A psicologia ambiental e suas possibilidades de interdisciplinaridade

A psicologia ambiental e suas possibilidades de interdisciplinaridade

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A PSICOLOGIA AMBIENTAL E SUAS POSSIBILIDADES DE INTERDISCIPLINARIDADE1

Euclides Sánchez2 Universidade Central da Venezuela

Como discutir questões de método em Psicologia Ambiental, considerandose a sua necessária interdisciplinaridade? Haveria uma especificidade metodológica para que esta não venha a se concretizar devido às diferenças intrínsecas entre disciplinas, e no interior da própria Psicologia? Qual? Para o autor, essas questões consistem em apenas uma: a Psicologia Ambiental é uma disciplina interdisciplinar que não se concretiza devido às diferenças intrínsecas entre as disciplinas, incluindose aí a questão do método e da própria metodologia. O autor fundamenta a interdisciplinaridade na concepção de objeto integrado, caracterizando a dificuldade que está em cada disciplina operar com um diferente paradigma e a interdisciplinaridade estar contida no interior de um único paradigma. Dado que o método deriva da metodologia que o inspira, a investigação e a intervenção ambientais poderiam possibilitar a conjunção de saberes em um mesmo paradigma. Sugere que se opere a relação interdisciplinar em cada caso concreto. Propõe, como conclusão, uma agenda para o desenvolvimento da interdisciplinaridade.

Descritores: Psicologia ambiental. Pesquisa interdisciplinar. Metodologia.

1 Este artigo é uma contribuição do autor ao Simpósio Internacional “Psicologia e

Ambiente: O Papel da Psicologia Ambiental no Estudo das Questões Ambientais”, realizado no Instituto de Psicologia da USP, em novemvro de 2002 e objeto de publicação do número anterior da revista (volume 16, número 1/2 - 2005), dedicado ao tema “Psicologia e Ambiente”. Devido a um erro nessa produção técnica, este artigo não foi incluído, razão pela qual consta desta publicação.

2 Professor, membro do Programa de Mestrado em Psicologia Social e ex-Diretor do

Instituto de Psicologia da Universidade Central da Venezuela; Pesquisador do Programa de Promoção de Pesquisa da Venezuela; ex-Presidente da Sociedade Interamericana de Psicologia; membro dos comitês editoriais de várias revistas internacionais de Psicologia e co-editor iberoamericano do Forum Qualitative Social Research.

Euclides Sánchez

A Psicologia Ambiental, uma disciplina interdisciplinar

Psicologia Ambiental, uma disciplina interdisciplinar: assim Proshansky, Ittelson e Rivlin (1970) a ela se referiram ao organizar o texto

chology: man and his physical setting). Afirmaram que a “psicologia am-

“Psicologia ambiental: o homem e seu entorno físico” (Environmental psybiental é uma disciplina emergente que deve evoluir como uma superestrutura interdisciplinar de construtos e princípios teóricos de formulações básicas e achados empíricos de muitas disciplinas separadas” (p. 9). Mas, ao mesmo tempo, advertiram que o alcance da interdisciplinaridade enfrentava dificuldades não resolvidas pelas ciências sociais com as quais a Psicologia Ambiental deveria se relacionar, como, por exemplo: a não-existência de corpos teóricos solidamente apoiados por evidência empírica; a duvidosa utilidade para a Psicologia Ambiental de muitos dos conceitos sobre o comportamento humano utilizados por essas ciências devido a seu desenvolvimento em contextos muito particulares; e, inclusive, a ausência de integração entre a Psicologia como disciplina geral e as ditas ciências sociais. Razões? Segundo o seu ponto de vista, ter-se-ia de buscá-las na forma como se desenvolveu a ciência como instituição e nos objetos e contextos de estudo, nos níveis de análise e nos métodos de investigação e, como conseqüência, na possibilidade de cooperação entre elas.

A aspiração de interdisciplinaridade foi ratificada, posteriormente, por Proshansky (1987, p. 4):

Para muitos psicólogos ambientais, eu inclusive, o campo é, por definição, praticamente interdisciplinar, por ser concebido a partir de uma disciplina orientada para o problema e interessada em questões importantes da relação pessoa/ambiente no entorno urbano. De modo consciente ou não, ela se fundamenta em outros campos da psicologia, assim como em outras ciências do comportamento e das profissões do design.

