A diaética dos campos sociais na interpretação daproblemática ambiental

A diaética dos campos sociais na interpretação daproblemática ambiental

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A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A

Questão do meio ambiente, crise ecológica ou, ainda, problemática ambiental: nos últimos 30 a 40 anos estas expressões (e os significados que carregam consigo) têm se incorporado profundamente às discussões mais relevantes da sociedade em geral. Já não sendo apenas uma preocupação restrita a alguns poucos agentes, grupos sociais, organizações, instituições de pesquisa e órgãos competentes do Estado, os temas que suscitam têm adquirido uma centralidade até há pouco inexistente, sendo atualmente discutidos por amplos e variados setores da sociedade. Palavras como ecologia, meio ambiente e natureza são cada vez mais apropriadas pelo senso comum e levadas mesmo às mais inóspitas localidades do planeta (“urbanamente” falando), produzindo, para o conjunto destes termos, qualificações polissêmicas. Neste sentido, tais expressões adquirem um caráter operatório, na medida em que permitem aos interlocutores que delas fazem uso estabelecer novos lugares-comuns e, igualmente, forjar formas alternativas de classificação do mundo e de referenciação ao Outro (seja Agrônomo, Mestre em Desenvolvimento Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural – PGDR/UFRGS e Doutorando do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade –

CPDA/UFRRJ. E-mail: cleytong@terra.com.br. Agrônomo e Doutor em Sociologia. Professor da Faculdade de Agronomia (UFRGS) e professor-pesquisador dos programas de pós-graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) e em Sociologia (PPGS), ambos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador CNPq. Email: jal@ufrgs.br. Recebido em 03/2005 – Aceito em 06/2005.

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 este outro considerado como sendo humano ou não-humano, vivo ou não-vivo, natural ou artificial, cultural ou biológico etc.).

Ao mesmo tempo em que estas questões representam uma verdadeira revolução nos hábitos, valores e comportamentos das pessoas em geral, sua interferência não se restringe ao nível do indivíduo. Isso acontece porque elas envolvem intensas modificações socioculturais e econômico-produtivas que, se, por vezes podem aparecer aos olhos das pessoas em geral como tendo um caráter inédito, por outro lado, podem também ser interpretadas como sendo uma conseqüência lógica decorrente dos processos de desenvolvimento da sociedade contemporânea ou, ainda, como reveladoras de um caráter intrinsecamente degradador e egoísta da espécie humana em relação aos demais elementos não-humanos. Tais divergências explicativas, contudo, só indicam como estas transformações relativas às preocupações ambientais atuam distintamente sobre as diferentes organizações societárias e, é claro, sobre as assimetrias de poder nelas existentes. Mas, pode-se perguntar, o que faz com que estas perspectivas recentes1 adquiram tal pretensão universalizante? Que dispositivos estão atuando neste processo? O que faz este tipo de sensibilidade se espraiar com tamanha intensidade e heterogeneidade por boa parte da opinião pública (institucionalizada ou não), colocando em xeque o aparente otimismo que envolve a ciência, o progresso técnico e mesmo os atuais projetos modernos hegemônicos de sociedade?

Em um primeiro momento, uma resposta plausível a estas perguntas poderia ser a de que a “explosão da sensibilidade ecológica” (ALPHANDERY et al., 1992) seria o resultado direto e unívoco da sucessão de catástrofes ecológicas proporcionadas pela intensificação do processo de desenvolvimento técnico-científico nos últimos 40 anos. Ou, na mesma direção, devido ao crescente agravamento da poluição e dos efeitos danosos deste avanço tecnológico em nível global, tais como o “efeito estufa”, as “chuvas ácidas” e a “diminuição da camada de ozônio”. Ou, ainda, ao enfraquecimento e ao cada vez mais constante questionamento do próprio modelo econômico-produtivo constituído ao longo destes últimos dois séculos. Seria, enfim, segundo esta perspectiva, uma espécie de somatório dos próprios resultados concretos e não tão positivos do padrão capitalista de desenvolvimento industrial (personificado em estruturas como o mercado, o Estado, o desenvolvimento tecnológico ou a própria ciência), responsável pelo desencadeamento deste fenômeno.

De outra parte, uma perspectiva distinta desta tende a partir de um ponto de vista “evolutivo” (LEIS, 1999) ou, ainda, através da construção de uma abordagem diacrônico-narrativa (McCORMICK, 1992) sobre a consolidação do pensamento ambiental em nível mundial. Em ambos os casos, a ênfase recai sobre um permanente crescimento e acumulação das discussões, dos processos e das pessoas que, historicamente, teriam marcado este fortalecimento da problemática ambiental enquanto problema relevante para a sociedade. O que está implícito nesta forma de perceber tal problemática é a tentativa de rastrear na história ocidental as origens do ambientalismo ou, ainda, da “crise ecológica” atual e, como conseqüência, as possíveis razões e motivações para o surgimento de uma nova ética ambiental contemporânea. Assim, através da construção de uma narrativa coerente e estruturada em fatos que se

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A desenrolam linearmente na sucessão do tempo e da identificação dos principais agentes desencadeadores das discussões sobre meio ambiente (pessoas, organismos e instituições), poder-se-ia identificar certas “fases”, momentos de transição e rupturas que teriam levado a uma “tomada de consciência” global sobre os processos de degradação ambiental.

