Para entender a Internet

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1 Noções, práticas e desafios da comunicação em rede

Para entender a Internet

Para Entender a Internet - Noções, práticas e desafios da comunicação em rede

Organizador: Juliano Spyer @jasper Ano de publicação: 2009 Capa: Pedro A. Borges (w.pedroatwork.com) @pedroaborges Diagramação e projeto gráfico: Josiane Camacho @josianecl

Esta obra é licenciada por uma licença CREATIVE COMMONS Atribuição - Uso não-comercial - Compartilhamento pela mesma licença 2.5

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Licença Creative Commons

Noções, práticas e desafios da comunicação em rede

Caro leitor,

Este é um livro diferente, um livro aberto, que convida você a participar dele por este endereço:

http://paraentenderainternet.blogspot.com

Você pode interferir neste projeto de três maneiras:

- comentando: o objetivo de ele estar na internet é dar a possibilidade para pessoas interessadas nos assuntos dos artigos trocarem idéias entre si e também com os autores. O resultado dessa conversa poderá ser aproveitado para enriquecer o artigo.

- divulgando: o conteúdo integral deste livro está registrado com uma licença Creative Commons que autoriza quem quiser a copiar e distribuir este material, contanto que ele não seja usado com fins comerciais.

- remixando: você pode usar os artigos deste livro para criar produtos derivados como, por exemplo, uma apresentação ou um vídeo caseiro, sem se esquecer de dar crédito aos autores e de disponibilizar a obra com a mesma licença, para que outras pessoas possam continuar tirando proveito do conhecimento.

E mais: junto com o nome dos autores você também vai encontrar o nome de usuário de cada um no Twitter *. Se você gostar de um texto, pode passar a acompanhar o autor online e interagir com ele.

* Se você não sabe o que é Twitter, pule para a página 45 para ler sobre Micro-blogging.

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Sumário

Apresentação

Noções beta _ José Mauro Kazi capital social / whuffie _ Cris Dias cauda longa _ Marcelo Coutinho co-working _ Pablo Handl cultura do remix _ Alexandre Matias cyberpunk _ Fábio Fernandes ética hacker _ Dalton Martins interatividade _ Alex Primo metodologias ágeis _ Manoel Lemos rede social _ Raquel Recuero viral _ Rafael Ziggy web 2.0 _ Juliano Spyer

Práticas blog _ Edney Souza bridge-blogger _ Daniel Duende comunidades de prática _ Bárbara Dieu consumer-to-consumer (C2C) _ Wagner Tamanaha creative commons _ Ronaldo Lemos fotografia digital _ Renato Targa jogos eletrônicos _ Carlos Estigarribia jornalismo colaborativo _ Ana Brambilla micro-blogging _ Fábio Seixas mobile _ Luli Radfahrer open Space / barcamp_ Luiz Algarra peer-to-peer (P2P) _ André Passamani podcast _ Diego Franco propaganda online _ Carlos Merigo wiki _ Alexandre Hannud Abdo

Noções, práticas e desafios da comunicação em rede

Desafios brecha digital / exclusão digital _ Rodrigo Savazoni cyberbullying _ Rosana Hermann ecologia digital _ José Murilo Junior lei azeredo _ Fernando Gouveia lei eleitoral e internet _ Soninha Francine lixo eletrônico _ Felipe Fonseca pirataria _ Sérgio Amadeu privacidade _ Alessandro Barbosa Lima spam _ Marcelo Vitorino voluntariado em rede _ Bruno Ayres e Marianna Taborda

Considerações finais
Leitura recomendada
Autores

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Apresentação

Para entender este livro

D. Maria

Conhecimento é que nem esterco, se não espalhar, não presta.

Há doze anos participo desta indústria e, de dentro, acompanho as pessoas que estão pensando a Web, introduzindo tendências e ajudando a cultura da comunicação em rede se enraizar no Brasil. Todos os ativistas, profissionas e acadêmicos convidados a participar deste livro têm esse perfil. Eles compartilham a visão de que uma mudança sem volta está acontecendo na sociedade por causa da internet e cada um escreveu sobre isso a partir de um tema com o qual tem - mais do que entendimento - intimidade.

Você perceberá lendo que, apesar de ter sido produzido pensando no leitor com pouca ou nenhuma familiaridade com a Web, os textos vão além das simplificações e dos modismos para, ao mesmo tempo, ensinar e provocar. Mais que artigos informativos, os textos incluem vivências, dúvidas e opiniões de quem está na linha de frente, descobrindo para que serve a internet. O que você encontrará a seguir é, portanto, bem diferente de uma coleção de verbetes enciclopédicos, a começar pelo tom informal e convidativo, livre de jargões ou academicismos, com que cada um deles foi escrito.

Outra característica que diferencia este trabalho é o fato dele ter ficado pronto em um mês - do momento em que os primeiros autores receberam a encomenda até ele ser disponibilizado no blog. Na verdade, mais da metade dos textos já tinham sido entregues no prazo de uma semana e o livro não ficou pronto antes porque, vendo o potencial do conteúdo, investi um pouco mais de tempo para convidar outros colaboradores e ter um produto melhor.

