Avaliação da contaminação de hortas produtoras de verduras

Avaliação da contaminação de hortas produtoras de verduras

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Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical 40(2):239-241, mar-abr, 2007COMUNICAÇÃO/COMMUNICATION

Avaliação da contaminação de hortas produtoras de verduras após a implantação do sistema de fiscalização em Ribeirão Preto, SP

Evaluation of the contamination of lettuce crops after the establishment of the monitoring system in Ribeirão Preto, SP

Osvaldo M. Takayanagui1, Divani M. Capuano2, Carlos A. D. Oliveira3,

Alzira M.M. Bergamini2, Madalena H.T. Okino2, Ana A.M.C. Castro e Silva4, Maria A. Oliveira2, Eliana G.A. Ribeiro2 e Angela M.M. Takayanagui5

ReSuMo

O estudo avaliou a contaminação microbiológica e parasitológica de 8 hortas produtoras de verduras, das quais 47 haviam sido investigadas anteriormente. A taxa de contaminação foi de 38,3% nas hortas previamente investigadas e de 43,9% nas novas hortas. A segurança alimentar requer um contínuo e eficiente sistema de vigilância sanitária das hortas.

Palavras-chaves: Horta. �erdura. �gua de irrigação. �egurança alimentar. �isticercose. �arasitas.�erdura. �gua de irrigação. �egurança alimentar. �isticercose. �arasitas.�gua de irrigação. �egurança alimentar. �isticercose. �arasitas.�egurança alimentar. �isticercose. �arasitas.

ABSTRAcT

This study evaluated the microbiological and parasitological contamination of 8 market gardens producing green vegetables, of which 47 had been investigated previously. The contamination rate was 38.3% in the market gardens previously evaluated and 43.9% in the new market gardens. Food safety requires a continuous and efficient sanitary surveillance system for market gardens.

Key-words: Market garden. Green vegetable. Irrigation water. Food safety. �ysticercosis. �arasites.

1. �epartamento�e�eurologia,�acul�a�e�e�e�icina�eRibeirãoPreto,�niversi�a�e�eSãoPaulo,RibeirãoPreto,SP.�.�aborat�rio���eRibeirãoPreto,��nstituto��olfo�epartamento �e �eurologia, �acul�a�e �e �e�icina �e Ribeirão Preto, �niversi�a�e �e São Paulo, Ribeirão Preto, SP. �. �aborat�rio �� �e Ribeirão Preto, ��nstituto ��olfo �utz, Ribeirão Preto, SP. 3. �ivisão �e Vigilância Sanitária, Secretaria �a Saú�e �o �unicípio �e Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP. 4. �ivisão �e Vigilância Epi�emiol�gica, Secretaria �a Saú�e �o �unicípio �e Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP. 5. �isciplina �e Saú�e Pública, Escola �e Enfermagem �e Ribeirão Preto, �niversi�a�e �e São Paulo, Ribeirão Preto, SP. �poio financeiro: Conselho �acional �e �esenvolvimento Científico e Tecnol�gico (C�Pq) – O�T (Proc. # 305553/�006-�). Endereço para correspondência: �r. Osval�o �. Takayanagui. �ept �eurologia/��RP/�SP. �v. Ban�eirantes 3900, 14048-900 Ribeirão Preto, SP. Tel: 5 16 360�-�47� e-mail: otakay@rnp.fmrp.usp.br Recebi�o para publicação em �8/8/�005 �ceito em �3/3/�007

� contaminação �e alimentos constitui um sério problema �e saú�e pública. Segun�o o Centers for �isease Control an� Prevention (C�C)4, entre as principais causas �o aumento �as �oenças transmiti�as por alimentos, está a mu�ança �os hábitos alimentares com a preferência pelos alimentos frescos e in natura4. �entro �as ações �o Programa �e Controle �a Cisticercose �e Ribeirão Preto, SP, a Secretaria �unicipal �a Saú�e implantou a fiscalização �as con�ições higiênico-sanitárias �as hortas1�. O objetivo �este estu�o foi avaliar a contaminação microbiol�gica e parasitol�gica �e hortas pro�utoras �e ver�uras �e Ribeirão Preto, SP, na vigência �a fiscalização.