Por fim, uma outra abordagem possível seria pensar a aparente crise ambiental não como simples espelho das condições objetivas da sociedade, como produto incondicional e inequívoco de causas estruturais ou funcionais dos sistemas de arranjo político-econômico-institucionais planetários (e/ou estatais, científicos e financeiros) ou, ainda, como um suposto momento de “transição civilizatória”. Mais do que mera conseqüência do modo como se organizam e funcionam estas estruturas (econômicas, sociais, políticas, produtivas etc.) e de como se originou o que hoje se denomina de “movimento ambientalista”, a invenção do meio ambiente como problemática social relevante incluir-se-ia dentro de um processo dinâmico de reestruturação sociocultural, onde o que estaria em jogo (em disputa) seria a própria modificação da forma como a sociedade se organiza, pensa e elabora seus valores, suas prioridades e seus desejos (processo este sempre inacabado e cuja dinâmica estaria centrada na instável ascensãodeclínio das lutas e embates que surgem em tempos e espaços diferenciados). Portanto, a problemática ambiental teria que ser compreendida não como algo decorrente, por exemplo, de certas “falhas” ou contradições inerentes ao padrão moderno de produção atual ou como progressiva tomada de consciência dos seus limites, mas sim como uma espécie de núcleo aglutinador de um fato social que é, ao mesmo tempo, produto de um constante processo assimétrico de definição coletiva e de reelaboração dos valores da sociedade.

Pensada desta maneira, a chamada “problemática ambiental” seria vista como uma “questão socialmente construída” ou, dito de outra forma, como “um problema [que] existe principalmente em termos de como está definido e concebido na sociedade” (BLUMER, 1971 apud HILGARTNER & BOSK, 1988: 4). Do mesmo modo, o meio ambiente (ou os problemas a ele vinculados) não seria visto apenas como algo concreto, mas, sobretudo, como uma realidade criada através de um processo social dinâmico e gerenciada pela conjunção de certas forças sociais constituídas histórica e culturalmente. Seriam, portanto, segundo este outro ponto de vista, a qualidade e quantidade interativa destas forças subjetivas que estariam desencadeando uma certa exacerbação da problemática ambiental, o que, implicitamente, significa retirar a importância decisiva dos fenômenos concretos hoje identificados como “problemas ambientais”, “catástrofes ecológicas” etc., para centrar o foco em uma espécie de concorrência social pela definição destes mesmos problemas e catástrofes como sendo socialmente relevantes.

Todavia, uma reflexão sobre estas três possíveis explicações aponta algumas dificuldades inquietantes e não totalmente contempladas. E é neste sentido que, como se verá a seguir, este artigo se propõe a discutir criticamente tais perspectivas e, quem sabe, contribuir – através da proposição de uma leitura particular sobre a problemática ambiental – no sentido da superação de alguns destes obstáculos heurísticos. A hipótese

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 lançada aqui e que será, mais à frente, melhor discutida, é a de que por trás desta difusa “sensibilidade ambiental” encontra-se em processo a configuração de um campo ambiental já relativamente estruturado e que tende, cada vez mais, a legitimar-se enquanto locus central das discussões sobre tudo aquilo que diz respeito ao meio ambiente e suas implicações prático-cognitivas. Deste modo, tal espaço de lutas simbólicas tende a gerar conflitos em torno do reconhecimento de certas práticas e modos de pensamento, sendo que o que estará sendo colocado em jogo, neste caso, são as próprias representações sociais (inscritas e articuladas segundo um universo de ações e idéias possíveis) do que significaria o meio ambiente – e, em contrapartida, as relações ontológicas construídas sobre seres humanos e natureza. Nesta perspectiva, o campo ambiental em construção, sempre perpassado e alimentado pelos demais campos sociais e funcionando como um amplo, dinâmico, fluído, instável e heterogêneo espaço de debate onde tendem a se concentrar as disputas sobre que discursos/ações deveriam ser instituídos como sendo os mais “verdadeiros” ou, no mínimo, mais “competentes”, faz com que determinadas idéias, conceitos e práticas possam naturalizar-se e, concomitantemente, sejam vistas como ambientalmente corretas. Porém, deste ponto de vista, o que seria visto (e adotado) como “ambientalmente correto” está, desde já, em disputa.

Sobre a aposta em um ponto de vista “evolutivo”

No que se refere às visões e narrativas ligadas a uma percepção “evolutiva” sobre os processos de tomada de consciência ambiental, um dos problemas deste tipo de abordagem é que elas tendem a dar a idéia de que as formas e as ações assumidas hoje pela problemática ambiental já estavam dadas a priori, ou seja, desde o seu princípio, sendo uma mera conseqüência da passagem das coisas, das pessoas e dos acontecimentos. Assim, estar-se-ia hoje assistindo ou ao seu ápice ou, no mais das vezes, ao limiar de uma transição qualitativa fundamental para uma maior “consciência ecológica”.

