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FUNDIÇÃO E MOLDAGEM EM CONSERVAÇÃO http://nautarch.tamu.edu/class/anth605/File16.htm

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ÍNDICE Técnicas de fundição na conservação de artefactos marítimos

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As técnicas de fundição e de modelação são frequentemente usadas para o restauro e para a réplica de objectos. As réplicas fundidas para exposição, distribuição e estudo são complementos da conservação. Esta aplicação da fundição, apesar da sua considerável importância, não é aqui considerada, e o leitor é encaminhado para publicações e brochuras que podem ser obtidos nos fabricantes de materiais para fundição, e para artigos por Rohner (1964, 1970), Rigby e Clark (1965), Hamilton (1976), e Frazier (1974).

Na conservação de especímenes da arqueologia marítima, a fundição é usada quando o próprio artefacto não pode ser tratado. Nalguns casos, só através da fundição se consegue salvar o objecto ou determinar a sua forma. Como já foi assinalado noutros ficheiros deste manual on line, os objectos metálicos podem continuar a ser corroídos dentro de uma incrustação, até que sobre muito pouco ou nenhum metal. Em tais casos, perdem-se as superfícies originais com marcas identificativas, selos, letras ou números. Felizmente, a incrustação encapsuladora começa a formar-se imediatamente no início da processo de corrosão. Ela forma um molde ao redor das formas originais, preservando todos os pormenores da superfície. Muito frequentemente, a incrustação é mais informativa do que o próprio objecto degradado ou muito oxidado.

Existem muitas formas de emprego das técnicas de fundição durante a conservação de material de naufrágios. É importante que se possua algum conhecimento dos procedimentos usados. Um laboratório também pode conter uma reserva dos fornecimentos necessários e dos compostos para fundição. Pode ser usado um considerável número de materiais de fundição diferentes, provenientes de muitos fabricantes. Entre os produtos que se recomendam especialmente, incluem-se o cloreto de prata (AgCl) da Dow, a borracha de silicone, a borracha de polisulfato da Smooth-On, a borracha Surgident

Neo-Plex, o Permanent Latex, o Hysol Epoxy, o estuque de Paris, e o estuque Coecal. Muitos outros produtos similares podem ser substitutos destes que aqui se recomendam.

O primeiro resumo publicado sobre a fundição na conservação marítima, como forma de reprodução de artefactos completamente oxidados, foi da autoria de Katsev and van Doorninck (1966:133- 141). Usando uma serra de ourives, eles seccionaram pequenas incrustações que continham os moldes naturais deixados por ferramentas Bizantinas de ferro oxidadas. Alguns especímenes só precisavam ser cortados por uma vez, enquanto que os objectos mais complicados exigiam diversos cortes. Eram então removidos todos os resíduos da corrosão de dentro dos moldes naturais, e era feita uma junta de cartão ou de plástico acertada entre as metades cortadas, para compensar a espessura do material desgastado pela serra. O molde era depois preenchido com um composto flexível e as metades reunidas firmemente. A fundição em borracha era retirada do molde assim que o composto estivesse curado. Depois de recortada a “rebarba” de borracha formada ao longo das juntas do molde, obtinha-se uma réplica do artefacto desintegrado.

Apesar de fundições em borracha como estas não serem permanentes nem para durarem por muito tempo, elas conseguem durar por uns bons anos. A sua vida e utilidade podem ser amplificadas pelo seu armazenamento dentro de moldes negativos em gesso, que lhes proporcionem suporte e as resguardem contra arranhões e perdas de forma. Se é necessária uma fundição permanente em epóxi, deve-se fazer primeiro um molde com borracha de polisulfato, sendo este segundo molde preenchido então com o epóxi.

Depois de terem fundido diversos moldes seccionados com uma serra de ourives, foram publicadas por Katsev e van Doorninck (1966) as diversas desvantagens desta técnica. A técnica fica

FUNDIÇÃO E MOLDAGEM EM CONSERVAÇÃO 4 - 5 limitada a pequenas incrustações e a formas não complicadas, que apenas requeiram poucos cortes. Surge também um problema com o correcto alinhamento das duas metades e com a junta de cartolina necessária para substituir a espessura eliminada pela lâmina de corte. Este problema é complexo quando existe mais que um corte. Quando o molde é cortado com uma serra, a “rebarba” visível é muito pronunciada.

Se existirem equipamentos de Raios X disponíveis, podem ser ultrapassados alguns dos problemas com a fundição de moldes naturais. A radiografia revela a forma do objecto e a extensão da sua corrosão. Em certas incrustações, é possível usar-se um cinzel pneumático para fazer aberturas em extremos opostos ou em pontos chave de um objecto. Através desses furos, pode ser retirada a corrosão residual por lavagem e despejado o composto de fundição. Em alternativa, o cinzel pneumático pode ser usado para se inscrever uma linha ao longo ou ao redor de uma incrustação. Batendo-se ao longo dessa linha com um martelo e um cinzel, a incrustação pode ser partida de uma maneira predeterminada. As incrustações simples são facilmente abertas e fundidas por esta forma. Como é muito mais eficiente fazerem-se estas aberturas nas incrustações para se produzirem moldes naturais, não se recomenda o uso da serra de ourives.

