Crepusculo dos Ídolos

Crepusculo dos Ídolos

(Parte 5 de 5)

ódio, de vingança e revolta contra tudo o que é, e que não vai mais se tornarCatilina - a forma

ele valerá como o mais baixo, como o nosso chandala, como a espécie de homem mais indecente... Notai como ainda agora, sob o regime mais suave dos costumes que já reinou sobre a Terra, no mínimo sobre a Europa, todo degredo, toda longa, demasiadamente longa permanência em uma posição inferior, toda forma de existência inabitual, impassível de ser transpassada com o olhar traz para próximo daquele tipo que o criminoso encerra. Todo inovador do espírito carrega por um tempo o sinal lívido e fatalista d o chandala sobre a testa: não porque seriam considerados assim, mas porque eles mesmos sentem o terrível abismo que os separa de todos os seus antecessores e dos que são venerados. Quase todo gênio conhece enquanto um de seus desenvolvimentos a "existência catilinária", um sentimento de preexistente a todo César. -

Aqui a vista é livre. - Pode ser elevação da alma, quando um filósofo se cala; pode ser amor, quando se contradiz; é possível a existência de uma cortesia do homem do conhecimento, que se estabeleça sobre a mentira. Não se disse sem fineza: é indigno dos grandes corações expandir a preocupação que experimentam: apenas é preciso que se acrescente o fato de o não temer os mais indignos também poder ser igualmente grandeza da alma. Uma mulher que ama sacrifica sua honra; um homem do conhecimento, que "ama", talvez sacrifique a sua humanidade; um Deus, que amou, tornou-se judeu...

começoEm Atenas no tempo de Cícero, que expressou quanto a isto o seu espanto, os homens e os
sacerdotes): o lugar correto é o corpo, os gestos, a dieta, a fisiologia, o resto segue daíOs gregos

A beleza não é nenhum acaso. - Mesmo a beleza de uma raça ou família, seu garbo e graciosidade em todos os gestos são elaborados: ela é, assim como o gênio, o resultado final do trabalho acumulado de gerações. É preciso que se tenha trazido ao bom gosto grandes sacrifícios, é preciso que se tenha feito por sua causa muitas coisas e que se tenha deixado muitas coisas - o século dezessete na França é digno de admiração em ambos os aspectos - é preciso que se tenha tido nele um princípio de escolha, para a sociedade, o lugar, a vestimenta, a satisfação sexual, é preciso que se tenha preferido a beleza ao ganho, ao hábito, à opinião. A mais elevada norma: é preciso que não se "deixe as coisas rolarem" mesmo em relação a si mesmo. - As boas coisas são dispendiosas para além das medidas: e sempre vale a lei de que quem a possui é diverso de quem a conquista. Todo bem é herança: o que não é herdado, é imperfeito, é jovens eram em muito superiores às mulheres no que concerne à beleza: mas que trabalhos e esforços em favor da beleza não tinham sido aí exigidos de si mesmo durante séculos! - Não se deve equivocar aqui em verdade no que diz respeito à metodologia: uma mera disciplina de sentimentos e pensamentos é quase nula (- aqui reside o grande mal-entendido da formação alemã, que é totalmente ilusória): é preciso que se convença antes de mais nada o corpo. A sustentação rigorosa de gestos consideráveis e selecionados, uma obrigatoriedade em viver apenas com homens que não "deixam as coisas rolarem", é plenamente suficiente, para se tornar considerável e selecionado: em duas, três gerações, tudo já está interiorizado. É decisivo quanto ao destino do povo e da humanidade, que se comece a cultura a partir do lugar correto - não a partir da "alma" (como era a superstição fatídica dos sacerdotes e semipermanecem por isto o primeiro acontecimento cultural da história - eles sabiam, eles faziam o que era necessário; o cristianismo, que desprezava o corpo, foi até aqui a maior desgraça da humanidade. -

