Crepusculo dos Ídolos

Crepusculo dos Ídolos

(Parte 4 de 5)

A natureza, avaliada artisticamente, não é nenhum modelo. Ela exagera, ela desfigura, ela deixa brechas. A natureza é o acaso. O estudo "segundo a natureza" parece-me um mau sinal: ele trai sujeição, fraqueza, fatalismo. Esta prostração pulverizada diante dos fatos pequenos é indigna de um artista completo. Ver o que é pertence a um outro gênero de espíritos, aos espíritos anti-artísticos, aos objetivos. É preciso saber quem se é... 8.

Para a Psicologia do Artista. Para que haja a arte, para que haja uma ação e uma visualização estéticas é incontornável uma precondição fisiológica: a embriaguez. A embriaguez precisa ter elevado primeiramente a excitabilidade de toda a máquina: senão não se chega à arte. Todos os modos mais diversamente condicionados da embriaguez ainda possuem a força para isso: antes de tudo, a embriaguez da excitação sexual, a mais antiga e originária forma da embriaguez. Da mesma forma, a embriaguez que nasce como conseqüência de todo grande empenho do desejo, de toda e qualquer afecção forte; a embriaguez da festa, do combate, dos atos de bravura, da vitória, de todo e qualquer movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez sob certas influências metereológicas, por exemplo a embriaguez primaveril; ou sob a influência dos narcóticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade acumulada e dilatada.

- O essencial na embriaguez é o sentimento de elevação da força e de plenitude. A partir deste sentimento nos entregamos às coisas, as obrigamos a nos tornar, as violentamos. – Denomina-se esse evento como uma idealizarão. Desprendamo-nos aqui de um preconceito: o idealizar não consiste, como geralmente se pensa, em uma subtração e uma dedução disto que é pequeno e secundário. O que é decisivo é muito mais uma monstruosa exaltarão dos traços principais, de modo que os outros traços pertinentes se dissipam.

cristão que fosse ao mesmo tempo artista não existeQue não se seja infantil e me lance ao rosto Rafael

Neste estado, tudo se enriquece a partir de sua própria plenitude: o que se vê, o que se quer, se vê dilatado, cerrado, forte, sobrecarregado com a força. O homem que se encontra nesse estado transforma as coisas até elas refletirem sua potência: até elas serem o reflexo de sua perfeição. Este precisartransformar em algo perfeito é - arte. Tudo mesmo o que ele não é, vem-a-ser apesar disto para ele prazer em si; na arte, o homem goza de si mesmo enquanto perfeição. Seria permitido cogitar-se um estado oposto, um específico movimento antiartístico dos instintos - um modo de ser que empobrece, estreita, que deixa todas as coisas tísicas. E, de fato, a história é rica em tais antiartistas, em tais esfomeados de vida: os quais por necessidade tomam as coisas ainda em si para debilitá-las, os quais precisam torná-las mais magras. Este é, por exemplo, o caso do genuíno cristão, citemos Pascal: um ou qualquer cristão homeopático do século dezenove: Rafael dizia sim, Rafael realizava a afirmação, logo Rafael não era de modo algum um cristão.

Qual o significado dos conceitos opostos introduzidos por mim na estética, o apolíneo e o dionisíaco, ambos concebidos enquanto modos da embriaguez? - A embriaguez apolínea mantém antes de tudo o olhar excitado, de forma que ele recebe a força da visão. O pintor, o escultor, o poeta épico são visionários par excellence. Na instância dionisíaca, ao contrário, o sistema conjunto de afetos é que está excitado e elevado: de modo que ele descarrega de uma vez só todos os seus meios de expressão e lança para fora ao mesmo tempo a força de apresentação, de reprodução, de transfiguração, de transformação, bem como de todo o tipo de mímica e teatralidade. O essencial permanece a facilidade da metamorfose, a incapacidade de não reagir (- similarmente a certos histéricos que, atendendo a todo e qualquer aceno, adentram todo e qualquer papel). É impossível para o homem dionisíaco não entender uma sugestão qualquer, ele não desconsidera nenhum sinal dos afetos, ele tem no grau mais elevado o instinto intelectivo e divinatório, assim como possui no grau mais elevado a arte da comunicação. Ele se insere em cada pele e em cada afeto: ele transforma-se constantemente. - A música, tal como a compreendemos hoje, é igualmente uma excitação e uma descarga conjunta dos afetos, mas, não obstante, apenas o que, sobrou de um mundo de expressão dos afetos muito mais pleno, um mero residuum do histrionismo dionisíaco. Para a viabilização da música enquanto arte específica, imobilizou-se uma certa quantidade de sentidos, antes de tudo o sentido muscular (no mínimo relativamente: pois em certo grau todo ritmo ainda fala a nossos músculos): de modo que o homem não imita e apresenta mais imediatamente com seu corpo tudo que sente. Apesar disso, é este o estado normal propriamente dionisíaco, em todo caso o estado originário; a música é a especificação lentamente alcançada deste estado, em detrimento das faculdades que lhe são mais intimamente aparentadas.

O ator, o mimo, o dançarino, o músico, o poeta lírico são fundamentalmente aparentados em seus instintos e são em si um, mas pouco a pouco vão se especializando e se separando um do outro - mesmo até a contradição. O poeta lírico foi quem permaneceu por mais tempo unido com o músico; o ator com o dançarino. O arquiteto não apresenta nem um estado dionisíaco, nem um apolíneo: aqui é o grande ato de vontade, a vontade, que remove montanhas, a embriaguez da grande vontade que possui o afã pela arte. Os homens mais potentes sempre inspiraram os arquitetos; o arquiteto esteve freqüentemente sob a sugestão da potência. Na edificação, o orgulho, a vitória sobre o peso, a vontade de potência devem se tornar visíveis; a arquitetura é uma espécie de eloqüência da potência através das formas; ora convincente, mesmo lisonjeadora, ora meramente ordenadora. O sentimento mais elevado da potência e da segurança vem à expressão em meio ao que possui grande estilo. A potência que não precisa mais de nenhuma prova; que desdenha do agrado; que responde dificilmente; que não sente nenhuma testemunha em torno de si; que vive sem consciência de que há uma contradição em relação a ela; que repousa em si, fatalisticamente, uma lei sob leis: isto fala de si com grande estilo. -

deslealdadeMas ora, isto é inglês; e, considerando que o inglês é o povo da cant [hipocrisia] perfeita,

Eu li a vida de Thomas Carlyle, esta farsa que se produz a despeito do saber e da vontade, esta interpretação heróico-moral dos estados dispépticos. - Carlyle, um homem de palavras e atitudes fortes, um retórico por necessidade, que é constantemente agastado pela exigência de uma forte crença e pelo sentimento da incapacidade para tanto (- nisto ele é um típico romântico!). A exigência de uma forte crença não é a prova de uma forte crença, muito mais o contrário. Se a possuímos, então nos é permitido conceder-nos o belo luxo do ceticismo: estamos seguros o suficiente, prontos o suficiente, comprometidos o suficiente para tanto. Carlyle faz com que algo adormeça em si através do fortíssimo de sua veneração por homens de crenças fortes e através de sua ira contra os menos unidimensionais: ele carece de barulho. Uma constante deslealdade frente a si mesmo - este é o seu proprium, com isto ele é e permanece interessante. É verdade que ele é admirado na Inglaterra exatamente por causa de sua é mesmo legítimo, e não apenas compreensível. No fundo, Carlyle é um ateu inglês, que busca sua honra justamente no fato de não o ser.

