Crepusculo dos Ídolos

Crepusculo dos Ídolos

(Parte 3 de 5)

tomando Deus como Inimigo da VidaO santo, junto ao qual Deus sente prazer, é um castrado ideal...

No que ela diz "Deus observa os corações", ela diz Não aos desejos vitais mais baixos e mais elevados, A vida chega ao fim, onde o "Reino de Deus" começa...

vida mesma valora através de nós quando instauramos valoresDaí se segue que também aquela

Suposto que se compreendeu o caráter sacrílego de uma tal insurreição contra a vida, tal como ela se tornou quase sacrossanta no interior da moral cristã, também se compreendeu com isso por sorte algo diverso: o que há de inútil, aparente, absurdo, mentiroso em uma tal inssurreição. No entanto, uma condenação da vida por parte do vivente permanece sendo em última instância apenas o sintoma de um tipo determinado de vida: sem que com isso se pergunte se uma tal condenação tem ou não razão de ser. Se precisaria ter uma posição fora da vida, e, por outro lado, conhecê-la tão bem quanto um, quanto muitos, quanto todos que a viveram, para se ter antes de tudo o direito de tocar o problema do valor da vida: razões suficientes para se compreender que esse problema é inacessível para nós. Quando falamos de valores, falamos sob a inspiração, sob a ótica da vida: a vida mesma nos obriga a instaurar valores, a contranatureza da moral, que toma Deus por conceito contrário e condenação da vida, é apenas um juízo de valor da vida. - De que vida? De que tipo de vida? - Mas eu já dei a resposta: da vida decadente, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como foi entendida até aqui - como por fim foi ainda formulada por Schopenhauer, como "negação da vontade de vida" -, é o próprio instinto da décadence que se transforma em imperativo. Ela diz: "Pereça!" ela é o juízo dos que foram condenados...

homem deveria ser diferente?"Ele sabe até mesmo como ele deveria ser, este fanfarrão e este beato,
ele pinta um auto-retrato na parede e diz "ecce homo!"7Mas mesmo quando o moralista se volta
transforme, até mesmo ainda o que ficou para trásE, realmente, houve moralistas conseqüentes; eles
eles negavam o mundo! Nenhuma pequena sandice! Nenhum tipo modesto de imodéstia!A moral, à
degenerados que provocou muitos e indizíveis danos!Nós outros, nós imoralistas, ao contrário,

Consideremos ainda por fim que ingenuidade patética é em geral dizer que o "homem deveria ser de tal ou de tal modo!" A efetividade nos mostra uma riqueza encantadora de tipos, a exuberância de um jogo e de uma mudança de formas profusos. E um reles serviçal de moralista qualquer diz: "não! o simplesmente para o indivíduo e lhe diz: "tu deverias ser de tal e de tal modo!", ele não deixa de se tornar risível. O indivíduo, visto pela frente ou por detrás, é um pedaço de destino, uma lei a mais, uma necessidade a mais para tudo o que advém e será. Dizer-lhe "transforma-te" significa exigir que tudo se queriam os homens diversos, mesmo virtuosos, eles os queriam à sua imagem, mesmo beatos: para tanto medida que não condena a partir de pontos de vista, de considerações e intenções vitais, mas em si, é um erro específico, pelo qual não se deve sentir nenhuma compaixão; a moral é uma idiossincrasia de abrimos amplamente nosso coração para todo tipo de entendimento, compreensão e aprovação. Não negamos facilmente, buscamos nossa honra no fato de sermos afirmativos. O olhar abriu-nos cada vez mais para aquela economia que ainda precisa e sabe utilizar tudo isso que o desatino santificado dos sacerdotes, a razão doentia nos sacerdotes, rejeita, para aquela economia na lei da vida, que por si própria retira sua vantagem das espécies mais repugnantes de beatos, de sacerdotes, de virtuosos. - Que vantagem? - Mas nós mesmos, nós imoralistas, somos aqui a resposta...

1. 7 “Eis o homem” (Nota do Pirateador)

O erro oriundo da confusão entre causa e conseqüência.

- Não há nenhum erro mais perigoso do que confundir a conseqüência com a causa: eu o denomino a própria perversão da razão. Apesar disso este erro pertence aos hábitos mais antigos e mais recentes da humanidade. Ele é mesmo santificado entre nós e porta o nome da "religião", da "moral". Todas as proposições que a religião e a moral formulam encerram-no. Sacerdotes e legisladores morais são os autores dessa perversão da razão. - Tomo um exemplo: todo mundo conhece o livro do célebre Cornaro, no qual este aconselha sua dieta parca como receita para uma vida longa e feliz - bem como virtuosa. Poucos livros foram tão lidos. Ele ainda é impresso agora na Inglaterra anualmente em muitos milhares de exemplares. Não tenho a menor dúvida de que nenhum livro (excetuando a Bíblia, bem entendido) provocou tanto mal, encurtou tantas vidas, quanto essa singular obra, tão bem intencionada. O motivo para tanto: a confusão entre a conseqüência e a causa. O honesto italiano viu em sua, dieta a causa de sua vida longa: enquanto a condição prévia para uma vida longa, a lentidão extraordinária do metabolismo, o consumo restrito é que eram a causa de sua dieta parca. Ele não tinha a liberdade de comer muito ou pouco, sua frugalidade não era uma "vontade livre": ele ficaria doente se comesse mais. No entanto, quem não é uma carpa não apenas faz bem em comer a valer, como tem necessidade disso. Um douto de nossos dias, com seu consumo rápido das forças nervosas, se aniquilaria com o regime de Cornaro. Crede experto. -

fórmula: sua virtude é a conseqüência de sua felicidadeUma vida longa, uma rica prole não são a

