Chapada das Mulatas: postagens de um blogueiro

Chapada das Mulatas: postagens de um blogueiro

(Parte 1 de 7)

CHAPADA DAS MULATAS Postagens de um blogueiro

Jeferson Selbach

Chapadinha/MA

Autor-Editor 2007

Edição eletrônica

S464c SELBACH, Jeferson Francisco. Chapada das Mulatas: postagens de um blogueiro. Chapadinha/MA: Ed. do Autor, 2007, 170p. il.

ISBN 978-85-905426-8-1

CDD 177.2 Ética Social 303.32Processo Social. Socialização 320.1 Contrato Social

Capa: Foto Chapadinha anos 80 e imagem do autor Projeto gráfico: Jeferson Selbach

De acordo com a Lei n.10.994, de 14/12/2004, foi feito depósito legal na Biblioteca Nacional

Este livro foi autorizado para domínio público e está disponível para download no site do MEC w.dominiopublico.gov.br e na base do Google Pesquisa de Livros

FICHA DE CATALOGAÇÃO Disponibilizado somente em formato eletrônico

Sumário

[25]; Água de beber, água de tomar, água vai faltar[26]; Isso é
[41]; Tô chegando[42]; Dificuldades pra chegar em Chapadinha
helicóptero[45]; Bolo ao invés de ovos de chocolate [45]; Dando
o peixe, não ensinando a pescar[46]; Renúncia fiscal beneficia
poucos, prejudica muitos[46]; Feitores são daqui, não de fora
tempestade[50]; O fim do jornalismo impresso [51]; Nomes de

Do blog ao livro [7] Postagens Sojicultores vs. extrativismo [9]; Água, esgoto, lixo, urubus e porcos nas ruas [9]; Ruralização: perpetuando hábitos do campo na cidade[10]; Trabalho escravo das domésticas [12]; Transporte público: questão de cidadania [12]; Afinal, qual é a abrangência do Baixo Parnaíba? [13]; Gaúchos?! [13]; Distorção na arrecadação das verbas [15]; Paguei, quero nota! [16]; Conexão mulatas-gueixas [17]; Direitos dos empregados [18]; Chapadinha do futuro [19]; Dados educacionais de Chapadinha [21]; Emergência vs. PSF [2]; Quanto custou o voto a prefeito e vereança? [23]; Votos para candidatos, não partidos [24]; Restaurante Nota 1000 ou Nota 10? carnaval? [27]; Publicidade pública: gestor ou manequim? [29]; Concurso público ou C’s? [30]; Por quem os sinos dobram? [31]; Futebol sem caráter [3]; Direito de opinar [35]; Patrocínio no abadá [36]; Desrespeito no trânsito [37]; Crimes que fazem pensar sobre a menoridade penal [37]; Som automotivo: falta urbanidade [38]; Turismo litorâneo? Sem estradas? [39]; Mais um doutô no mundo!? [43]; Táxis cobram pela cara do sujeito [4]; Em meio aos urubus, [49]; É proibido cobrar aluguel por salário-mínimo [50]; Depois da “vivos” em prédios públicos [52]; A Cesar o que é de Cesar [53]; Nem Camelódromo, nem shopping popular: ruas de novo [53]; Esperando a morte chegar [54]; Qual o papel da primeira-dama?

não dos prefeitos [63]; E eles voltaram[63]; CEMAR: lucro
Palavras são mentiras pra nós dois[113]; Guarda Municipal a