De fato, esta forma de perceber o surgimento da problemática ambiental fica bastante evidente através de um pequeno exemplo ilustrativo. Considerem-se afirmações do tipo: “desde suas origens o ambientalismo foi um movimento global, de características transnacionais. Portanto, era de se esperar que os primeiros passos do ambientalismo rumo a uma expressão significativa, fossem interrompidos pela eclosão dos nacionalismos que promoveram as duas guerras mundiais (...)” (LEIS, 1999, p.69 – grifos dos autores). Ora, a categoria “ambientalismo” é usada aqui (não só neste trecho, mas em todo o texto do referido autor) como se ela há muito tempo já existisse como forma acabada, o que implica em adotar tal noção de uma maneira quase absoluta para identificar momentos históricos e situações extremamente complexas. Porém, poder-se-ia indagar: estariam seus participantes, nos diversos momentos e contextos

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A em que se efetivavam os debates sugeridos pelo autor, identificando-os como sendo discussões “ambientalistas”? Seria este o sentido e a interpretação preponderantes e que estariam a dominar a imensa diversidade prático-discursiva aí existente? Além disso, a idéia de que haveria “origens” (ou “primeiros passos”) significa determinar a necessidade de dizer quais seriam estas origens e, portanto, isto implica em escolher como mais importantes certos fatos e disputas em detrimento de outros. Aqui, o autor referido, então, torna-se uma espécie de genitor do nascimento, neste caso, do que ele identifica ao longo da história como sendo “ambientalismo” e “ambientalistas”2. Em síntese, o autor está nos informando acerca do que importa em termos de situações e lugares-chave, quem são as personalidades relevantes nos debates e que discussões e controvérsias seriam historicamente as mais destacadas quando o assunto se referiria ao meio ambiente3. Não há, neste caso, portanto, uma relativização do lugar de onde está falando o narrador, do universo de escolhas (de fatos, pessoas, temas, datas etc.) a que este teve que se submeter ou que lhe estava disponível no momento da elaboração da narrativa. Todavia, como se sabe, faz algum tempo os antropólogos e, também, como pôde constatar Acot (1990: 1) já na introdução da sua “História da ecologia”, “a diferença de abordagem pode induzir uma diferença dos conhecimentos”.

Ainda sobre este tipo de perspectiva analítica “evolutiva”, Pádua (2002: 28 – grifos dos autores) parece, por vezes, seguir uma linha semelhante quando afirma, por exemplo, que “os esforços de crítica ambiental existentes a partir do século XVIII, que estão sendo redescobertos pela historiografia recente, podem ser vistos como momentos no processo de tomada de consciência dos dilemas ambientais no universo da modernidade”. Novamente, aqui surge a idéia de que haveria “momentos no processo de tomada de consciência”, o que, por sua vez, sugere um final, uma vez que, passados todos os percalços enfrentados pelo ambientalismo ao longo do tempo, no limite teríamos, como conseqüência, a tão esperada “tomada de consciência”. Contudo, paradoxalmente, o próprio autor reconhece as ambigüidades que envolveram a possibilidade de se identificar, hoje, esta mesma “consciência ecológica” quando, dois parágrafos adiante, afirma que “a evolução da consciência ecológica não deve ser considerada, como querem alguns, uma resposta exógena, tardia e regressiva ao mundo moderno. Ao contrário, ela é fruto desse mesmo mundo, uma resultante interna das suas dinâmicas históricas planetárias, uma herdeira das suas revoluções científicas”. Ao refletir sobre esta última afirmação, vê-se que o autor também percebe a geração de uma sensibilidade ecológica não como um vaticínio inexorável, mas sim como um fenômeno complexo que envolveu e continua envolvendo um permanente movimento de forças intrínsecas à constituição histórica das sociedades, suas instituições e formas de controle social.

Aliás, neste caso, uma analogia pertinente poderia ser feita entre as idéias de “consciência ecológica” e “consciência de classe”. Isso, porque, tal como muitas vezes a “classe trabalhadora” já havia sido percebida como algo acabado, vista como uma coisa petrificada (o que sugeriria a existência de uma “classe trabalhadora em si”, portanto, trans-histórica), é recorrente tratar-se os “ambientalistas”, o “ambientalismo” ou a “questão ambiental” como algo pronto, estático e já pré-existente

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 desde há muito tempo. Neste sentido, ao se usar tais expressões, valeria o mesmo tipo de alerta feito por Thompson (2001: 270) para o uso da idéia de “classe” quando adotada no seu viés althusseriano, de que, “com excessiva freqüência, a teoria prevalece sobre o fenômeno histórico que se propõe teorizar”. Em suma, em muitos casos, ao se falar em “ambientalismo” ou em uma “questão ambiental” assume-se, sem nenhum exercício de relativização, esta categoria a partir de um modelo estático de relações sociais que, via de regra, são etnocentradas e correspondentes a um lugar e a um tempo histórico específicos. Deste modo, os parâmetros valorativos adotados para se identificar um suposto “ambientalismo” ao longo do tempo, tal qual como muito se fez com a idéia de “classe trabalhadora”, são fruto de uma maneira muito particular de perceber o mundo. E, deste modo, como em um passe de mágica, a “consciência ecológica” pode então surgir como parte integrante do pensamento e das práticas de uma infinidade de tempos e personagens históricos. Tomada neste sentido, corre-se o perigo de pensar que a “falta” de uma maior “consciência ecológica” adviria do fato de que não teria havido ainda uma acumulação de experiências e de conhecimentos (um processo “evolutivo”?) suficientes na sociedade contemporânea, sendo que tais acréscimos aos saberes humanos estariam já, em princípio, a caminho.