A fórmula mais universal, que se encontra na base de toda e qualquer religião, assim como de toda e qualquer moral, é: "Faze isso e isso, deixa isso e isso! Assim, tu te tornarás feliz!" No outro caso... "Toda moral, bem como toda religião resume-se a esse imperativo: eu o denomino o pecado hereditário da razão, a irrazão imortal. Em minha boca, esta fórmula metamorfoseia-se em seu inverso. - Primeiro exemplo de minha "transvaloração de todos os valores": um homem bem constituído, um homem "feliz", precisa empreender certas ações e fugir instintivamente de outras, Ele insere em suas relações com os homens e as coisas a ordem que apresenta fisiologicamente. Para exprimir através de uma paga pela virtude. Ao contrário, a própria virtude repousa sobre aquele retardamento do metabolismo que, entre outras coisas, tem por conseqüência uma vida longa, uma rica prole, ou, resumindo, o cornarismo. - A igreja e a moral dizem: "O vício e o luxo levam um povo ou uma raça à aniquilação". Minha razão reconstituída diz: se um povo perece e vai ao fundo, se ele se degenera fisiologicamente, então seguem daí o luxo e o vício (isto é, a necessidade de estímulos cada vez mais intensos e cada vez mais freqüentes, tal como os conhece toda e qualquer natureza extenuada). Este homem jovem empalidece e murcha precocemente. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é a causa. Eu digo: o fato de ele ter adoecido, o fato de ele não ter se oposto à doença, foi justamente o efeito de uma vida empobrecida, de uma extenuação hereditária. O leitor de jornais diz: este partido está a caminho de dissolver-se com um tal erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no fim - ele não possui mais sua segurança instintiva. Todo e qualquer erro, de toda e qualquer espécie, é a conseqüência de uma degradação do instinto, da desagregação da vontade: quase se define com isso o que é ruim. Tudo o que é bom é instintivo. - E, conseqüentemente, leve, necessário, livre. A fadiga é uma objeção, Deus é tipicamente diferente dos heróis (em minha linguagem: os pés leves são o primeiro atributo da divindade).

Erro de uma Causalidade Falsa.

- Sempre se acreditou saber o que é uma causa: mas de onde retiramos nosso saber, mais exatamente, nossa crença neste saber? Do âmbito dos célebres "fatos internos": dos quais nenhum se mostrou até aqui como factual. Acreditávamos em nós mesmos como tendo uma participação causal no ato de vontade; pensávamos surpreender aí no mínimo a causalidade em meio ao ato. Do mesmo modo, não se duvidava de que todos os antecedentes de uma ação, suas causas, pudessem ser buscadas na consciência. E que, buscando-as aí, se as reencontraria - como "motivos". Do contrário, não se teria sido nem livre para a ação, nem responsável por ela. Por fim, quem teria contestado o fato de um pensamento ser causado? O fato de o Eu causar os pensamentos?... Destes três "fatos internos", nos

se firma como um dado, como empiria (empirismo)Entrementes, refletimos melhor. Hoje, não
querer!O que segue daí? Não há de modo algum nenhuma causa espiritual! Toda a pretensa empiria
dito uma vez mais, o conceito de coisa, é apenas um mero reflexo da crença no Eu enquanto causaE

quais a causalidade parece se respaldar, o primeiro e mais convincente é este da vontade enquanto causa; a concepção de uma consciência ("Espírito") enquanto causa, e, posteriormente ainda, a do Eu (do "Sujeito") enquanto causa não nascem senão ulteriormente; depois que, pela vontade, a causalidade acreditamos mais em nenhuma destas palavras. O "mundo interno" está cheio de ilusões e fogos-fátuos: a vontade é um deles. A vontade não movimenta mais nada, e, por conseguinte, também não esclarece mais nada. - Ela simplesmente acompanha ocorrências e também pode faltar. O assim chamado "motivo": um outro erro. Simplesmente um fenômeno de superfície da consciência, um acessório da ação que, ao invés de apresentar os seus antecedentes, antes os oculta. E o que dizer do Eu! Ele se tornou uma fábula, uma ficção, um jogo de palavras: ele parou absolutamente de pensar, de sentir e de inventada para isso foi para o inferno! Isto segue daí! - E tínhamos levado adiante um amável abuso com aquela "empiria". A partir daí, tínhamos criado o mundo como um mundo de causas, como um mundo da vontade, como um mundo do espírito. Aqui, a psicologia mais antiga e mais duradoura estava em obra, ela não fez absolutamente nada diverso: todo acontecimento era para ela uma ação, toda ação a conseqüência de uma vontade; o mundo tornou-se para ela uma multiplicidade de agentes e um agente (um "Sujeito") colocou-se por debaixo de todo e qualquer acontecimento. O homem projetou para fora de si seus três "fatos internos", os objetos de sua crença mais firme: a vontade, o espírito, o Eu. - Ele primeiramente extraiu o conceito Ser do conceito Eu, ele posicionou as "coisas" como seres segundo sua imagem, segundo seu conceito do Eu enquanto causa. O que há de espantoso no fato de ele sempre ter reecontrado posteriormente nas coisas aquilo que ele tinha inserido nelas? - A coisa mesma, mesmo ainda seu átomo, meus senhores mecanicistas e físicos! Quanto erro, quanto de psicologia rudimentar ainda se mantém em seu átomo! - E isso para não falar absolutamente da "coisa em si", do horrendum pudendum dos metafísicos! O erro de confundir o espírito enquanto causa com a realidade! E tomá-lo medida da realidade! E chamá-lo Deus! -

O erro das causas imaginárias.

com centenas de singularidades que, passando ao largo como no raio, o tiro segueO que aconteceu?

- Comecemos pelo sonho: uma causa é ulteriormente imputada (freqüentemente todo um pequeno romance, no qual o que sonha é o personagem principal) a uma determinada sensação - por exemplo a que segue a um distante tiro de canhão. A sensação perdura, entrementes, em um tipo de ressonância: ela espera como que até o instinto causal lhe permitir passar para o primeiro plano. Daí por diante não mais como acaso, mas como "sentido". O tiro de canhão emerge de uma maneira causal, em uma aparente inversão do tempo. O tardio, a motivação, é vivenciado em primeiro lugar; freqüentemente As representações, que produziram uma certa disposição, foram mal compreendidas e transformadas em suas causas. - De fato, agimos da mesma forma quando estamos acordados. A maioria de nossos sentimentos universais - todo e qualquer tipo de inibição, pressão, tensão, explosão no jogo de ação e reação dos órgãos, assim como em particular o estado do nervo simpático - excita nosso impulso causal: queremos um motivo para nos sentirmos dispostos de tal ou tal modo, para nos sentirmos mal ou bem dispostos. Nunca é suficiente para nós constatar o fato de nos sentirmos dispostos de tal ou tal modo: só aceitamos esse fato - só tomamos consciência dele quando lhe entregamos um tipo de motivação. - A recordação que, sem nosso saber, entra em atividade em tais casos, traz à tona estados anteriores do mesmo tipo e interpretações causais que aí estão articuladas - não sua causalidade. Decerto, a crença em que as representações, os processos de consciência acompanhantes, tinham sido as causas, também é trazida à tona pela recordação. Assim surge o hábito de uma determinada interpretação causal, que em verdade impede e mesmo exclui a investigação.