Progresso no meu sentido. Eu também falo em "retorno à natureza", apesar deste retorno não envolver propriamente um retrocesso, mas uma ascensão - ascender até a natureza e a naturalidade elevadas, livres, mesmo terríveis, uma tal que joga, que tem o direito de jogar com grandes tarefas... Para falar alegoricamente: Napoleão foi um exemplo de "retorno à natureza", tal como a compreendo (por exemplo, in rebus tacticis; ainda mais, como sabem os militares, estrategicamente). - Mas Rousseau: para onde queria propriamente retornar? Rousseau, este primeiro homem moderno, idealista e canalha em uma única pessoa; que tinha a necessidade da "dignidade" moral, para perseverar em seu próprio aspecto; doente de uma vaidade e de um autodesprezo desenfreados. Também este aborto, que se alocou em meio ao umbral do novo tempo, queria o "retorno à natureza" - para onde, uma vez mais

tudo o que há de raso e mediano para si. A doutrina da igualdade!Mas não há nenhum veneno mais
venenoso: pois ele parece estar sendo pregado pela própria justiça, enquanto é o fim da justiça"Aos

indago, Rousseau queria retornar? Eu odeio Rousseau ainda na revolução: ele é a expressão históricomundial para esta dualidade de idealista e canalha. A farsa sanguinária, com a qual esta revolução transcorreu, sua "imoralidade", não me importa muito: o que odeio é a sua moralidade rousseauniana - as assim chamadas "verdades" da revolução, com as quais ela sempre ainda produz efeito e convence iguais algo igual, aos desiguais algo desigual - este seria o verdadeiro discurso da justiça: e, o que segue daí, nunca tornar igual o desigual". - O fato das coisas terem girado em torno daquela doutrina da igualdade de maneira tão terrível e sangrenta entregou a esta "idéia moderna" por excelência uma espécie de glória e uma aparência de chama, de modo que a revolução enquanto peça teatral seduziu mesmo os espíritos mais nobres. Isto não é por fim nenhum motivo para apreciá-la mais. - Eu só vejo um homem que a acolheu como ela precisa ser acolhida, com nojo - Goethe...

da Renascença, uma espécie de auto-superação por parte deste século- Ele carregou em si o instinto
completude, ele criou a si mesmoGoethe foi, em meio a uma era disposta irrealmente, um realista
qual não existia nada mais proibido, a não ser a fraqueza, seja esta um vício ou uma virtudeUm tal
maisMas uma tal crença é a maior de todas as crenças possíveis: eu a batizei sob o nome de Dioniso. -

Goethe - Nenhum acontecimento alemão, mas um acontecimento europeu: uma tentativa grandiosa de superar o século dezoito através de um retorno à natureza, através de uma ascensão até a naturalidade maximamente intenso deste século: a sensibilidade, a idolatria da natureza, o anti-histórico, o idealista, o irreal e revolucionário (o último é apenas uma forma do irreal). Ele encontrou o auxilio da história, da ciência natural, da antigüidade, do mesmo modo que de Espinoza, antes de tudo da atividade prática; ele se cercou com horizontes extremamente cerrados; ele não se descolou da vida, ele se inseriu nela; ele não se desanimou e tomou tanto quanto possível para si, sobre si, em si. O que ele queria era a totalidade; ele combateu a cisão entre razão, sensibilidade, sensação, vontade (- pregada através de Kant em uma escolástica maximamente aterradora; Kant, o antípoda de Goethe), ele disciplinou-se para a convicto: ele disse sim a tudo o que lhe era neste ponto aparentado - ele não teve nenhuma vivência maior do que aquele ens realissimum chamado Napoleão. Goethe concebeu um homem forte, elevadamente culto, hábil em toda corporeidade, que controlava a si mesmo e venerava a si mesmo; um homem que tinha o direito de ousar não invejar toda a envergadura e a riqueza da naturalidade, que era forte o bastante para esta liberdade; o homem da tolerância, não por fraqueza, mas por força, porque sabia usar ainda em seu proveito o que produziria o perecimento da natureza mediana; o homem, para o espírito, que se tornou livre, encontra-se com um fatalismo alegre e confiante em meio ao todo, na crença em que apenas o singular é reprovável, em que no todo tudo se dissolve e afirma - ele não nega