Sobre este tipo de leitura, talvez um contraponto interessante possa ser encontrado em um autor como Thomas (1994). Este, estudando a sociedade inglesa dos séculos XVIII e XIX, elege como ponto central de sua análise, justamente, as contradições, as ambigüidades, as oposições, as incertezas, as indefinições, a diversidade de posições, as idiossincrasias, as indeterminações, as angústias e as mudanças e embates (que, por vezes, se processam em uma mesma pessoa) de idéias e de concepções que, historicamente, marcaram e amalgamaram uma ampla gama de agentes e de situações em que as relações entre mundo natural e seres humanos estavam sendo discutidas.

Como se pode ver, ao se optar pela adoção de um tipo de atitude interpretativa como a de Thomas, o fazer ambientalista surge como algo que se constrói, justamente, a partir do dia-a-dia e da complexidade de enfrentamentos valorativos, morais e éticos que marcaram sincrônica e diacronicamente a sua constituição, sendo que aí se encontra já previamente incorporado no fazer e no pensar das pessoas todo o peso histórico das relações e práticas sociais instituídas entre seres humanos e, obviamente, entre estes e o ambiente que os cerca. Visto assim, tal movimento em direção a uma luta pela preservação-conservação da natureza não é percebido como algo já dado ou identificável (também por aqueles que, em épocas distintas, integravam tais discussões) desde o princípio, mas, sim, construído em meio a conflitos de toda ordem que não necessariamente deveriam estar vinculados diretamente, por exemplo, a idéias de preservação ou conservação do meio ambiente.

Sobre “desastres” e “catástrofes”: meio ambiente como realidade objetivada

Já uma outra forma de tentar explicar a consolidação de uma problemática ambiental original na atualidade irá buscar enfatizar o aspecto da materialidade dos fenômenos ambientais conjugado, respectivamente, com a sua dimensão planetária e

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A com a qualidade irreversível que tais processos teriam alcançado. Neste caso, se acentuam todos aqueles efeitos que, concretamente, poderiam ser hoje percebidos e sentidos pelas pessoas como acontecimentos reais ligados à degradação do meio ambiente e das condições de vida (humana e não-humana) na biosfera terrestre. Seriam estes os fatores determinantes do desencadeamento de novas sensibilidades ecológicas, sendo que estas últimas funcionariam como uma espécie de resposta crítica à exacerbação dos processos de degradação ambiental propiciados pelos padrões dominantes de desenvolvimento industrial capitalista. Em suma, haveria um jogo de ação e reação, de causalidade, em que os seres humanos, ao sentirem os processos resultantes no (e as respostas) do ambiente às diferentes formas de apropriação – este último passando a não mais ser visto apenas como substrato inerte e eternamente disponível ao usufruto humano –, reagiriam de modo a questionar e a repensar as atuais formas de uso dos recursos ambientais ainda existentes, sendo que o modo principal de legitimação destas novas evidências adviria através da constatação científica, feita por especialistas de diversas áreas, de “fatos objetivos” que comprovariam a especificidade preocupante dos processos de degradação ambiental.

Contudo, veja-se mais de perto os limites deste tipo de abordagem ao se propor um pequeno exercício comparativo e que estabelece um paralelo com a realidade de nações que tiveram seu processo de industrialização consolidado durante o século XIX. Como bem demonstraram Thomas (1994) e Norris (1985), em países como a Inglaterra, neste período, sempre houve uma ampla diversidade de concepções concorrentes e, muitas vezes, antagônicas sobre as características que distinguiriam (em termos de classificações, funções, qualidades etc.) os seres humanos dos demais “elementos da natureza”. Além disso, é sabido o quanto a sociedade inglesa sofreu nestes dois séculos em termos de degradação da qualidade do ambiente, conseqüência do intenso processo de transformação produtiva por que passou. E é por isso que se pode, hoje, perceber tais mudanças como geradoras de efeitos não tão benéficos do ponto de vista ambiental, o que, por sua vez, implica considerar que, ao se olhar, mesmo que breve e superficialmente, a realidade de países como estes, é possível verificar como o processo de industrialização por que passaram produziu também sérios “desastres ambientais”. Neste sentido, o que dizer, por exemplo, do elevado grau de contaminação das águas e do ar das cidades de então por elementos extremamente tóxicos; das situações degradantes as quais os trabalhadores eram obrigados a suportar no regime arbitrário de produção das fábricas da época; de uma verdadeira carnificina de animais utilizados para experimentos científicos ou eliminados sistematicamente nas expedições – também ditas científicas – a países da África, Ásia e Américas; da destruição de boa parte das florestas (ocasionando, portanto, fatos irreversíveis como, por exemplo, redução da “biodiversidade”) e da drástica alteração de grandes ecossistemas mundiais; da perda de patrimônio cultural acumulado por incontáveis gerações, por um sem número de populações consideradas “tradicionais”; ou mesmo da própria deterioração da paisagem, com a destruição de espaços pouco antropizados e antes destinados ao lazer e à contemplação? Não seriam, estes também, eventos a serem considerados como “problemas ambientais”?

