Bibliotecália: faces da sifilização do ethos brasilienses

Bibliotecália: faces da sifilização do ethos brasilienses

(Parte 1 de 2)

Sob aquela velha opinião formada sobre tudo
Acreditamos saber algo das coisas mesmase no entanto não possuímos

O conceito de "folha" surge do fato de igualarmos todas as folhas. nada mais do que metáforas das coisas, que de nenhum modo correspondem às entidades de origem.1

O homem possui a faculdade de apreender a realidade e criar signos, estruturando-os em universos culturais e semiológicos. É capaz de dar sentido ao que carece de sentido, e também ao desconhecido. E o faz por meio da linguagem. Sem a projeção do homem, os fenômenos naturais existem apenas em estado amorfo. Em outras palavras, se não são recortados culturalmente pelo homem, permanecem desprovidos de sentido; não passam de uma abstração, sem limites de apreensibilidade. Se há limites, esses são dados pela formação do homem, cuja vida cotidiana2 está enraizada numa cultura e numa história as quais influenciam sua própria visão de mundo.

No início do século X, disse F. Saussure aos discípulos: "é o ponto de vista que cria o objeto". Diante de um mesmo evento, as apreensões do objeto são diferentes e geralmente conflitantes entre si, podendo haver tantos pontos de vista, quantos forem os recortes do mundo. Se esses são limitados, resultam de limitações próprias à (de)formação do informador, ou da visão parcial de mundo dos recortes. Não é a realidade que muda, mas apenas o modo de observá-la, por isso os sistemas conceptuais variam de língua para língua, de acordo com o modo e visão de mundo diante da observação da realidade.

Assim, condicionada pela língua, nossa concepção de mundo é "apenas uma das muitas possíveis". A fonte de maior heresia seria, então, não reconhecer os limites de nossa visão de mundo, mutável e conflituosa, ignorando as contradições que lhe são inerentes, com a adoção "consensual" de uma única e parcial visão da floresta. Conforme previne Luís Milanesi, "o consenso rápido e o consenso duradouro são suspeitos".3

De outro modo, para suprir os limites de uma equivocada leitura de mundo, é imperativo desconfiar de tudo. Além de simplesmente ordenar o caos informativo por meio de um rosário de técnicas,4 cumpre cultivar a dúvida e, sobretudo, desconfiar permanentemente da ordem, destruindo os

"edifícios já construídos", revelando a força dos antagonismos em choque; eventuais males de origem que remetem-nos ao mito fundador da Terra sem mal: "a verbiagem oca, inútil e vã, a retórica, ora técnica, ora pomposa, a erudição míope", aparatos de saber fundados à custa de hierarquias e privilégios, ignorância e alienação, perpetuadas por quem decide o que convém saber. Neste mundo vasto mundo, "a visão da floresta é fundamental para compreender a folha".5

É com ceticismo, pois, que se põe aqui à prova os mitos de fundação que alimentam ainda hoje promessas vicárias em dose de mandato, programas educacionais com data para acabar; ofertas de vida eterna sem crucifixão (dízimos já são debitados em cartão!); o fim do desmatamento ou a privatização da Amazônia para o cultivo da biodiversidade-biomassabiotecnologia; o reconhecimento do trabalho, do estudo e o emprego garantido ao término da faculdade; a distribuição de renda tão logo o bolo venha a crescer ou a alvorada espetacular do crescimento. Tudo isso, sem investir em educação, sem livros e sem bibliotecas. Como gostar de ler? Eis o lastro de nossa erudição: essa multidão de preconceitos, sugados, sob o látego e a sífilis, que se refestelam à claridade divina do dia, mas não chegam a incomodar o sono de ninguém.

Sobre esta velha opinião formada sob o lacre do equívoco, que tão bem se incrustou em diferentes esferas do cotidiano, escolas, igrejas, rampas e ministérios, gravando vestígios de intolerância, racismos e preconceitos, teremos coragem suficiente para esquecer o que tivemos a fraqueza de aprender? Seremos capazes de extirpá-la até a raiz?

Catequese na taba: "quem nasce roendo sabugo nunca há de provar broa de milho..."