Poder-se-ia dizer, que, em certo sentido, o século dezenove também aspirou a tudo, ao que Goethe aspirava enquanto pessoa: uma universalidade no entendimento, na aprovação, um ficar na expectativa de qualquer coisa, um realismo arrojado, uma veneração frente a todo fatual. Como é possível que o resultado conjunto não seja nenhum Goethe, mas um caos, um suspiro niilista, um não-saber-desdeonde-nem-para-o-interior-do-que, um instinto de fadiga, que in praxi leva incessantemente a retroceder ao século dezoito? (por exemplo, enquanto romantismo do sentimento, enquanto altruísmo e hipersentimentalismo, enquanto feminismo no gosto, enquanto socialismo na política). O século dezenove não é, sobretudo em seu desfecho, meramente um século dezoito reforçado e corrompido, ou seja, um século decadente? De modo que Goethe teria sido não apenas para a Alemanha, mas para toda a Europa simplesmente um incidente, um belo acontecimento vão? - Mas se compreende mal grandes homens, quando se os considera a partir da pobre perspectiva de uma utilidade pública. O fato de não se saber tirar dele nenhuma utilidade talvez pertença mesmo à grandeza...

Goethe é o último alemão, frente ao qual tenho veneração: ele teria experienciado três coisas, que experienciei também nos entendemos em relação à "Cruz"... As pessoas me perguntam freqüentemente, por que afinal escrevo em alemão: em lugar algum fui tão mal lido quanto na terra pátria. Mas quem sabe por fim, se nem mesmo desejo ser lido hoje? - Criar coisas nas quais o tempo aplica em vão seus dentes; segundo a forma, segundo a substância estar empenhado em uma pequena imortalidade - nunca fui modesto o suficiente para exigir de mim menos do que isto. O aforismo, a sentença, nas quais sou o primeiro mestre dentre os alemães, são as formas da "eternidade"; minha ambição é dizer em dez frases, o que qualquer um outro diz em um livro - o que qualquer outro não diz em um livro...

Eu dei à humanidade o livro mais profundo que ela possui, o meu Zaratustra: eu lhe darei em breve o livro mais independente. -

ainda um não, na melhor das hipóteses não diz nadaIsto vale em relação a culturas como um todo, isto

Por fim uma palavra sobre aquele mundo, ao qual busquei acessos, ao qual talvez tenha encontrado um novo acesso - o mundo antigo. Meu gosto, que pode bem ser o contrário de um gosto tolerante, também está longe aqui de dizer sim em bloco: ele não gosta absolutamente de dizer sim, de preferência vale em relação a livros - vale também para lugares e paisagens. No fundo há um número muito pequeno de livros antigos, que contam em minha vida; os mais célebres não se encontram entre eles. Meu sentido para o estilo, para o epigrama enquanto estilo, despertou quase instantaneamente ao contato com Salustio. Eu não esqueço o espanto de meu honrado professor Corssen, quando precisou dar ao seu pior aluno de latim a melhor nota, - de uma tacada só estava pronto. Conciso, rigoroso, com tanta substância quanto possível por fundamento, uma malícia fria contra a "bela palavra", também contra o "belo sentimento" - nisto desvendei a mim mesmo. Se reconhecerá em mim até o meu Zaratustra uma ambição muito séria pelo estilo romano, pelo "aere perennius" no estilo. - Não de modo diverso se passaram as coisas para mim em meio ao primeiro contato com Horácio. Até hoje nunca tive em nenhum outro poeta o mesmo encanto artístico que me foi dado desde o princípio pela Ode de Horácio. Em certas línguas, não se deve sequer querer o que aqui é alcançado. Este mosaico de palavras, no qual cada palavra espraia sua força enquanto som, enquanto lugar, enquanto conceito, para a direita e para a esquerda e por sobre o todo, este minimum em abrangência e em número de signos, este maximum de energia dos signos com isto intentado. Tudo isto é romano, e, se quiserem acreditar em mim, nobre por excelência. Todo o resto da poesia torna-se inversamente algo por demais popular - um mero falatório sentimental...

aprendido sem os romanos!Que não venham para mim com uma objeção chamada Platão. Em relação

