Ondas a procura do mar - PIERRE WEIL

Ondas a procura do mar - PIERRE WEIL

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Ondas à

Procura do

Mar

PIERRE WEIL é psicólogo francês, professor universitário e fundador de diversas associações nacionais e estrangeiras de psicoterapia. Como psicólogo, fez estágios prolongados com mestres hindus e tibetanos; como escritor, é autor de vários “best sellers”, dentre eles O Corpo Fala, Relações Humanas na Família e no Trabalho, Amar e Ser Amado e Revolução Silenciosa. Em Ondas à Procura do Mar o autor busca responder, de forma simples, simbólica e metafórica, perguntas fundamentais de origem existencial e espiritual, do gênero: Quem somos nós? Qual é a natureza do espírito? Qual é a relação do homem com o Todo? O livro é resultado de uma pesquisa bastante valiosa e significativa que contribui de forma ampla para o processo educacional no âmbito da psicologia. É indicado para escolas secundárias, cursos superiores de Filosofia e Psicologia e para todos, adultos e adolescentes, que possam se interessar a respeito do tema. É uma obra que diverte e liberta simultaneamente.

Ondas

Procura do Mar

1987 LIVRARIA AGIR EDITORA

Uma Estória para os que querem entender melhor o que fazem neste Mundo...

I. A BRISA E eis como costuma começar a estória

Ondina e a metamorfose das ondas Das amizades de Ondina Ondina aprende a ciência e religião dos ondinos A conferência de Agadoisó e as entrevistas de Pena de Ganso Amores de Brilhantina e Conta-Gotas A loucura de Lunático e Onda Louca Ondina se apaixona por Semáforo Ondina na Gruta de Manitu

As gotas de ouro aumentam a tensão interondina A peregrinação de Brilhantina Manitu começa a revelar o grande mistério Os Ondinos vão à guerra O Retiro do Penhasco

A Batalha da Grande Ilusão O Grande Retorno EPÍLOGO

Era uma vez... aliás sempre houve e sempre haverá uma extensão incomensurável, um espaço azul, luminoso, brilhante, de uma beleza indescritível.

Ele está lá, com toda sua serenidade. Uma paz infinita o inunda e o impregna. É o Grande Oceano, o Grande Todo, este grande Ser sem forma, que forma as ondas de sua felicidade, verdadeiras ondas de luz. Esta plenitude, ele a vive constantemente graças ao grande arrepio de alegria que o percorre a intervalos regulares.

Trata-se, sem nenhuma dúvida, do maior balé do mundo: O BALÉ DO

GRANDE ARREPIO DE ALEGRIA. Este grande espetáculo que ele mesmo se oferece a partir dele mesmo é simplesmente a expressão do imenso amor que o acaricia. Como Narciso, ele se ama, contemplando seu próprio reflexo em suas próprias águas.

Ele mesmo não tem história; cada grande arrepio tem uma. É sempre a mesma! E não me pergunte por quê! O Grande Oceano não tem “porquês”. Ele é mesmo a única resposta sem “pergunta”. Os “porquês” e suas “respostas” são apanágio do grande arrepio de alegria e das estranhas personagens encarnadas nas suas ondas; cada uma tem também sua história; como aquela de Ondina, de Grande Orelha, de Pena de Ganso, de Manitu, Respinguinha e ainda de muitos outros. Que eles me desculpem de não os citar todos aqui, mas eles são realmente muito numerosos.

Você quer saber mais? Você quer saber por que e como as ondas dançam um balé e se transformam em verdadeiras personagens como você e eu?

Pois bem...! Aqui está a história do BALÉ DO GRANDE ARREPIO DE ALEGRIA.

beleza indescritível

Ela começa sempre assim, a estória do Grande Arrepio de Alegria: Era uma vez uma extensão incomensurável, um espaço azul, luminoso, brilhante, de uma

E eis que a brisa do Amor do Grande Oceano se levanta. O silêncio absoluto que reinava até o presente, transforma-se em um grande som primordial, em um murmúrio tão doce como a canção de ninar de uma mãe que dança uma valsa lenta com o pai de seu bebê.

muitas vezes

O Balé do Grande Arrepio de Alegria acaba de nascer. Um nascimento sem violência, até mesmo um nascimento sem grito; pelo contrário, um sorriso discreto banha toda a atmosfera: aliás se trata de um renascimento, pois esse balé se repete

Docemente, estas ondas aparecem por toda parte; simultaneamente, em todo o horizonte, elas dançam o Balé do Grande Oceano.