Mas, tal interdisciplinaridade da Psicologia Ambiental, acrescenta, ainda não foi alcançada devido à dificuldade da própria Psicologia para atuar interdisciplinarmente: os psicólogos, diz Proshansky, pensam unidiscipli-

A Psicologia Ambiental e suas Possibilidades de Interdisciplinaridade narmente porque, como psicólogos, são socializados para focalizar principalmente um só nível de análise dos problemas, o psicológico, isolando-se de outras formas de conceitualizar os fenômenos sociais. A responsabilidade desta concepção parcializada da realidade, continua afirmando o autor, origina-se na aceitação, pela Psicologia, das hipóteses do modelo do experimento em laboratório sobre o que é a ciência e os seres humanos.

Vemos que a interdisciplinaridade é um ideal para a Psicologia Ambiental, que não se concretiza devido às diferenças intrínsecas entre as disciplinas, e dentro da própria Psicologia, e que, de algum modo, estão implíci- tas nas três perguntas que orientam esta sessão do simpósio3. A seguir, vou me referir a essas diferenças, mas antes, quero expressar o meu ponto de vista sobre o que entendo por interdisciplinaridade.

O sentido de interdisciplinaridade

Em termos gerais, o termo interdisciplinaridade se refere ao esforço de cooperação entre disciplinas para abordar conjuntamente a investigação ou solução de um problema e, inclusive, nas palavras de Palmade (1979), a interdisciplinaridade propõe a integração dos conhecimentos das disciplinas com a finalidade de criar uma nova estrutura conceitual comum aos diferentes saberes que entram em relação. Desse ponto de vista, a integração disciplinar implica na transformação dos conhecimentos previamente existentes em um conhecimento único e em uma visão unificada sobre o objeto. Essa visão unitária se fundamenta na concepção do objeto como objeto integrado,

3 O autor se refere ao segundo dia de debates do Simpósio Internacional “Psicologia e

Ambiente: O Papel da Psicologia Ambiental no Estudo das Questões Ambientais”, cujas questões norteadoras das discussões foram: 1. como discutir questões de método da Psicologia Ambiental, considerando a sua necessária interdisciplinaridade? 2. haveria uma especificidade metodológica para a Psicologia Ambiental? qual? 3. de que forma essa interdisciplinaridade determina as possibilidades de intervenção ambiental? quais são essas relações e com quais disciplinas?

Euclides Sánchez oposta à idéia deste como separações. Como sugere o mesmo Palmade, a interdisciplinaridade propicia reparar o dano feito ao objeto.

O método e a metodologia em Psicologia Ambiental e a interdisciplinaridade

Metodologia e método

Colocar a questão do método e da metodologia, que não se concretiza nas diferenças intrínsecas entre as disciplinas e dentro da própria Psicologia, conduz necessariamente a considerar alguns dos obstáculos assinalados anteriormente, que impedem a integração da Psicologia Ambiental a outras disciplinas. Para fazê-lo, abordarei as duas primeiras perguntas, das três que vamos examinar neste dia do simpósio – como discutir questões de método em Psicologia Ambiental, considerando-se a sua necessária interdisciplinaridade? haveria uma especificidade metodológica para que esta não se concretize devido às diferenças intrínsecas entre as disciplinas, e dentro da própria Psicologia? qual? – como uma, apenas, já que, como se observará em seguida, estão relacionadas entre si.

É freqüente se empregar os termos metodologia e método como sinônimos; contudo, não o são quando os examinamos com relação ao conceito de paradigma.

O paradigma alude aos pressupostos metateóricos que fundamentam uma ciência ou disciplina enquanto concepção da realidade que orienta a sua ação. Tais pressupostos constituem crenças a respeito de três questões básicas: a noção de realidade, a forma de relação do pesquisador com aquela, e a forma como este procederá para conhecê-la. Guba (1990) denomina essa trilogia de dimensões ontológica, epistemológica e metodológica do paradigma, cada uma delas estando em convergência com a outra. Assim, a metodologia não é independente da versão que se faz a respeito dos objetos, como tampouco o é quanto à maneira como se entende o vínculo pesquisador–objeto.

A Psicologia Ambiental e suas Possibilidades de Interdisciplinaridade

Nesse sentido, e de acordo com Schwandt (1990), a metodologia é uma meta acerca de como conhecer o objeto, orientado pelas hipóteses ontológicas e epistemológicas do paradigma. A colocação em prática da metodologia, ou o seu exercício, como diz Schwandt, em forma de procedimentos particulares para a formulação de perguntas, respondê-las e avaliar a resposta, é o método. Os métodos, então, respondem a um contexto de definição da realidade e à forma de relação com ela. Todo método, em síntese, leva impresso essa lógica, quer dizer, não há método separado da metodologia que o inspira.

