O ensino de graduação na universidade ? a aula universitária

O ensino de graduação na universidade ? a aula universitária

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resultante da sua própria atividade intelectual e prática realizada em parceria com os professores e colegas. Portanto, a referência para as atividades do ensino é a aprendizagem, ou seja, ensina bem o professor que consegue com que o aluno aprenda bem com base numa relação pessoal com o saber e aprenda a pensar metodicamente. Nesse sentido, a característica básica das disciplinas escolares é que elas devem ser organizadas e trabalhadas para serem aprendidas pelos alunos. Ou seja, o como se ensina depende de se saber como os indivíduos aprendem, ou melhor, como adultos aprendem;

2. A sala de aula é um espaço de construção conjunta do conhecimento. É o lugar onde professores e alunos buscam juntos o conhecimento, estabelecem interações, diálogos, trocas; tanto do aluno quanto do professor. Implica promover situações em que o aluno aprenda a buscar informações, aprenda a localizá-las, analisá-las, relacioná-las com conhecimentos anteriores, dando-lhes significado próprio, a redigir conclusões, a observar situações de campo e registrá-las, a buscar solução de problemas, dentre outros. (Masetto, 2001, p. 87); meramente como espaço físico e um tempo determinado (digamos 2 horas) em que o professor transmite conhecimentos aos alunos. A sala de aula é todo espaço em que os alunos podem aprender. Conforme escreve Masetto:

Sala de aula é espaço e tempo no qual e durante o qual os sujeitos de um processo de aprendizagem (professor e alunos) se encontram para juntos realizarem uma série de ações (na verdade interações), como, por exemplo, estudar, ler, discutir e debater, ouvir o professor, consultar e trabalhar na biblioteca, redigir trabalhos, participar de conferências de especialistas, entrevistá- los, fazer perguntas, solucionar dúvidas, orientar trabalhos de investigação e pesquisa, desenvolver diferentes formas de expressão e comunicação, realizar oficinas e trabalhos de campo

(Masetto, 2001, p. 85).

5. Toda aprendizagem precisa ser significativa, isto é, os conteúdos precisam fazer sentido para o aluno, com base nos próprios sentidos que os alunos atribuem ao que estão aprendendo. A aprendizagem precisa envolver o aluno como pessoa integrante de um contexto sociocultural, com sua história de vida, suas idéias, suas emoções, seus desejos, sua cultura, sua profissão;

6. A sala de aula implica uma aproximação entre a teoria e a prática. A aprendizagem se realiza mais facilmente e com maior compreensão e retenção quando acontece nos vários ambientes profissionais, fora da sala de aula, porque coloca o aprendiz mais em contato com a realidade. O conhecimento da realidade parte da leitura da prática referente à disciplina estudada, de forma a se superar uma prática sem reflexão e uma teoria que não consegue atingir a prática;

7. A aprendizagem universitária está associada ao aprender a pensar e ao aprender a aprender. O ensino universitário precisa hoje ajudar o aluno a desenvolver habilidades de pensamento e identificar procedimentos necessários para apreender. A metodologia de ensino, na verdade, não são as técnicas de ensino, o uso do vídeo, do trabalho em grupo, da aula expositiva. Metodologia é como você ajuda seu aluno a pensar com os instrumentos conceituais e os processos de investigação da ciência que você ensina. Por exemplo, a boa pedagogia do professor de Direito é aquela que consegue traduzir didaticamente o modo próprio de pensar jurídico.

Em decorrência dessas características, faz-se necessário modificar o perfil do professor universitário. A universidade tem funções clássicas. Transmite o saber historicamente acumulado, é uma instância questionadora desse saber, é criadora de novas saberes. Ela também precisa saber responder à realidade histórica, social, política, cultural, científica.

As funções do professor universitário envolvem tarefas que correspondem às funções da universidade:

lo de forma que os alunos aprendam, ou seja, domina o saber especifico e o saber pedagógico;

- um bom crítico das relações socioculturais da sociedade que o cerca e do momento histórico que vive. Domina um saber político-social, assumindo o papel social do seu campo de conhecimentos e de sua profissão;

- um bom pesquisador que saiba produzir conhecimento novo e saiba preparar seu aluno para a investigação. Domina os processos investigativos de seu campo de conhecimentos, sabe pesquisar e ajudar os alunos a internalizarem esses processos; referente ao curso, isto é, tem domínio do saber da prática profissional.