[54]; Barraca na praça [56]; Vale tudo pra recuperar o porco [57]; Chapadinha colonial [58]; Repercussão [60]; Ex-prefeito, futuro candidato? [61]; Bolsa-família: programa é do Governo Federal, extraordinário, serviços péssimos [64]; Chuveiro frio, nunca mais [6]; Cofre-forte e dinheiro vivo, combinação perigosa [6]; A quem interessa contar essa história? [68]; Importa saber a quem interessa manter esse discurso? [69]; Filho de todas mães pobres [70]; Sinfonia matutina [71]; Transporte coletivo: sai ou não sai? [73]; Operação Navalha: um dia a casa cai [75]; Dando a cara pra bater [76]; Patrocínio: Jeferson Selbach [7]; Na eleição a reitor e vice da UFMA, meu voto vai para Natalino e Kardec [79]; Tirando proveito das idéias alheias [79]; O futuro da UFMA em Chapadinha: a falta de preparo dos alunos [81]; O futuro da UFMA em Chapadinha [83]; Dia Mundial do Meio Ambiente [84]; UFMA: voto paritário ou proporcional? [86]; Pré-candidatado a prefeito pelo PSB: empresário e religioso? [87]; Desenvolvimento sustentável [89]; Internet: qual nosso futuro? [90]; O futuro da UFMA em Chapadinha: cursinho pré-vestibular [92]; Comércio local: é preciso profissionalizar! [93]; Menores pedintes e a paternidade responsável [95]; Prefeita (?) Danúbia distribui secadores de cabelo [98]; Bolha imobiliária atinge Chapadinha? [9]; Dekasseguis chapadinhenses [101]; Velório [103]; Feriado [105]; O futuro da UFMA em Chapadinha: hospedagens [106]; Falta educação é para os educadores [107]; Pipas: perigo para a rede elétrica [107]; Plano Diretor pra inglês ver [109]; Baratas pra que te quero [110]; Farol da Educação que não ilumina [112]; míngua [115]; Eleições municipais: quem namora quem? [116]; Pan afeta Chapadinha? [118]; Dando nome aos bois [119]; A medicalização da dor: porque Chapadinha tem tantas farmácias [120]; Farmácias ou drogarias? [123]; Pra que calçadas? [125]; Mais um elefante branco? [126]; Ciclovias e calçadas [127]; Prefeitura esbanja verbas? [129]; Reestruturação e expansão das Universidades Federais [130]; Ampliação do acesso à internet gratuita dá asas [132]; Banco do Brasil pretende melhorar atendimento [133]; O suicídio como fator social [134]; Manifesto pelo desarmamento da população [136]; O que valorizamos? [137]; Os Departamentos Acadêmicos do CA [139]; Exercício ilegal da Medicina nos PSF’s? [141]; Mudanças na eleição do CA: Gilvanda diz que não concorre

[143]; Falta espaço físico para o Campus da UFMA [144]; Regimento do CA-UFMA [146]; Recursos humanos do CA-UFMA: os docentes [150]; Recursos humanos do CA-UFMA: os técnicoadministrativos [151]; Acabou a verba? [152]; A falta de alunos no CA [152]; Mentes tacanhas [154]; Rei morto, rei posto [156]; Cadeiras nas calçadas, propício a mexericos? [159]; Eleições UFMA: conjecturas [162]; Os docentes do CA e o Regime de Dedicação Exclusiva [163]; Blog do Ivandro Coêlho [165]; Endurecer, pero sin perder la ternura jamás [168]; Textos do blog vão virar livro [170]. Ilustrações Restaurante popular nota 1000 [26]; Carnaval em Chapadinha [28]; Alto-falantes da Igreja Matriz [32]; Presidente do Chapadinha Futebol Clube, prefeito Magno Bacelar [35]; Pastrocínio no Abadá [36]; Mapa Leste Maranhense [40]; Juiz, Médico, Político e Doutor [42]; Helicóptero da Polícia [45]; Magno distribui peixes [46]; Danúbia Carneiro [5]; Charge Zé Mané, barraca na praça [56]; Charge Zé Mané, porcos [57]; Charge Zé Mané, anúncio de candidatura [62]; Charge Zé Mané, sem luz [65]; Charge Zé Mané, bancos e cofres [67]; Charge Zé Mané, dia das mães [70]; Charge Zé Mané, sítio

[72]; Charge Zé Mané, preso [76]; Charge Zé Mané, homem sanduiche [78]; Blog Kgueta [80]; Charge Zé Mané, sojicultores [85]; Charge Zé Mané, internet [91]; Charge Zé Mané, menores pedintes [96]; Charge Zé Mané, secadores [98]; Charge Zé Mané, especulação imobiliária [100]; Charge Zé Mané, Feriado [105]; Charge Zé Mané, pipas [108]; Charge Zé Mané, baratas [1]; Farol da Educação [112]; Charge Zé Mané, discurso vazio [114]; Prefeito Magno Bacelar [120]; Charge Zé Mané, farmácias [122]; Farmácias [124]; Calçadas [125]; Delegacia [126]; Calçadas [128]; Charge Zé Mané, esbanjando verbas [129]; Charge Zé Mané, o que valorizamos [137]; Charge Zé Mané, PSF [142]; Charge Zé Mané, cadeiras nas calçadas [161];

Do blog ao livro

Este livro é fruto do blog que mantive no ar por quase dez meses, que também chamava-se Chapada das Mulatas, em homenagem à história de Chapadinha/MA, objeto das minhas análises. A idéia de começar a postar num blog surgiu da necessidade e predisposição pessoal em expressar minhas idéias acerca dos lugares onde moro. Assim foi em Novo Hamburgo, onde comecei a escrever crônicas na extinta Folha. Depois em Cachoeira do Sul, no jornal O Correio.

