Boletim de Surdo Portugal

Boletim de Surdo Portugal

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EDITORIAL Palavras do Director e Subdirector

ASSOCIATIVISMO JUVENIL Juventude Surda

HISTÓRIA DOS SURDOS O Congresso de Milão e a supremacia do Oralismo

EDUCAÇÃO DOS SURDOS Roteiro da Educação dos Surdos em Portugal - parte I

DESTAQUE Entrevista a Mário Moura

TRIBUNA LIVRE Associativismo - Uma experiência na província

LÍNGUA GESTUAL PORTUGUESA Língua Gestual

ALUNOS SURDOS NO ENSINO SUPERIOR Português Língua segunda & Português de segunda

ACESSIBILIDADE E TECNOLOGIA Bancos de Produtos de Apoio (ajudas técnicas)

DESPORTO Europeu de Corta-mato e Olimpíadas de Xadrez

ACTIVIDADES INTERNACIONAIS Eventos além-fr onteiras

ACTIVIDADES RECREATIVAS DAS ASSOCIAÇÕES Promoção do espírito de convívio

CULTURA E CIDADANIA / Cidadania profana O direito da Criança Surda a crescer bilingue / Cultura e Individualidade

PÁGINA DO INTÉRPRETE Profissão de Intérprete em tempos de mudança...

LEGISLAÇÃO Legislação mais relevante publicada entre MARÇO a MAIO 2010

SURDOCEGUEIRA A Semente

PASSATEMPOS Espaço lúdico

#03 | JUN/2010 | w fpas.org.pt

Nº 3 . Junho 2010 . Trimestral2

O Director, António Rodrigues

Caros Leitores do “Surdos Notícias”,

Quero primeiramente saudar todos os Leitores que nos continuam a acompanhar no lançamento de mais uma edicão deste Boletim Informativo, bem como aqueles que só agora tomam conhecimento deste projecto. Esperemos que seja uma iniciativa a ter continuidade por anos vindouros, sendo que para isso contamos com a colaboração de todos Vós que podem enviar o contributo que desejarem para o e-mail da FPAS fpas@fpas.org.pt

Quando elaboramos um Boletim Informativo dirigido por Pessoas Surdas e direccionado especialmente para a Comunidade Surda, o mais óbvio e lógico seria que eu falasse de pessoas ou de assuntos directamente relacionados com a Surdez. Contudo, como temos vindo a observar ao longo do tempo, a luta da Comunidade Surda pela inclusão e por todos os direitos inerentes a esta não tem sido travada apenas por Pessoas Surdas. Também vários Ouvintes têm desempenhado um papel fundamental nesta luta e dentro da Comunidade Surda, sendo que muito têm contribuído para o bem-estar de todos nós. É neste sentido que quero destacar nesta edição, o contributo do Fernando Barbosa, funcionário do Grupo Multitema, que tem colaborado com a FPAS de forma excepcional na elaboração deste Boletim Informativo através de todo o processo de paginação do mesmo. O Fernando Barbosa, que certamente desconhece o que é ser surdo e que provavelmente nunca havia contactado com a Comunidade Surda, tem sido incansável neste projecto e está também assim a contribuir para o bem-estar e boa imagem da Comunidade Surda. A ele quero expressar o nosso muito obrigado, esperando que continue a colaborar com a FPAS neste projecto, que consideramos ser de extrema importância!

A todos Vós, espero que esta edição do “Surdos Notícias” seja do Vosso agrado e que possamos continuar a suscitar o interesse de cada vez mais leitores!

O Subdirector, David Fonseca

Caros Leitores,

Toda a imprensa escrita é, por excelência, um veículo para a transmissão e reprodução do saber, na clara medida em que sem a sua intervenção dificilmente se desenvolvem Escolas de pensamento e, consequentemente, de conhecimento.

Em função destes vectores, um Jornal só pode ser considerado verdadeiramente excelente (implicando aprendizagem, transmissão e reprodução do saber) quando os seus leitores reconhecidamente o sentem como tal.