Sinto que trago em mim uma alma medieval e creio que é medieval a alma de minha pátria; que esta passou à força pelo Renascimento, a Reforma e a

Revolução, aprendendo com elas, é verdade, mas sem deixar que lhe tocassem a alma, conservando a herança espiritual daqueles tempos que chamam de a Idade das Trevas. [Unamuno, Del sentimiento trágico de la vida.]6

No livro A República, Platão recomenda a "ginástica para o corpo e a música para a alma", incluindo nesta última a literatura e as artes. No Brasil, desde o mito fundador, a deculturação jesuítica determinou o caminho da salvação pela ignorância, a negação do corpo e a expiação dos pecados, encerrando toda a personalidade criativa em um sistema teológico suprapessoal, em que a história se desenvolve apenas como realização do plano de Deus ou da vontade divina.

O mais nefasto desastre causado à existência do povo brasileiro não foi apenas o promovido pela escravidão, o látego e a sífilis, com o respectivo extermínio físico da língua nativa e de seus falantes, mas algo mais sutil; não apenas o genocídio sumário da carne e dos afetos desordenados, mas do pensamento, da emoção e da vontade, apagando de sua vida os desejos, o passado e os antepassados, até ser subtraído da própria História. Manipulado e submisso, ou ficou de fora ou serviu de montaria para as retóricas e ideologias, permanecendo na escuridão da ignorância, sem história e sem passado. Ignorado e ignorante — sem acesso à educação e ao saber—, sua leitura de mundo se viu aprisionada a preceitos morais, vetada e limitada unicamente pela visão de mundo autoritária do colonizador.7 Exorcizado de seu próprio passado e apartado da história, aceitou o estado de subserviência voluntária.

Para o filósofo J. P. Sartre, "o outro guarda um segredo: o segredo do que eu sou". Quando em contato com a diversidade, prevaleceu a ótica do dominador, fundada em privilégios, hierarquias e obediência à Fé, à Lei e ao Rei. O que fugisse disso era desconhecido, estranho à própria história. A visão de mundo do colonizador se opunha ao que contrariava as suas velhas opiniões formadas sobre tudo. Assim, faltam-nos a memória, a tradição inconsciente e o passado, pois tudo isso foi exorcizado. Dessas realidades culturais do "outro" foi suprimido tudo o que pudesse desafiar a ordem estabelecida. Segundo o educador Paulo Freire:

Não sendo possível às classes dominantes matar ou fazer desaparecer a capacidade de pensar dos homens, mitificam a realidade, condicionando-lhes um pensar falso sobre si e sobre o mundo.8

De acordo com a ótica do colonizador, tudo o que fosse distinto do édifice déjà construit (edifício já construído), ou que se desviasse de sua base ideológica, ou que não fosse fundado no paradigma da obediência à Fé, à Lei e ao Rei, lhe eram estranhos, sendo-lhe impossível conceber qualquer acordo com visões de mundo que fossem opostas a este arcabouço dogmático. Como salienta Freire, toda ordem social domesticadora mantém-se por meio da falsificação, não da realidade, mas da consciência da realidade. A respeito desse processo de inculcação da visão de mundo dominante, Marilena Chaui afirma que:

O surgimento do cristianismo produz um efeito inesperado sobre a concepção da história [...] introduz a idéia de que a história segue um plano e possui uma finalidade que não foram determinados apenas pela vontade dos homens.9

'pecado' as populações do Novo Mundoeliminando os traços culturais

Preocupados com a dilatação da fé, mas ao mesmo tempo para fugir do rígido controle da aristocracia clerical, cujo poder monolítico sofria críticas e passava por reformulações na velha Europa, os jesuítas se empenharam em implantar o Reino de Deus entre os gentios ignaros, organizando um exército apostólico ao modo das Cruzadas para "libertar do desses povos que de uma forma ou de outra não passavam pelo crivo português e católico da época".10 Não visavam à busca investigativa a partir de novas descobertas epistemológicas, mas uma ampla campanha de cunho militar e disciplinada para a expansão da fé.

Para empreender este "novo processo civilizatório", sem precedentes na história, mas segundo os interesses da corte, impuseram o velho padrão cultural aos nativos "selvagens", pregando o evangelho nas florestas virgens e incultas, domesticando a vida nas tabas, enquanto os colonizadores se ocuparam em maior medida com a exploração predatória da terra, pródiga em riquezas naturais e materiais, aliada à exploração da mão-de-obra escrava que produzia o que pudesse ser vendido para atender as exigências necessárias à expansão mercantilista. Segundo a descrição da Carta de Caminha: "Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem".

