Agrofloresta para Agricultura Familiar

Agrofloresta para Agricultura Familiar

(Parte 1 de 3)

Brasília, DF Dezembro, 2002

16 ISSN 1516-4349

Autores

Marcio Silveira

Armando MSc, Biólogo

Ynaiá Masse Bueno MSc, Agrônoma

Edson Raimundo da

Silva Alves Bs, Agrônomo

Carlos Henrique

Cavalcante

Técnico em editoração eletrônica.

Agrofloresta para Agricultura Familiar

A agricultura familiar no Brasil exerce um importante papel como principal fonte de abastecimento de alimentos do mercado interno. Apesar de representar uma significativa parcela na produção nacional, os agricultores familiares ainda carecem de sistemas de produção apropriados à sua capacidade de investimento, ao tamanho de suas propriedades rurais e ao tipo de mão-de-obra empregada.

A técnica denominada agrofloresta ou sistema agroflorestal (SAF) é interessante para a agricultura familiar por reunir vantagens econômicas e ambientais. A utilização sustentável dos recursos naturais aliada à uma menor dependência de insumos externos que caracterizam este sistema de produção, resultam em maior segurança alimentar e economia, tanto para os agricultores, como para os consumidores.

Nos sistemas agroflorestais de alta diversidade convivem na mesma área plantas frutíferas, madeireiras, graníferas, ornamentais, medicinais e forrageiras. Cada cultura é implantada no espaçamento adequado ao seu desenvolvimento e as suas necessidades de luz, de fertilidade e porte (altura e tipo de copa) são cuidadosamente combinadas.

O sistema é planejado para permitir colheitas desde o primeiro ano de implantação, de forma que o agricultor obtenha rendimentos provenientes de culturas anuais, hortaliças e frutíferas de ciclo curto, enquanto aguarda a maturação das espécies florestais e das frutíferas de ciclo mais longo. Assim, o maior número de produtos disponíveis para a comercialização em diferentes épocas do ano e ao longo do tempo, incrementa a renda e aproveita melhor a mão-de-obra familiar.

A reciclagem mais eficiente dos nutrientes é uma característica marcante deste sistema de produção. A biomassa depositada no solo pela queda de folhas, pela poda de ramos e por resíduos das culturas anuais melhora a oferta de nutrientes aos cultivos e favorece a atuação de microorganismos benéficos do solo.

Espécies forrageiras perenes permitem a criação de animais, ao mesmo tempo que protegem o solo das chuvas torrenciais, da insolação direta e dos ventos secos, típicos das regiões tropicais. A melhor adaptação da agrofloresta ao clima tropical, comparada a outros sistemas de produção de alimentos, deve ser considerada na tomada de decisão pela sua adoção.

Em suma, a diversificação de produtos, a maior segurança alimentar, a sustentabilidade ambiental, o incremento na fertilidade do solo e a redução gradativa nos custos de produção fazem da agrofloresta uma excelente opção para a agricultura familiar no Brasil.

Desenho da Agrofloresta

A reunião de diferentes culturas em um mesmo sistema de produção exige um planejamento da distribuição espacial das plantas e da sua evolução no tempo.

O planejamento de sistemas biodiversos (com muitas espécies) leva em conta as necessidades de luz, o porte, a forma do sistema radicular de cada espécie e seu comportamento no tipo de clima e de solo local. Além disso, é considerado o efeito de cada espécie no crescimento e produção das demais espécies do sistema ao longo do tempo e dentro do espaço disponível. Á este processo denomina-se desenho de um sistema agroflorestal.

Assim, no desenho da agrofloresta pensamos no espaço horizontal (distância entre duas plantas medida pelo chão) e também no espaço vertical , porque nestes sistemas plantas

2Agrofloresta para Agricultura Familiar crescendo lado a lado podem ocupar alturas diferentes. Utilizando-se uma analogia com a construção de um prédio, as plantas vão ocupar diferentes “andares” no sistema, e esses andares serão ocupados por diferentes espécies ao longo do tempo, da mesma forma que em uma floresta natural. Por exemplo: um mamoeiro aos seis meses de idade estará ocupando o 2º andar da agrofloresta, com um ano estará no 3º andar e aos tres anos terá deixado o sistema (a variedade de mamoeiro utilizada tem um ciclo de vida útil de dois anos).

Mesmo assim, uma infinidade de desenhos diferentes pode ser concebida, reunindo as espécies de interesse econômico, social e cultural de cada território ou ecorregião.