Explicação Psicológica para isso.

- Reconduzir algo desconhecido a algo conhecido alivia, tranqüiliza, satisfaz e dá, além disso, um sentimento de potência. Junto com o desconhecido é dado o perigo, a inquietude, a preocupação - o primeiro instinto aponta para a eliminação destes estados penosos. Primeiro Princípio: qualquer explicação é melhor do que explicação nenhuma. Porque no fundo se trata apenas de querer livrar-se de representações angustiantes, não se considera com a exatidão necessária os meios de produzir um tal movimento. A primeira representação, com a qual o desconhecido se explica como conhecido, faz tão bem que se a "toma por verdadeira". Prova do prazer ("da força") como critério de verdade. O impulso causal está assim condicionado e provocado pelo sentimento de medo. Se houver alguma possibilidade, o “por quê?” não deve tanto entregar a causa em virtude dela mesma, mas entregar sim um tipo de causa. - Uma causa que aquiete, que liberte e que tome mais leve. A primeira conseqüência dessa necessidade é o fato de que algo já conhecido, vivenciado e inscrito na memória como causa é posto em anexo. - O novo, o não-vivenciado, o estranho são excluídos enquanto causa. Não se busca com isto apenas uma espécie de explicações como causa, mas sim uma espécie escolhida e privilegiada de explicações, que tragam consigo o mais rápida e freqüentemente possível a extinção do sentimento do estranho, do novo, do não-vivenciado: as explicações mais usuais. - Conseqüência: uma espécie de posicionamento das causas torna-se cada vez mais preponderante; concentra-se sistematicamente e mostra-se por fim como dominante, isto é, exclui simplesmente outras causas e explicações. - O banqueiro pensa imediatamente no "negócio", o cristão no "pecado", a moça em seu amor.

Todo o âmbito da moral e da religião pertence a este conceito das causas imaginárias.

- "Explicação" dos sentimentos universais desagradáveis. Estes sentimentos são condicionados pelos seres que são nossos inimigos (os espíritos maus são o caso mais célebre - as histéricas que foram mal compreendidas como bruxas). Eles são condicionados por ações que não são passíveis de aprovação (o sentimento do "pecado", do "caráter pecaminoso", "imputado" a um mal-estar fisiológico - sempre se encontra razões para se estar descontente consigo mesmo). Eles são condicionados como punições, como a paga por algo que não deveríamos ter feito, para algo que não deveríamos ter sido (idéia universalizada de forma impudente por Schopenhauer através de uma proposição, na qual a moral aparece como o que é, como a própria envenenadora e caluniadora da vida: "toda e qualquer grande dor, seja ela corporal, ou espiritual, expressa o que merecemos; pois ela não poderia advir-nos, se não a merecêssemos". Mundo como Vontade e Representação, 2, 6). Eles são condicionados enquanto conseqüências de ações irrefletidas que prosseguem terrivelmente (os afetos, os sentidos são estipulados como causas, como "culpáveis"; estados de necessidade fisiológicos interpretados com a ajuda de outros estados de necessidade como "merecidos"). - "Explicação" dos sentimentos universais agradáveis. Eles são condicionados pela confiança em Deus. Eles são condicionados pela consciência de boas ações (a assim chamada "boa consciência"; um estado fisiológico que por vezes parece tão similar a uma digestão feliz, que chegamos a confundi-los). Eles são condicionados pelo desenlace feliz de certos empreendimentos (falsa conclusão, de uma ingenuidade patética: o desenlace feliz de um empreendimento não cria, para um hipocondríaco ou para um Pascal, nenhum sentimento universal agradável). Estes são condicionados pela crença, pelo amor, pela esperança - as virtudes cristãs. - Em verdade, todas estas pretensas explicações são conseqüências de estados de prazer e de desprazer traduzidos, por assim dizer, em um falso dialeto: se está em condições de ter esperanças porque o sentimento fundamental fisiológico está de novo forte e rico; confia-se em Deus porque o sentimento de plenitude e de força entrega ao indivíduo a quietude. - A moral e a religião pertencem completamente à psicologia do erro: em todos os casos particulares, a causa e o efeito são confundidos; ou bem a verdade é confundida com o efeito do que se crê como verdadeiro; ou bem um estado de consciência com a causalidade desse estado.

Erro da vontade livre.

humanidade seja dependente delesEu ofereço aqui apenas a psicologia de toda e qualquer atribuição

- Hoje já não temos mais nenhuma compaixão pelo conceito de "vontade livre": sabemos muito bem o que ele é - o mais suspeito artifício dos teólogos que existe; um artifício que tem por objetivo fazer com que a humanidade se torne "responsável" à moda dos teólogos, isto é, que visa fazer com que a de responsabilidade. - Onde quer que as responsabilidades sejam procuradas, aí costuma estar em ação o

queriam ao menos criar um direito para que Deus o fizesseOs homens foram pensados como "livres",

instinto de querer punir e julgar. Despiu-se o vir-a-ser de sua inocência, quando se reconduziram os diversos modos de ser à vontade, às intenções, aos atos de responsabilidade. A doutrina da vontade é inventada essencialmente em função das punições, isto é, em função do querer-estabelecer-a-culpa. Toda a psicologia antiga, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes no topo das comunidades antigas, queriam criar para si um direito de infligir penas - ou para que pudessem ser julgados e punidos - para que pudessem ser culpados. Conseqüentemente, toda ação precisaria ser considerada como desejada, a origem de toda ação como estando situada na consciência (- com o que a mais fundamental fabricação de moedas falsas transformou-se, no interior do psicologicismo, em princípio da própria psicologia...). Hoje, quando adentramos o movimento inverso, quando nós imoralistas buscamos novamente com toda força sobretudo retirar do mundo o conceito de culpa e o conceito de punição, purificando destes conceitos a psicologia, a história, a natureza, as instituições e as sanções comunitárias, não há em nossos olhos nenhum antagonismo mais radical do que o em relação aos teólogos que continuam a infectar a inocência do vir-a-ser com as noções de “punição” e "culpa", a partir do conceito de "ordem moral do mundo". O cristianismo é uma metafísica de carrasco...