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É claro que não se está querendo dizer aqui que, neste período, não se discutissem e não se buscassem enfrentar os “problemas ambientais”. O que ocorre é que tais “problemas” ganhavam uma dimensão e uma valoração qualitativamente bastante diferente das avaliações contemporâneas (o que, provavelmente, significaria até mesmo a ausência do adjetivo “ambiental” ao lado do que se entendia como “problemas”), ou seja, os parâmetros de avaliação estavam fixados em pressupostos e em um contexto de luta social historicamente bastante diferenciados. Sobre este particular, novamente Thomas (1994) ilustra, para o caso da Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, uma situação muito parecida com a que ocorre nos dias de hoje. Havia neste período, por exemplo, uma acirrada concorrência e uma extrema diversidade em termos de concepções, ideais, valores e práticas sobre a natureza e os seres humanos, sobre os processos de domesticação da natureza, sobre o papel (as funções) que ambos deveriam desempenhar, sobre os seus possíveis significados metafísicos, míticodivinizantes ou materialistas, enfim, sobre uma multiplicidade de aspectos que, no confrontar das vozes da época, mostravam-se, no tempo e no espaço, extremamente ambíguos, volúveis e contraditórios (e, portanto, não facilmente identificáveis por aqueles que se achavam em meio a esta imensidão de temperamentos e de maneiras de ser, de ver, de reagir)4.

Portanto, a pergunta que fica é, se, neste período, já havia muitos dos “problemas ambientais” hoje assim identificados e tidos como prioritários e motivo de preocupação por parte das autoridades, e por que, então, não teria surgido, de uma forma consistente, amplamente difundida e, é claro, entranhada no aparato institucional inglês, uma política e uma estratégia (ou políticas e estratégias) especificamente voltadas para a problematização desta situação preocupante? Mesmo que se pudesse dizer que tais “problemas” foram, de alguma forma e mesmo que conscientemente enfrentados, fica evidente que a sua interiorização e naturalização enquanto uma “questão ambiental” não havia se efetivado como senso comum disseminado por toda a sociedade inglesa.

Indo ainda mais além, mesmo que de um ponto de vista demasiadamente ecocêntrico5, Ponting (1995) mostra como populações humanas – enquanto grupo social produtor de uma cultura – teriam atuado, em diferentes épocas e lugares, sobre o meio ambiente de modo a modificá-lo de uma maneira que hoje seria classificada como “insustentável” no que se refere à manutenção dos padrões de produção e consumo existentes ou, se se preferir, dos modos de vida então preponderantes. Assim, se se considerasse os atuais parâmetros dominantes relacionados à temática ambiental – tanto em termos de preservação de uma suposta “natureza em si” como de um possível “uso racional” dos recursos ambientais, sendo esses os dois pólos mais salientes quando das discussões em torno da problemática ambiental –, tais sociedades teriam de ser também rotuladas como “degradadoras” da natureza e do meio ambiente. Ainda segundo este mesmo autor, muito do declínio destas “civilizações” – termo este por ele adotado – teria sido fruto justamente de uma certa incompetência em gerir o ambiente que as circundava. Isso porque, por mais tênues que fossem os efeitos das estratégias de sobrevivência e de produção e das práticas e manejos utilizados, estas, desde os

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A caçadores-coletores de dez mil anos atrás até os empresários rurais altamente tecnificados de hoje, sempre teriam interferido ativamente na dinâmica dos ecossistemas da biosfera terrestre e, o que é mais importante, sem terem o completo controle e previsão sobre os possíveis resultados de suas ações. Afinal, a exaustão da fertilidade do solo para uma tribo vivendo na Nova Guiné há 10 mil anos, o assoreamento do leito dos rios Tigre e Eufrates, no caso da Mesopotâmia, por volta de 3.0 a.C. e os efeitos de aquecimento global nas sociedades contemporâneas, todos estes são fatores não previstos no momento de implementação das técnicas e tecnologias que os produziram6. Seja selecionando espécies de plantas e animais, seja alterando a configuração da topografia, do solo e da paisagem em geral, ou antropizando recursos naturais como a água através de métodos de canalização e irrigação, estas atividades supõem a produção de transformações sobre o meio ambiente que, em alguns casos, podem se revelar na forma de “problemas” para determinado grupo social.