Agrofloresta da Vitrine de Tecnologias da Embrapa

A pesquisa, o desenvolvimento e a transferência de tecnologias agropecuárias que atendam aos preceitos da sustentabilidade é uma diretriz estratégica da Embrapa. A inclusão social e uma melhor distribuição de renda passam, necessariamente, por uma maior facilidade de acesso à sistemas de produção geradores de renda e de melhor qualidade de vida para os agricultores e para a sociedade em geral.

Nesta Circular Técnica são relacionados, de forma sucinta e objetiva, aspectos do planejamento de sistemas agroflorestais biodiversos e instruções sobre a implantação de um módulo de agrofloresta, com seu respectivo custo. Para finalizar, são feitas algumas recomendações sobre o manejo do sistema e sobre a evolução da agrofloresta ao longo do tempo.

O sistema agroflorestal apresentado reúne 36 espécies diferentes e está exposto à visitação pública na Vitrine de Tecnologias da Embrapa Sede, em Brasília.

O plantio foi realizado durante o terço inicial da estação chuvosa em Brasília, em novembro e dezembro de 1999. Nele estão associados essências florestais, frutíferas, forrageiras, hortaliças, grãos, plantas medicinais e biopesticidas (plantas que controlam pragas e parasitas). Plantas nativas do Cerrado e da Amazônia foram incluídas, com o intuito de observar seu comportamento em sistemas agroflorestais no Cerrado.

A Fig. 1 representa, esquematicamente, esse sistema, onde foram incluídas somente 12 das 36 espécies, para facilitar a visualização do conjunto.

Os nomes populares e científicos das espécies utilizadas encontram-se na Tabela 1.

3Agrofloresta para Agricultura Familiar

As plantas utilizadas nesta agrofloresta podem ser classificadas em oito categorias:

Dentre estas, temos várias espécies multi-uso, importantes em sistemas biodiversos por ampliarem as possibilidades de êxito ambiental e comercial do sistema:

• andiroba: madeira para móveis de luxo, óleo das sementes repelente de insetos e matéria-prima para cosméticos; • açaí: palmito, frutos e atração da fauna silvestre;

• cedro: madeira e folhas repelentes de insetos (gorgulhos e carunchos); • copaíba: madeira e óleo medicinal;

• gliricídia: florestal, forrageira, moirão vivo, melífera e sombreamento para o café; • plantas de cobertura: incorporação e ciclagem de nutrientes, proteção do solo, inibição de invasoras, abrigo e alimento para inimigos naturais de pragas, associação com microorganismos úteis.

A implantação de agroflorestas é muito facilitada trabalhando-se em módulos. Apresenta-se a seguir um módulo básico de 225 m² (15 m x 15 m) que pode ser repetido quantas vezes for necessário e na medida da capacidade de investimento do agricultor familiar.

Etapas de implantação de um módulo de Agrofloresta

A implantação do módulo de agrofloresta inicia-se pela limpeza do terreno, aração, calagem e gradeação (procure a orientação de um técnico da extensão rural, em caso de dúvidas nesta fase). Em seguida, abrem-se covas de 40 cm x 40 cm x 40 cm, adubadas com material orgânico da propriedade, e realiza-se o plantio de mudas e de sementes. Estas operações são apresentadas a seguir, divididas em quatro etapas, para facilitar o trabalho no campo.

Etapa 1. Espécies florestais e biopesticidas

As espécies florestais, plantadas no espaçamento 3 x 3 metros, formam a base do desenho da agrofloresta. São plantadas, em linhas alternadas:

a) Mogno e andiroba, sendo 2 mudas de andiroba entre cada mogno b) Copaíba e nim (alternadamente, ao longo da linha) ; c)Mogno e gliricídia, sendo 2 mudas de gliricídia entre cada mogno (igual ao item (a), trocando-se a andiroba pela gliricídia).

O plantio das mudas ocorre 15 a 20 dias após a adubação das covas. Logo após o plantio, realizar a cobertura da coroa (círculo de um metro ao redor das plantas) com capim seco, palha de café ou com outra cobertura morta disponível na propriedade.

Tabela 1. Nomes populares e científicos das plantas da agrofloresta

Nome popularNome científico

Abacaxi Ananas comosus Açaí Euterpe oleracea Açoita-cavalo Luehea divaricata Amarantos Amaranthus caudatus,

A.cruentus, A.hypocondriacus

Andiroba Carapa guianensis Alpínia Alpinia purpurata BananaMusa cavendish, M.paradisiaca Bastão-do-Imperador Etlingera elatior CaféCoffea arabica Canafístula Peltophorum dubium Cedro Cedrella odorata Copaíba Copaifera langsdorffii CrotaláriasCrotalaria breviflora, C. juncea,

(Parte 1 de 3)

Comentários