Qual pode ser nossa única doutrina?

qualquer. Nós inventamos o conceito de "finalidade": na realidade falta a finalidadeÉ-se
condenar o todoMas não há nada fora do todo! Que ninguém mais seja responsável, que o modo de
a-ser é restabelecidaO conceito de "Deus" foi até aqui a maior objeção contra a existência... Nós

- Que ninguém dá ao homem suas propriedades; nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele mesmo (- o contra-senso da representação, aqui por fim recusada, é ensinado por Kant, e talvez mesmo já por Platão, como "liberdade inteligível"). Ninguém é responsável em geral por ele existir, por ele ser constituído de tal ou tal modo, por ele se encontrar sob estas circunstâncias, nesta ambiência. A fatalidade de sua existência não pode ser separada da fatalidade de tudo o que foi e de tudo o que será. O homem não é a conseqüência de uma intenção própria, de uma vontade, de uma finalidade. Com ele não é feita a tentativa de alcançar um "ideal de homem" ou um "ideal de felicidade" ou um "ideal de moralidade". - É absurdo querer fazer rolar sua existência em direção a uma finalidade necessariamente, se é um pedaço de fatalidade, se pertence ao todo, se está no todo. Não há nada que pudesse julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isso significaria julgar, medir, comparar, ser não possa ser reconduzido a uma causa prima, que o mundo não seja uma unidade nem enquanto mundo sensível, nem enquanto "espírito": só isso é a grande libertação. - Com isso a inocência do virnegamos Deus, negamos a responsabilidade em Deus: somente com isso redimimos o mundo.

Conhece-se minha exigência de que os filósofos se coloquem para além do Bem e do Mal, - de que eles tenham abaixo de si a ilusão do juízo moral. Esta exigência deriva-se de uma intelecção que foi formulada pela primeira vez por mim: a intelecção de que não há absolutamente nenhum fato moral. O juízo moral possui em comum com o juízo religioso a crença em realidades que não são de modo algum realidades. A moral é apenas uma exegese de certos fenômenos; falando mais determinadamente, ela é uma exegese equivocada. O juízo moral pertence, tanto quanto o religioso, a um grau de insciência, no qual falta até mesmo o conceito do real, a diferenciação entre o real e o imaginário: de maneira que, em um tal grau, a "verdade" não faz senão designar as coisas que hoje chamamos "construções imaginárias". A esse respeito, o juízo moral nunca pode ser tomado ao pé da letra: ele nunca encerra enquanto tal mais do que um absurdo. Mas ele permanece inestimável enquanto Semiótica: ao menos para os que sabem ele revela as realidades mais preciosas das culturas e das interioridades, que não sabiam o bastante de si para "entenderem" a si mesmas. A moral é meramente um discurso de signos, meramente sintomatologia: é preciso já saber do que se trata para tirar dela algum proveito.

nada quer saberChamar a domesticação de um animal seu "melhoramento" soa, para nós, quase como
tinham-no encarcerado entre puros conceitos apavorantesAí jazia ele, doente, miserável, malévolo
era forte e venturoso. Resumindo, um "Cristão"Fisiologicamente falando: o único meio de

De maneira totalmente provisória, eis um primeiro exemplo! Em todos os tempos quis-se "melhorar" os homens: este anseio antes de tudo chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra escondem-se todas as tendências mais diversas. Tanto a domesticação da besta humana quanto a criação de um determinado gênero de homem foi chamada "melhoramento": somente estes termos zoológicos expressam realidades. Realidades das quais com certeza o sacerdote, o típico "melhorador", nada sabe - uma piada. Quem sabe o que acontece nos amestramentos em geral duvida de que a besta seja aí mesmo "melhorada". Ela é enfraquecida, tornam-na menos nociva, ela se transforma em uma besta doentia através do afeto depressivo do medo, através do sofrimento, através das chagas, através da fome. - Com os homens domesticados que os sacerdotes "melhoram" não se passa nada de diferente. Na baixa Idade Média, onde de fato a igreja era antes de tudo um amestramento, caçava-se por toda parte os mais belos exemplares das "bestas louras". "Melhoravam-se", por exemplo, os nobres alemães. Mas com o que se parecia em seguida um tal alemão "melhorado", seduzido para o interior do claustro? Com uma caricatura do homem, com um aborto. Ele tinha se tornado um "pecador", ele estava em uma jaula, para consigo mesmo; cheio de ódio contra os impulsos à vida, cheio de suspeita contra tudo que ainda enfraquecer a besta em meio à luta contra ela pode ser adoecê-la. A igreja compreendeu isso: ela perverteu o homem, ela o tornou fraco, mas pretendeu tê-lo "melhorado"...

últimas ainda é proibida a ajuda mútuaO resultado de uma tal polícia sanitária não tardou: epidemias

Tomemos o outro caso da assim chamada moral, o caso da criação de uma determinada raça e espécie. O exemplo mais grandioso disso é dado pela moral indiana, sancionada religiosamente enquanto "Lei de Manu". A tarefa de não cultivar menos do que quatro raças de uma só vez está aqui colocada: uma raça sacerdotal, uma guerreira, uma de comerciantes e de agricultores, e, finalmente, uma raça de serviçais, os sudras. Evidentemente, não estamos mais aqui entre domadores de animais: uma espécie cem vezes mais sutil e racional de homem é o pressuposto para que se possa mesmo apenas conceber o plano de uma tal criação. Respira-se melhor e mais profundamente quando se sai da atmosfera de cárcere e de doença cristã e se adentra este mundo mais saudável, mais elevado, mais amplo. Quão miserável é o "novo testamento" diante de Manu, como ele cheira mal! - Mas também esta organização sentiu a necessidade de ser terrível. - Desta vez não na luta com a besta, mas com o conceito que lhe é contraposto, com o homem que não se deixa cultivar, com o homem da mistureba, com o chandala. - E ela não teve uma vez mais nenhum outro meio de torná-lo inofensivo, fraco, senão adoecê-lo - esta foi a luta com o "grande número". Talvez não haja nada mais contraditório para o nosso sentimento do que estas medidas de proteção da moral hindu. O terceiro edito (Avadana-Sastra I), por exemplo, o dos "legumes impuros", ordena que a única alimentação permitida ao chandala deve ser o alho e a cebola, visto que o escrito sagrado proíbe dar-lhes cereais ou frutos que contenham grãos, bem como proíbe dar-lhes água ou fogo. O mesmo edito estabelece que a água, da qual eles têm necessidade, não pode ser pega nem nos rios, nem nas fontes, nem dos tanques, mas somente nas vias de acesso aos pântanos e nos buracos que surgem das pegadas dos animais. Do mesmo modo lhes é proibido lavar suas roupas, bem como lavar a si mesmos, à medida que a água que lhes é concedida pela graça só pode ser utilizada para matar a sede. Por fim, uma proibição que se dirige às mulheres dos sudras, a proibição de auxiliar as mulheres chandalas no nascimento; da mesma forma que para estas homicidas, doenças venéreas espantosas e então novamente "a lei da faca", ordenando a circuncisão para as crianças do sexo masculino, a ablação dos pequenos lábios para as crianças do sexo feminino. O próprio Manu diz: "Os chandalas são o fruto do adultério, do incesto e do crime (- esta a conseqüência necessária do conceito de criação). Elas só devem ter por vestimentas os farrapos dos cadáveres, por louça potes arrebentados, por jóias ferro antigo, por serviço religioso apenas os maus espíritos; elas devem errar de um lugar para o outro sem descanso. É-Ihes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: a utilização da mão direita e da escrita da esquerda para a direita é reservada apenas aos virtuosos, às pessoas de raça". -

