fertilidade

Malva 1 Urena lobata Indica presença de solos de textura média e arenosa

Pluma4 Pteridium aquilinum Ocorre comumente na regional do Juruá (Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima e Rodrigues Alves) como planta espontânea em áreas já desmatadas. Indica geralmente solos de textura arenosa e pobres quimicamente

Araújo et al. (2000); 2

Resende et al. (1988); 3 Aranha et al. (1987); 4

Amaral et al. (2000).

Tipos de Amostra, Época de Amostragem e outras Informações

Tipos de Amostras

As amostras podem ser simples ou compostas. A amostra composta consiste na mistura de partes iguais de várias amostras simples retiradas ao acaso em uma gleba homogênea.

As amostras simples devem ser coletadas na profundidade de 0 a 20 cm quando para fins de recomendação de adubação e calagem de culturas anuais. Recomenda-se também a coleta na profundidade de 20 a 40 cm no caso de culturas perenes, com o propósito de identificar se há algum impedimento químico ao desenvolvimento das raízes em profundidade. Uma vez que a aplicação de corretivos ou fertilizantes a essa profundidade do solo é mais onerosa e mais difícil de ser executada, as informações da análise muitas vezes aplicam-se mais para determinar a viabilidade ou não da implantação de determinado tipo de cultivo na área amostrada.

Amostras de 0-5, 5-10, 0-10 ou de 10-20 cm de profundidade também podem ser retiradas, porém são úteis apenas para se conhecer a distribuição da fertilidade ao longo do perfil do solo. Para fins de formulação de adubação e calagem, a coleta de amostras homogêneas de 0-20 cm é mais indicada, visto que as quantidades de corretivos e fertilizantes a serem recomendadas serão as mesmas, caso sejam coletadas amostras em profundidades parciais. Acrescente-se ainda que é impraticável a aplicação de uma determinada quantidade de adubo ou corretivo na profundidade de 0- 10 cm e de outra quantidade à profundidade de 0-20 cm.

Época de Amostragem

Para a maioria das análises químicas as amostragens de solo podem ser efetuadas em qualquer período do ano.

Entretanto, se houver interesse em avaliar o nitrogênio do solo, a época do ano terá grande importância, com a recomendação de que as amostras sejam feitas sempre no mesmo período, para que tenham sentido prático.

De modo geral e considerando o tempo gasto no transporte ao laboratório, para análise das amostras, o envio dos resultados analíticos e a recomendação de calagem e adubação ao interessado, é aconselhável coletar as amostras de solo com 2 meses de antecedência à época ideal para a calagem, ou no mínimo 90 dias antes do plantio, se for para culturas anuais.

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