Veja-se o exemplo do processo de devastação da Mata Atlântica, exacerbado durante a gestação e formação do Estado brasileiro nos séculos XVII, XVIII e XIX. Já neste período de tempo (ou seja, durante cerca de mais de 300 anos), devido à consolidação do regime itinerante de derrubada e queimada da floresta, utilizado como estratégia para suprir as necessidades da crescente população das “lavras de além-mar”, a coroa portuguesa e os administradores locais se viram obrigados a enfrentar sérios “problemas” de abastecimento decorrentes da exaustão das áreas de plantio (DEAN, 1994). Quer dizer, mesmo no distante mundo colonial de três séculos atrás, uma outra espécie de “problemática ambiental” instalava-se e requisitava tanto o seu reconhecimento pela população enquanto questão relevante, como demandava a necessidade de se pensar estratégias de combate à “crise ambiental” que então se avizinhava:

“O governador procurou converter os fazendeiros paulistas ao emprego do arado, uma reforma que incluiria integrar animais de tração e seu estrume ao cultivo dos campos. Os habitantes lhe ofereceram, contudo, a ‘opinião universal’ de que os solos de São Paulo não eram adequados a aração. Esta concepção (...) era inteiramente falsa e apenas se justificava pela ‘negligência e preguiça dos nativos e pela facilidade com que a terra os sustenta a um pequeno custo’ (...). A pressão sobre a Mata Atlântica teria, em grande parte, diminuído se essa reforma tivesse sido bem-sucedida. Pode-se imaginar, porém, a incredulidade dos horticultores mestiços quando lhes era dito que deveriam trocar um método de cultivo, que interrompia seu lazer por não mais de quinhentas horas por ano, por outro que os teria sobrecarregado com pelo menos 2 mil horas de labuta e que, além disso, não era comprovado e talvez não fosse capaz de render colheitas maiores” (DEAN, 1994: 117).

É claro que, visto desta maneira, um leitor mais apressado poderia ir logo constatando que qualquer historiador poderia perfeitamente ler o passado e argumentar que dificuldades ambientais, tidas como contemporâneas (contaminação das águas, erosão dos solos, destruição de sítios naturais etc.), sempre existiram para as demais

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 populações que já habitaram o planeta. Porém, mais importante do que esta constatação (que sempre poderia ser contestada, visto que um ponto de vista inverso e que mostrasse, por exemplo, o caráter inédito e novo dos problemas ambientais contemporâneos seria sempre possível de ser construído e comprovado) talvez seria perceber as especificidades que marcaram a explicitação de tais problemas enquanto uma problemática específica7, ou seja, tentar visualizar quais e de que modo se construíram historicamente certas questões relacionadas à forma com que o ser humano tem se apropriado do (e interagido com) o ambiente que o cerca. Talvez daí, através dessa permanente confrontação com o Outro, do exercício de afastamento de um Eu autocentrado, da relativização das maneiras dominantes de proceder no cotidiano e que tendem a nos deixar ver e agir segundo padrões classificatórios cristalizadores, poder-se-ia pensar em outras perspectivas que viessem a balançar o equilíbrio dado pela radicalidade da atual concepção hegemônica e que separa, ontologicamente, ser humano e natureza8.

Em decorrência disso, seria igualmente possível questionar por que certas demandas ambientais presentes no dia-a-dia da humanidade desde muito tempo somente puderam se converter em uma problemática objetiva e coerentemente identificável a partir de um determinado momento? Ou, por que aquele quadro de extrema degradação ambiental do século XIX, que levou a sociedade inglesa e neoportuguesa (talvez possa se dizer européia), já naquela época, a canalizar uma atenção maior para estes problemas, não pôde se disseminar conscientemente na forma de uma “problemática global”? Ou, ainda, já que problemas ambientais muito semelhantes aos atuais provavelmente foram também vividos por outras populações em períodos anteriores, por que razão a sua identificação e os desdobramentos que então se instalaram tomaram rumos tão distintos aos que hoje têm assumido a atual “crise ecológica”?

Uma resposta bastante usual, atualmente, para este tipo de afirmação, gira em torno de um argumento vinculado à dimensão e ao alcance que os fenômenos ambientais adquiriram recentemente. Sob este prisma, não teria sido possível a instauração consciente de uma problemática ambiental naquela época devido ao fato de os efeitos “maléficos” das ações humanas (como a poluição, assoreamento de rios, queimadas, desmatamentos etc.) ficarem restritos espacialmente e não desencadearem processos de transformação em nível planetário9. Em outras palavras, teria sido somente devido ao surgimento de novos processos químico-físico-biológicos, que comprometeriam direta e globalmente a estabilidade da biosfera terrestre, o fator determinante para que se estabelecesse que o meio ambiente teria de ser encarado como sendo uma problemática socialmente relevante. E isto se comprovaria devido ao fato de que os efeitos desencadeados pelas ações humanas através da intensa instrumentalização e mercantilização do desenvolvimento técnico-científico atual inexistiriam até então na natureza.

Porém, será mesmo apenas por esta razão? Se for este o caso, por que então nos anos 1940 e 1950 o meio ambiente não adquiriu maior importância com o desenvolvimento maciço das armas nucleares após a Segunda Guerra Mundial e parte da Guerra Fria? Já que sua eventual efetividade enquanto estratégia de ação afetaria

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A drasticamente toda a biosfera (e quase afetou), não seria este um fenômeno que deveria ter interessado a todos e que, portanto, apresentava dimensões globais já naquela época? Enfim, por que somente 30 ou 40 anos após o início da sua utilização é que o tema da energia nuclear ganha notoriedade e irá se revelar um dos pontos iniciais de crítica da chamada “ecologia radical” durante a década de 197010? Teria sido este, como aparece em certos pontos de vista “evolutivos”, meramente o tempo necessário para o florescimento de uma suposta “consciência ecológica” que, todavia, já havia sido previamente semeada pelos “ambientalistas” do passado e do presente? E, se assim fosse, onde ficariam todas as possibilidades contingentes e que são inerentes a qualquer desenvolvimento de algo que só existe em potência? Como não considerar a eventualidade de que muitas das idéias, hoje normalmente etiquetadas como preservacionistas ou conservacionistas, e que foram defendidas durante os anos de 1960 e 1970, poderiam ter tido, como um organismo vivo qualquer, uma morte prematura (não chegando, portanto, a atingir a idade “adulta”)?