"humanidade". Em que povo o ódio se transformou em religião, em gênioSob este ponto de vista, os

Estes decretos são bastante instrutivos: neles temos a humanidade ariana, totalmente pura, totalmente originária. Aprendemos que o conceito de "sangue puro" é o oposto de um conceito inofensivo, Por outro lado, fica claro em que povo perpetuou-se o ódio, o ódio da chandala contra esta evangelhos são documentos de primeira linha; mais ainda o livro de Henoch. - O cristianismo, que surge da raiz judia e só é compreensível como uma planta deste solo, representa o movimento de oposição à toda moral da criação, da raça, do privilégio: ele é a religião antiariana par excellence. O cristianismo, a transvaloração de todos os valores arianos, a vitória dos valores do chandala, o evangelho pregado aos pobres e aos humildes, a insurreição conjunta de todas as camadas mais baixas, dos miseráveis, dos fracassados, deserdados contra a "raça". - A vingança imortal do chandala como religião do amor...

direito à mentira. Eles duvidaram de direitos totalmente diversosExpresso em uma fórmula, poder-

A moral da criação e a moral da domesticação são plenamente dignas uma da outra, no que concerne aos meios de se impor. Podemos apresentar como princípio mais elevado o seguinte: para levar a termo a moral é necessário ter a vontade incondicionada do contrário. Este é o grande problema, o problema sinistro, ao qual persegui mais longamente: a psicologia dos "melhoradores" da humanidade. Um fato diminuto e no fundo modesto, este da assim chamada pia fraus8, abriu-me um primeiro acesso a este problema. A pia fraus foi a herança de todos os filósofos e sacerdotes que “melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio, nem as doutrinas hebréias e cristãs jamais duvidaram de seu se-ia dizer: todos os meios, através dos quais até aqui a humanidade deveria se tornar moral, foram fundamentalmente imorais.

obedece, sem que a obediência humilheE ninguém despreza seu oponente...

Entre os alemães não é suficiente hoje ter espírito: precisa-se ainda detê-lo, arrogar-se espírito... Talvez conheça os alemães, talvez possa mesmo dizer-lhes um par de verdades. A nova Alemanha apresenta uma grande quantidade de habilidades hereditárias e adquiridas, de modo que ela pode mesmo gastar profusamente durante um tempo o tesouro acumulado de forças. Não foi uma cultura elevada que se tornou senhora junto com ela, nem tampouco um paladar delicado, uma nobre "beleza" dos instintos. Ao contrário, foram virtudes mais varonis do que poderia apresentar um outro país da Europa. Muito da boa coragem e do respeito para consigo mesmo, muito da segurança na lida com as pessoas e as coisas, bem como na reciprocidade dos deveres, muito da concentração no trabalho, muito dá perseverança e uma moderação herdada, que carece antes de aguilhão do que de travas. Acrescento que aqui ainda se

Vê-se que é meu desejo fazer justiça aos alemães: não gostaria de vir-a-ser desleal quanto a isso. -

emburreceOs alemães - se os chamou um dia o povo dos pensadores: eles ainda pensam hoje em dia?
Eu temo que este tenha sido o fim da filosofia alemã"Há filósofos alemães? Há poetas alemães? Há

Também preciso lhes apresentar então minha objeção. Paga-se caro para chegar ao poder: o poder - Os alemães entediam-se agora com o espírito, os alemães desconfiam agora do espírito, a política devora toda a gravidade para as coisas realmente espirituais. - "Alemanha, Alemanha acima de tudo"!9

8 Mentira piedosa. (N.T.) 9 primeiro verso duma canção nacional alemã (N. T.)

de apenas confessar que livros se lê hoje em dia?Maldito instinto da mediocridade!

bons livros alemães?" - as pessoas me perguntam no estrangeiro. Eu coro, mas com a valentia que me é tão própria mesmo nos casos mais desesperadores respondo: "Sim, Bismarck!" -Teria mesmo o direito

espiritualidade, o instinto da autoconservação do espírito, e bebam cerveja?O alcoolismo da
transformou no autor de um evangelho de cervejaria e de uma "nova crença"10Não à toa fez ele seu

- O que poderia ser o espírito alemão, quem já não teria experimentado seus pensamentos melancólicos sobre isso! Mas esse povo emburrou-se arbitrariamente, desde quase um milênio: em nenhum outro lugar, os dois grandes narcóticos europeus, álcool e cristianismo, foram mais viciosa e abusivamente utilizados. Recentemente, até mesmo um terceiro narcótico veio ainda acrescentar-se a esses dois; um com o qual é possível aniquilar sozinho toda mobilidade sutil e audaz do espírito: a música, nossa música alemã entulhada e entulhadora. - Quanto há do peso enfadado, do aleijão, da umidade, do robe, quanto há de cerveja na inteligência alemã! Como é afinal possível que homens jovens, dedicando sua existência aos fins mais espirituais, não sintam em si o primeiro instinto da juventude erudita talvez não seja ainda nenhum ponto de interrogação no que concerne à sua erudição. Pode-se, mesmo sem espírito, ser um grande erudito. Mas se considerarmos de qualquer outro modo, ele permanece um problema. Onde não se encontraria a suave degradação que a cerveja produz no espírito! Em um caso que quase se tornou célebre, uma vez coloquei o dedo em uma tal degradação - a degradação de nosso primeiro espírito livre alemão, do inteligente David Strauss; o homem que se elogio à "amada loura" em versos. - Fiel até a morte...