felizAlguém que não se alimenta senão com ambrósia e que deixa de lado o que há de indigesto nas

Emerson - Muito mais esclarecido, errante, múltiplo, refinado do que Carlyle; e, antes de tudo, mais coisas. Tomado em contraposição a Carlyle, um homem de gosto. - Carlyle, porém, que tanto o amou, dizia dele: "ele não nos dá o suficiente para morder": o que pode até ser dito com direito, mas não em detrimento de Emerson. - Emerson possui aquela boa e espirituosa serenidade, que desencoraja toda seriedade; ele simplesmente não sabe o quão velho já é e o quão jovem ainda será - ele poderia dizer de si com uma sentença de Lope de Vega: "yo me sucedo a mi mismo". Seu espírito sempre encontra razões, para estar satisfeito e mesmo agradecido; e por vezes ele toca a serena transcendência daquele homem distinto, que retornava de um encontro amoroso tarquam rebene gesta. "Ut de sint vires, ele dizia agradecido, tamen est laudanda voluptas".

luta, luta-se por potênciaNão se deve confundir Malthus com a natureza. No entanto, suposto que
eles também são mais inteligentesDarwin esqueceu o espírito (- isto é inglês!), os fracos possuem
mais espíritoÉ preciso ter necessidade de espírito para obter um espírito - nós o perdemos quando não
se hoje na Alemanha - "O império há, contudo, de permanecer conosco"). Eu entendo por Espírito,

Anti-Darwin. No que concerne à célebre luta pela vida, ela me parece a princípio mais afirmada do que provada. Ela acontece, mas enquanto exceção; o aspecto conjunto da vida não é a indigência e a penúria famélicas, mas muito mais a riqueza, a exuberância, mesmo o desperdício absurdo - onde há haja esta luta e, de fato, ela se dá -, ela transcorre infelizmente de modo inverso ao que a escola de Darwin deseja; de modo inverso ao que talvez se pudesse desejar: isto é, em detrimento dos fortes, dos privilegiados, das felizes exceções. As espécies não crescem em meio à perfeição: os fracos sempre se tornam novamente senhores sobre os fortes. Isto acontece porque eles estão em grande número e porque temos mais necessidade dele. Quem possui a força se desprende do espírito (- "Deixemo-lo ir!" pensacomo se vê, a cautela, a paciência, a astúcia, a dissimulação, o grande autocontrole e tudo que é mimicry (a este último pertence uma grande parte da assim chamada virtude).

político!Este aí também é um conhecedor dos homens: e vós dizeis que ele não quer com isso nada

Casuística de Psicólogo. - O psicólogo é alguém que conhece o homem: para que estuda propriamente os homens? Ele quer retirar deles pequenas vantagens, ou mesmo grandes - ele é um para si, que ele é um grande "impessoal". Atentai mais incisivamente! Talvez ele ainda queira até mesmo uma vantagem pior: sentir-se superior aos homens, ter o direito de olhar para eles desde cima, não se misturar mais com eles. Este "impessoal" é um desprezador de homens: e aquele primeiro é da espécie mais humana, independentemente do que possa dizer a aparência. Ele se coloca no mínimo como igual, ele se insere...

"Goethe e Schiller". Temia que dissessem "Schiller e Goethe"Então não se conhece este Schiller? -

O compasso psicológico dos alemães parece-me estar colocado em questão por toda uma série de casos, cuja modéstia me impede de apresentar a lista. Em um caso não me faltará um grande ensejo para fundamentar minha tese: eu guardo rancor dos alemães por terem se equivocado quanto a Kant e a sua "Filosofia das Portas dos Fundos", como a chamo. - Isto não foi condizente com a tipologia da retidão intelectual. - Uma outra coisa que não consigo escutar é um famigerado e nefando "e": os alemães dizem Mas há ainda um "e" pior; ouvi com meus próprios ouvidos (apesar de ser apenas dentre professores universitários): "Schopenhauer e Hartmann"...

Os homens mais espirituosos, pressupondo-se que eles são também os mais corajosos, são aqueles que melhor e mais amplamente vivenciam as tragédias mais dolorosas: mesmo por isso, contudo, eles honram a vida; porque ela lhes contrapõe o seu maior antagonismo.

Para a "Consciência Intelectual". - Nada me parece hoje mais raro do que a genuína dissimulação.

menos do que cinco sentidos. Quando se é genuínoEu temo enormemente que o homem moderno
vontade -, degenera-se em virtude no interior de nossa atmosfera tépidaOs menos dissimulados que

Eu tenho uma grande suspeita quanto ao fato de o ar brando de nossa cultura não ser propício para esta planta. A dissimulação pertence à era das fortes crenças: à era em que os homens, mesmo coagidos a ostentar uma outra crença, não se apartavam da crença que tinham. Hoje, eles a deixam de lado; ou, o que é ainda mais comum, eles adquirem uma segunda crença - em todo caso, eles permanecem sinceros. Não há a menor dúvida de que hoje existe um número muito maior de possíveis convicções do que outrora: possíveis, isto é, permitidas, isto é, inofensivas. Daí emerge a tolerância para consigo mesmo. - A tolerância para consigo mesmo abre espaço para o surgimento de muitas convicções: estas mesmas convicções convivem tranqüilamente umas ao lado das outras - elas se protegem, como todo mundo hoje, da eventualidade de se comprometer. Com o que é que as pessoas se comprometem hoje em dia? Quando se porta uma conseqüência. Quando se caminha em linha reta. Quando suas palavras possuem seja muito acomodado para possuir certos vícios: que estes venham então a se extinguir completamente. Todo o mal, que é condicionado pela vontade forte - e talvez não haja nada de mal onde falta a força da conheci imitavam a dissimulação: eles eram, como hoje em dia o são um a cada dez homens, atores. -

Belo e Feio. - Nada é mais condicionado, dizemos limitado, do que o nosso sentimento do belo.

humanaNo fundo, o homem se espelha nas coisas, ele toma por belo tudo o que lança de volta sua
imagem: o juízo "belo" é sua vaidade genéricaÉ claro que a seguinte pergunta pode sussurrar para o
gosto? Talvez ousado? Talvez mesmo animador? Talvez um pouco arbitrário?"Oh Dioniso, divino,

Quem quisesse pensá-lo como separado do prazer que o homem experimenta junto a si mesmo, perderia imediatamente a base e o solo sob seus pés. O "belo em si" é tão-somente uma palavra, nunca um conceito. No belo, o homem se coloca enquanto medida da perfeição; em casos selecionados, ele louva a si mesmo. Um gênero não pode senão afirmar apenas a si mesmo desta forma. Seus instintos mais inferiores, o instinto de auto-conservação e de auto-expansão, brilham ainda em tais sublimidades. O homem crê que o próprio mundo está coberto pela beleza - ele esquece de si enquanto sua causa. Ele sozinho presenteou o mundo com a beleza, ah!, apenas com uma beleza humana, demasiadamente cético uma pequena suspeita: o mundo torna-se efetivamente belo, à medida que o homem o toma como belo? Ele o humanizou: isto é tudo. Mas nada, absolutamente nada nos garante que justamente o homem forneça o modelo da beleza. Quem sabe como ele se apresenta aos olhos de um elevado juiz de por que tu me puxas as orelhas?", perguntou Ariadne certa vez a seu amante filosófico, em um daqueles célebres diálogos por sobre a ilha de Naxos. "Eu vejo algo de gracioso em tuas orelhas, Ariadne: por que elas não são ainda mais longas?"

potência, sua coragem, seu orgulho - tudo isto decai com o feio, tudo isto se eleva com o beloEm um

