Maturidade versus Personalidade Imatura

Maturidade versus Personalidade Imatura

http://www.conoze.com/doc.php?doc=2439

Enrique Rojas

Como é uma personalidade imatura?

A personalidade é a soma total das linhas de conduta atuais e potenciais determinados por três notas: a herança (a bagagem genética, o que recebemos de nossos pais), O ambiente (o contexto) e a experiência da vida (a biografia de cada um). A personalidade é o selo próprio e específico de cada um. O cartão de apresentação. Dito em outros termos, a personalidade é uma organização dinâmica, em movimento, onde confluem os aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais de um indivíduo. Nós, psiquiatras, nos dedicamos à engenharia da conduta. Somos perfuradores de superfícies psicológicas, tentamos aprofundar na mecânica interna do comportamento, para corrigi-lo, melhorá-lo, fazê-lo mais equilibrado.

A imaturidade significa uma pessoa ainda por fazer, que dá lugar a uma psicologia incipiente, incompleta, que não está bem terminada e que tem muitos flancos negativos, mas que pode mudar e melhorar e fazer-se mais sólida, com a ajuda de um psiquiatra ou de um psicólogo.

Vou tentar sistematizar seus principais ingredientes neste decálogo. Os sintomas são os seguintes:

1) Defasagem entre a idade cronológica e a idade mental: essa é uma das manifestações que mais chama a atenção no início, em um primeiro contato. Não esqueçamos que existem pessoas de maturação tardia e outra de maturação precoce, e isto lhe dá um caráter levemente distinto a esta observação.

2) Desconhecimento de si mesmo: essa era uma das normas do herói grego. No templo de Apolo, na Grécia, havia no marco da entrada uma inscrição que dizia assim: "Nosci se autom", conhece-te a ti mesmo. Trata-se de ter claro que a disciplina a ser cursada por uma pessoa mais importante de cada pessoa é ela mesma, o que quer dizer saber as atitudes e as limitações que cada um tem. Ambas são como o caderno do navegante que nos ajuda a uma navegação pela vida adequada.

3) Instabilidade emocional: que se expressa mediante mudanças no estado de ânimo, passando da euforia à melancolia e isto de um dia para outro ou no mesmo dia. Isso tem que diferenciálo claramente das chamadas depressões bipolares. O imaturo é desigual, variável, irregular, seus sentimentos se movem e oscila de forma pendular, o que faz que nunca possa uno saber que vai a encontrar no outro. Essa fragilidade mutável é uma nota muito característica. Seu estado de ânimo se expressa através de uns dentes de serra, uma espécie de montanha russa, onde as oscilações são muito freqüentes.

4) Pouca ou nula responsabilidade; a imaturidade tem níveis, o mesmo que sucede com qualquer estado psicológico. Esta palavra procede do latim "respondere", que significa: responder, prometer, satisfazer. Estar na realidade é conhecer o hoje, o agora de si mesmo sem desprezar e sem se julgar superior a qualquer outra pessoa.

5) Má ou nula percepção da realidade: a captação incorreta de si mesmo e do entorno que lhe rodeia o leva a ter uma conduta não adaptada tanto intrapessoal (desarmonia consigo mesmo) como interpessoal (inadequado contato com os demais, não sabendo medir as distâncias nem as proximidades).

6) Ausência de um projeto de vida: a vida não se improvisa. Necessita certa organização, um esquema que delineie o futuro. Os três grandes argumentos deste são: amor, trabalho e cultura. Em nenhum deles sulcou com profundidade. Não se pode viver sem amor, o amor deve ser o primeiro argumento da vida, que dá vida e força a os demais. Do cumprimento desses três grandes temas brota a felicidade, soma e compêndio de uma coerência de vida onde os três têm uma enorme importância.

7) Falta de maturidade afetiva: entender o quê é, em quê consiste e como estrutura nossa vida sentimental. Por amor tem sentido a vida. Mas não há amor sem renúncias. E ao mesmo tempo saber que ninguém é um ser absoluto para outro. O amor eterno não existe; dá-se nos filmes, nas músicas de moda e nas pessoas pouco maduras. O que sim existe é o amor praticado no dia-a-dia. Amar não significa ter doces sentimentos, mas em ter atenções com o outro nas pequenas cosas de cada dia. Em meu livro Quién eres, descrevo a maturidade afetiva como uma modalidade aparte, com perfis próprios e específicos. Aí somente sublinha que fácil é enamorar-se e quê complexo manter-se enamorado. Hoje se produziu neste campo una autêntica socialização da maturidade sentimental.

sintética, discursiva, matemática, analógica, intuitiva e reflexivaMas para ficarmos com uma

8) Falta de maturidade intelectual: a inteligência é outra das grandes ferramentas da psicologia, junto com a afetividade. Há muitas variedades de inteligência: teórica, prática, social, analítica, idéia clara: uma pessoa é inteligente quando sabe centrar um tema, fazendo raciocínios e juízos da realidade adequados, sendo capaz de elaborar um conjunto de soluções acessíveis e positivas que permitam resolver problemas concretos. Dito em termos mais modernos da psicologia do conhecimento: inteligência é saber receber informação, codificá-la e ordená-la de forma correta e oferecer respostas válidas, coerentes e eficazes. Nesse caso as manifestações da imaturidade se expressam de forma rica e variada. Falta de visão e de planificação do futuro. Hipertrofia do presente, uma exaltação do instante. Não há crescimento nas análises pessoais e gerais, com pouca ou nula justeza de juízo. Sérias dificuldades para racionalizar os fatos e aplicar certo espírito cartesiano. A vida é como uma viagem, por isso é importante saber aonde a pessoa quer chegar.

9) Pouca educação da vontade: a vontade é uma jóia que adorna a personalidade do homem maduro. Quando é frágil e não está temperada em uma luta perseverante, converte essa pessoa em alguém débil, brando, volúvel, caprichoso, incapaz de propor-se a objetivos concretos, pois todos se desvanecem ante o primeiro estímulo que chega de fora e o faz abandonar a tarefa que tem entre mãos. É a imagem da criança mimada que tanta pena produz; traído, levado e tiranizado pelo que lhe agrada, pelo que lhe pede o corpo nesse momento. Que não sabe dizer não, nem renunciar. Alguém destinado a fracassar, derrubado por qualquer exigência séria. Um ser que aprendeu a não se vencer, mas a seguir os seus impulsos imediatos. Por esse caminho se foi convertendo em volúvel, inconstante, superficial, frívolo, que se entusiasma facilmente com algo, para abandoná-lo quando as coisas se tornam um pouco difíceis.

Isto traz consigo outros dados: baixa tolerância às frustrações, ser mal perdedor, pois tem pouca capacidade para superar as adversidades, pois não está acostumado a vencer-se em quase nada; tendência a refugiar-se em um mundo fantástico, para afastar-se da realidade.

10) Critérios morais e éticos instáveis: a moral é a arte de viver com dignidade; a arte de usar de forma correta a liberdade, conhecer e pôr em prática o que é bom. Na pessoa imatura todo está preso por alfinetes e facilmente se desfaz e se rompe. A moda, a permissividade, o relativismo são pautas vertebrais básicas, segue os vaivens da última coisa que segue todo o mundo sem nenhum espírito crítico.

A maturidade é uma das pontes elevadiças que leva à fortaleza da felicidade. É o resultado de um trabalho esforçado, sério, paciente, de tirar e acrescentar, de polir, de limar, de tentar que nossa forma de ser seja como uma pedra de canto polida dessas que vemos nos rios e que quase não têm arestas. …………………………………………………………………………………………..

Comentários