úni ca for ma de se rec upe rare m mui tos dos arte fact os em ferro mais pequenos, recuperados de locais arqueológicos marítimos, é a fundição de moldes naturais dentro da própria incrustação, se o artefacto tiver ficado corroído numa “papa”. Os resíduos de corrosão podem, por vezes, ser removidos pela simples lavagem do molde com água; mas noutros casos é necessária uma apreciável quantidade de remoção mecânica dessa corrosão. Depois de terem sido removidos todos os produtos de corrosão residuais, o vazio é preenchido com o material de fundição. Recomenda-se o epóxi como material de fundição generalista, já que não apresenta ao conservador os mesmos problemas com a armazenagem a longo prazo que a borracha de polisulfato. Após realizada a presa do material de fundição, a incrustação circundante pode ser removida com um cinzel pneumático, revelando-se a perfeita réplica do artefacto original.

Figura 16.1. Fundições em epóxi de ferramentas de ferro provenientes da cidade submersa do século XVII de Port Royal, na Jamaica. De cima para baixo e da esquerda para a direita : um martelo no seu cabo de madeira original, um cutelo com o seu cabo de madeira original, um fecho de porta, duas

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Usando-se a técnica acima descrita, os conservadores têm sido capazes de fazer fundições em epóxi de cabeças de martelo corroídas, directamente nos respectivos cabos de madeira originais, assim como cutelos de ferro agarrados aos seus cabos de madeira originais, uma variedade de chaves de ferro, e diversos fechos de porta (ver a Figura 16.1). Deve ser enfaticamente afirmado que, se as técnicas de fundição não tivessem sido usadas noutros artefactos impossíveis de conservar, ter-se-ia perdido uma significativa quantidade de informação. (Consultar Hamilton 1976:72-85; North 1987:231-232; e Muncher 1988 para uma discussão mais completa sobre as técnicas de fundição.)

São frequentemente encontrados moldes naturais de objectos metálicos desintegrados dentro de incrustações muito grandes, os quais, mesmo se for possível radiografar a peça, não se conseguem detectar nas radiografias. Para se evitar a destruição de possíveis informações valiosas sobre os artefactos incrustados, é necessária uma observação pormenorizada quando se usarem cinzéis pneumáticos para separar a incrustação, com o objectivo de serem descobertos moldes naturais. Por causa da presença destes moldes naturais dentro das grandes incrustações, não é geralmente recomendado o uso de ácidos ou mesmo da electrólise para a remoção dessas incrustações (ver Montlucon 1986, 1987). Quando são detectados moldes naturais, é possível abrir-se uma pequena área num dos lados desse molde, fazer a limpeza, e encher com epóxi.

Os exemplos de fundição acima discutidos envolvem artefactos de ferro corroídos; são também frequentemente empregues procedimentos de fundição similares em artefactos de prata, os quais ficam geralmente corroídos de uma forma muito extensa nos ambientes anaeróbicos marítimos. Por exemplo, foi recuperado de um naufrágio espanhol do século XVI um grande número de discos de prata de forma plano-convexa em corte. Na superfície plana desses discos de prata existiam normalmente um ou mais selos que indicavam o proprietário, a mina e as marcas de impostos. Muitos desses selos estavam obliterados pelo processo de corrosão. A incrustação, contudo, formava um molde perfeito da superfície original da prata, e permanecia nela uma impressão invertida dos seus selos. Num dos exemplares, a incrustação de um disco singularmente incrustado foi removida, com um lápis pneumático, por descamação ao longo da circunferência do disco e separando-se as duas metades da incrustação relativamente à prata. Os selos da prata invertidos foram revelados pela remoção cuidadosa dos produtos de corrosão do interior da superfície da incrustação, com uma escova de cerdas finas e com palitos de madeira aguçados. Foi feita uma pele de látex no interior da superfície da incrustação que continha o reverso dos selos. Fizeram-se fundições em gesso a partir da pele de látex da impressão dos selos, e estes foram sublinhados com um lápis macio de grafite. É possível recuperarem-se muitos outros selos perdidos através deste procedimento, e esta técnica é rotineiramente incorporada na conservação de discos de prata incrustados, por forma a serem preservados estes valiosos dados. Muito poucos historiadores e arqueólogos negariam que a salvaguarda dos selos é historicamente mais significativa do que os próprios discos com os seus selos obliterados.

Os exemplos de fundições acima discutidos apresentam um caso inquestionavelmente forte sobre o valor e o significado da fundição na conservação de materiais provenientes de naufrágios marítimos. Os dados recuperados são do tipo que se perde diariamente em consequência de cuidados e de conservações inadequadas de materiais arqueológicos. Estes exemplos enfatizam as razões pelas quais o material de naufrágios marítimos deve ser processado por pessoal de conservação, que esteja familiarizado com a cultura deste material, assim como com as técnicas alternativas disponíveis para a salvaguarda e preservação da maior quantidade possível de dados existentes no artefacto.

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