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Distribuição e quantificação de classes de vegetação do Pantanal através de levantamento aéreo

MARTAPEREIRADASILVA1,2,RODINEYMAURO1,GUILHERMEMOURÃO1 eMARCOSCOUTINHO1

(recebido em 20 de janeiro de 1999; aceito em 5 de janeiro de 2000)

ABSTRACT - (Distribution and quantification of vegetation classes by aerial survey in the Brazilian Pantanal). An aerial survey was adapted and used for the first time to elaborate maps of distribution and quantification of vegetation classes in the Pantanal wetland, per sub-region. Sixteen vegetation classes where identified based on phytophysiognomic aspects, the most important being grassland (31.1%), cerradãowoodland(2.1%), cerrado (14.3%), marshes (7.4 %), semideciduousforest(4.0%), galleryforest(2.4%) and floating mats (2.4%). These informations can support decisions in the conservation or selection of preserved areas, as well as to help to monitor vegetation over a vast and remote region.

RESUMO - (Distribuição e quantificação de classes de vegetação do Pantanal através de levantamento aéreo). O método de levantamento aéreo foi adaptado e utilizado pela primeira vez para a elaboração de mapas de distribuição e quantificação de classes de vegetação noPantanalMato-Grossensepor sub-região. Foram identificadas 16classes, baseando-seemaspectos fitofisionômicos, sendo as principais campo (31,1%), cerradão (2,1%), cerrado (14,3%), brejos (7,4%), mata semidecídua (4,0%), mata de galeria e 2,4% de baceiro ou batume. Estas informações podem subsidiar a escolha de áreas de conservação ou preservação, bem como auxiliar o monitoramento de áreas com grande extensão e difícil acesso.

Key words - Neotropical savanna, vegetation mapping, wetland, Pantanal Matogrossense

Introdução

O Pantan al é uma plan ície sedimentar (140.0 km2), formada no período quaternário, preenchida com depósitos aluviais dos rios da Bacia do Alto Paraguai. A baixa declividade dificulta o escoamento das águas e, em combinação com mesorelevo, origina o aparecimento de ambientes característicos, associados à vegetação em mosaico, como as “cordilheiras” (antigos diques fluviais), com vegetação arbórea mais densa. A vegetação incorpora também elementos das províncias fitogeográficas adjacentes. Tem como limite leste o cerrado do Brasil Central, na porção nordeste as florestas semidecíduas relacionadas com a floresta Amazônica e no sudoeste a floresta chaquenha seca originária da Bolívia e Paraguai (Adámoli 1982). A vegetação seca é interpenetrada por vários tipos de vegetação higrófila nas áreas inundadas (Prance & Schaller 1982). Há diversas comunidades vegetais comdomínionítidodeumaespécie,aqualdáonome regional.

Os mapas de distribuição da vegetação do Pantanalatualmentedisponíveis,naescalade1:250.0, foram realizados pelo antigo Ministério do Interior (Brasil 1979), pelo Ministério das Minas e Energia, com o Projeto Radambrasil (Brasil 1982) e pela Secretaria de Planejamento do Estado de Mato Grosso do Sul (Mato Grosso do Sul 1989), que realizou um macrozoneamento geoambiental estadual. Este inclui a porção sul do Pantanal, utilizando o sistema de classificação fisionômicoecológico, baseado em Mueller-Dombois & Ellenberg (1974).

Trabalhos de pequena abrangência espacial foram desenvolvidos na planície para mapeamento de vegetação, utilizando imagens de satélite. Como exemplo temos o de Ponzoni et al. (1989) para o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense (135.0 ha), utilizando imagem TM-Landsat 1:250.0; o de Silva et al. (1994) que utilizaram imagensdomesmo sensorpara afazenda Nhumirim (4.310 ha), escala 1:100.0, reunindo informações de campo como fitossociologia e análise da complexidade estrutural em amostras selecionadas visualmente; odeBoocket al. (1994)e Silvaet al.(1998) que mapearam a vegetação da área pertencente ao

1. Centro de Pesquisa Agropecuária do Pantanal/ Empresa

Brasileira de Pesquisa Agropecuária CPAP/EMBRAPA,

Caixa Postal 109, 79320-900 Corumbá, MS, Brasil. 2. Autor para correspondência: martha@cnpgc.embrapa.br

Pantanal da fazenda Bodoquena (160.0 ha), subregião do Nabileque, utilizando imagem TMLandsat 1:100.0 e fotografias aéreas 1:20.0, respectivamente e de Abdon et al. (1998) que utilizaramimagemTM-Landsat1:50.000departeda sub-região da Nhecolândia, gerando uma carta de vegetação na mesma escala.

