Recuperação de Matas Ciliares

Recuperação de Matas Ciliares

(Parte 1 de 3)

Este livro é um convite especial. Foi produzido para os agricultores e para todos que percebem que a vida da gente está entrelaçada com a vida das florestas, dos animais, da terra e dos rios.

Quando a gente vê um rio sujo, assoreado, cheio de lixo, cheirando mal, ou uma floresta queimada, com muitos bichos mortos e a erosão acabando com tudo, dá vontade de fazer alguma coisa para proteger a natureza, assim como, quando uma lavoura fica atacada por pragas ou um rebanho doente, a gente toma rápidas providências para não perder tudo.

É possível e devemos tomar uma atitude. Muitos que começaram a recuperar as matas destruídas, satisfeitos contam para os filhos, amigos e vizinhos. Alegram-se em observar as mudas se desenvolvendo, o rápido crescimento do Guapuruvu e da Embaúba, os primeiros a atingir o alto. Encantam-se com a linda floração dos Ipês e das Paineiras, com a Sangra D’ Água que não cansa de fazer carinho no riacho, com a semente bonita do Olho-de-Cabra. Os pássaros cantam agradecidos e os peixes podem nadar em águas fresquinhas. Estes agricultores ficam, acima de tudo, satisfeitos em ter em suas propriedades água limpa, solo conservado, biodiversidade preservada, agropecuária bastante produtiva e ambiente sadio, pois souberam produzir sem degradar. Até um Lobo Guará eu vi na minha microbacia, próximo às áreas de mata ciliar restaurada. Eu posso garantir: o coração da gente fica feliz!

Cláudia Mira Attanasio

Engenheira Agrônoma – C.A. Mineiros do Tietê

Vamos recuperar as matas ciliares de nossa microbacia?

Uma propriedade rural faz parte de uma paisagem onde estão as outras propriedades, rios, morros, florestas, estradas, culturas, etc. O que acontece nesta paisagem, com a terra, o rio, a floresta, etc, vai afetar os produtores rurais, suas famílias, seus sítios e fazendas. Por sua vez também, o que ocorre em uma propriedade rural afeta os outros sítios e fazendas desta paisagem. Essa paisagem é a microbacia.

Uma bacia hidrográfica corresponde á área drenada por um rio. Um exemplo é o Rio Tietê e seus afluentes. Já a microbacia é uma bacia menor, também drenada por ribeirões, riachos, córregos e seus tributários.

Na área da microbacia, toda a água da chuva que cai na superfície da terra e sobre os espigões escorre para o mesmo curso d’ água. É isso que faz com que tudo na microbacia esteja interligado e seja interdependente: a água, o solo, as florestas, a agricultura e as pessoas que moram e trabalham lá. (DESENHO MOSTRANDO UMA MICROBACIA)

Se um produtor rural tratar mal o solo, arar morro abaixo, cortar a mata ciliar de seu sítio ou lavar a bomba de agrotóxico no ribeirão, os outros agricultores da microbacia sofrerão as conseqüências desses atos irresponsáveis.

Falta de práticas de conservação de solo: erosão A conseqüência é o rio assoreado e falta de água

A água da chuva é o elemento unificador. Durante as chuvas, ao cair na terra ela pode se infiltrar ou escorrer pela superfície do solo antes de chegar aos rios. Se ao cair, atingir um solo bem manejado, sem compactação, com boa cobertura das culturas agrícolas ou das matas ciliares, a água irá se infiltrar e chegar ao lençol freático. Poderá ficar então armazenada para quando chover pouco, indo de mansinho pelo subsolo alcançar o rio. Se não houver um bom manejo do solo e das lavouras, se a terra estiver compactada com pouca cobertura vegetal e, para piorar, a mata ciliar não estiver presente para proteger os rios, a água vai escorrer pela superfície do solo causando erosão e levando agrotóxicos, adubos e terra para dentro de nossos rios.