Na realidade, é este Grande Todo que começa a arrepiar de alegria no recôndito de seu ser; cada uma de suas ondas é feita de verdadeira felicidade. Elas dançam em perfeita harmonia. Elas seguem, espontaneamente, uma lei que garante e sustenta essa harmonia.

Sem esta regra fundamental o balé se perde, seu ritmo inebriante se desfaz e o Grande Arrepio de Alegria desaparece. Esta lei de harmonia do Grande Todo é de tal maneira importante nesta história que eu me apresso a explicá-la.

Ela é tão simples, esta lei. Graças a ela, o Grande Oceano tem o poder milagroso de conservar cada uma de suas ondas, o tempo necessário para manter o Balé.

Eis portanto a Lei: Nenhuma onda pode aproximar-se muito, nem afastar-se demais da outra. Para a boa execução dessa Lei ele instituiu duas forças magnéticas opostas uma à outra. A primeira, positiva, faz com que as ondas sejam atraídas fortemente uma em direção à outra; a outra força magnética intervém cada vez que uma onda se aproxima demais da outra; ela as faz afastarem-se. Eu dou a vocês aqui o funcionamento geral: como toda Lei, ela tem algumas exceções em certas situações; por exemplo, no caso de duas ondas que se amam e querem ter um bebê, ou quando as ondas fazem a guerra das ondas. Mas não nos antecipemos!

Eu lhes dou estes dois exemplos para mostrar-lhes como vai ser importante essa Lei.

A energia do Grande Todo se manifesta, pois, desta forma no começo de cada Balé. No mais, tem também a força da brisa que garante o movimento de todas as ondas e dirige as grandes etapas da história do Grande Arrepio de Alegria.

arrepio, decidirá de pensar separadamente em cada ondae é aí que as coisas vão

Estamos aqui na fase da brisa que corresponde à primeira infância do Balé. Nesta época as ondas não sabem que são ondas. Elas não sabem absolutamente nada de nada porque não pensam ainda; não têm nenhum pensamento. Elas são ainda o Grande Oceano e nada mais; mas um dia vão esquecê-lo, ou melhor, o Grande Oceano, para aumentar sua alegria pelo seu se complicar!

Mas isto é o futuro. Pelo momento, o Grande Oceano desfruta da primeira etapa de seu plano de Balé! Pensa no plano e usufrui dele ao mesmo tempo.

Cada uma de suas ondas não é mais do que a expressão de seu grande arrepio de êxtase. Sim! O Grande Todo está em êxtase. Como é bom, como é doce, que maravilhoso para ele!

A cada momento ele é diferente pelas suas ondas que o mudam e o transformam. E no entanto, a todo instante, ele é o mesmo pela cor azul de sua brilhante luminosidade que traduz sua onipotência. Em cada onda está o mesmo pensamento; esse seu pensamento reproduzido milhões de vezes, como a lua que aparece em muitos copos d'água, ou o mesmo programa de TV em inumeráveis aparelhos receptores.

Só o vento poderia começar esta transformação, esta metamorfose das ondas.

Você se lembra disto: sob a brisa o Grande Oceano estava presente em cada onda; pode-se mesmo dizer que ele era cada uma delas. Agora as coisas vão mudar. Para se amar mais e falar com ele mesmo, seu vento aumenta a altura de suas ondas.

Elas podem agora se ver uma às outras; com a condição, contudo, de ter a visão para isto. Para este efeito, o Grande Todo decide dar-lhes sua capacidade de sentir, de tocar, de ouvir, de saborear e de ver. Isto faz parte de seu plano que cada onda seja dotada, separadamente, de todas suas sensações.

Ela ouve agora o canto bem característico do vento que dita a cadência do

Balé; a canção de ninar da brisa tomou o ritmo de uma valsa cadenciada. Quando uma passa ao lado da outra e a roça, elas percebem o som de um ligeiro “frufru”, ao mesmo tempo que sentem um toque muito leve.

Cada onda começa a perceber a sombra das outras que passam; muito vagamente a princípio, como um bebê percebe pela primeira vez o seio de sua mãe.