ilude ninguémA Alemanha vige cada vez mais como a planície da Europa. - Ainda busco um alemão,

- Falei do espírito alemão: que ele vem se tornando mais rude, que ele vem se aplanando. Isto é suficiente? - No fundo, o que me espanta é uma coisa totalmente diversa. Como a seriedade alemã, a profundidade alemã, a paixão alemã pelas coisas do espírito vai declinando sempre mais . O pathos transformou-se, não apenas a intelectualidade. - Eu refiro-me aqui e acolá às universidades alemães: que atmosfera reina entre seus eruditos, que deserto, que espiritualidade tornada sóbria e tépida! Seria um mal-entendido profundo, além de uma prova de que não se leu nenhuma palavra do que escrevi, se se quisesse me objetar aqui através da menção à ciência alemã. Há dezessete anos não me canso de lançar luz sobre a influência desespiritualizadora de nossos impulsos científicos atuais. O duro hilotismo, à qual a monstruosa extensão da ciência condena hoje todos os indivíduos, é um dos fundamentos principais para o fato de as naturezas mais plenas, mais ricas, mais profundamente constituídas não encontrarem mais nenhuma educação e nenhum educador que lhes seja adequado. Nossa cultura não padece em nada mais do que em uma superabundância de serviçais pretensiosos e humanidades fragmentárias. Nossas universidades são, contra a sua vontade, as próprias estufas para esse tipo de estorvamento dos instintos do espírito. E toda a Europa já tem um conceito disto - a grande política não com o qual pudesse ser sério à minha maneira - e tanto mais procuro por um com o qual tivesse o direito de permanecer sereno! Crepúsculo dos ídolos: ah! quem é capaz de conceber hoje de que tipo de seriedade um eremita se restabelece aqui! - A serenidade é em nós o mais incompreensível...

Pode-se calcular aproximadamente certos custos: não é apenas evidente que a cultura alemã está em decadência, mas também não falta razão suficiente para que isso aconteça. Enfim, ninguém pode despender mais do que possui: isto vale tanto para os indivíduos, quanto para os povos. Despende-se muito com o poder, com a grande política, com a economia, com o comércio internacional, com o parlamentarismo, com os interesses militares - se dissiparmos com este lado o quantum de entendimento, de seriedade, de vontade, de auto-superação, que se é, então ele faltará para o outro. A cultura e o Estado – que não nos enganemos quanto a isso – são antagonistas: o "Estado Cultural" é apenas uma idéia moderna. Cada um deles vive do outro, cada um prospera à custa do outro. Todos os

10 Refere-se a A antiga e a nova fé, do mesmo (N. do T.)

Napoleão - ele fechou-se novamente junto com as "guerras de independência"No mesmo instante em

grandes tempos da cultura são tempos de decadência política: o que é grande no sentido da cultura sempre foi apolítico, mesmo antipolítico. O coração de Goethe abriu-se juntamente com o fenômeno de que a Alemanha irrompe como uma grande potência, a França conquista uma importância transformada enquanto potência cultural. Já hoje, uma seriedade muito nova, uma paixão do espírito muito nova mudou-se para Paris; a questão do Pessimismo, por exemplo, a questão de Wagner, quase todas as questões psicológicas e artísticas são consideradas de modo muito mais sutil e fundamental do que na Alemanha. - Os alemães são mesmo incapazes deste tipo de seriedade. - Na história da cultura européia, a ascensão do “império” significa antes de tudo uma coisa: uma mudança no centro de gravidade. Já se sabe por toda parte que: no tocante ao principal – e isso ainda é a cultura –, os alemães não se encontram mais sob o foco de consideração. Pergunta-se também: vós tendes ao menos um espírito digno de nota para mostrar à Europa? Um espírito tal como o vosso Goethe, o vosso Hegel, o vosso Heinrich Heine, o vosso Schopenhauer para contabilizar? O espanto é infindo, ao percebermos que não há mais nem um único filósofo alemão.

professores ginasiais e eruditos universitáriosEducadores são necessários, educadores que sejam eles
prerrogativa: o democratismo da "formação universal", da "formação" que se tornou comumNão
de se saber diante de um chamamentoEle tem tempo, ele toma o tempo para si, - ele não pensa de

O que há de principal para toda a educação superior perdeu-se na Alemanha: a finalidade tanto quanto o meio para a finalidade. Esqueceu-se do fato de que a meta é a própria educação, a própria formação, e não "o império": o fato de que se precisava de educadores para alcançar essa meta - e não mesmos educados, espíritos superiores e nobres, que mostrem seu valor a cada instante, através da palavra e do silêncio, culturas que se tornaram maduras e doces. - Não estes brutescos eruditos que os ginásios e as universidades oferecem hoje em dia à juventude como "amém superior". Faltam educadores, descontadas as exceções das exceções, a primeira condição prévia da educação: daí a decadência da cultura alemã. - Uma dessas exceções das mais raras de todas é meu amigo Jakob Burckhardt de Basiléia, um homem digno de veneração: é a ele que Basiléia deve, em primeiro lugar, sua proeminência no que concerne às humanidades. - O que as "escolas superiores" alemãs conseguem de fato alcançar é um adestramento brutal para, com o dispêndio de tempo mais restrito possível, tornar um sem número de homens jovens utilizáveis para o serviço público; o que significa dizer, passíveis de serem explorados por ele. "Educação superior" e um sem número de educandos: isto é por princípio uma contradição em si mesmo. Toda e qualquer educação superior pertence apenas à exceção: é preciso que se seja privilegiado, para se ter o direito a um tão elevado privilégio. Todas as coisas boas, assim como todas as belas nunca podem ser um bem comum: pulchrum est paucorum hominum11. - O que condiciona a decadência da cultura alemã? O fato da "educação superior" não ser mais nenhuma esquecer que os privilégios militares impõem formalmente a freqüência demasiado intensa das escolas superiores, isto é, seu declínio. - Ninguém mais se encontra livre para dar, na Alemanha atual, uma educação nobre para suas crianças: nossas escolas "superiores" estão todas elas direcionadas pela mediocridade mais ambígua, com professores, com planos de aula, com objetivos pedagógicos. E por toda parte reina uma pressa indecente, como se fosse uma falta grave para o homem jovem ainda não estar "pronto" aos 23 anos, ainda não saber responder à "pergunta principal": que profissão escolher? - Um tipo superior de homem, seja dito com vossa permissão, não ama "profissões", exatamente pelo fato modo algum em ficar "pronto". Com trinta anos se é, no sentido da cultura superior, um principiante, uma criança. - Nossos ginásios apinhados, nossos professores de ginásio sobrecarregados e tornados estúpidos são um escândalo: para defender este estado de coisas, como fizeram recentemente os professores de Heidelberg, tem-se talvez causas. Mas não há razões para ele.

