Nitrogênio não-protéico

Nitrogênio não-protéico

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VALTER T. MOTTA Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Nitrogênio Não- Protéico

Volume 15

fração nitrogênio não-protéico sérico é formada de todos os compostos nitrogenados exceto proteínas. O rim exerce papel fundamental na eliminação da maioria destes compostos do organismo. A dosagem destas substâncias na ro- tina laboratorial faz parte do estudo do “status” renal do paciente. O catabolismo de proteínas e ácidos nucléicos resultam na formação dos com- postos nitrogenados não-protéicos. Existem mais de 15 compostos nitrogenados não protéicos na plasma; os principais e suas origens bioquímicas além das situações em que são avaliados estão resumidos na tabela 10.1. Vários destes produtos metabólicos são se- teínas tanto endógenas (tecidos) como exógenas (dieta).

Tabela 10.1. Metabólitos nitrogenados na urina*

Metabólito Origem bioquímica Utilidade clínica da medida % de nitrogênio na urina

Aminoácidos Proteínas endógenas e exógenas Enfermidade hepática; erros inatos do metabolismo; desordens tubulares <1

Amônia Aminoácidos Enfermidade hepática; enfermidade renal (congênita ou adquirida), erros inatos do metabolismo

Uréia Amônia Enfermidade hepática, enfermidade renal 5-90 Creatinina Creatina Função renal 2-3

Ácido úrico Nucleotídios purínicos Desordens da síntese purínica, “marca-

*Estes compostos compreendem ao redor de 90% das substâncias não-protéicas na urina.

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s aminoácidos provenientes do catabolismo protéico são desaminados com a produção de amônia. Como este composto é potencialmente tóxico, é convertido em uréia (NH2-CO-NH2) no fígado associado ao CO2. A uréia constitui 45% do nitrogênio não protéico no sangue. Após a síntese hepática, a uréia é transportada pelo plasma até os rins, onde é filtrada pelos glomérulos. A uréia é excretada na urina, embora 40-70% seja reabsorvida por difusão passiva pelos túbulos. Um quarto da uréia é metabolizada no intestino para formar amônia e CO2 pela ação da flora bacteriana normal. Esta amônia é reabsorvida e levada ao fígado onde é reconvertida em uréia. O nível de uréia no plasma é afetado pela função renal, conteúdo protéico da dieta e teor do catabolismo protéico, estado de hidratação do paciente e presença de sangramento intestinal. Apesar destas limitações, entretanto, o nível de uréia ainda serve como um índice predictivo da insuficiência renal sintomá- tica e no estabelecimento de diagnóstico na distinção entre várias causas de insuficiência renal.

Enfermidades renais com diferentes tipos de lesões (glomerular, tubular, intersticial ou vascular) causam o aumento dos teores de uréia plasmática.

O uso da uréia como indicador da função renal é limitada pela variedade nos resultados causados por fatores não-renais. Teores aumentados de uréia são de três tipos: pré-renal, renal e pós-renal.

Os sinais e sintomas da hiperuremia in-cluem acidemia, náusea e vômito, progredindo para o torpor e coma.

Uremia pré-renal. É um distúrbio funcional resultante da perfusão inadequada dos rins e, portanto, filtração glomerular diminuída em presença de função renal normal:

§ Insuficiência cardíaca congestiva (grave).

trado na hemorragia, desidratação e volume sangüíneo marcadamente diminuído.

§ Choque. § Terapia por corticoesteróides e tetraciclinas.

§ Reabsorção das proteínas sangüíneas após hemorragia gastrointestinal maciça e desidratação moderada.

§ Alterações no metabolismo das proteínas. Promovem modificações na uremia: dieta rica em proteínas, febre, estresse, último trimestre de gravidez e na infância (aumento da síntese protéica), elevam ou diminuem o teor de uréia sangüínea. A uremia pré-renal é detectada pelo aumento da uréia plasmática sem a concomitante elevação da creatinina sangüínea.

Uremia renal. A filtração glomerular está dimi- nuída com retenção de uréia em conseqüência da doença renal aguda ou crônica. Insuficiência renal é resultante de lesões nos vasos sangüíneos renais, glomérulos, túbulos ou interstício; estas agressões podem ser tóxicas, imunológicas, iatrogênicas ou idiopáticas.

§ Glomerulonefrites, aumentos significantes da uréia, quando a filtração glomerular cai abaixo de 50% dos níveis normais.

§ Necrose tubular aguda, isquemia prolongada e agentes nefrotóxicos (metais pesados, amino- glicosídios, rádio-contrastes).

§ Nefrite intersticial aguda induzida por medicamentos.