Aos gregos não devo absolutamente nenhuma impressão intensa aparentada; e, para proferi-lo diretamente, eles não podem ser para nós o que os romanos são. Não se aprende dos gregos - seu modo de ser é demasiado estranho, ele também é demasiado fluido para atuar imperativamente, "classicamente". Quem teria jamais aprendido a escrever junto a um grego! Quem o teria jamais a Platão sou um cético fundamental e nunca estive em condições de concordar com a admiração do artista Platão - uma admiração que é corrente entre os eruditos. Por fim, tenho aqui do meu lado o juiz de gosto mais refinado dentre os antigos mesmos. Tal como me parece, Platão mistura confusamente todas as formas do estilo, ele é com isto o primeiro decadente do estilo: ele traz consigo marcado na sua consciência algo similar aos cínicos, que inventaram a Sátira Menipéia. Para que o diálogo platônico, esta espécie repulsivamente presunçosa e infantil de dialética, possa atuar enquanto estímulo, é preciso que nunca se tenha lido bons franceses - Fontenelle, por exemplo. Platão é entediante. - Por fim, minha desconfiança junto a Platão vai até o fundo: eu o considero tão desviado de todos os instintos fundamentais dos helenos, tão moralizado, tão pre-existentemente cristão - ele já tinha o conceito "bom" enquanto o conceito supremo -, que gostaria de utilizar em relação a todo o fenômeno Platão antes a

judeus no Egito?) Em meio à grande fatalidade do cristianismo, Platão é esta fascinação dúbia
mesmas e pôr os pés sobre a ponte que conduziu até a "cruz"E o quanto de Platão há ainda no
engambelar e de considerar a razão na realidade - não na "razão", menos ainda na "moral"Da

dura expressão "o mais alto embuste", ou, se se preferir escutar, mais do que qualquer outra palavra, o mais alto Idealismo. Pagou-se caro pelo fato deste ateniense ter estudado com os egípcios (- ou com os chamada "Ideal", que tornou possível para as naturezas nobres da antigüidade compreender mal a si conceito "igreja", na construção, no sistema, na práxis da igreja! - Meu descanso, minha predileção, minha cura de todo platonismo sempre foi Tucídides. Tucídides, e, talvez, o Príncipe de Maquiavel são maximamente aparentados comigo mesmo através da vontade incondicionada de não se deixar lastimável utilização de tons pastéis por parte dos gregos, sob a roupagem de ideal, que o jovem "classicamente formado" carrega em meio à vida como recompensa por sua aplicação no colégio, nada cura tão fundamentalmente quanto Tucídides. É preciso virá-lo de cabeça para baixo linha por linha e decifrar tão distintamente os seus pensamentos implícitos quanto as suas palavras: existem poucos pensadores tão ricos em pensamentos implícitos. Nele a cultura dos sofistas, quer dizer, a cultura dos realistas, alcançou a sua expressão plena: este movimento inestimável em meio ao embuste moral e ideal, que irrompia por toda parte, em meio ao embuste moral e ideal da escola socrática. A filosofia grega enquanto a decadência dos instintos antigos; Tucídides enquanto a grande soma, a última revelação daquela facticidade forte, rigorosa, dura, que residia nos instintos dos antigos helenos. A coragem frente à realidade diferencia por fim tais naturezas como Tucídides e Platão: Platão é um covarde diante da realidade - conseqüentemente, ele se refugia no ideal; Tucídides tem a si mesmo sob controle, por conseguinte mantém também as coisas sob controle...

mesmoJulgar os gregos de uma maneira alemã segundo os seus filósofos, como que utilizar a
helênico!Os filósofos são sim os decadentes do mundo grego, o movimento contrário ao antigo e