Nesse momento, alguém poderia indagar, algo surpreso: mas será que todos os problemas diagnosticados atualmente como tendo um viés ambiental seriam apenas construções mentais, representações de uma realidade inventada pela imaginação humana? Afinal, então, o aquecimento global, a perda de biodiversidade, a elevação do nível dos oceanos, enfim, todos estes “problemas” não seriam fatos reais, mas somente fenômenos culturalmente fabricados? Estas interrogações remetem a outra dimensão importante a qual também está no cerne das discussões sobre meio ambiente e que tem a ver com a terceira alternativa de explicação anteriormente já citada: a própria gênese da problemática que envolve o meio ambiente enquanto realidade inventada. Veja-se um pouco mais de perto esta perspectiva.

Inventando “problemas ambientais”: os incômodos da relativização

De um modo geral, tais considerações ajudam a refletir sobre uma questão importante quando se pensa as relações entre seres humanos e, sobretudo, entre estes e o meio em que vivem: a necessidade de se levar em conta as constantes interseções entre rupturas e continuidades históricas. Ora, como foi visto, uma pequena busca por entre as reminiscências e interstícios históricos do mundo ocidental (o que implica, é claro, ressignificar o passado) revelaria o quanto o meio ambiente (que neste caso específico, deve ser considerado no sentido mais amplo possível) tem sido foco de preocupação desde há muito tempo. Seja este considerado como “recurso”, como “divindade” ou como “paraíso selvagem”, nunca teria deixado de se apresentar como algo pensado e problematizado11. Mesmo quando no século XVIII consolidou-se uma visão que propunha a separação definitiva entre sociedade e natureza, sendo esta última expulsa do “paraíso da humanidade” (ou, ao inverso, sendo o ser humano excluído desta nova essência arquetípica), este exílio não significou, de maneira alguma, a eliminação incondicional da natureza (e do meio ambiente) do imaginário coletivo.

No entanto, por outro lado, se poderia argumentar também que tais preocupações, apesar de poderem hoje ser rotuladas de “questões ambientais”, tinham

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 um caráter e uma especificidade próprios de seu tempo e, portanto, com implicações práticas e cognitivas diferentes do modo de pensar e agir contemporâneos. E isso aponta, justamente, para a necessidade de se reconhecer que o conceito de meio ambiente define-se historicamente no tempo e no espaço e que, por conseguinte, não possui hoje os mesmos significados de 100, 200 ou 300 anos atrás. Do mesmo modo, as compreensões de meio ambiente em países como a Alemanha serão totalmente diferentes daqueles encontrados na Costa do Marfim, na Turquia ou no Brasil, por exemplo. Ou, ainda, que as conotações que esta idéia assume em cidades como Porto Alegre, serão muito distintas daquelas assumidas em uma realidade como a de um pequeno município do sertão nordestino. Isto sem falar, como já sugerido anteriormente, que o aparente sucesso da nova temática ambiental é um fenômeno ainda muito restrito em termos planetários. Quer dizer, países onde suas populações enfrentam sérias dificuldades para suprir necessidades básicas (como alimentação, educação, saúde, habitação etc.) ou mesmo nas camadas economicamente menos favorecidas das nações mais ricas, a questão do meio ambiente é, se não completamente desconhecida, no mínimo marginal ou indiferente12. Do mesmo modo, sobre este fenômeno contemporâneo de ressignificação de um mundo natural desumanizado, afirma Diegues (1996: 58): “não se pode negar que houve uma dessacralização da natureza, mas (...) a experiência de um mundo natural radicalmente dessacralizado é acessível apenas a uma minoria nas sociedades modernas, e, dentro dela, sobretudo aos cientistas”.

Além disso, apesar da consolidação e da supremacia nos últimos dois séculos, de um tipo de concepção que faz do meio ambiente mero recurso a ser usufruído, toda uma gama de novos sentidos e novos mitos (ou neomitos, como sugere MORIN, 1991 apud DIEGUES, 1996) estão sendo concomitantemente (re)produzidos e (re)incorporados. Exemplo visível disso é o fato de haver hoje uma intensa produção (extremamente variável em termos qualitativos) de concepções muito particulares sobre o que representa a própria idéia de natureza ou de meio ambiente13. Assim é que, atualmente, fazem parte do debate sobre este tema versões demasiado distintas, mesmo em espaços tidos como referenciais, como é o caso do campo científico. Nesta espécie de salada propositiva, convivem pontos de vista que concebem o meio ambiente, por exemplo apenas como suporte inerte e inacabável à disposição da espécie humana; ou ligado à aposta na solução dos problemas ambientais através de um avanço no processo de desenvolvimento científico-tecnológico; ou a idéias vinculadas à proteção da natureza de todo e qualquer artifício humano, (re)sacralizando assim os processos naturais e colocando ênfase na possibilidade daquela encerrar no seu interior alguns dos mistérios da própria existência e essência do universo; ou ainda a um tipo de abordagem que pretende enfocar, simplesmente, a possibilidade de se estabelecer uma convivência “harmônica” entre seres humanos e elementos da natureza14. Esta ampla diversidade de visões, verificável em qualquer espaço social, aponta para o fato de que toda sociedade, toda cultura (algo, portanto, teoricamente restrito à dimensão humana) irá inventar as suas concepções particulares do que representaria a idéia de meio ambiente e, conseqüentemente, de natureza. Logo, estas duas últimas noções não podem ser consideradas como intrinsecamente pertencentes a uma consciência