Enxurrada

Erosão, assoreamento, poluição do rio e falta de água

Enxurrada

Erosão, assoreamento, poluição do rio e falta de água

Portanto, é a água dos rios que nos mostra a SAÚDE da nossa microbacia, como um exame de sangue. Se a água estiver escura e com mau cheiro, contendo sedimentos e poluição, então será necessário mudar o jeito de pensar e trabalhar e tomar rápidas providências para salvarmos tudo aquilo que dá aos produtores rurais a possibilidade de produzir, obter renda e ter uma boa qualidade de vida: os recursos naturais.

Infiltração e armazenamento da água da chuva, preservação do rio, conservação do solo, melhor produtividade da lavoura e qualidade de vida do agricultor

Infiltração e armazenamento da água da chuva, preservação do rio, conservação do solo, melhor produtividade da lavoura e

Água do rio mostrando o manejo ruim de sítios e fazendas da microbacia: sem conservação do solo, sem mata ciliar, erosão nas encostas dos morros e no barranco do rio.

É por isso que o Projeto de Recuperação de Matas Ciliares desenvolvido pela Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo e que o Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas implementado pela Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – CATI, têm a microbacia como unidade de planejamento e intervenção, pois nela acontece uma interação muito grande dos recursos naturais (água, solo, floresta e animais) entre si e com os produtores rurais.

A SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO e a

CATI, através do PROJETO DE RECUPERAÇÃO DE MATAS CILIARES e do PROGRAMA DE MICROBACIAS, estimulam e apóiam os agricultores e suas famílias a adotarem práticas de conservação do solo e da água, e de preservação e restauração das matas ciliares, sempre de maneira integrada e participativa.

Mata ciliar na microbacia

As matas ciliares têm um papel muito importante nisso tudo, pois estão localizadas numa área vital da microbacia. Elas recebem esse nome por terem uma função semelhante a dos nossos cílios: a de proteção.

Funcionam como um filtro, protegendo os rios e as nascentes da contaminação por agrotóxicos e por adubos químicos e do assoreamento por sedimentos que possam vir das áreas agrícolas que ficam no entorno dos cursos d’água.

Sem as matas ciliares, ou se elas estiverem degradadas, queimadas, ralas, os rios ficam assoreados e poluídos. Por isso, embora as terras localizadas nas beiras dos rios costumam ser muito boas para se cultivar, não se deve comprometer a qualidade e a quantidade da água na nossa microbacia, que é a base de nossas vidas, da produtividade de nossas culturas e garantia de sobrevivência das próximas gerações.

Além de tudo isso, ela é importante para preservação da biodiversidade, a diversidade de plantas e animais. Ela fornece alimentos para os peixes e deixa a água do rio fresquinha, impedindo que se aqueça demais. Os galhos e troncos que caem da floresta formam refúgio para os peixes. A mata ciliar é abrigo para os animais, que dos seus frutos também se alimentam.

Elas também protegem as barrancas dos rios, impedindo a erosão e o seu desbarrancamento.

Mas as matas ciliares só poderão cumprir sua função se todos os produtores da microbacia entenderem sua importância e, juntos, se empenharem em conservá-las e recuperá-las.

Mata ciliar protegendo as águas dos rios da microbacia

As matas ciliares estão localizadas em Áreas de Preservação Permanente

(APP), e são protegidas por lei por serem muito importantes para toda a comunidade. A lei brasileira determina que em nascentes as matas ciliares devem ocupar um raio de 50 metros. Ao longo dos cursos d’água (rios, ribeirões, riachos, córregos), a área a ser considerada de preservação permanente vai depender de sua largura. Rios de até 10 metros de largura, que normalmente ocorrem nas microbacias, necessitam de 30m de mata ciliar em cada margem. Já os grandes rios, com 600m de largura, por exemplo, precisam de 500m em cada margem, aí já não é o caso das microbacias, mas das bacias dos rios maiores. (DESENHO MOSTRANDO AS MEDIDAS NAS MARGENS DO RIO NA MICROBACIA)

Quando pensamos em plantar matas ciliares, temos que saber como elas eram antes de serem destruídas. Claro que não será possível refazermos a floresta exatamente como ela era, mas somos capazes de garantir a volta dos processos e das interações que fazem as florestas se formarem, se autoperpetuarem e cumprirem sua função. Na verdade o que devemos fazer é recuperar a sua estrutura e a capacidade de perpetuação de seu funcionamento no tempo, isto é, restaurar a floresta.