Nada é belo, só o homem é belo: é sobre esta ingenuidade que repousa toda e qualquer estética, ela é sua primeira verdade. Acrescentemos imediatamente ainda sua segunda verdade: nada é feio senão quando é o homem que o degenera - com isso o reino do juízo estético está circunscrito. - Conferido fisiologicamente, tudo o que é feio enfraquece e aflige o homem. Ele faz com que o homem relembre o declínio, o perigo, a impotência; o homem experimenta de fato aí uma dissipação de força. Pode-se medir o efeito do feio com o dinamômetro. Em geral, ao padecer de uma pressão que o impele para baixo, o homem fareja a aproximação de algo "feio". Seu sentimento de potência, sua vontade de caso como no outro, tiramos uma conclusão: as premissas para tanto estão acumuladas, sob a forma de uma abundância monstruosa, nos instintos. O feio é entendido como um sinal e um sintoma de degenerescência: o que mais longinquamente nos faz lembrar a degenerescência produz em nós o surgimento do juízo "feio". Todo indício de extenuação, de pesar, de senilidade, de cansaço, toda e qualquer espécie de ausência de liberdade, tal como o espasmo, tal como a paralisia, sobretudo o cheiro, a cor, as formas da dissolução, da decomposição, e mesmo que isto se transforme em símbolo no interior de uma última atenuação - tudo isto evoca a mesma reação, o juízo de valor "feio". Um ódio eclode neste ponto: a quem é que o homem odeia aí? Mas não há nenhuma dúvida: a decadência de seu tipo. O seu ódio emerge aí do instinto mais profundo de seu gênero; neste ódio há calafrio, cuidado, profundidade, uma certa visão à distância - ele é o ódio mais profundo que há. É por sua causa que a arte é profunda...

Schopenhauer. - Para um psicólogo, Schopenhauer, o último alemão a merecer consideração (a ser um acontecimento europeu tanto quanto Goethe, quanto Hegel, quanto Heinrich Heine, e não meramente um acontecimento local, um acontecimento "nacional"), é um caso de primeira ordem: a saber, enquanto tentativa malignamente genial de trazer a campo exatamente as contra-instâncias, as grandes auto-afirmações da "vontade de vida", as formas de exuberância da vida em favor de uma depreciação total e niilista da vida. Ele interpretou, segundo uma seqüência, a arte, o heroísmo, o gênio, a beleza, a grande compaixão, o conhecimento, a vontade de verdade e a tragédia enquanto conseqüências da "negação" ou da necessidade de negação da “vontade” - a maior fabricação de moedas falsas já vista na história; subtraindo-se o cristianismo. Considerado mais exatamente, ele não é quanto a isto mais do que o herdeiro da interpretação cristã. Com uma diferença apenas, à medida que também soube aprovar em um sentido cristão, o que equivale a dizer em um sentido niilista, o que tinha sido recusado pelo cristianismo: os grandes fatos culturais da humanidade (- a saber, enquanto caminhos para a "redenção", enquanto formas prévias da "redenção", enquanto estimulantes da necessidade de “redenção”...)

qual se acaba por ficar sedento de ir mais longeEla é para ele a redenção da vontade por alguns
instantes - ela impele para uma redenção eternaEspecificamente, ele a elogia enquanto redentora do
"foco da vontade", da sexualidade - na beleza, ele vê a negação da pulsão reprodutoraUm santo

Eu tomo um caso isolado. Schopenhauer fala da beleza com um fervor melancólico, - por que em última instância? Porque ele vê nela uma ponte, sobre a qual pode-se ir mais longe ou então sobre a deveras bizarro! Alguém te contradiz, eu receio, e este alguém é a natureza. Para que há em geral a beleza no tom, na cor, no perfume, no movimento rítmico da natureza? O que faz manifestar a beleza? - Felizmente também um filósofo lhe contradiz. Nenhuma autoridade menor que a do divino Platão (- assim o chama o próprio Schopenhauer) sustém uma outra tese: a de que toda beleza estimula a reprodução - a de que este é justamente o proprium de seu efeito, do que há de mais sensível até o que há de mais espiritual...

aperfeiçoamento e a interiorização da velha ginástica agonística e de seus pressupostosO que brotou

Platão prossegue. Ele diz com uma inocência, para a qual é preciso ser grego e não "cristão", que não haveria absolutamente nenhuma filosofia platônica se não houvesse tantos jovens belos em Atenas: era só a visão destes jovens que propiciava a transposição da alma do filósofo em um delírio erótico e não lhe deixava espaço para nenhuma quietude, até que ela tivesse lançado as sementes de todas as coisas elevadas em uma terra tão bela. Também um santo deveras bizarro! Nós não nos fiamos em nossos ouvidos, apesar mesmo de confiarmos em Platão. Presume-se ao menos que em Atenas tinha-se filosofado de um modo diverso, sobretudo publicamente. Nada é menos grego do que a tecitura de uma teia conceitual de aracnídea por um ermitão, amor intelectualis dei à moda de Espinoza. A filosofia à moda de Platão poderia ser definida antes enquanto uma competição erótica, enquanto o por fim deste erotismo filosófico de Platão? Uma nova forma artística do agon grego, a dialética. - Eu me lembro ainda, contra Schopenhauer e em honra de Platão, que também a cultura e a literatura mais elevadas da França clássica floresceram em sua totalidade sobre o solo do interesse sexual. Pode-se procurar por toda parte aí a galanteria, os sentidos, a competição sexual, a "fêmea" - nunca se procurará em vão.

valorIsto é apenas um acessório? Um acaso? Algo de que o interesse do artista não tomaria parte
empreender tudo isto? Seu instinto mais profundo tende para a arte, ou, ao invés disso, muito mais

L'art pour l'art13. - A luta contra a finalidade na arte é sempre a luta contra a tendência moralizante na arte, contra a sua subordinação à moral. L'art pour l'art significa: "Que o diabo carregue a moral!" - Mas até mesmo esta inimizade denuncia a força preponderante do preconceito. Se se exclui da arte a finalidade própria à pregação moral e ao melhoramento da humanidade, então ainda está longe de seguir daí que a arte é em geral sem finalidade, sem meta, sem sentido; em resumo, a arte pela arte - um verme que morde seu próprio rabo. É preferível nenhuma finalidade a uma finalidade da moral!" - assim fala a mera paixão. Um psicólogo pergunta em contrapartida: o que faz toda arte? ela não louva? ela não glorifica? ela não seleciona? não realça? Com tudo isto, ela fortalece e enfraquece certas estimativas de absolutamente? Ou então: não é o pressuposto para tanto que o artista esteja em condições de para o sentido da arte, para a vida? Para algo desejável da vida? - A arte é o maior estimulante para a vida: como se poderia entendê-la como sem finalidade, como sem meta, como l'art pour l'art? Uma pergunta ressurge: a arte faz com que se manifeste também algo feio, duro, discutível da vida - ela não parece com isto dirimir a paixão pela vida? - E de fato houve filósofos que lhe emprestaram este sentido: "apartar-se da vontade", ensinava Schopenhauer enquanto intuito total da arte, "estar afinado com a resignação" honrava ele enquanto a grande utilidade da tragédia. - Mas isto - já dei a entender - é uma ótica de pessimista e um "mau-olhado": precisa-se apelar para os próprios artistas. O que é que o artista trágico comunica de si? Não é exatamente um estado sem temor frente ao temível e problemático, que ele indica? - Esse estado mesmo é algo desejável; quem o conhece o louva com os louvores mais elevados. Ele o comunica, ele precisa comunicá-lo, pressuposto que é um artista, um gênio da comunicação. A valentia e a liberdade do sentimento frente a um inimigo poderoso, frente a uma sublime adversidade, frente a um problema que desperta horror - esse estado triunfal é aquele que o artista seleciona, que ele glorifica. Diante da tragédia, o que há de belicoso em nossa alma festeja suas Saturnais; quem procura por sofrimento, o homem heróico, exalta com a tragédia sua existência - a ele apenas, o artista trágico oferta o cálice desta dulcíssima crueldade. -

Contentar-se com os homens, manter a casa aberta com seu coração, isto é liberal, mas é meramente liberal. Conhece-se os corações que são aptos à nobre hospitalidade, junto às muitas janelas cobertas e aos postigos cerrados: seus melhores espaços mantêm-se vazios. Por que afinal? - Porque eles esperam por hóspedes, com os quais a gente não "se contenta"...