Arrepiar-se diante dos gregos em virtude de suas "belas almas", suas "medidas plenas" e outras perfeições; admirar mais ou menos neles a calma em meio à grandeza, a meditação ideal, a elevada ingenuidade. Contra esta "elevada ingenuidade", em última instância contra uma niaiserie allemande [tolice alemã], fui protegido pelo psicólogo, que trazia em mim. Vi seu instinto maximamente intenso, a vontade de potência, os vi tremer frente à violência indómita deste impulso - vi todas as suas instituições crescerem a partir de regras e medidas de segurança, para se assegurarem uns em relação aos outros contra seu material explosivo intrínseco. A monstruosa tensão na interioridade descarregou-se então em uma inimizade terrível e brutal contra a exterioridade: as comunidades citadinas dilaceraram-se entre si, para que os cidadãos de cada uma delas em particular pudesse encontrar paz diante de si mesmo. Tinhase necessidade de ser forte: o perigo estava por perto - ele estava por toda parte à espreita. A corporeidade exuberantemente flexível, o realismo e o imoralismo temerários, que eram próprios aos helenos, foi uma necessidade, não uma "natureza". Ele sucedeu primeiramente, ele não estava desde o princípio aí. E com festas e artes não se queria outra coisa senão se sentir por cima, se mostrar por cima: são meios de glorificar a si mesmo, em certas circunstâncias de provocar medo em relação a si lengalenga dos bons homens da escola socrática enquanto chave para determinar o que é no fundo nobre gosto (- contra o instinto agonístico, contra a pólis, contra o valor da raça, contra a autoridade da tradição). As virtudes socráticas foram pregadas, porque eles tinham desaparecido do seio dos gregos: irritadiços, covardes, instáveis, comediantes todos em conjunto, eles tinham algumas razões a mais para permitir que a moral lhes fosse pregada. Não que isto tivesse ajudado alguma coisa: mas grandes palavras e atitudes caem muito bem em decadentes...

Eu fui o primeiro a, em nome da compreensão daquele instinto mais antigo, daquele instinto helênico ainda rico e transbordante, considerar a sério aquele fenômeno maravilhoso, que carrega o nome de Dioniso: ele só é passível de ser explicado a partir de um excedente de força. Quem segue os rastros dos gregos, como o mais profundo conhecedor de sua cultura hoje vivo, Jacob Burckhardt em Basiléia, sabe imediatamente que com isto foi dado um passo decisivo: Burckhardt inseriu em seu livro a Cultura dos Gregos um parágrafo próprio sobre o dito fenômeno. Se quisermos o contraponto, basta olhar para a quase divertida pobreza instintiva dos filólogos alemães, ao se aproximarem do dionisíaco. O célebre

futuro condiciona o sofrimentoPara que haja o eterno prazer da criação, para que a vontade de vida
procriação, enquanto o caminho sagradoSomente o cristianismo, com seu ressentimento contra a vida

Lobeck sobretudo, que, com a louvável segurança de um verme ressequido por entre livros, arrastou-se até o interior deste mundo de estados misteriosos e convenceu-se de ser com isto científico, de modo que foi leviano e infantil até o nojo - Lobeck tornou possível perceber com todo o dispêndio de erudição, que o dionisíaco não possui propriamente nada em comum com todas estas curiosidades. É de fato possível que os sacerdotes tenham comunicado aos participantes de tais orgias idéias que não são desprovidas de valor: por exemplo, que o vinho estimula o prazer, que o homem vive em certas circunstâncias de frutos, que as plantas florescem na primavera e murcham no outono. No que concerne àquele estranho manancial de ritos, símbolos e mitos de origem orgiástica, pelos quais o mundo antigo é de maneira totalmente literal coberto, Lobeck encontra nele um motivo para ser arguto ainda um grau além. "Os gregos, ele diz em Aglaophamus I, 672, não tinham nada diverso para fazer, então riam, pulavam, perambulavam por aí, ou, já que os homens por vezes também têm vontade disto, se sentavam no chão, choravam e lamentavam-se. Outros vieram então posteriormente juntar-se aí e procuraram porém uma razão qualquer para o estranho modo de ser; e assim surgiram como esclarecimento daqueles usos aquelas inumeráveis sagas festivas e mitos. Do outro lado acreditava-se que aquele movimento pícaro, o qual tinha lugar agora em meio aos dias de festa, pertencia também necessariamente aos festejos, e se o retinha enquanto uma parte indispensável do culto ao deus". - Isto é falatório desprezível, não se pode levar nem mesmo por um instante Lobeck a sério. De uma forma totalmente diversa isto nos toca, quando provamos o conceito "grego" cunhado por Winckelmann e Goethe, e o achamos incompatível com aquele elemento, a partir do qual a arte dionisíaca cresce - com o orgiasmo. Eu não duvido de fato que Goethe tivesse excluído fundamentalmente das possibilidades da alma grega algo deste gênero. Conseqüentemente, Goethe não entendeu os gregos. Pois somente nos mistérios dionisíacos, na psicologia do estado dionisíaco vem à fala o fato fundamental do instinto helênico - sua "vontade de vida". Que responsabilidade o heleno assumia com estes mistérios? A vida eterna, o eterno retorno da vida; o futuro prometido e santificado no passado; o sim triunfante à vida para além da morte e da mudança; a vida verdadeira enquanto o prosseguimento conjunto da vida através da geração, através dos mistérios da sexualidade. Para os gregos, o símbolo sexual era por isto mesmo o símbolo mais louvável em si, a verdadeira profundidade do sentido no interior de toda a devoção antiga. Tudo o que há de singular no ato da geração, da gravidez, do nascimento provocava os sentimentos mais elevados e festivos. Na doutrina dos mistérios, o sofrimento é dito sagrado: as "dores das parturientes" sacralizam o sofrimento em geral - todo vir-a-ser e todo crescimento, tudo o que se responsabiliza pelo afirme a si mesma eternamente, é preciso que haja também eternamente o "martírio da parturiente"... Tudo isto significa a palavra Dioniso: não conheço nenhuma simbologia mais elevada do que a simbologia grega, a simbologia das dionisíacas. Nela o instinto mais profundo da vida, o instinto de futuro da vida, de eternidade da vida, é sentido religiosamente - o caminho mesmo até a vida, a por fundamento, fez da sexualidade algo impuro: ele lançou lama sobre o começo, sobre o pressuposto de nossa vida...

