doença de chagas

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Doença de Chagas e seus Principais Vetores no Brasil

Fundação Oswaldo Cruz Instituto Oswaldo Cruz Programa Integrado de Doença de Chagas (PIDC)

Doença de Chagas e seus Principais Vetores no Brasil

Ana Maria Argolo* Márcio Felix* Raquel Pacheco** Jane Costa*

* Laboratório de Biodiversidade Entomológica, Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz. ** Laboratório de Sistemática e Bioquímica, Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Rio de Janeiro 2007 LIVRO EM PROCESSO DE EDITORAÇÃO E REVISÃO

Presidência da República Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Ministro da Saúde José Gomes Temporão

Presidente Paulo Marchiori Buss

Vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico José da Rocha Carvalheiro

Vice-presidente de Desenvolvimento Institucional e Gestão do Trabalho Paulo Ernani Gadelha Vieira

Vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação Maria do Carmo Leal

Vice-presidente de Serviços de Referência e Ambiente Ary Carvalho de Miranda

Vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde Carlos Augusto Grabois Gadelha

Instituto Oswaldo Cruz

Diretor Tania Cremonini de Araujo-Jorge

Vice-diretor de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico Christian Maurice Gabriel Niel

Vice-diretor de Desenvolvimento Institucional e Gestão Claude Pirmez

Vice-diretor de Ensino, Informação e Comunicação Ricardo Lourenço de Oliveira

Vice-diretor de Serviços de Referência e Coleções Científicas Elizabeth Ferreira Rangel

Nas últimas décadas, a incidência da doença de Chagas tem apresentado significativa redução em várias regiões. Esse fato se deve ao trabalho continuado de controle dos vetores, através da aplicação sistemática de inseticidas, método que tem conseguido reduzir a taxa de infestação, chegando mesmo a controlar o principal vetor no país, Triatoma infestans, hoje restrito a apenas algumas localidades dos estados da Bahia, Piauí, Tocantins e Rio Grande do Sul.

Mas, apesar de todo o esforço realizado pelos órgãos de saúde, sempre há a possibilidade de reinfestação, inclusive com a substituição da espécie eliminada por outras. As áreas de infestação se concentram hoje principalmente na região do semi-árido brasileiro, onde duas espécies são ainda capturadas com muita freqüência: Triatoma brasiliensis, atualmente o principal vetor da doença, e Triatoma pseudomaculata. Para a primeira espécie, é apresentada uma nova abordagem taxonômica e biogeográfica, que tem implicações diretas para as medidas de controle da transmissão vetorial.

Um dos principais elementos para se controlar da doença de Chagas é a educação das populações que vivem em áreas afetadas ou sob risco. Nesse sentido, o papel do agente de saúde bem capacitado é fundamental para o sucesso das campanhas. Embora exista um grande volume de informações a respeito dos vetores e do parasito, são raras as obras destinadas ao treinamento dos agentes de saúde.

Esta publicação apresenta, em linguagem clara e objetiva, informações atualizadas sobre as formas de transmissão da doença, seus vetores, seu ciclo biológico e métodos de controle. O conteúdo está direcionado principalmente aos técnicos e profissionais que atuam no controle e na vigilância dos vetores da doença de Chagas no Brasil. Entretanto, a linguagem simples e objetiva aqui adotada permite que a obra também possa ser utilizada por pessoas que não estão familiarizadas com o assunto.

Esperamos que esta publicação contribua para o trabalho dos agentes de saúde e, indiretamente, que beneficie as populações residentes em áreas de fato ou potencialmente afetadas pela doença.

Os autores.

À Presidência da Fundação Oswaldo Cruz pela oportunidade de concretização desta obra.

À Vice-Presidência de Ensino, Informação e Comunicação pelo apoio, pelo exemplo e pelo entusiasmo com o qual acolheu este projeto.

Dra Tania Cremonini de Araujo-Jorge, Diretora do Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz, pelo incentivo e pela implementação dos cursos de Capacitação Profissional, permitindo o aperfeiçoamento e a integração do primeiro autor desta obra.

Dra Joseli Lannes e Dra Maria de Nazaré Soeiro, Coordenadoras do Programa Integrado de Doença de Chagas (PIDC), Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz, pelo apoio, incentivo, revisão do texto e sugestões valiosas.