Não é possível uma efetiva mudança nas práticas de ensino universitário sem ações e mudanças na organização e gestão do curso. A organização e gestão das escolas têm sido abordadas de um ponto de vista burocrático, administrativo, envolvendo os níveis hierárquicos de exercício do poder, os colegiados acadêmicos e as formas de tomada de decisões. Embora esses aspectos sejam relevantes, não é nesse sentido que afirmamos a relação entre a sala de aula e a organização da escola, mas no sentido de que tudo o que ocorre na sala de aula deve estar em consonância com o que ocorre no âmbito de decisões em torno do projeto pedagógico, dos objetivos de ensino, do currículo, das formas convencionadas de relações professor-alunos e procedimentos de ensino. Se a aula é um espaço de aprendizagens, também a organização do trabalho escolar é um espaço de aprendizagens.

A organização e gestão constituem-se do conjunto das condições e meios utilizados para assegurar o bom funcionamento da instituição escolar, de modo a alcançar os objetivos educacionais esperados. Elas visam:

- prover as condições, os meios, e todos os recursos necessários ao ótimo funcionamento da escola e do trabalho em sala de aula;

- promover o envolvimento das pessoas no trabalho por meio da participação e fazer a avaliação e o acompanhamento dessa participação; - garantir a realização da aprendizagem para todos os alunos.

A organização e a gestão do curso constituem ambiente educativo, isto é, espaço de formação e aprendizagem, construído pelos seus componentes, lugar em que os profissionais podem decidir sobre seu trabalho e se desenvolver profissionalmente enquanto professores. Ou seja, as pessoas mudam com as práticas organizativas, as organizações mudam com as pessoas. Isso significa que a organização escolar funciona com base em dois movimentos inter-relacionados: de um lado, a estrutura e a dinâmica organizacional atuam na produção das idéias, modos de agir, práticas profissionais dos professores; de outro, os professores são participantes ativos da organização, contribuindo para a definição de objetivos, formulação do projeto pedagógico-curricular, atuação nos processos de gestão e tomadas de decisão. Há, portanto, uma concomitância entre o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento organizacional.

Conceber a escola como comunidade de aprendizagem equivale transpor para a organização escolar os mesmos referenciais que a didática atual utiliza para compreender a sala de aula. Segundo Perez

Gómez (2000), toda aprendizagem relevante é um processo de diálogo com a realidade natural e social, supondo participação, interação, debate, trocas de significados e representações, envolvendo professores e alunos e alunos entre si. Nesse sentido, a sala de aula é um lugar de construção, reconstrução e compartilhamento de culturas.

Também, a organização escolar é um espaço de compartilhamento de significados, conhecimento e ações entre as pessoas. A organização escolar entendida como comunidade democrática de aprendizagem transforma a escola em um lugar de compartilhamento de valores e práticas, por meio do trabalho e da reflexão conjunta sobre planos de trabalho, problemas, soluções, relacionados à aprendizagem dos alunos e ao funcionamento da escola. Para isso, a escola precisa introduzir formas de participação real dos membros da escola nas decisões, como reuniões, elaboração do projeto pedagógico-curricular, atribuição de responsabilidades, definição de modos de agir coletivos, definição de formas de avaliação e acompanhamento do projeto e das atividades da escola e da sala de aula. Para que isso aconteça, é preciso, ainda, que as escolas estabeleçam ações de formação continuada, visando o desenvolvimento profissional dos professores em razão de seu aprimoramento profissional.

A expressão comunidade de aprendizagem está associada à idéia de participação ativa de professores, pedagogos e alunos – por meio de reuniões, debates, aulas, atividades extra-classe – nas decisões relacionadas com a vida da escola, conteúdos, processos de ensino, atividades escolares de variada natureza, avaliação. A comunidade deve ser o espaço público em que se discute o conhecimento, a organização curricular, as relações sociais, os modos e critérios de avaliação, as normas, implicando práticas de cooperação e a instituição de outra cultura organizacional.

Esse modo de organizar a escola possibilita maior envolvimento dos professores com sua formação porque podem discutir questões do seu trabalho com base em necessidades reais. Com isso, a cultura do individualismo cede à colaboração, as relações hierárquicas são substituídas pelo trabalho em equipe, a coordenação pedagógica torna-se uma atividade negociada com base em situações concretas da sala de aula (Thurler, 2001). Talvez o efeito mais promissor da construção da comunidade de aprendizagem seja o de ajudar os professores a atribuírem sentido ao seu trabalho, isto é, tornar o trabalho incorporado à sua subjetividade, às suas motivações psicológicas, sociais, políticas.