ainda o prazer na aniquilaçãoE com isto toquei novamente o ponto, do qual outrora parti - "O

A psicologia do orgiasmo enquanto uma psicologia de um sentimento de vida e de força transbordante, no interior do qual mesmo o sofrimento atua enquanto um estimulante, me deu a chave para o conceito do sentimento trágico, que foi incompreendido tanto por Aristóteles quanto pelos nossos pessimistas em particular. A tragédia está tão distante de provar algo quanto ao pessimismo dos helenos no sentido de Schopenhauer, que ela tem de vigir muito mais enquanto a sua recusa decidida e enquanto uma contra-instância. O dizer-sim à vida mesma ainda em seus problemas mais estranhos e mais duros; a vontade de vida, tornando-se alegre de sua própria inesgotabilidade em meio ao sacrifício de seus tipos mais elevados - isto chamei de dionisíaco, isto decifrei enquanto a ponte para a psicologia do poeta trágico. Não para se livrar de pavores e compaixões, não para se purificar de um afeto perigoso através de sua descarga veemente - assim o compreendeu Aristóteles -: mas a fim de, para além de pavor e compaixão, ser por si mesmo o eterno prazer do vir-a-ser - aquele prazer que também encerra em si Nascimento da Tragédia" foi minha primeira transvaloração de todos os valores: com isto me coloco uma vez mais de volta ao solo, a partir da qual meu querer, meu poder cresce - eu, o último discípulo do filósofo Dioniso - eu, o mestre do eterno retorno...

Assim falou Zaratustra. 3,90.

"Por que tão duro!" -falou ao diamante um dia o carvão: "não somos afinal parentes próximos?" Por que tão frágeis? Ó meus irmãos, assim vos pergunto: vós não sois afinal - meus irmãos? Por que tão frágeis, tão prontos a ceder e a amoldar-se? Por que há tanta negação, tanta renegação em vossos corações? Tão pouco destino em vossos olhares?

E vós não quereis ser destino e algo inexorável: como poderíeis um dia vencer comigo? E se as vossas durezas não querem relampejar e cortar e despedaçar: como poderíeis vós criar comigo?

Todos os criadores são em verdade duros. E venturança precisa parecer-vos imprimir a vossa marca sobre milênios como sobre cera, -

Venturança de escrever sobre a vontade de milênios como sobre bronze - como sobre algo mais duro do que o bronze. Totalmente duro solitariamente é o que há mais nobre. Esta nova tábua, ó meus irmãos, coloco sobre vossas cabeças: tornai-vos duros! -

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