Assim foi semeada a terra virgem: com velhas sementes.

"Sifilizaram" o universo cultural dos povos indígenas, ignorando passado, cotidiano e mitos, excluindo-os de sua própria história e conformando-os às novas crenças trazidas na bagagem.1 Como os índios nativos ignoravam a lógica e os referenciais de vida dos homens brancos e desconheciam as motivações de sua fé, primeiro aprenderam a ajoelhar, depois foram submetidos às lições de catequese na taba. A finalidade moral era domesticar as consciências por intermédio de exercícios que visavam ao controle dos instintos selvagens ou desregrados.12 Ainda no governo de Salvador de Sá, os "homens da floresta" eram seres "bestiais" e "primitivos" aos olhos da sacralidade clerical, viviam desordenadamente, em desalinho com os costumes e a moral católica tradicional:

Os índios nômades da floresta brasileira não estavam preparados nem mentalmente, nem pelo estado de cultura para suportar uma vida de labuta diária, ao simples aceno ou chamado de outrem. (Charles Boxer, 1973: p. 137)

A "visão do paraíso" terrestre, da gente que deveria ser salva pelos cristãos, faz parte do mito fundador que é uma "solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos na realidade".13 Serviu para caracterizar a identidade do "outro" com imagens que reproduzem uma noção aproximada do bom selvagem, na medida que "o primeiro elemento da construção mítica o lança e o conserva no reino da Natureza, deixando-o FORA do mundo da História".14 Tal percepção da realidade do "outro", por meio de uma visão mítica do mundo, foi remodelada para justificar a sua escravidão, uma vez que os índios não agiam como humanos ("bestialmente, sem ter conta, nem peso, nem medida") e eram desprovidos de alma: "viviam os nossos índios como vadios, inutilmente e sem prestança, sem produzir nada. Não lavram, nem criam".15

O fato é que, para "salvar esta gente", a moral ensinada passou por cima da moral vivida. Com isso, historicamente, perdemos também a capacidade de estabelecer diferenças e exercer o livre-arbítrio, perdemos a capacidade de escolher. Assim, o brasileiro prefere que alguém decida o que lhe convém, porque não sabe o que convém decidir. Ora, como pode haver livre-arbítrio na ignorância? Sem lenço e sem documento, se lhe fosse proposto escolher entre "dentadura" ou "peruca", "pão" ou "circo", não saberia optar, preferiria que alguém decidisse o que lhe convém escolher. Quem não sabe o que quer, não é capaz de escolher; a exemplo do "Asno de Buridan",16 que, inerte e indiferente diante de dois feixes de feno, acabou morrendo de fome —, assim também a indiferença derivada da ignorância não permite estabelecer preferências, nem reconhecer o que convém, principalmente quando não se sabe o que está sendo medido. Não há como duvidar: "O ignorante não duvida."

A importância de ler & o ato de criar...

Não cabe temer ou esperar, mas buscar novas armas. (Deleuze, Gilles. Conversações, p. 220)

Cultivar a dúvida é desejar uma nova ordem.17

Antes de codificar o texto, há que se decodificar as contradições das distintas visões de mundo. O desconhecimento da força inerente aos antagonismos em choque, das visões conflitantes, do jogo de interesse subjacente conserva-nos no reino da ignorância, cria falsas versões do mundo, ora deturpando-o, ora anulando-o. Se a leitura do mundo precede a leitura da palavra, como ensina Paulo Freire, daí que "a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente," 18 sendo o homem resultado de sua relação com a experiência cotidiana. Sua vida vivida, não a ensinada,19 é um eterno amálgama de conflitos: opiniões, juízos e preconceitos compõem a realidade de seu mundo imediato.

visão de mundouma ideologia.20 Talvez seja necessário mais filosofia, e
Segundo Ortega y Gasset, "a sociedade é perversacastiga aqueles