Considerando a importância do Jornal e dos seus mais nobres propósitos, urge que todas partes envolvidas se sintam capazes de valorizar toda e qualquer prática que desempenhem ao longo dos diferentes processos. Para que tal se verifique, ensinam os leitores a lerem os artigos e, consequentemente, divulgá-los na forma de publicação. Neste processo, os redactores devem assumir um papel de referência, destacando a importância das nuances e detalhes que devem prevalecer na Comunidade Surda.

Não há lugar ao desenvolvimento da excelência sem o encorajamento àqueles que, sendo mais novos e aprendizes, se tornem criativos, capazes de promover aquele que é, provavelmente, o ingrediente fundamental: a liberdade de pensar. O actual sistema, tal como o observamos, não está vocacionado para promover a criatividade nem o direito à diferença, e que se expressa no pensamento dos leitores e redactores.

Editorial

Director António Rodrigues

Subdirector David Fonseca

Composição e Impressão Multitema

Edição e Propriedade de Federação Portuguesa das Associações de Surdos

Com o apoio de Instituto Nacional para a Reabilitação, I.P.

Nº 3 . Junho 2010 . Trimestral3 Associativis mo Juven il

Dada a enorme adesão e congratulação por todo o trabalho efectuado no número anterior, sou, uma vez mais, a agradecer a contínua confiança em mim neste projecto que conta com um limite infinito de existência.

Abordando anteriormente a temática da liderança, nesta edição, ainda que tenha prometido o seu aprofundamento, decidi tornar o tema da Juventude mais alargado, mais focalizado na sua energia, dedicação, sucesso, conquista torneando uma visão do JOVEM, no seu dia-a-dia!

A construção de uma melhor Cidadania visa no principio de saber criar, agir e actuar!

Nesta sociedade futurista, com implicações tecnológicas tremendamente exacerbadas e, praticamente, bem empregues, as questões materiais prevalecem às questões sociais, interrelacionais. É admirável assistir-se aos progressos dos sistemas informáticos, dos sistemas de comunicação, dos sistemas técnológicos

de acessibilidade que, inconscientemente, de certa forma, fazem do Homem, um Cidadão “dependente” das máquinas. Ainda que a Comunidade Surda seja uma Comunidade especificamente necessitada de progressos a nível tecnológico para aceder à informação e comunicação de forma igual, é doloroso ver como essa necessidade se torna em comodismo. Hoje em dia, vemos Jovens Surdos, cada vez mais, presos em casa, focalizados no seu portátil, no seu telemóvel ou na televisão à procura de uma “companhia”, de uma forma de distracção, quando que a sua força, os seus ideais e a sua inovação deveriam servir para trazer medidas e melhorias para a Sociedade e para a Comunidade Surda Portuguesa. Há valências e ideais que, especificamente, as pessoas jovens enaltecem e trazem futuros planeados para a Sociedade e, consequentemente, para o País.

Os Jovens têm mais valias como a idade e, os

Jovens Surdos, com a sua natureza Cultural, Social, Comunitária, Línguística, Identitária, poderão sempre promover os seus projectos com força e garra, sempre acreditando em si, tudo porque têm a mais valia de: Estudar e especializar-se em áreas do saber específicas da Surdez, Comunidade, Cultura, Associativismo, Sociedade; Proporcionar, em equipa, intervenções/acções nacionais e internacionais através da FPAS, Associações, EUD, WFD, LPDS, entre outros; Construir, moderadamente, departamentos/ secções/gabinetes que assegurem a defesa das necessidades das Pessoas Surdas, em vários níveis (Educativo, Social, Saúde, Legal, etc.);