à moda das vagas, quer dizer, “vagamente”

No final das contas, as ondas que começam a ver não podem fazê-lo senão

Bem ! Voltemos ao sério e sigamos de mais perto Ondina e as mudanças que se operam nela. Ondina é uma das ondas. Ondina dança de acordo com o ritmo do vento e de seu canto; ela toma parte desse canto. graças ao frufru do qual acabamos de falar. Cada frufru quer dizer ao mesmo tempo: “Eu te amo, eu quero sua felicidade”; é como se Ondina e todas as outras ondas exteriorizassem os profundos sentimentos que animam o Grande Oceano.

Mas, pouco a pouco quando o frufru de Ondina diz “eu te amo”, é a uma outra onda que ela fala; não é mais o Oceano que se fala a si mesmo; ela não sabe mais que ela é o Grande Oceano; este, ao contrário, continua a saber que Ondina é também ele mesmo. Esta é uma operação mágica, uma espécie de ilusão de ótica; embora Ondina pense que ela é ela mesma, o Grande Oceano continua a saber que Ondina não é senão ele mesmo numa onda que se apercebeu que é diferente das outras. É um pouco como quando estamos no cinema e que nos esquecemos quem nós somos no momento em que o bandido rapta a criancinha e que ao mesmo tempo sabemos que estamos no cinema; à saída temos a impressão de haver sonhado.

Em Ondina, o Grande Oceano vive uma espécie de sonho. E esse sonho torna-se cada vez mais intenso à medida que as sensações de Ondina e de todas as ondas se fazem mais precisas. É um período ainda muito obscuro para Ondina; ela não sabe mais que ela é o Grande Oceano, mas não sabe ainda quem é!

É apenas à medida que reencontra as outras ondas que seus sentimentos se desenvolvem. Por exemplo, a cada ruído ou frufru de contato, se associa a sensação da onda que segue ao lado de Ondina. Com isto, pouco a pouco, a audição dos sons e a vista das formas se aguçam. Os frufrus coincidem por toda parte, sempre com o contato da onda que passa ao seu lado, se se pode exprimir assim para designar a base de seu corpo.

Ondina vê, ouve, toca e cheira um certo odor marinho. O olfato de Ondina se refina, sem contar sua aptidão em distinguir o gosto de outras ondas, proveniente de gotícolas que salpicam em sua boca, porque agora ela tem uma boca bem sua; é um sabor iodado e salgado, bem específico.

Ondina começa também a distinguir seu corpo dos outros corpos das ondas, graças ao seu movimento de dança que contribui para criar a idéia de separação, idéia de que ela é uma onda separada das outras ondas.

E eis que já muitas vezes, quando seu corpo toma um determinado ângulo, ela vê o reflexo de sua forma e movimento na água.

Sim! Decididamente Ondina sente que ela é alguma coisa separada das outras. Alguma coisa ou alguém? E então que, pouco a pouco, ela se põe a comparar as diferentes sensações entre elas, das ondas que passam com o reflexo de seu próprio corpo que agora ela já tem o hábito de reconhecer. Ela compara suas percepções entre elas; mede com os olhos e eis que começa a pensar; a princípio com as imagens, estas espécies de fotos que lhe passam pelo espírito. E depois, vêm os nomes; já várias vezes ouviu seu nome pronunciado por outras ondas mais velhas do que ela e que decidiram chamá-la assim: Ondina. Isto soa bem em sua orelha, pois ela tem uma, ou melhor ainda, duas; estas ondas mais velhas provêm de outros arrepios de alegria, de outros lugares do Grande Oceano, o que faz com que a linguagem das ondas se perpetue de arrepio em arrepio.

Não somente a linguagem, mas também a ciência, a história, a geografia e a literatura, são também conservadas assim e transmitidas de geração em geração e muitas outras coisas ainda que Ondina vai descobrir pouco a pouco à medida que ela vai dançar o Balé do Grande Arrepio de Alegria.

Quanto mais Ondina pensava nas semelhanças e diferenças das ondas que ela reencontrava em seu caminho, mais ela queria saber; uma curiosidade insaciável se apossou dela. Ela queria aprender tudo daqueles que sabiam mais do que ela; e era isto que faltava. De dia, tagarelava com as outras ondas, dançando com elas;, à noite continuava a dançar, mas sem falar; ela nem mesmo pensava durante a noite; foi bem mais tarde que compreendeu por que, o que foi uma surpresa para ela e para todos aqueles que aprenderam certos segredos da vida das ondas com Manitu; é uma surpresa que reservamos para você também, você que nos acompanha neste Grande Balé.

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