Quanto a formação do informador, deve permitir-lhe que seja capaz de penetrar no semantismo das palavras, examinando-a em sua carga ideológica, em sua força persuasiva e sua natureza modelizante, pois ao recortar o mundo com palavras, criamos centros de gravidade, atribuindo ou retirando certos valores, como convém, reflexos de uma determinada menos tecnicismo, para não se perder no "cipoal dos detalhes técnicos", todavia, como adverte o professor Milanesi, "aqueles que dominam as técnicas, mas desconhecem como aplicá-las à sociedade, é tão ou mais perigoso do que aqueles que, sendo humanistas, desconhecem os instrumentos técnicos da ação. [...] Não há separação entre as partes, mas são integradas porque aquele que sabe fazer, mas desconhece porque faz, é tão ou mais perigoso do que aquele que sabe porque fazer, mas desconhece como".21 que a servem com desdém".2 Quem se manteve enclausurado em seu gabinete, ignorando mudanças e desprezando as novas tecnologias advindas com o novo processo civilizatório, a aldeia globalizada da informação, perdeu o bonde da história e já não se reconhece como "folha"

poeira da medievalidade, anônimos e silenciosos

no interior da "floresta", pois são as necessidades reclamadas pela sociedade que devem ser atendidas, em prol da coletividade, não dos interesses privados, de "umbigo", de quem irremediavelmente só se preocupa com a ética do lucro e as benesses materiais. Os que se contentam com os próprios botões; "bibliostras", encapsulados, contribuem apenas para conservar o status quo de um hábito obsoleto, associado ao ócio contemplativo, mas, com o passar dos anos ajuntam-se também à

Falta-nos história porque freqüentemente falta-nos também leitura, enquanto bibliotecas permanecem sendo vistas como o "lugar do sacrifício", todavia, não se passa impunemente por quinhentos anos de analfabetismo. Subtraídos da memória, do passado e do sentido original das coisas, somos facilmente manipulados como "títeres" em mãos alheias. Onde está o ouro, hoje inutilmente representado pelo amarelo de nossa bandeira? Segundo Mário de Andrade: “Nós existimos pouco, demasiado pouco. Nós existimos em desordem. É que nos falta antigüidade, nos falta tradição inconsciente, nos falta essa experiência fisológica (sic) da nossa moralidade que, só por si, torna a palavra "passado" duma incompetência larvar”.23

Segundo o fundador do sistema universitário alemão, Wilhelm Von

imprevisto, da desordem, do caos, do vazio de origemA Biblioteca é um
de aumentar a beleza e a sabedoria no mundoporque a cultura é como a

Humboldt, a essência de uma vida verdadeiramente humana é "investigar e criar",24 devendo o homem aspirar à liberdade e à justiça. Mas, antes precisamos aprender a ler não pela metade, aprender a criar a partir do espaço rico de cultura, e pode estimular o homem a exercitar a releitura e a recriação de sua própria história. Afinal, a cultura é o que dá a toda pessoa "razões para viver e ter esperanças. É o que pode dar meios de agir a fim natureza: ela vive pela respiração, pelos fluxos, pelos sopros, pelas fecundações e mestiçagens".25

Por fim, é inadmissível que bibliotecas do país ainda sejam fechadas em nome da arbitrariedade egóica e de pseudogestores culturais de ocasião, a exemplo do que vem ocorrendo na prefeitura de São Paulo. Bibliotecas não são depósitos de lixo e tampouco podem ser tratadas como mero "apêndice deteriorado de uma educação forjada pela ignorância". Já o livro, memória viva de um povo, nas palavras do autor de Macunaíma, "o livro não é apenas uma dádiva à compreensão, é, deve ser principalmente um fenômeno de cultura".26

Bibliografia

ANDRADE, Mário de. Biblioteconomia. In: Os filhos da Candinha. Obras completas, vol. XV. São Paulo: Martins, 1963.

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bosi. 4ª edição.

São Paulo: Martins Fontes, 2000. Título original: Dizionario di filosofia.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. 3ª edição. São Paulo: Companhia das

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CAMINHA, Pero Vaz de. Carta a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil. In:

AGUIAR, Flávio. (Org.) Com palmos medida. Terra, trabalho e conflito na literatura brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo/Boitempo, 1999.

CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. 5ª reimpressão. São

Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

CHOMSKY, Noam. Notas sobre o anarquismo. Tradução de Felipe Corrêa et al. São

Paulo: Imaginário/Sedição, 2004.

FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. 2ª edição. Rio de

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_. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 13ª edição.

São Paulo: Editores Associados/Cortez, 1986.

_. Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica. Disponível no site: http:\\w.ofaj.com.br/disciplinas_mi_texto07.html. Acesso em 15.04.2005.

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