13 A arte pela arte (N. do P.)

Nós não nos estimamos mais o suficiente, quando nos comunicamos. Nossas vivências próprias não são de modo algum loquazes. Elas não poderiam comunicar a si mesmas, se elas quisessem. Isto acontece porque lhes falta a palavra. Para o que temos palavra, já estamos um passo adiante de sua concernência. Em todos os discursos há um grão de desprezo. A fala, ao que parece, foi inventada apenas para o que é ordinário, mediano, comunicável. Com a fala vulgariza-se imediatamente o falante. - A partir de uma moral para surdos-mudos e outros filósofos.

"Este quadro está encantadoramente belo!"A mulher literata, descontente, excitada, deserta no

27. coração e nas vísceras, olhando todo o tempo de maneira perscrutadora e com uma curiosidade dolorosa o imperativo que, desde as profundezas de sua organização, sussurra "aut liberi aut libri"14: a mulher literata, suficientemente culta para compreender a voz da natureza, mesmo quando ela fala latim; e, por outro lado, suficientemente vaidosa e parva, para em segredo até mesmo falar francês consigo, "je me verrai, je me lirai, je m'extasierai et je direi: Possible que j’aie eu tant d’esprit?"15...

superação: este é nosso ascetismo, nosso modo de fazer penitência"Vir-a-ser pessoal - a virtude dos

Os "impessoais" ganham voz. - "Nada nos dá menos trabalho do que sermos sábios, pacientes, superiores. Nós destilamos o óleo da indulgência e da compaixão, nós somos justos até as raias do absurdo, nós perdoamos tudo. Mesmo por isso deveríamos nos manter algo mais rigorosos; mesmo por isso deveríamos cultivar pra nós mesmos, de tempos em tempos, um pequeno afeto, um pequeno vício afetivo. Isto pode nos ser amargo; e, cá entre nós, talvez venhamos a rir do aspecto que a partir daí assumimos. Mas ao que é que isto ajuda! Não temos mais nenhuma outra espécie disponível de auto- "impessoais"...

Extratos de uma Defesa de Doutorado. - "Qual é a tarefa de todo ensino mais elevado?" - Tornar o homem uma máquina. - "Qual o meio para tanto?" - Ele precisa aprender a entediar-se. - "Como se alcança um tal estágio?" – Através do conceito de dever. - "Quem é seu modelo em relação a isto?" - O filólogo: ele ensina o enfronhar-se. - "Quem é o homem perfeito?" - O funcionário público. - "Que filosofia fornece a fórmula mais elevada para o funcionário público?" - A filosofia kantiana: o funcionário público enquanto coisa-em-si transformado em juiz do funcionário público enquanto fenômeno.

antes de tudo o jornal - e em muito mais a bela natureza, ItáliaO homem da noite, com seus "impulsos
geleiras, de BayreuthA arte tem em tais tempos é um direito à pura tolice - como uma espécie de

O Direito à Estupidez. - O trabalhador extenuado que respira lentamente, olha benevolamente e deixa as coisas passarem como elas passam: esta figura típica que se encontra agora, na era do trabalho (e do "império"! -), em todas as classes sociais, requisita hoje para si justamente a arte, inclusive o livro, selvagens adormecidos", das quais nos fala Fausto, carece do frescor veranil, do banho de mar, das férias para o espírito, o engenho e o ânimo. Wagner compreendeu isto. A pura tolice produz novamente.

Mais um Problema da Dieta. - Os meios através dos quais Júlio César se defendia contra doenças e dores de cabeça: marchas gigantescas, o modo de vida mais simples, permanência ininterrupta em um

14 Ou filhos ou livros. (N.T.) 15 “Me verei, me lerei, me extasiarei e direi: é possível que eu tenha tido tanta inspiração?” (N. do P.) espaço aberto, fadigas constantes. - Tomando por alto, estas são as punições em geral estabelecidas em função da conservação e da proteção contra a extrema vulnerabilidade daquela máquina sutil que trabalha sob a mais elevada pressão e que se chama gênio. -

O Imoralista fala. - Para o filósofo, nada fere mais o gosto do que o homem quando desejaEle
admiração lhe parece o homem! Ele ainda lhe dirige a palavraMas o filósofo despreza o homem que
vidaO homem que enquanto realidade é tão digno de veneração, como acontece de não merecer
modo mendaz? Com qualquer homem ideal?E apenas o homem ideal fere o bom gosto do filósofo.

32. considera o homem apenas em sua ação, ele vê este animal supremamente corajoso, astuto e perseverante perdido mesmo em meio a conjunturas de uma penúria labiríntica, o quão digno de deseja, assim como o homem "Passível de ser desejado" - e em geral tudo o que é desejável, todos os ideais do homem. Se um filósofo pudesse ser niilista, então ele o seria porque não encontra o nada por detrás de todos os ideais do homem. Ou nem ao menos uma vez o nada - mas apenas o que não é digno de nada, o absurdo, o doentio, o covarde, o cansaço, todo tipo de excremento dos copos tragados de sua nenhum respeito quando deseja? Será que ele precisa expiar por ser tão apreciável como realidade? Será que ele precisa equiparar a sua ação, a tensão da cabeça e da vontade em toda ação, à extensão dos membros no interior do imaginário e absurdo? - A história do que para ele é passível de ser desejado foi até aqui a partie honteuse16 do homem: é preciso que nos guardemos de ler por muito tempo nesta história. O que justifica o homem é . a sua realidade: ela o justificará eternamente. O quão mais valoroso é o homem real, comparado com qualquer homem meramente desejado, sonhado, inventado de

linha homem até ele mesmo aindaSe ele representa o desenvolvimento decadente, o declínio, a

O Valor Natural do Egoísmo. O egoísmo é tão valoroso quanto é fisiologicamente valoroso aquele que o possui: ele pode ser muitíssimo valoroso, ele pode não ser digno de nada e desprezível. Todo e qualquer indivíduo precisa ser considerado em função do fato de representar a linha ascendente ou decrescente da vida. Com uma decisão quanto a isto tem-se também um cânone em relação ao valor de seu egoísmo. Se ele representa a ascensão da linha, então o seu valor é efetivamente extraordinário - e, em função da vida conjunta que com ele dá um passo adiante, o cuidado em torno da conservação, em torno da criação de seu optimum de condições mesmas deve ser extremo. O indivíduo, o "indiviso", tal como o povo e o filósofo o compreenderam até aqui, é em verdade um erro: ele não é nada por si, nenhum átomo, nenhum "anel de uma corrente", nada simplesmente herdado de outrora - ele é toda uma degeneração crônica, o adoecimento (- doenças são já, a grosso modo, conseqüências paralelas do declínio, não as suas causas), então lhe cabe pouco valor, e a eqüidade quer que ele retire do homem bem constituído o mínimo possível. Ele não é senão o parasita deste último...