�o perío�o �e fevereiro �e �0 a setembro �e �001, foram colhi�as, pela Vigilância Sanitária �unicipal, 103 hortaliças e suas respectivas águas �e irrigação provenientes �e 8 hortas pro�utoras �e ver�uras. �estas, 47 hortas já haviam si�o avalia�as em estu�os anteriores e 41 não tinham si�o submeti�as a qualquer análise prévia. �mostras �a água �e irrigação foram recolhi�as em frascos esteriliza�os �e �50m� para a análise microbiol�gica. Para a investigação parasitol�gica, foram coleta�os � litros em frascos limpos. �oi também realiza�a a coleta aleat�ria �e � pés �e ver�uras �e folha �o canteiro, preferencialmente a alface (Lactuca sativa) ou, na sua ausência outra hortaliça folhosa. �s ver�uras foram acon�iciona�as in�ivi�ualmente em sacos plásticos �e primeiro uso, sem contato manual. � análise microbiol�gica �as hortaliças foi fun�amenta�a na �eterminação �o número mais provável (��P/g) �e coliformes a 45°C e na pesquisa �e �almonella spp, �e acor�o com �PH��. � contagem �e coliformes a 45°C foi realiza�a em 67 amostras �e hortaliças. � análise parasitol�gica �a hortaliça foi realiza�a segun�o �arzochi8 com mo�ificações �e acor�o com Takayanagui e cols1�. � água

Takayanagui OM cols

�e lavagem �as hortaliças foi �eixa�a em repouso em cálices cônicos por �4 horas ap�s filtragem em gaze �e 8 �obras. �s águas �e irrigação foram homogeneiza�as e transferi�as para cálices cônicos �e vi�ro, �eixan�o-se se�imentar por no mínimo �4 horas. Os se�imentos obti�os foram analisa�os ao microsc�pio �ptico por exame �ireto e ap�s centrífugo-flutuação em sulfato �e zinco (� = 1.180). �a análise microbiol�gica �a água �e irrigação, foi avalia�o o ��P �e coliformes a 45°C/100m�, �e acor�o com �PH�3. � análise estatística foi basea�a no teste �e �c�emar para amostras correlaciona�as, a�otan�o p ≤0,05 como nível �e significância.

� presença �e coliformes a 45°C, �almonella e/ou parasitas foi �etecta�a em 36 (40,9%) �as 8 hortas pro�utivas. �as 103 águas

�e irrigação analisa�as, 16 (15,5%) estavam em �esacor�o com a legislação em vigor5, sen�o que em 3 (�,9%) �elas foi observa�a a presença simultânea �e parasitas consi�era�os patogênicos para o homem. �entre as 67 hortaliças, nas quais foi realiza�a a pesquisa �e coliformes a 45oC, em �8 (41,8%) os níveis encontravam-se acima �e �0 (��P/g)6. Em apenas uma amostra, foi isola�a �almonella panama. Em 15 (14,6%) �as 103 hortaliças foram

�etecta�os simultaneamente, parasitas consi�era�os patogênicos para o homem (cistos �e Entamoeba spp e �e Giardia spp e ovos �e ancilostomí�eos, �e Ascaris spp e �e Trichuris spp). � presença

�e cistos �e Entamoeba spp e �e ovos �e ancilostomí�eos foi valoriza�a somente em concomitância a uma concentração igual ou superior a �0 (��P/g) �e coliformes a 45°C.

� Tabela 1 apresenta o resulta�o �as análises microbiol�gica e parasitol�gica em 18 (38,3%) �as 47 hortas avalia�as em estu�os

Tabela 1- Distribuição de bactérias e parasitas encontrados em 18 das 47 hortas produtoras de verduras avaliadas anteriormente. Município de Ribeirão Preto, SP.