A formação de uma comunidade de aprendizagem requer a adoção de uma estrutura organizacional e processos de gestão que valorizem a participação, mas também o desenvolvimento de competências de todos os membros da escola, tais como: capacidade de comunicação e expressão oral, facilidade de trabalhar em grupo, capacidade de argumentação, formas de enfrentar problemas e situações difíceis.

Especialmente, requer dos dirigentes (diretores e coordenadores pedagógicos) capacidade de liderar e gerir práticas de cooperação entre os membros do grupo, de modo a criar uma outra cultura organizacional, ou seja, uma outra mentalidade de organização escolar. O pesquisador português Rui Canário (1997) explica a relação entre desenvolvimento profissional e desenvolvimento organizacional:

É a impossibilidade de dissociar o “jogo coletivo” da ação de cada indivíduo que torna impossível, também, dissociar a mudança dos modos individuais de pensar e agir, de processos de mudança organizacional.

A mudança da organização de trabalho (ou seja, das escolas) assume então o caráter de um processo coletivo de aprendizagem do qual emergem não apenas novas competências (configurações de saberes) individuais, mas também competências coletivas que correspondem a um valor acrescentado que “estruturado como uma linguagem (...) emerge das articulações e das trocas fundadas nas competências individuais”.

Deste ponto de vista, a formação alimenta-se sobretudo de recursos endógenos, experiências individuais e coletivas, situações de trabalho sujeitas a um processo de inteligibilidade. A formação e a mudança passam, então, a sobrepôr-se num processo único em que o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento organizacional são concomitantes.

A construção de uma comunidade de aprendizagem requer:

- consenso mínimo da equipe de docentes em torno de valores e objetivos;

- estabilidade do corpo docente e, no mínimo, regime de tempo parcial;

- metas pertinentes, claras e viáveis;

- capacitação de docentes para o trabalho em equipe e em habilidades de participação;

- promoção de ações sistemáticas de formação continuada visando o desenvolvimento profissional.

Por fim, as considerações feitas neste texto levam a indicar como medidas inadiáveis em todas as instituições universirtárias:

- Criação, nas vice-reitorias de graduação, de um setor especializado de coordenação pedagógica ou de apoio pedagógico-didático, para

- criação em cada curso do cargo de coordenador pedagógico, para assistência pedagógico-didática aos docentes.

meio de: a) avaliação do desempenho de alunos; b) avaliação do desempenho de professores mediante acompanhamento do trabalho de sala de aula;

- adoção de procedimentos de acompanhamento sistemático do funcionamento da organização e gestão dos cursos, implementados de forma participativa, especialmente visando a melhoria do conjunto das condições de ensino.

Bibliografia

Canário, Rui. A escola: lugar onde os professores aprendem. I Congresso Nacional de Supervisão na Formação, Aveiro, Portugal (digitado).

Cunha, Maria I. da. Aula universitária: inovação e pesquisa. In: Leite,

Denise B.C. e Morosini, Marília (Orgs.). Universidade futurante. Campinas: Papirus, 1997.

Cunha, Maria I. da. O bom professor e sua prática. Campinas:Papirus, 1989.

Lucarelli, Elisa. Um desafio institucional: inovação pedagógica e formação pedagógica do docente universitário. In: Castanho, Sérgio e Castanho, Maria E.L.M. O que há de novo na educação superior. Campinas: Papirus, 2000).

Masetto, Marcos T. (Org.). Docência na universidade. São Paulo: Papirus, 1998.

Masetto, Marcos T. Discutindo o processo ensino/aprendizagem no ensino superior. In: Marcondes, E. (Org.). Educação Médica. São Paulo: Saraiva, 1998.

Masetto, Marcos T. Atividades pedagógicas no cotidiano da sala de aula universitária: reflexões e sugestões práticas. In: Castanho, Sérgio e Castanho, Maria Eugênia. Temas e textos em metodologia do ensino superior. São Paulo: Papirus, 2001.

NUNES, Eliane R. Ensino jurídico – Didática e metodologia de ensino numa perspectiva crítica. Dissertação de Mestrado. Mestrado em Educação da UCG. Goiânia: UCG, 2000.

Perez Gómez, Angel. Para compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Thurler, Mônica G. Inovar no interior da escola. Porto Alegre: Artmed, 2001.

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