A melhor solução para isso é copiar a natureza. A natureza foi selecionando as árvores que são capazes de viver em cada lugar, assim numa terra brejosa, crescem alguns tipos de árvore, já num barranco alto, em solo mais seco, crescem outras, em terras pedregosas, outras. Portanto, na hora de recuperar a mata ciliar, o melhor é aprender com a Natureza, e plantar aquelas plantas que a natureza pacientemente preparou para viver em cada uma destas condições.

Não vale, portanto, plantarmos muitas árvores sem sabermos se elas são adaptadas ás condições de clima, solo e umidade do local, pois elas podem não sobreviver. (SAI: quantidades erradas)

Para sabermos quais as espécies nativas da região, devemos observar os fragmentos de mata que ainda não foram destruídos ou nos basear em depoimentos dos moradores mais antigos da microbacia.

Em uma microbacia podemos encontrar diferentes tipos de florestas. É muito importante conseguirmos diferenciá-las para que possamos identificar que espécies de ocorrem em cada uma delas para sabermos quais usar, nas mais diversas situações, nos nossos projetos de restauração florestal das matas ciliares. Esses tipos de floresta podem ser:

• Florestas de Planalto (Semidecidual)

São as florestas que, originalmente, recobriam a maior parte do interior do Estado de São Paulo. São formadas por muitas espécies diferentes, ocorrendo em diversos tipos de solo, em geral mais secos. Encontram-se longe de cursos dágua ou beirando rios que têm barrancos muito altos onde não existe a possibilidade de ocorrer encharcamento. São florestas de árvores altas, de 20 a 25m, onde aparecem com maior freqüência as madeiras de lei, como Cedro, Paumarfim, Pau d’ alho, Cabreúva, Guarantã, Aroeira, Peroba, as Canelas, e os Jequitibás que podem alcançar até 30m de altura. Nessas florestas, sombrias e fechadas, muitas espécies, como o próprio Jequitibá, por exemplo, perdem as folhas nas épocas mais secas do ano, enquanto grande parte das árvores mantém as suas folhas verdinhas o ano todo.

Floresta de planalto (estacional Semidecidual)

Ocorrem em áreas onde a água flui em pequenos canais no solo deixando-o sempre em condições de encharcamento. Apresentam menor número de espécies, árvores e arbustos que variam de 1 a 16 metros de altura e que só ocorrem nesse tipo de floresta. O Marinheiro, a Pinha-do-Brejo, a Sangra D’ Água, o Guanandi, o Cedro-do-Brejo, a Capororoca são árvores típicas dessas florestas encharcadas.

Mata de brejo

• Cerradão

São florestas localizadas em solos rasos que podem apresentar altos teores de elementos tóxicos, como o alumínio, e que têm menor disponibilidade de água. São formadas de árvores não muito altas, de 10 a 16m de altura e de copas pequenas, muito delas perdendo as folhas nas épocas mais secas do ano. Ao contrário de outras florestas, o Cerradão tem o seu interior bastante iluminado. Sua aparência não é igual a do cerrado típico, que tem árvores bem menores, em geral, retorcidas e mais ou menos espaçadas não chegando a formar uma floresta. As espécies principais desse tipo de floresta são: o Angico Vermelho, o Jatobá, a Paineira, os Ipês, o Açoita Cavalo, o Faveiro, a Lixeira, a Unha de Vaca, a Farinha Seca, etc. Já as espécies que ocorrem em florestas típicas de Cerrado, são: Barbatimão, Pequi, Sucupira Preta, Araticum, Capitão do Campo, etc.

Cerradão

• Florestas Secas (Decídua)

Floresta seca ocorre em topos de morro, solos pedregosos, e muito rasos que não armazenam muita água e assim secam, no período da estiagem.

São as florestas onde quase todas as plantas perdem as folhas na época seca do ano. Isso faz com que ocorra alta luminosidade no seu interior, tornando o ambiente mais árido.

Por tudo isso, apresentam um número menor de espécies de árvores, sendo algumas delas a Aroeira-vermelha, o Capitão, os Ipês, o Jequitibá-branco.

Floresta Seca (decídua)

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