seu sofrimento: - a qual não sabe compreender em relação ao que ele é pobre, à vidaUm impulso
causal é nele poderoso: alguém precisa ser culpado pelo fato de ele se sentir malTambém faz bem

Cristo e Anarquista. Quando o anarquista, enquanto a embocadura das camadas decadentes da sociedade, exige com uma bela indignação "direito", "justiça", "igualdade de direitos", ele não se encontra com isto senão sob a pressão de sua ignorância, a qual não sabe compreender o real porquê de para ele a "bela indignação" mesma, é um prazer para todos os pobres diabos o maldizer: há aí uma pequena embriaguez de potência. Já o reclamar, o queixar-se pode dar à vida um estímulo, em virtude do qual se a sustém: uma dose mais sutil de vingança está presente em toda queixa, se apresenta o seu sentir-se mal, sob certas circunstâncias mesmo a sua ruindade como uma censura àqueles que são diferentes, como se o ser diferente fosse uma injustiça, um privilégio inadmissível. "Se sou um canalha, tu também tens de sê-lo": em função desta lógica faz-se revolução. - O queixar-se não serve em caso algum para algo: ele provém da fraqueza. o fato de se atribuir o seu sentir-se mal aos outros ou a si mesmo - o primeiro o faz socialista, o segundo, por exemplo, cristão - não faz propriamente diferença

16 Parte vergonhosa (N. do P.)

ele é cristão, dito uma vez mais, então ele as encontra em siO cristão e o anarquista - ambos são
trabalhador socialista, apenas pensada um pouco mais distanteO próprio "além" - para que um além,

alguma. O que há de comum, digamos mesmo o que há de indigno nisto, é que alguém deva ser culpado por se sofrer - em resumo, que o sofredor prescreva para si contra o seu sofrimento o mel da vingança. Os objetos desta necessidade de vingança enquanto os objetos de uma necessidade de prazer são causalidades ocasionais: o sofredor encontra por toda parte causas para refrescar a sua vingança - se decadentes. Mas também quando o cristão condena, calunia, enlameia o "mundo", ele o faz a partir dos mesmos instintos, a partir dos quais o trabalhador socialista condena, calunia, enlameia a sociedade: o "juízo final" mesmo é ainda a mais doce consolação da vingança - a revolução, como a espera também o se ele não fosse um meio de enlamear o aquém?...

decadentes: "Nada vale alguma coisa - a vida não vale nada"Um tal juízo permanece por fim um

Critica da Moral da Decadência. - Uma moral "altruística", uma moral junto à qual o egoísmo definha -, permanece em toda e qualquer circunstância um mau sinal. Isto vale para o indivíduo, isto vale especialmente para os povos. Falta a melhor parte, quando começa a faltar o egoísmo. Escolher instintivamente o nocivo para si, ser atiçado por motivos "desinteressados" nos fornece quase uma fórmula para a decadência. "Não buscar o que é útil para si" - este é apenas o artifício moral covarde para uma fatualidade fisiológica totalmente diversa: "eu não sei mais encontrar o que é útil para mim"... Desagregação dos instintos! Não se pode mais esperar nada de um homem que se torna altruísta. - Ao invés de dizer ingenuamente "eu não valho mais para nada", a mentira moral diz na boca dos grande perigo, ele age de modo contagioso ele se eleva pululante por sobre todo o solo mórbido da sociedade; ora como uma vegetação tropical de conceitos, ora como religião (cristianismo), ora como filosofia (schopenhauerianismo). Uma tal vegetação de uma árvore venenosa, crescida a partir da degeneração, envenena, por milênios sob certas condições, com sua fragrância, a vida...

mas todo dia uma nova dose de nojo diante de seus pacientesCriar uma nova responsabilidade que
do direito de procriar, em vista do direito de nascer, em vista do direito de viverMorrer de uma
assaltoPor fim, um conselho para os senhores pessimistas e outros decadentes. Não estamos de posse
Quase se conquista com isto o viverA sociedade, que digo!, a própria vida tem mais ganho através

Moral para Médicos.- O doente é um parasita da sociedade. Em um certo estado é indecente continuar vivendo por mais tempo. O prosseguir vegetando em uma dependência covarde de médicos e práticas, depois que o sentido da vida, o direito à vida se dissipou, deveria receber da sociedade um profundo desprezo. Os médicos teriam por sua vez de ser os mediadores deste desprezo - não receitas, exija do médico em todos os casos, nos quais o interesse mais elevado da vida, da vida ascendente, o impelir a vida degenerada para o lado e para baixo sem qualquer consideração. - Por exemplo, em vista maneira orgulhosa, quando não é mais possível viver de uma maneira orgulhosa. A morte, eleita livremente, a morte no tempo certo, com claridade e alegria, empreendida em meio a crianças e testemunhas: de modo que uma real despedida ainda é possível, onde este que se despede ainda está aí, assim como uma apreciação real do que foi alcançado e querido, uma soma da vida - tudo em contraposição à comédia deplorável e horripilante que o cristianismo levou a cabo com a hora da morte. Não se deve jamais esquecer em relação ao cristianismo o fato de ele ter transformado abusivamente a fraqueza dos moribundos em violação da consciência e o modo da morte mesma em juízos de valor tanto sobre o homem quanto sobre o passado! - Aqui vale produzir, antes de tudo e apesar das covardias do preconceito, a dignificação correta, isto é, fisiológica, da assim chamada morte natural: que por fim também não é senão uma morte "não natural", um suicídio. Nunca se perece pelas mãos de um outro, mas sempre por suas próprias mãos. A única diferença é que a morte sob condições desprezíveis não é uma morte livre, ela não é uma morte no tempo certo, ela é a morte de um covarde. Dever-se-ia por amor à vida - desejar a morte de outra forma, a morte livre, consciente, sem acaso, sem a tomada de da possibilidade de impedir o nascimento: mas podemos nos corrigir uma vez mais este erro - pois ele foi até aqui um erro. Quando um homem suprime a si mesmo, ele faz a coisa mais digna de respeito. daí do que qualquer "vida" em abnegação, abstinência e outras virtudes, - se libertou os outros de sua visualização, se libertou a vida de uma objeção... O pessimismo, puro, só se prova através da auto-

primeiramente Schopenhauer- O pessimismo, dito de passagem, por mais contagioso que seja, não

refutação do senhor pessimista: é preciso que se dê um passo adiante em meio à sua lógica, não meramente negar a vida com "Vontade e Representação", como Schopenhauer o fez – precisa-se negar aumenta apesar disto o caráter doentio de um tempo, de uma geração como um todo: ele é sua expressão. É-se contaminado por ele, como se é contaminado pela cólera: é preciso que já se esteja tomado morbidamente o suficiente para tanto. O pessimismo mesmo não faz nenhum único decadente a mais; eu lembro o resultado da estatística de que nos anos em que a cólera recrudesceu a cifra conjunta dos casos de morte não se diferenciou de outros anos.

nossas "virtudes" modernasO definhamento dos instintos hostis e capazes de despertar desconfiança -
isto de outra forma, "covardia" talvez, "mesquinhez", "moral de velhas senhoras"Nossa amenização