- Eu apresento a partir de agora, para não perder o meu jeito afirmativo, este jeito que só tem a ver mediada e involuntariamente com a contradição e a crítica, as três tarefas em virtude das quais se precisa de educadores. Tem-se de aprender a ver, tem-se de aprender a pensar, tem-se de aprender a falar e

1 Poucos homens participam do belo. (N.T.) escrever: o alvo em todas as três é uma cultura nobre. - Aprender a ver: acostumar os olhos à quietude, à paciência, a aguardar atentamente as coisas; protelar os juízos, aprender a circundar e envolver o caso singular por todos os lados. Esta é a primeira preparação para a espiritualidade: não reagir imediatamente a um estímulo, mas saber acolher os instintos que entravam e isolam. Aprender a ver, assim como eu o entendo, é quase isso que o modo de falar não-filosófico chama de a vontade forte: o essencial nisso é precisamente o fato de poder não "querer", de poder suspender a decisão. Toda ação sem espiritualidade, bem como toda vulgaridade repousa sobre a incapacidade de sustentar uma oposição a um estímulo - o "precisa-se reagir" segue-se a cada impulso. Em muitos casos, uma tal necessidade já é prova de um caráter doentio, de decadência, de um sintoma de esgotamento. - Quase tudo que a rudeza não-filosófica denomina com o nome de "vício" é meramente aquela incapacidade fisiológica de não reagir. Uma aplicação do ter-aprendido-a-ver: à medida que nos tornamos um destes que aprende, nos tornamos em geral lentos, desconfiados e resistentes. Deixa-se inicialmente advir todo tipo de coisa estranha e nova com uma quietude hostil - se retirará a mão daí. O ter todas as portas abertas, o deitar de bruços submisso diante de todo e qualquer pequeno fato, o inserir-se e o lançar-se sempre pronto para o salto no diverso, em resumo a célebre "objetividade moderna" é de mau gosto, é não-nobre par excellence.

o pensar deve ser aprendido, como o dançar é aprendido, como um tipo de dançaQuem ainda conhece
geral. O alemão não tem dedos para as nuancesDo mesmo modo, o fato de os alemães terem apenas

Aprender a pensar: não se tem mais em nossas escolas nenhuma noção do que isso significa. Mesmo nas universidades, até mesmo entre os eruditos da filosofia começa a extinguir-se a lógica enquanto teoria, enquanto prática e enquanto ofício. Lê-se livros alemães: não há agora a mais remota lembrança de que é necessário ao pensamento uma técnica, um plano de estudo, uma vontade de domínio - de que por experiência dentre os alemães aquele sutil arrepio, que faz transbordar em todos os músculos os pés leves das coisas espirituais! - O aparvalhamento inflexível dos gestos espirituais, a mão pesada no manusear - isto é alemão a um tal ponto que, no estrangeiro, se o confunde com a essência alemã em suportado seus filósofos, e, antes de todos, o maior dentre os aleijões conceituais que jamais existiram, o grande Kant, não nos dá uma idéia diminuta do garbo alemão. - Em verdade, não se pode subtrair da educação nobre a dança em todas as suas formas: poder dançar com os pés, com os conceitos, com as palavras; eu diria ainda que também se precisa poder dançar com a pena. - Que é preciso aprender a escrever? - Mas neste ponto eu me tornaria plenamente um enigma para os leitores alemães...

ubertas; em alemão: a vaca leiteira com um "belo estilo". - Michelet: ou o entusiasmo despido-

Meus impossíveis. - Seneca: ou o toureador da virtude. - Rousseau: ou o retorno à natureza em impuris naturalibus. - Schiller: ou o trompetista moral de Säckingen. - Dante: ou as hienas que fazem poesia nos túmulos. - Kant: ou a cant [hipocrisia] enquanto caráter inteligível. - Vitor Hugo: ou o farol no mar do contra-senso. - Liszt: ou a escola da destreza segundo as mulheres. - George Sand: ou lactea Carlyle: ou o Pessimismo enquanto o almoço azedado. - John Stuart Mill: ou a clareza ofensiva. - os irmãos de Goncourt: ou os dois Ajaxes em luta com Homero. A música de Offenbach. - Zola: ou "a alegria de feder".

Renan. - Teologia, ou a degradação da razão pelo "pecado original" (o cristianismo). O testemunho de Renan que, logo ao arriscar uma vez um Sim ou Não de modo mais universal, erra o alvo com uma regularidade penosa. Ele queria, por exemplo, ligar em uníssono la science e la noblesse12: mas a

12 A ciência e a nobreza (N. do P.)

e não apenas sobre seus joelhos, a doutrina contrária: o evangelho dos humildesDe que serve toda
riscoEste espírito de Renan, um espírito que debilita os nervos, é mais uma fatalidade para a doente,

ciência pertence à democracia, e isso é palpável. Ele deseja, com uma ambição nada desprezível, apresentar um aristocratismo do espírito: no entanto, ele aconchega ao mesmo tempo sobre seus joelhos, essa conversa sobre liberdade do espírito, toda modernidade, toda zombaria e toda a flexibilidade de papaformigas, se em nossas entranhas continuarmos cristãos, católicos e até mesmo sacerdotes! Renan possui toda sua inventividade, exatamente como um jesuíta e um confessor, na sedução; em sua espiritualidade não falta o largo sorriso eclesiástico. - Como todo sacerdote, ele só se torna perigoso quando ama. Ninguém se equipara a ele no modo de louvar, um modo de louvar que coloca a vida em para a doente da vontade, para a pobre França. -

Sainte-Beuve. - Nada do homem; pleno de uma raiva contra todo e qualquer espírito varonil.