Aos técnicos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), pelo trabalho indispensável nas coletas em campo.

Rodrigo Méxas, Laboratório de Imagem – Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz, pelo cuidadoso trabalho fotográfico.

Venício Ribeiro, Serviço de Programação Visual – Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde / Fiocruz, pelo apoio na elaboração da ilustração do ciclo de transmissão do Trypanosoma cruzi (Pág. 5, Fig. 3).

A todos que gentilmente colaboraram cedendo ilustrações: Prof. Dr Luis Rey, Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios – Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz (Pág. 6, Fig. 4 – Conforme Pág. 167, Fig. 12.5, Rey L., Parasitologia, 3ª edição, publicado por Editora Guanabara Koogan SA, Copyright © 2001, reproduzido com permissão da Editora e do Autor); Dra Helene Santos Barbosa, Laboratório de Biologia Estrutural – Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz (Pág. 4, Fig. 2); Prof. Dr Marcelo de Campos Pereira, Departamento de Parasitologia – Instituto de Ciências Biomédicas / USP (Pág. 9, Fig. 9; Pág. 18, Fig. 19); Gleidson Magno Esperança (Pág. 12, Figs 12, 13, 14) e Paula Constância Pinto Aderne Gomes (Pág. 6, Fig. 5), Laboratório de Biodiversidade Entomológica – Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz.

À Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), pelo auxílio à editoração desta obra.

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

À equipe do Laboratório de Biodiversidade Entomológica – Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz, pela cooperação e entusiasmo no desenvolvimento deste trabalho.

1-Introdução1
2-A doença de Chagas2
2.1-O que é a doença de Chagas?2
2.2-Como se dá a transmissão?3
2.3-O Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas4
2.4-Sintomas da doença5
3-Os barbeiros e suas características principais6
4-Como diferenciar os barbeiros dos outros percevejos7
5-Morfologia dos barbeiros8
5.1-Cabeça8
5.2-Tórax10
5.3-Abdome10
5.4-Ovos e ninfas10
6-Biologia dos barbeiros1
7.1-“Complexo brasiliensis”13
7.1.1-Triatoma brasiliensis brasiliensis14
7.1.2-Triatoma brasiliensis macromelasoma14
7.1.3-Triatoma melanica14
7.1.4-Triatoma juazeirensis15
7.2-Triatoma petrochii17
7.3-Triatoma infestans17
7.4-Triatoma sordida18
7.5-Triatoma pseudomaculata19
7.6-Panstrongylus megistus19
8-O controle e a vigilância epidemiológica20
Referências23

1-Introdução

Embora conhecida desde 1909, quando foi descrita pelo médico sanitarista Carlos Chagas, a doença de Chagas, também chamada de tripanossomíase americana, ainda apresenta grande importância em saúde pública no Brasil, ocorrendo principalmente no semi-árido nordestino. Está distribuída em todas as Américas, desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina e o Chile (Rey, 2001).

Na América Latina, essa doença figura entre as quatro principais endemias, sendo um dos seus maiores problemas sanitários. Essa situação ocorre apesar das medidas de controle terem conseguido diminuir a incidência em aproximadamente 70% nos países do Cone Sul, através da eliminação de colônias domésticas e peridomésticas dos vetores e da vigilância dos bancos de sangue. Atualmente, estimativas indicam que treze milhões de pessoas estão infectadas, sendo que cerca de três milhões apresentam sintomas. A incidência anual é de 200 mil novos casos registrados em quinze países (Morel & Lazdins, 2003).

Segundo Moncayo (1999), o número de infestações domiciliares no Brasil diminuiu consideravelmente nas décadas de 80 e 90. No período de 1983 a 1997, a incidência de casos da doença caiu em 96% na faixa etária de sete a catorze anos, resultado da Campanha do Controle da Doença de Chagas, efetuada pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), na época daquele estudo.