Nós nos tornamos mais morais? Toda a ferocidade do emburrecimento moral, que na Alemanha é conhecido como a própria moral, voltou-se contra o meu conceito "Para Além do Bem e do Mal", como era de se esperar: teria belas estórias para contar quanto a isto. Antes de tudo se me ofereceu como objeto de reflexão a "inegável supremacia" de nosso tempo no que concerne ao juízo moral, nosso progresso efetivamente realizado aqui: um César Borgia, em comparação conosco, não deve ser absolutamente estabelecido como um "homem superior", como uma espécie de além-do-homem, como faço. Um redator suíço do "Bund" chegou ao ponto de, não sem expressar sua consideração pela coragem de uma tal ousadia, "compreender" o sentido de minha obra no fato de eu requerer a supressão de todos os sentimentos decentes. Eu agradeço muito! - Permito-me como resposta lançar a pergunta: nos tornamos realmente mais morais? Que todo mundo acredita nisto é já uma objeção contra isto... Nós homens modernos, muito temos, facilmente magoáveis, tomando e oferecendo centenas de considerações, supomos de fato que esta humanidade terna que apresentamos, que esta unanimidade atingida em relação à deferência, à prontidão para a ajuda, à confiança mútua é um progresso positivo, que com isto estamos muito para além dos homens da renascença. Mas toda época pensa assim e precisa pensar assim. Certo é que não temos o direito de nos inserir em disposições da Renascença, nem mesmo sequer imaginar a nós mesmos aí: nossos nervos não suportariam aquela realidade, para não falar de nossos músculos. Mas com esta incapacidade não está provado nenhum progresso, senão apenas uma outra constituição mais tardia, mais fraca, mais tenra, mais vulnerável, a partir da qual produz-se uma moral mais cheia de considerações. Se eliminarmos a nossa ternura e o nosso caráter tardio, nosso envelhecimento fisiológico, então a nossa moral da "humanização" perderia imediatamente o seu valor - em si, nenhuma moral tem valor - ela traria menosprezo para nós mesmos. Não duvidemos por outro lado de que nós modernos, com nossa humanidade espessamente acolchoada, que não quer absolutamente se chocar com nenhuma pedra, daria aos contemporâneos de César Bórgia uma comédia digna de morrer de rir. De fato, somos involuntariamente divertidos para além das medidas, com as e este seria propriamente nosso "progresso" - apresenta apenas uma das conseqüências do definhamento geral da vitalidade: custa cem vezes mais esforço, mais cuidado impor uma existência tão condicionada, tão tardia. Aí os homens se auxiliam mutuamente, aí todos estão até certo grau doentes e cada um é até certo grau enfermeiro. Isto significa então "virtude": dentre homens que conheceram a vida ainda de modo diverso, de modo mais pleno, mais pronto para a profusão, transbordantes, se teria denominado dos costumes - esta é minha sentença, esta é, se se quiser, minha inovação - uma conseqüência da decadência; a rigidez e a terribilidade dos costumes pode ser inversamente uma conseqüência da superabundância de vida: então também pode se ousar em verdade muitas coisas, se requisitar muitas coisas, se desperdiçar mesmo muita coisa. O que outrora era o tempero da vida, seria para nos um veneno... Ser indiferente - também esta é uma forma da força - para tanto somos igualmente muito velhos, muito tardios: nossa moral da compaixão, contra a qual fui o primeiro a advertir, isto que se poderia denominar como o impressionismo moral, é uma expressão mais da super-excitação fisiológica própria a tudo o que é decadente. Aquele movimento que foi tentado junto com a moral da compaixão de Schopenhauer, o projetar-se cientificamente - uma tentativa muito infeliz! - é o próprio movimento da decadência na moral, ele está enquanto tal profundamente aparentado com a moral cristã. As épocas fortes, as culturas nobres vêem na compaixão, no "amor ao próximo", na falta de si próprio e de amor próprio algo desprezível. As épocas têm de ser medidas segundo as suas forças positivas - e, em meio a este critério, a época tão disposta à profusão e tão rica em fatalidades como o foi a Renascença aparece enquanto a

Nossas virtudes são condicionadas, são requeridas por nossas fraquezasA "igualdade", uma certa
vez menor os extremos mesmo desaparecem por fim em meio à similitudeTodas as nossas teorias
formulou-se na sociologia de hoje como idealNossos socialistas são decadentes, mas também Herbert

última grande época, e nós, nós modernos, com nossos cuidados amedrontados em torno de nós mesmos e com nosso amor ao próximo, com nossas virtudes do trabalho, da ausência de requisições, da probidade, da cientificidade - compiladores, econômicos, maquinais - enquanto uma época fraca... assemelhação factual que só ganha expressão no interior da teoria dos "direitos iguais", pertence essencialmente à decadência: o fosso entre homem e homem, estado e estado, a multiplicidade de tipos, a vontade de ser si próprio, de destacar-se, isto que denomino como o Pathos da Distância: tudo isto é próprio a todo tempo forte. A elasticidade, a envergadura entre os extremos vem se tornando hoje cada políticas e constituições de estado, o "império alemão" sem ser absolutamente excluído, são desdobramentos, conseqüências necessárias da decadência; o efeito inconsciente da decadência estendeu o seu assenhoramento até o cerne dos ideais das ciências particulares. A minha objeção contra toda a sociologia na Inglaterra e na França continua sendo o fato de ela só conhecer por experiência a conformação de declínio da sociedade e tomar de modo completamente inocente os próprios instintos decadentes enquanto norma dos juízos sociológicos de valor. A vida decadente, o definhamento de toda força organizadora, isto é, separadora, capaz de abrir fossos, subordinadora e hierarquizadora, Spencer é um decadente: ele vê na vitória do altruísmo algo digno de ser almejado!...

triunfa o animal de rebanho. Liberalismo: em alemão, animalização gregáriaAs mesmas instituições

Meu Conceito de Liberdade. - O valor de uma coisa reside por vezes não no que se alcança com ela, mas no que se paga por ela - o que ela nos custa. Dou um exemplo. As instituições liberais deixam imediatamente de ser liberais, no momento em que são alcançadas: não há depois nenhum corruptor mais incisivo e fundamental da liberdade do que instituições liberais. Se sabe em verdade, que caminhos elas abrem: elas minam a vontade de potência, elas são o nivelamento da montanha e do vale elevado à condição de moral, elas apequenam, acovardam e acostumam ao deleite: com elas sempre produzem, enquanto ainda são combatidas, efeitos completamente diversos; elas fomentam de fato a liberdade de uma maneira poderosa. Visto mais precisamente é a guerra que produz estes efeitos, a guerra contra as instituições liberais, que, enquanto guerra, deixa persistir os instintos não-liberais. A guerra educa para a liberdade. Pois o que é liberdade! O fato de se ter a vontade de se responsabilizar por si próprio. O fato de se suster a distância que nos distingue. O fato de se tornar indiferente à fadiga, à rigidez, à privação, mesmo à vida. O fato de se estar preparado para sacrificar os homens pela coisa sua, sem deixar de contar a si mesmo neste sacrifício. Liberdade significa: os instintos viris, alegres na guerra e na vitória se apoderaram dos outros instintos - por exemplo, o instinto de "felicidade". O homem que se tornou livre, e muito mais ainda o espírito que se tornou livre pisa sobre o modo de ser desprezível do bem-estar, com o qual sonham o comerciante, o cristão, a vaca, a mulher, o inglês e outros democratas. O homem livre é guerreiro. - A partir de que critério se mensura a liberdade dos indivíduos, assim como dos povos? A partir da resistência que precisa ser superada, a partir do esforço que custa para permanecer em cima. Teria de se procurar o tipo mais elevado de homem livre lá, onde constantemente se supera a mais elevada resistência: cinco passos além da tirania, colado no umbral do risco da servidão. Isto é psicologicamente verdadeiro, se se compreender aqui sob os "tiranos" instintos implacáveis e terríveis, que exigem o máximo de autoridade e disciplina contra si: o tipo mais belo é Júlio César; isto também é politicamente verdadeiro, basta percorrer o caminho histórico. Os povos que tiveram um certo valor, que foram valorosos, nunca o foram sob instituições liberais: o grande perigo fazia algo com eles, que merece veveração; o perigo que nos ensina pela primeira vez a conhecer nossos recursos, nossas virtudes, nosso valor e nossas armas, nosso espírito - que nos obriga a sermos fortes... Primeiro princípio: temos de precisar ser fortes: senão nunca nos tornamos fortes. - Aquelas grandes estufas para uma espécie humana forte, para a mais forte das espécies humanas que até hoje existiu, aquelas coletividades aristocráticas à moda de Roma e de Veneza entendiam a liberdade exatamente no mesmo sentido que eu compreendo esta palavra: enquanto algo que se tem e não se tem, que se quer, que se conquista...