Errando de um lado para outro, fino, curioso, entediado, em posição de escuta. No fundo uma personalidade feminina, com vinganças de mulher e uma sensualidade de mulher. Enquanto psicólogo, ele é um gênio da malediscência, inesgotavelmente rico em meios para tanto; ninguém entende melhor o que significa misturar veneno com um elogio. Plebeu nos instintos inferiores e aparentado com o ressentimento de Rousseau: conseqüentemente romântico - pois em todo romantismo grunhe e guincha o instinto de vingança de Rousseau. Revolucionário, mas ainda razoavelmente contido pelo medo. Sem liberdade diante de tudo, que tem força (a opinião pública, a academia, a corte, mesmo Port Royal). Irritado contra tudo o que há de grandioso no homem e nas coisas, contra tudo o que crê em si. Poeta e meio-mulher o suficiente, para ainda sentir a grandeza enquanto poder; constantemente retorcido como aquele famoso verme, porque se sente constantemente pisado. Enquanto crítico sem critério, sem ponto de apoio e espinha dorsal, com a língua do libertino cosmopolita frente a todas as coisas em geral, mas sem a própria coragem para a assunção da libertinagem. Enquanto historiador sem filosofia, sem o poder do olhar filosófico. Por isto, recusando a tarefa de julgar em todas as questões principais e assumindo para si a "objetividade" como máscara. Por outro lado, ele se comporta de uma forma completamente diversa diante das coisas, sempre que um paladar refinado e depurado se mostra como a instância suprema: quando isso acontece, ele tem a coragem diante de si e o prazer de estar junto a si mesmo - quando isso acontece, ele se torna Mestre. - Segundo certos aspectos, ele é um precursor de Baudelaire.

imediatamente francês - ou wagnerianoEste santo possui um modo de falar do amor, que deixa

A Imitação de Cristo é um dos livros que não consigo segurar entre as mãos sem uma repugnância fisiológica: ele exala um perfume do eterno-feminino, segundo o qual é preciso que se seja curiosos até mesmo os parisienses. - Dizem-me que o mais inteligente dos jesuítas, Auguste Comte, o homem que quis levar seus franceses através de rodeios da ciência até Roma, inspirou-se neste livro. Eu acredito: "a religião do coração"...

G. Eliot. - Eles se desembaraçaram do Deus cristão e agora acreditam tanto mais na necessidade de sustentar a moral cristã. Esta é uma seqüência lógica inglesa, não queremos repreender as senhorinhas morais à moda de Eliot. Na Inglaterra, à toda pequena emancipação frente à teologia, é preciso restabelecer para si as honras de um modo apavorante, enquanto um fanático moral. Lá, esta é a penitência que se paga. - Para nós outros, a coisa se apresenta de uma maneira diferente. Ao se abdicar da crença cristã, expele-se a pontapés o direito à moral cristã. Esta não se compreende pura e simplesmente a partir dela mesma: é preciso sempre novamente que se traga este ponto à luz, apesar da estultícia inglesa. O cristianismo é um sistema, uma visão total das coisas pensada em conjunto. No que se rompe um de seus conceitos centrais, a crença em Deus, também dissipa-se com isso o todo: não se tem mais nada de necessário entre os dedos. O cristianismo pressupõe que o homem não sabe, que ele não pode saber, o que é bom e o que é mau para ele: ele acredita em Deus, que é o único a saber isto. A moral cristã é um comando; sua origem é transcendente; ela está para além de toda e qualquer crítica, de todo e qualquer direito à crítica; ela só possui verdade, no caso em que Deus é a verdade - ela se erige e cai junto com a crença em Deus. Se os ingleses de fato acreditassem, eles saberiam por si mesmos "intuitivamente" o que é bom e mau; se eles conseqüentemente se arraigam à opinião de que o cristianismo não é mais necessário enquanto garantia da moral, este fato mesmo não é senão meramente a conseqüência do domínio do juízo de valor cristão e uma expressão da força e da profundidade deste domínio: de modo que a origem da moral inglesa é esquecida, de modo que o que há de deverascondicionado em seu direito à existência não é mais sentido. Para os ingleses, a moral não é mais problema algum...

como a um relógio e escreviaFria como Hugo, como Balzac, como todo e qualquer romântico, ao se

Georg Sand. - Eu li as primeiras Cartas de um Viajante. como tudo que provém de Rousseau, elas são falsas, factícias, balofas, exageradas. Eu não suporto este estilo colorido de tapeçaria; tampouco quanto a ambição do populacho pelos sentimentos generosos. O pior continua sendo contudo a "coqueteria" feminina envolta em virilidades, envolta em maneiras de jovens mal-educados . - Quão fria ela não precisa ter sido em meio a tudo isso, esta artista insuportável! Ela dava corda em si mesma lançar ao trabalho poético! E com que auto-suficiência ela deve ter se colocado aí, esta terrível vaca escritora, que possuía em si algo de alemão no pior sentido, exatamente como Rousseau, seu mestre, e que, de qualquer modo, só foi possível a partir da decadência do paladar francês! Mas Renan a venera...

camera obscura o transpassamento e a expressão do "caso", da "natureza", do "vivenciado"Ele não
do mesmo modo a efetividade, se traz toda noite para casa a mão cheia de curiosidadesMas eu diria:

Moral para Psicólogos. - Não desempenhar nenhuma psicologia barata! Nunca observar por observar! Isto dá uma falsa ótica, uma vesguice, algo forçado e desmesurante. Vivenciar enquanto um querer vivenciar não funciona. Não é permitido olhar para si mesmo em uma vivência, toda olhada torna-se aí um "mau olhado". Um psicólogo nato protege-se instintivamente de ver por ver; o mesmo vale para o pintor nato. Ele nunca trabalha "segundo a natureza" - ele abandona ao seu instinto, à sua tem consciência senão do universal, da conclusão, do resultado: ele não conhece aquela abstração arbitrária do caso singular. - O que acontece, quando se age de outra maneira? Por exemplo, quando à moda dos novelistas parisienses se implementa a grande e a pequena psicologia barata? Espreita-se aí só se vê o que por último vem à tona - um monte de nódoas, um mosaico na melhor das hipóteses, de qualquer forma algo co-adicionado, inquieto e de cores gritantes. São os irmãos Goncourt que alcançam o que há de pior nisto: eles não alinhavam sequer três frases sem simplesmente ferir os olhos, os olhos do psicólogo.

(Parte 3 de 5)

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