Uma das dificuldades em se combater os insetos vetores da doença (barbeiros) é o fato de novas espécies ocuparem nichos que eram antes ocupados por outras, fenômeno conhecido como sucessão ecológica. Outro fator a ser considerado é que a destruição de hábitats naturais, causando a redução da oferta de animais dos quais os barbeiros se alimentariam, leva esses insetos a procurarem outras fontes alimentares. Tais fontes são facilmente encontradas em casas de zonas rurais, onde normalmente criações de animais, como porcos, galinhas, etc., atuam como atrativo para a infestação das áreas peridomiciliares. Algumas espécies de barbeiros passam a habitar o interior dos domicílios, sendo levadas às casas através dos animais ou mesmo pelos moradores quando estes trazem materiais, tais como lenha, palha, etc., do seu quintal ou terreiro para o interior do domicílio.

Diotaiuti et al. (1995) e Costa et al. (2003a) mostraram que, no estado de Minas Gerais, nichos antes ocupados por Triatoma infestans foram posteriormente ocupados por T. sordida, em um claro exemplo de sucessão ecológica. Até 1997, T. infestans era considerada a principal espécie vetora do Trypanosoma cruzi, parasito causador da doença de Chagas. As campanhas de controle fizeram com que a porcentagem de municípios brasileiros infestados por este vetor fosse reduzida de 30,4% em 1983 para apenas 7,6% em 1993 (Silveira & Vinhaes, 1998) (Fig. 1). Mais recentemente, o mesmo fato foi detectado por Almeida et al. (2000) que, conduzindo um estudo no sul do Brasil, mostrou que a incidência de T. rubrovaria estava aumentando, enquanto a de T. infestans decrescia. Esses dados demonstram que algumas espécies de barbeiros são altamente antropofílicas, tendo grande capacidade de colonização e adaptação a novos hábitats, o que dificulta o controle da doença.

Fig. 1. Área de dispersão de Triatoma infestans, Brasil, 1983 a 1999. Modificado de Dias (2002).

Para melhor entendermos esses processos, é preciso que conheçamos um pouco mais a respeito da ecologia dos barbeiros, do modo de infecção desses insetos pelo protozoário causador da doença, o T. cruzi, e de como a sua transmissão ao homem ocorre.

2-A doença de Chagas

2.1-O que é a doença de Chagas?

A doença de Chagas é uma infecção parasitária causada pelo Trypanosoma cruzi, um protozoário cujo ciclo de vida inclui a passagem obrigatória por vários hospedeiros mamíferos, para os quais são transmitidos pelo inseto vetor, o barbeiro. Essa doença também pode ser considerada uma antropozoonose resultante das alterações produzidas pelo ser humano no meio ambiente e das desigualdades econômicas. Segundo Vinhaes & Dias (2000), o T. cruzi vivia restrito ao ambiente silvestre, circulando entre mamíferos. O homem invadiu esses ecótopos e se fez incluir no ciclo epidemiológico da doença, oferecendo abrigos propícios à instalação desses hemípteros, como por exemplo, casas de pau-a-pique (barro e madeira) e lugares de criação de animais, como galinheiros e currais.

São reconhecidos dois ciclos de transmissão do T. cruzi: um ciclo silvestre e um doméstico. O primeiro constitui o ciclo original da tripanossomíase americana, do qual participam mais de duzentas espécies entre hospedeiros e triatomíneos silvestres. O T. cruzi circula entre mamíferos silvestres através do inseto vetor. Entretanto, os ciclos da doença de Chagas nestes animais permanecem com muitas dúvidas, devido à complexidade dos inúmeros hospedeiros e vetores envolvidos. O ciclo doméstico é bem estudado e desse participam o homem, animais sinantrópicos e triatomíneos domiciliares. Seu início ocorreu quando o homem passou a ocupar os ecótopos silvestres, em vivendas rurais, oferecendo abrigo e alimento abundante aos vetores, incluindo-se, dessa forma, no ciclo epidemiológico da doença.

As constantes alterações no ambiente natural provocadas pelo homem (atividade antrópica), como a destruição da vegetação pela agricultura, acarretando desequilíbrios nos ecossistemas, levaram à modificação de comportamento dos insetos vetores. Esses ocuparam facilmente os nichos deixados vagos pela erradicação do Triatoma infestans, possibilitando, dessa maneira, a formação de novos ciclos de transmissão da doença de Chagas no peri e intradomicílio por espécies originalmente silvestres.

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