A dialética dos campos sociais na interpretação da problemática ambiental – C H. G J A humana universal, mas, sim, criadas e instituídas de significados através de processos historicamente engendrados.

Por outro lado, é plausível pensar que na atualidade, e para a maior parte do mundo ocidental, a noção de meio ambiente ensejaria certas concepções relativamente comuns e que formariam, temporal e espacialmente, a trama de sentidos que lhe dá legitimidade. Exemplo disso seria a idéia de que hoje haveria uma delimitação bem clara entre um mundo dos humanos e um mundo natural (ou, como querem alguns, dos humanos e não-humanos), mecanismo que tornaria o meio ambiente passível de se tornar algo definível, classificável e, conseqüentemente, utilizável como um recurso à disposição da espécie humana. Existiria, no entanto, também um certo consenso sobre a idéia de meio ambiente como um valor, ou seja, como sendo “um bem comum da humanidade”, algo, portanto, que necessita ser cuidado e preservado, “algo que se deveria respeitar, admirar e cuidar para além dos interesses imediatos das sociedades” (CARVALHO, 2001: 36). Assim, seja na forma de um ser que deve também ter os seus direitos (como sugere a hipótese Gaia, por exemplo15) ou entendida como recurso ou reserva (de riqueza, de beleza, de conhecimento etc.) para ser utilizada ou guardada às gerações futuras16, o meio ambiente sugeriria hoje a busca de uma idéia de universalidade e que teria que ver com o “interesse comum da humanidade” (TRINDADE, 1993: 49).

Deste modo, muito embora a visão de natureza (da qual deriva o conceito de meio ambiente) como “sujeito de direito” venha a ser, ao menos parcialmente, restabelecida nos últimos anos, esta concepção (predominante até certa altura no imaginário ocidental sobre o tema17) perdeu ao longo dos últimos dois séculos seu estatuto de espaço composto por “criaturas de Deus, que tinham direito de viver”.18 O projeto que predominou neste período foi o da erradicação de qualquer tipo de vínculo entre a sociedade, sua cultura e o meio ambiente e seu universo natural. Ou seja, com a eliminação de todo e qualquer resquício do que, por exemplo, fora para os gregos antigos a noção de physis19, natureza e meio ambiente passaram a não mais indicar uma pretensa aura de totalidade, prevalecendo neste processo de ressignificação uma paulatina desqualificação dos dispositivos considerados exteriores ao homem. Sobre este particular e, embora, é preciso reconhecer, esta tendência não tenha eliminado, de maneira nenhuma, a possibilidade de que outras representações fossem construídas e, por conseguinte, convivessem e competissem com esta concepção hegemônica de humanidade colocada fora da natureza, Larrère e Larrère (1997, p.67) argumentam que, principalmente durante os séculos XVII e XVIII, “a introdução de um novo princípio ético parece acompanhada por uma desvalorização da natureza, susceptível de pôr fim ao naturalismo antigo. A natureza já não é um ‘cosmos’, deixa de ser eterna, nem sequer é engendrada, é criada”.

Como conseqüência disso, tudo o que passasse a ser visto como nãohumano poderia automaticamente transformar-se em mero objeto a ser apropriado pelos próprios seres humanos. E, sob esta lógica, compreende-se em parte porque também fazia certo sentido para o pensamento ocidental do século XIX usar como simples objetos à disposição de seus donos não somente recursos naturais, mas também

Ambiente & Sociedade – Vol. VIII nº. 2 jul./dez. 2005 índios, negros, asiáticos, pobres ou outras populações e indivíduos que não se assemelhavam ao tipo “humano ideal” (branco, cristão e ocidental). A alteridade existente entre estas populações (para a qual contribuiu o processo de coisificação da natureza) era tão exacerbada que estes outros seres humanos quase não eram reconhecidos como pertencentes a uma mesma humanidade, o que legitimava em certa medida a também coisificação dos seus corpos e mentes.

O que fica, entretanto, em aberto no caso dos defensores de uma teórica imaterialidade da problemática ambiental (e tudo o que a ela se refira), é o fato de, mesmo que se admita que o meio ambiente que se vê é algo de certa forma já pronto para o olhar daquele que observa – pois, como disse Whitehead (1993: 43), “aquilo que enxergamos depende da luz que penetra o olho” –, esta visão condicionada não elimina sua existência objetiva e, conseqüentemente, os fenômenos e eventos a ela concernentes e dela decorrentes. Citando novamente Whitehead (1993: 48-5),

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