§ Lesão arteriolar provocada por hipertensão, vasculite, microangiopatias (púrpura trombo- citopênica trombótica e síndrome hemolíticourêmica).

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§ Deposição intra-renal ou sedimentos (ácido úrico e mieloma).

§ Embolização de colesterol (especialmente procedimento pós-arterial).

dratação e o edema, que causam perfusão renal diminuída, catabolismo de proteínas aumentado e o efeito antianabólico geral dos glicocorticóides.

Uremias pós-renal. É resultante da obstrução do trato urinário com a reabsorção da uréia pela circulação:

§ Obstrução ureteral (cálculos, coágulos, tumores da bexiga, hipertrofia prostática, compres- sões externas e necrose papilar).

culos, coágulo e estenose uretral).

sença de hepatopatia grave. O fígado lesado, incapaz de sintetizar uréia a partir da amônio resul- ção de amônia sangüínea, causando encefalopatia hepática.

Paciente. Não são exigidos cuidados especiais.

Amostra. Soro e plasma heparinizado (não usar heparina amoniacal) isento de hemólise. Refrige- radas (para evitar a decomposição bacteriana da uréia) as amostras são estáveis por uma semana.

Interferências. Resultados falsamente aumenta- dos: aceto-hexamida, acetona, ácido ascórbico, ácido etacrínico, ácido nalidíxico, aminofenol, análogos da guanetidina, androgênios, anfotericina B, antiácidos alcalinos, arginina, arsenicais, asparaginase, bacitracina, capreomicina, captopril, carbonato de lítio, carbutamina, carnistina, cefalo- ridina, clonidina, cloranfenicol, clorobutanol, clorotiazida sódica, clortalidona, colistemetato curiais, dextrano, diuréticos mercuriais, diuréticos tiazídicos, doxatram, espectinomicina, esteróides fenazina, fluoretos, fosfato de disopiramida, furosemida, guanaclor, hidrato de cloral, hidroxiuréia, indometacina, infusões de dextrose, canamicina, lipomul, maconha, meclofenamato sódico, mefenazina, meticilina, metildopa, metilsergida, me- xidil, mitramicina, morfina, naproxeno sódico, neomicina, nitrofurantoína, parametazona, pargi- lina, polimixina B, propranolol, sais de amônio, sais de cálcio, salicilatos, sulfato de gentamicina, sulfato de guanetidina, sulfonamidas, tartarato de reno e vancomicina. Resultados falsamente reduzidos: abuso do álcool, acromegalia, amiloidose, dequada), doença celíaca, expansão do volume plasmático, gravidez (tardia), hemodiálise, hepa- tite, ingestão de líquido em excesso, lactância e necrose. As drogas incluem estreptomicina e timol.

Métodos. A medida da uréia pode ser realizada pelo uso de métodos indiretos onde a uréia é hidrolizda pela enzima urease para formar amônia posteriormente quantificada – ou por métodos diretos onde a uréia reage com compostos para formar cromogênios.

Urease. Os primeiros métodos empregados na determinação baseavam-se na transformação da uréia em amônia e dióxido de carbono, pela ação catalítica da enzima urease. A amônia formada nesta reação era determinada colorimetricamente pelo reagente de Nessler ou pela reação de Ber- thelot.

Urease/glutamato desidrogenase. A amônia obtida pela reação da urease também pode ser medida espectrofotometricamente pela reação acoplada urease/glutamato desidrogenase (GLDH) com o emprego de a-cetoglutarato para oxidar o

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NADH a NAD+. O modo cinético de análise elimina interferências causadas por desidrogenases e amônia na amostra. Este é o método mais usado em equipamentos automáticos.

Corante indicador. A medida da amônia obtida pela ação da urease também é conseguida pelo emprego de corante indicador de pH para produzir cor. O princípio do corante indicador é empregado na tecnologia de química seca (DT Vitros).

Conductimetria. Outro método comum para a quantificação da uréia é baseado na alteração na conditividade de uma amostra que ocorre após a ação da urease sobre a uréia. O CO2 e a amônia produzidas pela ação enzimática reagem para for- mar carbonato de amônio que aumenta a condutividade da mistura da reação.

Outros métodos. A uréia também pode ser de-

ído com as aminas primárias, como a uréia e (c) condensação da diacetilmonoxima com a uréia para formar o cromogênio diazina amarelo que é fotossensível (reduz rapidamente a cor formada).

Valores de referência para uréia (mg/dL) Adultos ambulatoriais 15 a 39

Bibliografia consultada

BRUSILOW, S. W. “Inborn errors of urea synthesis”. In: GLEW, R.

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