Um trabalho com abrangência regional é o de

Veloso (1972), que elaborou um mapa de distribuição da vegetação da Alta Bacia do Rio Paraguai, considerando aspectos fitoecológicos, através de amostragem, utilizando fotografias aéreas de 1:60.0 e fotoíndices de 1:150.0 e recentemente aEMBRAPA/CPAPnamesmaregiãoelaborou mapas de vegetação naescalade1:250.0, comoparte do Plano de Conservação da Bacia do Alto Paraguai/PCBAP (Pott et al. 1997).

O presente estudo teve como objetivo elaborar mapas de distribuição espacial da vegetação do Pantanal e quantificá-la, baseando-se em aspectos fitofisionôm icos, utilizando a metodol ogia de levantamento aéreo. Discute também as possibilidades deusodessas informações comosubsídiopara a escolha de áreas de conservação ou preservação, bem como auxílio no monitoramento da vegetação em áreas com grande extensão.

Material e métodos

Área de estudo - O Pantanal Mato-Grossense situa-se entre os paralelos 16° e 21° S e os meridianos 55° e 58° W. Faz parte dos estados de MatoGrossoe MatoGrossodo SulnoBrasil(figura1).

O clima é do tipo quente, com o semestre de inverno seco, apresentando um regime de precipitação marcadamente estival, que define o caráter estacional, Aw segundo Köppen (Cadavid- Garcia 1984). A pluviosidade oscila entre 800 e 1400 m/ano, sendo que 80% ocorrem entre os meses de novembro e março.

Os solos são de origem sedimentar, ocorrendo em fases argilosa e arenosa de forma alternada e descontínua, com a dominância de solos hidromórficos compondo 92,5% do total (Amaral Filho 1984). Amostragem das principais fitofisionomias - A área do Pantanal foi dividida em transecções no sentido leste-oeste, de distintas extensões. Estas foram divididas em pixels de 6’ geográficos, ou aproximadamente 10 km de extensão e com largura de 200 m. Foi utilizado um avião Cessna 206, voando a uma altura de 60 m do solo, à velocidade de 200 km/h, totalizando 9 h de vôo, de 01/09/1991 a 13/10/1991, correspondente ao final da época seca. Nasmontantes do aviãoforam instaladas varetas delimitandouma área amostral de 200 m de largura no solo, na qual foram realizadas as observações, sendo que para a vegetação utilizou-se somente um lado. Dentro de cada pixel foi observado o habitat localizado diretamente sob o avião a cada 36” geográficos e anotado em uma ficha por uma pessoa treinada (1° autor), obtendo-se 10 pontos por pixel.

O sistema de classificação da vegetação fundamenta-se em aspectos fisionômicos, florísticos, ecológicos e na combinação destes, utilizando-se denominações regionais. Foi utilizado um critério fitofisionômico, devido à facilidade para a pronta identificação da vegetação a partir de um avião, associado a uma denominação regional das classes. Estabeleceu-se um paralelo para a classificação da vegetação entre o sistema fisionômicoecológicodoIBGE(1992),easdenominaçõesregionaisutilizadas (tabela 1): a) babaçual: formação homogênea densa composta predominantemente pela palmeira babaçu (Orbignya oleifera Bur.), de 10-2 m altura; b) baceiro ou batume: é formado por ciperáceas e plantas aquáticas, com as raízes densamenteentrelaçadas, formando ilhas flutuantes nos mais diversos tipos de corpos de água; c) brejo: áreas permanentemente inundadas, com arbustos, trepadeiras, gramíneas e ciperáceas. Incluíram-se os “espinheirais”, onde predominam espinheiros (Byttneria filipes Mart. ex Schum e Mimosa pellita H. & B.), e “pombeiros” (Combretum spp); d) buritizal: formação composta quase que unicamente pela palmeira buriti (Mauritia vinifera Mart.), de 5-15 m de altura; e) cambar azal: formação homogênea densa de área inundável, com dominância de cambará (Vochysia divergens Pohl), de 5-18 m de altura; f) campo inundado: áreas, incluindo as várzeas, com dominância de gramíneas e ciperáceas, alagadas no período do levantamento;