Quando cheguei em Chapadinha, deparei-me com a inexistência de jornais impressos. Dai a idéia de abrir um blog e começar a analisar o cotidiano da cidade, em seus mais variados aspectos: cultura, política, infra-estrutura urbana, etc.

Diferente de crônicas escritas semanalmente, postar textos num blog exige um esforço homérico, pois quem lê quer sempre algo novo, diariamente. E ter o que escrever todo dia é complicado, ainda mais numa cidade do porte de Chapadinha. A necessidade de escrever diariamente pode comprometer a análise, levada a ser superficial ou mesmo equivocada.

Outra questão importante é a diferença que sempre vi como necessária, aliás, fundamental para quem escreve: a de não ferir a dignidade da pessoa ou entidades objetos da análise.

Isso sempre foi muito claro para mim. Direcionar a crítica para fatos, com base em sólidos argumentos, não em palavras vazias de conteúdos, superficiais.

Este foi o maior choque que tive aqui em Chapadinha. Quem escreve, não quer debater, mas atacar, pois sempre está comprometido com uma ou outra agremiação política. Ou ataca ferozmente ou é “chapabranca”, enaltecendo os atos mais estapafúrdios. E parece que muitos dos leitores daqui querem isso mesmo!

Há uma frase famosa, que teria sido dita por Ernesto Che Guevara: Endurecer, pero sin perder la ternura jamás. Numa livre tradução, há de ser duro, mas sem nunca perder a ternura. Não sei se era isso que ele queria quando proferiu a tal frase, mas eu entendo que temos o dever, como cidadãos, de apontar as dificuldades do lugar onde vivemos (sermos duros). Nem por isso temos o direito de ofender a honra de quem quer que seja (faltar-nos ternura).

Suspendi as postagens no blog por entender que faltava o respeito dessa tênue linha entre crítica e ataque à pessoa.

Outra razão é porque era tido por prepotente quando criticava questões sobre o convívio comunitário. Quando criei o blog, tinha intuito de apontar e debater sobre o que julgava necessário ser falado mas não era, numa legítima tirania do pensamento único.

Para não deixar que estas análises cotidianas se perdessem, reuni aqui algumas delas. Selecionei as que julguei pertinentes. Que sirvam como semente em meio a terra árida, de modo a mudar as mentalidades locais, fazendo avançar rumo a uma sociedade igualitariamente mais justa, mais fraterna e, acima de tudo, mais aberta.

Chapadinha, novembro de 2007

Sojicultores vs. extrativismo

A transição demográfica vista na microrregião de Chapadinha, com o município tornando-se pólo de atração, não foi conseqüência da chamada “invasão da soja”. Em que pese o fato de existirem conflitos pela posse da terra na região, desalojando comunidades extrativistas, a ocupação dos plantadores de soja não pode ser responsabilizada pelo intenso fluxo migratório campo-cidade. Isso porque o aumento exorbitante de habitantes na zona urbana ocorreu a partir dos anos 80, enquanto a introdução da oleaginosa é posterior. Em outras palavras, o fenômeno urbano já estava adiantado quando sojicultores começaram a ocupar intensamente a área agrícola da região. O que não quer dizer, também, que sua presença não potencializará maior êxodo rural, dada a necessidade de ocupação territorial de grandes áreas, muitas vezes avançando sobre regiões extrativistas.

Água, esgoto, lixo, urubus e porcos nas ruas

Segundo dados do IBGE de 2000, os municípios da microrregião de Chapadinha carecem de infra-estrutura básica. O total de domicílios urbanos é de 18.984, mas somente 1.239 (59%) estão conectados na rede de água regular. Em Chapadinha, os domicílios urbanos somam 8.406, apenas 5.139 (61%) com água encanada. Tais números contrastam fortemente quando comparados às regiões sul e sudeste que tem, respectivamente, 93% e 94%. O índice é baixo mesmo quando comparado aos demais municípios do nordeste, que chega a 85%.

Postagens

A situação é semelhante na questão do esgoto sanitário. A fossa rudimentar predomina em metade dos domicílios urbanos; outro um quarto tem fossa séptica. A percentagem de domicílios sem banheiro ultrapassa a terça parte, 34,79% no total e 38,74% no município. Tais números distanciam-se dos encontrados na média nacional, que tem 56% dos domicílios urbanos ligados a rede geral de esgoto ou pluvial e menos de 7,74% sem banheiro.

Na destinação do lixo, o quadro é ainda mais grave. Enquanto o Brasil coleta 92% do lixo doméstico, aqui são coletados menos de 24%. A maior parte do lixo doméstico local é queimado (51,9%) e jogado em terrenos baldios ou logradouros públicos (27%). O despejo de resíduos em terrenos baldios e a irregularidade na coleta – algo que faz com que o lixo posto em frente às residências seja esparramado por animais errantes – aumentam o número de urubus e porcos nas ruas da cidade. A queima dos resíduos agrava o complicado quadro em termos do convívio comunitário.