que dissipa, o que acelera o acontecimento do fimAtestado: o casamento moderno. Do casamento

Crítica da Modernidade. - Nossas instituições não prestam mais para nada: quanto a isto se é unânime. Isto não reside contudo nelas mesmas, mas em nós. Depois de todos os instintos, a partir dos quais as instituições crescem, desaparecerem de nosso horizonte, desaparecem de nosso horizonte as instituições em geral, porque não valemos mais nada para elas. Democratismo foi em todos os tempos a forma decadente da força organizadora: já caracterizei em Humano demasiado Humano I, 318 a democracia moderna junto com suas derivações medianas, tal como o "império alemão", como uma forma declinante do estado. Para que haja instituições, é preciso que haja uma espécie de vontade, de instinto, de imperativo, antiliberal até as raias da maldade: a vontade de tradição, de autoridade, de responsabilidade por séculos além, de solidariedade pelas correntes das gerações tanto para adiante quanto para trás in infinitum. Esta vontade está presente?! Então funda-se algo como o imperium Romanum: ou como a Rússia, o único poder, que possui hoje duração corpórea, que pode esperar, que ainda pode prometer alguma coisa. Rússia: o conceito antípoda do deplorável particularismo e do deplorável nervosismo europeu, que entrou em cena em um estado crítico junto com a fundação do império alemão. Todo o ocidente não possui mais aqueles instintos, a partir dos quais crescem as instituições, a partir dos quais cresce o futuro: nada talvez seja mais incongruente com o "espírito moderno" do que estes instintos. Se vive em função do hoje, se vive muito rapidamente - se vive de maneira muito irresponsável: isto justamente denomina-se como "liberdade". O que faz das instituições instituições é desprezado, odiado, recusado: se acredita estar diante do risco de uma nova escravidão, onde a palavra "autoridade" ganha apenas voz. Tão profundamente se estabeleceu a decadência nos instintos valorativos de nossos políticos, de nossos partidos políticos: eles privilegiam instintivamente o moderno desapareceu evidentemente toda racionalidade: isto não constitui porém nenhuma objeção ao casamento, mas à modernidade. A racionalidade do casamento - ela residia na responsabilidade jurídica exclusiva do homem: com isto, ele tinha um peso e uma medida, enquanto agora ele claudica das duas pernas. A racionalidade do casamento - ela residia em sua indissolubilidade em princípio: com isto, ele recebia um acento, que sabia criar para si frente ao acaso de sentimento, paixão e instante uma escuta. Ela residia até mesmo na responsabilidade da família pela escolha dos noivos. Eliminou-se com a crescente indulgência em favor do casamento por amor exatamente a base fundamental do casamento, o que primeiramente fazia dele uma instituição. Nunca se funda uma instituição sobre uma idiossincrasia, não se funda, como disse, o casamento sobre o "amor": se funda sim o casamento sobre o impulso sexual, sobre o impulso de posse (mulher e criança enquanto propriedades), sobre o impulso de domínio, que organiza para si constantemente a menor conformação do domínio, a família que precisa de filhos e herdeiros, para fixar também fisiologicamente uma medida alcançada de poder, influência, riqueza, para preparar tarefas longas e o instinto de solidariedade entre séculos. O casamento enquanto instituição já encerra em si a afirmação da grande e mais duradoura forma de organização: se a sociedade mesma enquanto um todo não puder elogiar o casamento até as gerações mais longínquas e para além delas, então este não possui sentido algum. - O casamento moderno perdeu o seu sentido, - conseqüentemente se o suprime. -

A Questão dos Trabalhadores. - A estupidez, no fundo a degeneração dos instintos, que hoje é a causa de toda estupidez, reside no fato de haver uma questão dos trabalhadores. Sobre certas coisas não se coloca perguntas: primeiro imperativo do instinto. - Eu não consigo vislumbrar, o que se quer fazer com o trabalhador europeu, depois de se ter transformado inicialmente os trabalhadores em uma questão. Eles se encontram bem demais, para não questionarem passo a passo e de maneira imodesta. Eles têm por fim o grande número a seu favor. A esperança de que venha a se conformar uma espécie de homens modestos e satisfeitos consigo mesmos, um tipo de chinês, já se dissipou completamente: e isto teria sido razoável, isto teria sido francamente uma necessidade. O que se fez? - Tudo para aniquilar mesmo em germe os pressupostos para tanto. Dizimaram-se radicalmente os instintos, em virtude dos quais um trabalhador é possível enquanto condição, vem a ser possível para si mesmo, através da mais irresponsável irreflexão. Fez-se dos trabalhadores seres aptos à militarização, concedeuse-lhes o direito de coalizão, o direito de voz política: que espanto pode haver no fato de o trabalhar sentir já hoje a sua existência como um estado de penúria (expresso moralmente como uma injustiça -)?

Mas o que se quer? Indago uma vez mais. Se se quer uma finalidade, também se precisa querer os meios: se se querem escravos, então não se é senão louco, ao educá-los para serem senhores. -

indivíduo possível, quando o podamos: possível, isto é, um todoO que acontece é o contrário: a

"A liberdade que não tenho em vista..." Em tempos como os nossos, deixar-se à mercê de seus instintos é uma fatalidade a mais. Os instintos contradizem-se, irritam-se, dizimam-se entre si; já defini o moderno como a autocontradição fisiológica. A racionalidade da educação exigiria, que ao menos um destes sistemas de instintos fosse paralisado sob uma pressão férrea, para permitir que um outro ganhasse força, se tornasse forte, se tornasse senhor. Hoje seria preciso tornar primeiramente o requisição por independência, por desenvolvimento livre, por deixar rolar é feita da maneira mais veemente por aqueles, para os quais nenhuma rédea seria por demais rigorosa - isto vale in politicis, isto vale também na arte. Mas isto é um sintoma da decadência: nosso conceito moderno de liberdade é mais uma prova da degradação dos instintos.