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Figura 1. Localização geográfica e delimitações das sub-regiões do Pantanal Mato-Grossense, adaptado de Silva et al. (1998).

g) campo seco: áreas com vegetação herbácea, não inundadas no período do levantamento; h) canjiqueiral: formação homogênea esparsa de áreas arenosas, com domínio de canjiqueira (Byrsonima orbignyana A. Juss.), de 1-5 m de altura; i) carandazal: formação homogênea densa com dominância da palmeira carandá (Copernicia alba Morong.), de 8-20 m de altura; j) cerradão: formação densa composta de árvores, com comportamento semidecíduo, de 8-20 m de altura; l) cerrado: formação lenhosa esparsa, sobre um estrato herbáceo, composta por arbustos e árvores de 0,8-10 m de altura; m) chaco: vegetação arbustiva caducifólia, micrófila e espinescente, geralmente associada a solos salinos; n) mata semidecídua: composição de arbóreas de 8-20 m de altura, na qual a maioria das árvores perde as folhas no período seco; o) mata de galeria: matas de beira de rio e/ou sob sua influência direta, ocorrem espécies como piúva (Tabebuia heptaphylla (Vell.) Tol.) e ingás (Inga spp); p) paratudal: formação savânica alagável com estrato arbóreoq uase exclusivod ep aratudo( Tabebuia aurea (Manso) B. & H.), de 5-16 m de altura; q) pirizal/caetezal: áreas de alto grau de inundação com dominância de pirizeiro (Cyperus giganteus Vahl) e caeté (Thalia geniculata L.), respectivamente. r) outros: são corpos de água livre de vegetação.

Análise dos dados - Adotou-se a subdivisão do Pantanal proposta por Adámoli (1982), modificada por Silva & Abdon (1998) de 10 pantanais ou sub-regiões. Os mapas foram feitos através do programa IDRISI(Eastman 1990),sendo que cada pixel corresponde a 6’ geográfico. Baseado nos tipos de habitat observado diretamentes oboa vião ac ada3 6’’ parac adap ixel, adotaram-se quatro classes de freqüência de ocorrência de fitofisionomia: alta para a freqüência de1 0a8 , médiap araad e7 a4 , baixa de 3 a 1 ea usente paraac lasse 0.

Resultados e Discussão

São apresentados na tabela 2 os tipos de vegetação do Pantanal em porcentagem de cobertura, discriminando-os por sub-região. Nas figuras 2 a 17 são mapeados os pixels com os tipos de vegetação obedecendo quatro classes de freqüência,bem como a distribuição espacial dos mesmos.

Cerradoéaformaçãomaisrepresentativa(36%) da vegetação do Pantanal. Cerradão e cerrado sensu stricto perfazem 2% e 14%, respectivamente. Sua distribuição ocorre mais intensamente no leste e centro da planície, sobre solos arenosos (figura 2), nas sub-regiões deCáceres,BarãodeMelgaço,Nhecolândia, Aquidauana e Miranda (tabela 1). Na fisionomia pantaneira, o cerradão ocupa áreas mais elevadas e o cerrado sensu stricto, áreas mais baixas, tendendo para campo à medida que aumenta o grau de inundação. Estas áreas são continuidade da grande região fitoecológica do cerrado brasileiro, consideradas junto com a ilha do Bananal, as únicas áreas extensas de cerrado sobre sedimentos quaternários (Adámoli 1986). No entanto, Eiten (1982) e Allem & Valls (1987) classificam essas áreascomosavanahipersazonal.NoPantanal,Ratter et al. (1988)diferenciaramcerradãodecerradosensu stricto pela altura das árvores e presença de determinadas espécies como timbó (Magonia pubescens A. St.- Hil.) e carvoeiro (Callisthene fasciculata (Spr.) Mart.), que são características de solos mais férteis.