O leitor deverá levar em conta que o esforço de realização foi voluntário e considerar que serviços comuns mas dispendiosos como o de revisão pormenorizada dos textos elevariam o custo de coordenação, inviabilizando o trabalho. Assim como a Wikipedia, este livro pretende ser uma obra em movimento - em “beta”, no jargão tecnológico -, um motivo para pessoas conversarem e aprenderem umas com as outras, o que também inclui participar do trabalho de correção.

Juliano Spyer, organizador w.naozero.com.br

Noções, práticas e desafios da comunicação em rede Noções

Para entender a Internet Beta

Quando, nos idos de pouco tempo atrás — um período que terminou com o surgimento do Netscape —, o termo “beta” ainda se referia apenas ao estado de um software que não estava pronto para “entrar em produção”, ou seja, “ir pro ar” ou ainda, ser vendido ao público, a imprensa percebeu que os lançamentos “em beta” estavam proliferando e demorando mais tempo para serem substituídos pelo release “estável”. Então já era tarde demais.

O software em beta, originalmente, estava nos últimos estágios de debugging (correção de erros de programação), quase pronto, com todos os bugs mais críticos resolvidos. Mas não todos. Nesse estágio, algumas cópias eram enviadas para colaboradores, chamados de beta-testers, que usavam o software para valer, reportando os problemas que iam encontrando. O sonho de vários dos meus amigos era ser beta-tester de games.

Em algum momento, certas empresas começaram a colocar seus produtos em beta stage disponíveis para o público em geral, pedindo, em troca, que os usuários reportassem os bugs. Há quem diga que isso aconteceu para não ser preciso pagar pelo trabalho dos beta-testers (uma vez que não se cobrava pelo release). Há quem diga que aconteceu na esteira do modelo de desenvolvimento do Linux (“Release early, release often”, disse Eric Raymond, e completou: “and listen to your customers.” Em tradução livre: “Lance rapidamente, lance freqüentemente; e ouça seus usuários.”). Essa semi-filosofia, aplicada no contexto de desenvolvimento colaborativo, funcionava bem e, com a crescente inclusão digital e possibilidade de participação propiciada por um ambiente desenvolvido para ser aberto, empresas como a Netscape adotaram parcialmente a idéia.

A evolução do software ou serviço em beta tomou proporções digamos, populares, quando o Google colocou “beta” ao lado de seus produtos mais populares.

Hoje, para muitos, o “beta” está ali, em vários serviços e softwares, para dizer outra coisa: que o serviço está em constante desenvolvimento e em constante melhoria, seguindo a frase de Eric Steve Raymond (e a filosofia open source), ouvindo seus usuários para manter o serviço sempre renovado e “inovado”, para incluir a comunidade no desenvolvimento, devolvendo o favor com a utilização gratuita do que esta ajudou a construir.

Para outros, é apenas uma jogada de marketing para que as empresas não precisem dar suporte total para seus serviços e contem com uma legião de beta-testers

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(e trend watchers) trabalhando gratuitamente enquanto ganham dinheiro indiretamente, cada um no seu modelo, inclusive o BP dos Gnomos.

Se me perguntam, essa história toda de Beta não é bobagem apenas porque leva ao público mais amplo, elegantemente, algumas das melhores contribuições que o povo do software livre trouxe ao mundo.

Em definições por aí, o Beta é fruto da web 2.0 — o que quer que eles queiram dizer com “web 2.0”. Ou, mais provável, a web 2.0 é fruto da filosofia beta. Filosofia de cozinha por filosofia de cozinha, a vida não esteve sempre em beta?

José Mauro Kazi @jmmkazi

Para entender a Internet Capital Social / Whuffie

Penúltimo dia da Campus Party e aqui estou vestindo uma camisa escrito “Free Rick”, com uma caricatura do cantor rei dos ternos com ombreira dos anos 80, Rick Astley. Eu não paguei pela camisa, ganhei porque alguém acha que eu tenho muito whuffie. Você quer uma camisa? Também não precisa pagar. O pessoal que bolou os desenhos estampa sua camiseta de graça em troca de você sair por aí com ela. O que ela ganha? Whuffie.

interativos, banda larga, webcams, microfonesTudo isso somado, mais o cada vez maior

Pense como a web 2.0 não tem, tecnologicamente, nada revolucionário. Sites número de usuários de internet fez surgir uma coisa que precisava de um nome: Web 2.0. Já o Whuffie é outra coisa que não é necessariamente nova mas ficou tão comum que precisava de um nome. Alguém sugeriu “capital social”, mas vamos concordar que whuffie é muito mais sexy.