Onde é necessária a presença da crença. - Nada é mais raro entre moralistas e santos do que a retidão; talvez eles digam o contrário, talvez eles acreditem mesmo no contrário. Se em verdade uma crença é mais útil, mais eficaz, mais convincente do que a dissimulação consciente, então a dissimulação se transforma de imediato e por instinto em inocência: primeiro princípio para a compreensão de grandes santos. Também junto aos filósofos, um outro tipo de santo, todo o ofício traz consigo o fato de apenas certas verdades serem admitidas: a saber, apenas tais verdades, em relação às quais seu ofício conta com a sanção pública - dito kantianamente, verdades da razão prática. Eles sabem o que eles precisam provar, nisto eles são práticos - eles se reconhecem entre si através do consenso quanto à verdade. "Tu não deves mentir". Em alemão: precavenha-te, meu caro filósofo, quanto a dizer a verdade.

do "progresso" moderno). Pode-se obstaculizar este desenvolvimento, e, através desta

Dito ao pé do ouvido para os conservadores. - O que antes não se sabia e hoje se sabe, se poderia saber - uma involução, uma inversão em um sentido e em um grau quaisquer não é absolutamente possível. Nós fisiólogos ao menos o sabemos. Mas todos os sacerdotes e moralistas acreditaram nisto - eles queriam trazer a humanidade de volta para uma medida de virtude anterior, girar o parafuso para trás. Moral sempre foi um leito de Procrustro. Mesmo os políticos imitaram quanto a isto os pregadores da virtude: ainda hoje há partidos que sonham como meta para todas as coisas o andar de caranguejo. Mas ninguém está realmente livre para escolher ser caranguejo. Não adianta nada: é preciso seguir em frente, quer dizer, passo a passo cada vez mais profundamente na decadência (esta é a minha definição obstaculização, represar, recolher, tornar mais veemente e mais súbita a degeneração mesma: mais não se pode fazer, -

Meu conceito de Gênio. - Grandes homens são assim como grandes tempos um material explosivo, no interior do qual uma força imensa é acumulada. Histórica ou fisiologicamente, o seu pressuposto é sempre que esta força tenha se agrupado, amontoado, poupado e conservado por muito tempo para eles, - que nenhuma explosão tenha tido lugar. Se a tensão tornou-se grande demais em sua dimensão, é suficiente o estímulo mais acidental para trazer o "gênio", a “ação”, o grande destino ao mundo. O que importa então o meio circundante, a época, o "espírito do tempo", a "opinião pública"! - Consideremos o caso de Napoleão. A França da revolução, e ainda mais a França pré-revolucionária teria produzido a partir de si mesma o tipo oposto ao de Napoleão: ela chegou mesmo a produzir este tipo oposto. E porque Napoleão era diferente, herdeiro de uma civilização mais forte, mais extensa, mais antiga do que essa que se volatizava e esfacelava na França, ele se tornou aí senhor, ele foi aí o único senhor. Os grandes homens são necessários, o tempo em que aparecem são casuais; o fato de eles quase sempre se transformarem em senhores sobre o seu tempo não se sustém senão através do fato de eles serem mais

em ação - é necessariamente um desperdiçador: do fato de exaurir a si mesmo advém a sua grandezaO
próprio bem-estar, sua entrega a uma idéia, a uma grande idéia, à pátria: tudo mal-entendidosEle
um tipo de moral superiorEste é mesmo o modo de ser da gratidão humana: ela compreende mal seus

fortes, mais antigos, de as forças terem se agrupado por mais tempo em direção a eles. Entre um gênio e seu tempo subsiste uma relação tal como a relação entre o forte e o fraco, também como a relação entre o antigo e o novo: o tempo é relativamente sempre muito mais jovem, muito mais franzino, muito mais inseguro, muito mais infantil. Que se pense hoje na França de uma maneira muito diferente (na Alemanha também: mas isto não diz nada), que lá a teoria do milieu [meio], uma verdadeira teoria de neuróticos, tenha se tornado sacrossanta, quase científica e tenha encontrado crença até mesmo entre os fisiólogos, isto "não cheira bem", isto é capaz de levar alguém a tristes pensamentos. - Também não se compreendem as coisas de outra forma na Inglaterra, mas ninguém vai se incomodar com isto. Para o inglês, só se encontram dois caminhos abertos para suportar o gênio e o "grande homem": ou bem democraticamente como Buckle, ou bem religiosamente como Carlyle. O risco que reside em grandes homens e tempos é extraordinário; a extenuação de todos os tipos, a esterilidade os persegue de perto. O grande homem é um fim; o grande tempo, a Renascença por exemplo, é um fim. O gênio - em obra, instinto da auto-conservação está como que exposto; a pressão ultraviolenta das forças que estão se extravasando o impede de toda tentativa de proteção como esta e de todo cuidado. Costuma-se chamar isto de "sacrifício"; é célebre o seu "heroísmo" em meio a este sacrifício, sua indiferença frente ao extravasa, ele transborda, ele se consome, ele não se poupa - com fatalidade, fatidicamente, involuntariamente como a irrupção de um rio por sobre as suas margens é involuntária. Mas porque se deve muito a tais explosivos, também lhes presentearam em contrapartida muitas coisas, por exemplo benfeitores.

o comerciante, o grande descobridorEnquanto o padre vigiu enquanto o tipo mais elevado, toda e

O criminoso e o que lhe é aparentado. - O tipo do criminoso é o tipo do homem forte sob condições desfavoráveis, um homem forte transformado em um homem doente. A ele falta a selva, uma certa natureza e forma de existência mais livres e mais perigosas, na qual todas as armas e objetos de defesa presentes no instinto do homem forte são justas. Suas virtudes caem sob o encanto da sociedade; os impulsos mais vitais trazidos consigo definham em meio ao crescimento conjunto com os afetos oprimidos, com a suspeita, com o medo, com a desonra. Mas este é quase mesmo a receita para a degradação fisiológica. Aquele que precisa empreender às escondidas o que pode fazer melhor e que faria com o maior prazer, este se torna anêmico depois de uma longa tensão, de um longo cuidado, de uma longa astúcia; e como ele sempre colhe apenas perigo, perseguição, fatidicidade de seus instintos, transmuta-se também o seu sentimento frente a estes instintos - ele os sente fatalisticamente. A sociedade, nossa sociedade domesticada, mediana, adulterada é o lugar no qual um homem talhado naturalmente para o crescimento, que vem das montanhas ou das aventuras no mar, se degrada necessariamente e se transforma em um criminoso. Ou quase necessariamente: pois há casos, nos quais um tal homem se mostra mais forte do que a sociedade: o córsico Napoleão é o caso mais célebre. Para o problema que se apresenta aqui, o testemunho de Dostoiévski é relevante - de Dostoiévski, do único psicólogo, dito de passagem, do qual tive algo a aprender: ele pertence aos mais belos casos de sorte de minha vida, mais mesmo do que a descoberta de Stendhal. Este homem profundo, que teve mais do que o direito de desprezar os superficiais alemães, vivenciou de maneira muito diversa da que ele próprio esperava as casas de detenção siberianas, em meio às quais viveu durante um longo tempo, assim como os criminosos mais terríveis, para os quais não havia nenhuma possibilidade de retorno à sociedade: mais ou menos como se tivessem sido talhados a partir da melhor, mais firme e valorosa madeira, que cresce do solo russo em geral. Universalizemos para nós o caso do criminoso: pensemos naturezas, em relação às quais por algum motivo falta o consentimento público, que sabem, que não são consideradas enquanto benéficas, enquanto úteis - aquele sentimento de chandala, de que não se vale como um igual, mas como um excluído, indigno, impuro. Todas estas naturezas têm a cor do subterrâneo por sobre pensamentos e ações; junto a eles tudo se torna mais esvaecido do que junto àqueles, cujo sol repousa sobre sua existência. Mas quase todas as formas de existência, que hoje recebem de nós uma distinção, viveram outrora sob este ar meio sepulcral: o caráter científico, o artista, o gênio, o espírito livre, o ator, qualquer espécie valorosa de homem perdeu seu valor... É chegado o tempo - eu o prometo -, no qual

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