Além disso, aos Jovens Surdos, é-lhes proporcionado, de forma voluntária e co-financiada pelas Instituições de Surdos, idas a Encontros Europeus e Mundiais de Surdos, oferecendo-lhes um leque de experiências, conhecimentos e aprendizagens em torno das questões da Surdez em várias àreas. Participando em Conferências da EUD, EUDY, WFD, WFDY, workshops, sessões e reuniões de trabalho em conjunto com países diversificados, relatando e visualizando problematicas, barreiras, poderse-á traçar o caminho para a melhoria de Todos e para Todos. A valorização na participação destes eventos não se rege só à viagem, ao encontro com outros Surdos e à partilha de experiências, mas também fazer disso, o reforço e a planificação de medidas de implementação de boas práticas para o nosso país. É para esse fim que deveremos agir, é por esse objectivo que deveremos apostar e rentabilizar as nossas ideias, as nossas propostas e criar projectos, em conjunto, para fortalecer o bem da Comunidade. Claro é que, esse trabalho deverá ser sempre conjunto: alguém que tem experiência e alguém que, sendo naturalmente, principiante, jovem e aprendiz, vai adquirindo e reformulando segundo os seus ideais.

A natureza do Jovem, em seu redor, oferecelhe uma mais valia para a sua auto-formação, crescimento e saúde e, consequentemente, proporciona caminhos e trilhos repletos de criatividade e progresso, mesmo perante sociedades, continuamente, discriminatórias e bloqueadas.

e de ele se sentir capaz, o deixar serPresidente?

Porque não, depois de obter as informações Membro? Director? Porque não convidá-lo a explorar os seus interesses de forma autónoma e colectiva? É importante pensar nisso...

Na vida, o mais conveniente não é tornar-monos iguais, mas sim inovar, criar e ser, naturalmente, FELIZ. Abram os caminhos que nós, a pouco e pouco, vamos aprendendo tal como todos! O início é um passo, o percurso uma conquista e o fim uma vitória!

Dr.ª Joana Cottim http://symonsv alley .squar espac e . c o m/st or age/Y outh.jpg

4Nº 3 . Junho 2010 . Trimestral

Doutor Carlos Afonso Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti

Um marco importante na educação de surdos e que vai modificar um percurso anterior, que relatamos na nossa última crónica, teve a ver com a realização, em 1880, do Congresso Internacional de Educadores de Surdos, em Milão. Este encontro foi, segundo Lane (1997: 110), “ardilosamente arranjado para produzir o efeito desejado” e nessa medida, proibiram os educadores Surdos de participar (embora um tenha conseguido entrar) e os congressistas foram maioritariamente italianos e franceses.

A principal resolução advinda do Congresso foi a proibição de todos os gestos, advogando que “dada a inquestionável superioridade da fala sobre o gesto para a reintegração dos Surdos na sociedade e na aprendizagem da Língua, deveria preferir-se o método oral ao dos gestos” (Moores, 1980, citado por Rondal, 1991: 405). Todos votaram a favor destas resoluções excepto os delegados americanos. Portugal foi um dos países que aceitou estas determinações. Um dos representantes oralistas mais influente nesse Congresso foi Alexander Graham Bell que estava envolvido com o movimento eugenista. Ele defendia, entre outras ideias, os riscos de casamentos entre Surdos congénitos, sem parentes Surdos, bem como das pessoas que ensurdecem acidentalmente e têm parentes Surdos alegando que “se estas pessoas casassem e alguns dos seus filhos casassem com Surdos congénitos, e os filhos destes fizessem o mesmo, e assim sucessivamente, a proporção de crianças Surdas nascidas de tais casamentos cresceria de geração em geração, até uma fase em que praticamente todos os seus filhos nasceriam Surdos” (Lane, 1997: 193).

Estas posições de Bell tiveram uma forte oposição em Edward Miner Gallaudet (1837- 1917) que se vai declarar, com veemência, contra a tendência dominante do método oral e pela defesa da Língua Gestual (Moores e Moores, 1991). Nesse sentido, assume um papel de relevo em contraponto com as correntes dominantes que derivam do Congresso de Milão. Na sequência dessas decisões, vamos assistir, na maioria dos países, em grande parte do século X, à implementação de metodologias oralistas de acordo com aquilo que Skliar (2001: 15) denomina de “ouvintismo” e que consistiria num “conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o Surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte”, assumindo-se, assim, como um deficiente.