O termo foi cunhado pelo escritor canadense Cory Doctorow no seu livro de ficção-científica “Down and Out in the Magic Kingdom”, de 2003. Ele conta como num futuro próximo a tecnologia do nosso mundo avançou tanto que duas coisas centrais na nossa sociedade deixaram de existir: a escassez e a morte. Por mais que lhe maltratem você nunca vai morrer. Por menos que você se esforce você sempre terá casa, comida e roupa lavada. O dinheiro, que é a manifestação física da economia de escassez, perde o sentido num mundo onde todo mundo pode ter tudo. Num mundo sem dinheiro, um mundo onde todo mundo pode ter tudo, o que as pessoas desejam? Aquilo que o dinheiro não compra. É claro que Doctorow não estava sonhando com um futuro distante. Ele estava falando do presente, exagerando na lente como os escritores de ficção-científica adoram fazer. Não vivemos hoje na Bitchun Society, o nome póscapitalista dado para a nova maneira de viver, mas já fazemos muita coisa parecida. (O livro está disponível gratuitamente para download, o que ajudou a divulgar todo o seu trabalho e o transformou em um dos blogueiros mais influentes do mundo).

Um termo que empresários e economistas adoram repetir é “comoditização”.

Vivemos num mundo comoditizado, onde abrir uma estamparia de camisetas é tão barato que é melhor pensar em outro negócio ou um chinês com uma tela de silk-screen no quintal de casa vai lhe colocar para fora do mercado. No mundo comoditizado ou você cria algo realmente exclusivo e desejado, como um iPod, ou simplesmente dá seu produto de graça. Só que no mundo do whuffie você não vai simplesmente dar camisetas de graça, você vai trocar por whuffie. A comoditização do mundo está derrubando na marra a idéia de que escassez gera capital, simplesmente porque é cada vez mais difícil criar escassez. Lembra do chinês? Veio a tal web 2.0 (que, lembre-se,

Noções, práticas e desafios da comunicação em rede é só um rótulo para facilitar a vida de gente escrevendo textos como esse) e o ditado do “informação é poder” foi derrubado. Quando eu cresci este era o lema do mundo, papai ensinava: “consiga o máximo de informação, guarde para você e use a seu favor”. Acho que o pai de alguém na geração seguinte esqueceu de contar isso e em algum ponto a informação começou a circular numa velocidade enorme, invertendo a lógica. Caiu “você é o que você tem” e entrou no lugar o “você é o que você compartilha”.

feedback, vai ser reconhecido, vai ser chamado para participar de eventosvai tornar a

Em um mundo sem escassez a economia passa a ser a da gift economy, dos presentes, do dar-e-receber que atinge uma escala tão grande que deixa de ser mera troca de favores. Um fazendeiro que planta laranjas no Brasil torce para que um furacão destrua os laranjais da Flórida. Quanto menos laranjas no mundo mais dinheiro no bolso para quem tem a fruta. A gift economy é a economia do “abraço grátis”, aqueles malucos com cartazes no meio da rua abraçando quem se candidatar. Quanto mais abraços eu der, assim de graça mesmo, mais felicidade eu e a pessoa abraçada ganhamos. E não precisa ser só abraço. Pense em uma comunidade de fotos, como o Flickr: um fã de fotografia já adora tirar fotos. Ele tira milhares de fotos por ano. Se ele mandar estas fotos para o site, vai receber rede mais forte, vai favorecer pessoas que ele provavelmente nunca vai conhecer para ser “pago de volta” (pelo menos diretamente). Já a foto não compartilhada, guardada na “gaveta” não geraria valor nenhum nem para ele nem para ninguém, porque não há escassez de fotos para deixá-la mais cara quando um furacão destruir todos os fotógrafos de Cuba.

mais whuffie recebem destaque, são convidadas para eventos, são citadas em artigos

É claro que a economia do whuffie não é perfeita. Ela ainda é usada por seres humanos com suas falhas e problemas. Nela, por exemplo, continua valendo a máxima de que “dinheiro chama dinheiro”. Whuffie chama whuffie. Pessoas com chamando para si e para seu trabalho a atenção de outras e, com isso, ganhando mais whuffie. A diferença é que o conceito de “celebridade” se fragmenta e deixa de ser uma coisa exclusiva de astros globais e estrelas do esporte para se espalhar pelas comunidades e turminhas, diminuindo a distância entre as pessoas e fazendo com que elas percebam que, no fim das contas, somos todos pessoas comuns.

Cris Dias @crisdias

Para entender a Internet

É o cachorro que abana a cauda ou a cauda que abana o cachorro? A piada antiga serve para ilustrar um fenômeno moderno: as transformações no mercado de alguns bens e serviços, possibilitadas pelo avanço da tecnologia digital a partir dos anos 90.

O conceito foi enunciado pela primeira vez um artigo da revista Wired, em 2004, e depois transformado em livro por Chris Anderson, ex-editor chefe da revista. A idéia básica de Anderson é a de que os mercados de massa, uma manifestação da economia industrial que começou a se consolidar a partir da metade do século XIX, dependem da produção de modelos que serão reproduzidos em larga escala para gerar lucro.

Durante os últimos 150 anos, esta lógica esteve por trás da maioria das organizações bem-sucedidas na história ocidental. E se espalhou para outros segmentos que não apenas a produção “de coisas”, mas também o oferecimento de serviços e a cultura (um fenômeno que deu origem ao termo “indústria cultural”, para identificar as manifestações culturais produzidas a partir da lógica do mercado de massa).

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