Ver�ura Água �e irrigação

Tipo �e Exame Exame Exame Exame ver�ura microbiol�gico parasitol�gico microbiol�gico parasitol�gico

Coliformes a 45°C Coliformes a 45°C

Rúcula 336 Ent, �ncy a�equa�o negativo �lface �.860 negativo a�equa�o negativo

�lmeirão 576 Ascaris spp, Ent a�equa�o negativo

�lface 1.760 �ncy, Giardia spp a�equa�o negativo

�lface 1.540 negativo a�equa�o negativo

�lface > 4.080 Ent, Trichuris spp a�equa�o negativo

�lface 43� �ncy, Giardia spp a�equa�o negativo

�lface a�equa�o negative 1.700 negativo

�lface 735 Ent, Giardia spp ≥�.400 Ent, Giardia spp

�lface 736 negativo a�equa�o negativo anteriores. �a Tabela �, estão os resulta�os encontra�os nas 18 (43,9%) �as 41 hortas sem avaliações prévias.

Tabela 2 - Distribuição de bactérias e parasitas encontrados em 18 das 41 hortas produtoras de verduras sem avaliações prévias. Município de Ribeirão Preto, SP.

Ver�ura Água �e irrigação

Tipo �e exame exame exame exame ver�ura microbiol�gico parasitol�gico microbiol�gico parasitol�gico coliformes a 45°C coliformes a 45°C

�lmeirão a�equa�o negativo 1.600 negativo

�lface 79� Giardia spp a�equa�o negativo

�ncy, Ent

�lface 460 Ent 5.400 Ent

�lface 504 negativo a�equa�o negativo

�lface 1.870 negativo 3.500 negativo

Ent �lface 598 negativo a�equa�o negativonegativo

�lface �R Ascaris spp

�almonella panama EntEnt a�equa�o negativo

�grião �R negativo 16.0 negativo

�lface �R negativo 5.400 negativo

�s �oenças transmiti�as por alimentos (�T�s) têm recebi�o atenção ca�a vez maior em to�o o mun�o4. Entretanto, no Brasil são escassos os trabalhos avalian�o a quali�a�e �as ver�uras coleta�as �iretamente �as hortas10 1� e �as respectivas águas �e irrigação10, sen�o que a maioria �os estu�os refere-se às ver�uras obti�as nos pontos �e ven�a7 9 13. �entre as 67 hortas nas quais houve avaliação concomitante �e coliformes a 45°C na água e nas hortaliças, 30 (4,8%) apresentaram níveis acima �o limite tolera�o. �as �1 hortas analisa�as �e acor�o com a legislação em vigor1, 6 (�8,5%) apresentaram na água �e irrigação, níveis �e coliformes a 45°C acima �o limite tolera�o. � presença simultânea �e parasitas foi �etecta�a em 15 (17%) �as 8 hortas avalia�as. Chama a nossa atenção a presença �e Giardia spp em uma amostra �e água �e irrigação, pois os cistos �este protozoário são altamente resistentes às con�ições a�versas �o meio ambiente, po�en�o contaminar a água e os alimentos11 14.

O presente estu�o revelou que 40,9% �o total �as hortas analisa�as estavam em �esacor�o com a legislação, tanto nas hortas previamente avalia�as (38,3%) como nas investiga�as anteriormente (43,9%), configuran�o a não melhora �as con�ições higiênico-sanitárias �as hortas pro�utoras �e ver�uras

no município �e Ribeirão Preto. � existência �o sistema �e fiscalização �as hortas e a presumível conscientização �os pro�utores quanto às con�ições higiênicas não foram capazes �e evitar a eleva�a freqüência �e contaminação bacteriol�gica e parasitol�gica.

Ten�o em vista os resulta�os obti�os neste estu�o, ressaltamos a real importância �a manutenção �e um sistema rigoroso �e vigilância sanitária �as hortas pro�utoras �e ver�uras �o município, visan�o uma melhor con�ição higiênico-sanitária �as hortaliças ofereci�as à população. �pesar �a não constatação �e ovos �e Taenia sp �escrita por �arzochi8, e Oliveira & Germano9, a eleva�a freqüência �e contaminação fecal in�ica o potencial risco �e transmissão �e ovos �a Taenia solium através �o consumo �e ver�uras cruas, po�en�o justificar a alta prevalência �a cisticercose no nosso município.

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