A floresta semidecídua também está associada a solos mais férteis com melhor drenagem e maior aeração (Allem & Valls 1987). Ocorre em maior porcentagem nas áreas com solos argilosos das subregiões de Poconé e Miranda, onde representa respectivamente 12% e 14,4% (figura 4). Segundo Adámoli (1986), partes destas duas sub-regiões apresentamcaracterísticasedáficasmuito semelhantes. No Pantanal, as áreas de floresta semidecídua (figura 4) totalizaram 4% da vegetação.

A distribuição de floresta semidecídua e cerradão está relacionada com os níveis de nutrientes. Segundo Ratter et al. (1977), as florestas semidecíduassituam-se sobre solos comníveis de cálciomais

Table 1. Equivalência entre o sistema fisionômico-ecológico do IBGE (1992) e as denominações regionais.

Sistema fisionômicoecológico Denominação regional

Floresta Estacional Semidecidual Aluvial mata de galeria

Floresta Estacional Semidecidual Terras Baixas mata semidecídua

Savana Florestada cerradão, babaçual Savana Arborizada cerrado Savana Parque paratudal, canjiqueiral

Savana gramíneo-lenhosa campo inundado, campo seco

Savana Estépica Florestada chaco Savana Estépica Parque carandazal

Sistema Edáfico de Primeira Ocupação, Formações pioneiras – Vegetação com influência fluvial e/ou lacustre buritizal, cambarazal, pirizal; caetezal, baceiroo ub atume, brejo

elevados nos horizontes superficiais do que em cerradão “facies” mesotrófico. Apesar disso, esta relação não se apresenta estática, existindo indicação de invasão de florestas em vegetação de cerrado, mesmo em áreas onde a água é o fator limitante que prepondera (Ratter 1992).

A mata de galeria (figura 5) está presente principalmente aolongodorioParaguai,nas sub-regiões do Paraguai (6,7%) e Poconé (4,3%), e do rio São Lourenço, na sub-região de Barão do Melgaço (5,2%), totalizando 2,4% da vegetação do Pantanal. As matas degaleriado Pantanal são menos atingidas pelo transbordamento dos rios, pois situam-se em área ligeiramente mais elevada que a da planície (Pott 1982).

Os campos naturais representaram 31% da vegetação no Pantanal, sendo uma das principais fitofisionomias nas sub-regiões do Paiaguás, Nhecolândia, Abobral e Nabileque (tabela 2). O campo inundado restringiu-se à porção oeste do Pantanal, próximoaorioParaguai.As proporções entrecampo seco e campo inundado alternam-se em função da precipitação local e/ou do aporte de água por rios intermitentes ou não e época do ano (figuras 6 e 7).

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Figuras 2-5. Mapas de distribuição geográfica das seguintes fitofisionomias noPantanal Matogrossense em 1991. 2. Cerradãoou savana florestada; 3. Cerrado ou savana arborizada; 4. Mata semidecídua ou floresta estacional semidecidual de terras baixas; 5. Mata de galeria ou floresta estacional semidecidual aluvial. Pontos de ocorrência: planície (ausente); de 1 a 3 pontos (baixa); de 4 a 7 pontos (média); de 8 a 10 pontos (alta).

Sarmiento (1990) considerou tais áreas como “savanas hipersazonais”, onde a biomassa subterrânea das gramíneas está sujeita a um período prolongado de saturação hídrica do solo, e que resistem ao estresse provocado pelo período seco.

No Pantanal, a distribuição das áreas de campo está mais associada ao fator drenagem do que à fertilidade do solo. Porém, a fertilidade tem influência preponderante sobre as espécies que integrarão um determinado tipo de campo inundável. Um exemplo desta afirmação são as gramíneas mimoso (Axonopus purpusii (Mez) Chase), que está relacio- nada a solos pobres, e mimoso-de-talo (Hemarthria altissima (Poir) Stapf & Hub.) e Paspalum almum Chase, a solos consideravelmente férteis (Allem & Valls 1987).

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