Para que isso fosse completamente conseguido, o uso de gestos no contexto reeducativo era proibido e assim, segundo Lullkin (2001, citado por Skliar, 2001), os alunos Surdos eram obrigados a sentarem-se sobre as mãos, ao mesmo tempo que se fazia desaparecer as pequenas janelas das salas de aula para impedir a comunicação visual e se despediam os professores e funcionários Surdos.

Entendia-se que conseguindo que os Surdos oralizassem se estaria a favorecer a sua integração no mundo dos ouvintes. Assim, o Surdo “oralizado” era considerado bem sucedido pois estava a transformar-se num ouvinte.

Ora, “nada disso teria importância se o oralismo funcionasse” (Sacks, 1998: 41). No entanto, o que se verificou é que, apesar de algumas tentativas bem sucedidas, o nível de literacia dos Surdos baixou consideravelmente e a aquisição da Língua oral nunca foi efectivamente feita de modo que funcionasse como uma efectiva Língua materna. No entanto, a insistência nesta opção linguístico/ comunicativa, com várias variantes metodológicas, vai tornar-se dominante e praticamente exclusiva até aos anos 80 do século X. Em Portugal, viria a ser posta em causa pelos primeiros estudos da Faculdade de Letras de Lisboa, que deram origem ao livro “Mãos que falam” (1980), mas seriam precisos ainda muitos anos até que a Constituição da República Portuguesa consagrasse a Língua Gestual como a língua da comunidade surda (1997) e que a educação a assumisse como a língua da escolarização (1998).

Quem diria que as resoluções daquele

Congresso, em Milão, em 1880, iriam ter uma tão forte influência na educação de surdos, por mais de 100 anos!?

Fontes e referências:

- AFONSO, Carlos (2008). Reflexões sobre a surdez. Porto: Gailivro - Lane, Harlan (1997). A máscara da benevolência. A comunidade Surda amordaçada. Lisboa: Instituto Piaget - Moores, Donald e Meadow- Orlands, Kathryn (ed.) (1990). Educational and Developmental Aspects of Deafness. Washington: Gallaudet University Press - Rondal, Jean e Seron, Xavier (org) (1991). Transtornos del lenguaje 2 tartamudez, sordera, retraso mental, autismo. Barcelona: Ediciones Paidós - SACKS, Oliver (1998). Vendo vozes – uma viagem ao mundo dos Surdos. São Paulo: Companhia das Letras - SKLIAR, Carlos (org) (2001). A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Mediação

História dos Surdos Edward GallaudetAlexander Bell

5Nº 3 . Junho 2010 . Trimestral

António Vieira Prof. Doutor na Universidade Portucalense, Porto

( Dolto, 1987), estando “em magia contínua”,dado que as coisas acontecem de modo imprevisível e assim desaparecem também, ninguém sabendo que ela é Surda e ela própria também não o sabe. Se já houver alguma certeza da existência de problemas de audição, durante os primeiros meses, a criança, apesar da sua situação de défice auditivo, poderá beneficiar alguma coisa do que se passa à sua volta, na relação com a sua mãe. Se ela mostrar medo, poderá ser apoiada pelos contactos físicos e os gestos ou atitudes ternas da sua mãe, e logo que a criança distinga a cara da sua mãe ( à volta dos três meses) vai, pouco a pouco, privilegiar o seu canal visual, para além de poder beneficiar dos sentidos do tacto e do olfacto.

Pensa-se que a criança Surda terá sempre algumas capacidades que, de modo específico e não linear, projectarão processos que, aparentemente, compensarão a sua deficiência, no seu corpo. Não se pode esquecer que o ser humano, qualquer que seja a sua situação, terá sempre de ser enquadrado numa perspectiva holística, para optimização de todas as componentes que apresenta, em benefício de um desenvolvimento sócio-educativo e cultural.

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