Ruralização: perpetuando hábitos do campo na cidade

Basicamente, existem três mecanismos legais para inibir o que chamo de “ruralização”, a perpetuação de hábitos rurais no ambiente urbano. Entretanto, essa legislação é exógena, nasceu fora da comunidade, mais por pressões sociais das zonas metropolitanas do país inteiro do que a chapadinhense.

Um desses mecanismos é o Código de Posturas Municipais, instituído pela Lei n.471, em de 30 de junho de 1978. Seus 193 artigos traçavam normas pontuais para o dia-a-dia do município, como higiene pública ou higiene das habitações, da alimentação e dos estabelecimentos comerciais, da moralidade e do sossego públicos, dos divertimentos, dos cultos, do trânsito e obstrução das vias públicas, das medidas referentes aos animais, aos inflamáveis e explosivos, das queimadas de pastagens e cortes de árvores, da exploração de pedreiras e depósitos de areia, dos muros e cercas, dos anúncios e cartazes, do funcionamento do comércio e da aferição de pesos e medidas. Como essas medidas não nasceram na

CHAPADA DAS MULATAS - Postagens de um blogueiro comunidade local, seu efeito foi mínimo.

Outro mecanismo jurídico é a Lei Orgânica do Município de Chapadinha, publicada em 29 de março de 1990, que regionalizou muitos dos anseios nacionais dados pela Constituição Federal de 1988. De maneira geral, pouco contribuiu no sentido de coibir ações rurais no espaço urbano, pelo fato de suas normatizações não serem específicas. A promulgação da Lei não foi suficiente para desencadear seu enfrentamento sistemático e contínuo.

O terceiro mecanismo, mais recente e ainda não promulgado, é o Plano Diretor Participativo do Município de Chapadinha. Também foi conseqüência de lei externa, nesse caso uma exigência do Estatuto da Cidade (Lei n.10.257 em 10 de julho de 2001). Ao que parece, sua elaboração foi feito mais no intuito de aprová-lo para o gestor não incorrer em improbidade administrativa do que efetivamente ser cumprido à risca. Tratando igualmente as questões relativas ao enfrentamento da ruralização de forma generalizada, leva a crer que se constituirá, de igual forma, em letra morta.

Prevê, entre outras coisas, da elaboração da Lei de Zoenamento, Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, do Plano de Gestão de Saneamento Ambiental Integrado, do Código Municipal do Meio Ambiente.

Toda essa normatização não implica em efetivo cumprimento. Quando a sociedade não quer, não sente necessidade de mudanças, inexiste pressão sobre as autoridades que, por sua vez, acabam não criando e mesmo relevado o cumprimento da legislação em vigor, as mais das vezes impostas de cima para baixo, prevalência do nacional sobre o local. A ruralização, que desencadeia conseqüências funestas para toda comunidade, torna-se, nesta perspectiva, algo natural, tanto para a própria comunidade quanto para as autoridades.

Em vista disso, se o controle social feito pela família, comunidade e autoridades parece não surtir efeito, outro pólo pode tencionar para reverter a lógica da ruralização. O papel de agente transformador das condutas sociais pode estar nas instituições educacionais, a quem

Jeferson Selbach cabe fomentar a discussão de tais questões. A Universidade, neste contexto, pode fazer diferença... Trabalho escravo das domésticas

É incrível como ainda persiste o regime de escravidão em arraiais desse Brasil. Eu e minha esposa precisávamos de alguém para auxiliar nas tarefas domésticas. Em poucos contatos, nos assustamos quando ouvíamos o valor que muitas empregadas domésticas recebem aqui na Chapada das Mulatas, entre R$ 80 a 100 mensais, para trabalhar mais do que 4 h por semana! Acabamos contratando a Socorro, que ficou toda feliz porque agora tem salário mínimo e carteira assinada. Até passou a contribuir para o INSS!

Transporte público: questão de cidadania

A transferência do Campus do Centro de Ciências Agrárias e Ambientais da Universidade Federal do Maranhão – CA/UFMA, para o bairro Boa Vista, está prevista para breve.

Em vista disso, começou-se a discutir a necessidade de implementação do transporte coletivo regular que atendesse não só alunos mas toda comunidade. Foi formado um grupo de professores para contatar a Prefeitura Municipal, levar a reivindicação e se colocar à disposição para colaborar no estudo e implementação do transporte coletivo em Chapadinha.

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