Para Schwandt, e em função de como se definem as três dimensões descritas em um paradigma, existem três metodologias: a científica, consonante com uma ontologia de realismo ou de realismo crítico da realidade e com uma epistemologia objetivista sobre a relação pesquisador–realidade; a construtivista, chamada também hermenêutica dialética (Guba & Lincoln, 1994), coincidente com uma visão da realidade como construída socialmente, portanto múltipla e local, e com uma epistemologia transacional e subjetiva (os achados são constituídos na relação pesquisador–sujeito); e a metodologia da ciência crítica, que se apóia na idéia de realidade histórica que resulta da ação de valores sociais, políticos, econômicos, culturais, étnicos, de gênero e em uma epistemologia também denominada transacional subjetivista, mas no sentido de que os achados da investigação são influenciados por valores (Lincoln & Guba, 2000).

Se nos perguntarmos se as três metodologias são integráveis entre si, teríamos de buscar a resposta em uma pergunta mais geral sobre a integração dos modelos metateóricos porque, como já disse anteriormente, o paradigma é um conjunto coerente de crenças sobre a realidade de tal forma que o entendimento de uma de suas dimensões exige o conhecimento das restantes. A resposta a essa pergunta geral é negativa, como já disse Skritc (1990, p. 127):

Cada paradigma representa uma visão do mundo social e de como poderia ser investigado, (correspondendo a uma) interdisciplinaridade mutuamente excludente, devido a que cada um se apóia em um conjunto incomensurável de hipóteses acerca do que é a própria natureza da ciência social.

Euclides Sánchez

Relação com a interdisciplinaridade

Como se relacionam essas considerações com o tema da interdisciplinaridade? Segundo Masterman (1975), as ciências sociais se caracterizam por serem multiparadigmáticas: seus desenvolvimentos ocorrem predominantemente a partir, pelo menos, de algum dos paradigmas mencionados. Assim, e com base na argumentação apresentada sobre as hipóteses de cada paradigma, cada ciência social terá uma especificidade, já que o seu objeto de estudo estará definido pelo paradigma ao qual adere e produzirá conhecimentos sobre aquele fundamentado nos pressupostos do paradigma escolhido.

O estudo da história do desenvolvimento de cada ciência social informa-nos sobre a evolução dessa diversidade, por exemplo, a Sociologia e seu interesse pelos fenômenos sociais de grande escala, ou a Psicologia e seu interesse pelos indivíduo e pelo social de pequena escala, mas esse reconhecimento é um primeiro dado para entender a interdisciplinaridade entre disciplinas de campos distintos como possível, na medida em que compartilham o mesmo modelo metateórico; ou seja, referimo-nos à possibilidade de uma interdisciplinaridade dentro de um mesmo paradigma.

A multiplicidade paradigmática também se encontra em uma única disciplina. Que uma disciplina delimite o seu campo de estudo a uma área particular, por exemplo, à interação pessoa–ambiente, não impede que esta seja constituída ontologicamente de maneira diversa. Assim, há uma Psicologia e uma Psicologia Ambiental que se fazem no modo da metodologia científica, cujas investigações respondem aos pressupostos do modelo positivista sobre a realidade e as exigências da objetividade como princípio epistemológico do dito modelo. Também há uma Psicologia e uma Psicologia Ambiental que são feitas com a metodologia construtivista, que trabalha com a noção de múltiplas realidades ou realidades construídas e que respondem à exigência epistemológica de relações transacionais e subjetivas.

Esse segundo dado, o reconhecimento da diversidade intradisciplinar, situa a possibilidade de interdisciplinaridade da Psicologia Ambiental com outras disciplinas psicológicas dentro do mesmo marco da primeira possibi-

A Psicologia Ambiental e suas Possibilidades de Interdisciplinaridade lidade descrita, isto é, da cooperação da Psicologia Ambiental com disciplinas psicológicas que convergem ao mesmo marco paradigmático

A construção da interdisciplinaridade e a intervenção ambiental

Com esse título pretende-se abordar a pergunta número três do temário: de que forma essa interdisciplinaridade determina as possibilidades de intervenção ambiental? Quais são essas relações e com quais disciplinas?

A argumentação anterior nos permite reafirmar que a investigação e a intervenção ambientais, assumindo-as como processos estreitamente vinculados, possibilitam, uma vez resolvido o que podemos chamar, em sentido amplo, de identidade epistemológica, a conjunção de saberes em um mesmo paradigma. Contudo, isso não é suficiente. A interdisciplinaridade da Psicologia Ambiental foi decretada há muitos anos, mas o seu alcance deixa muito a desejar. Ou seja, é necessário trabalhar a seu favor, mas procedendo indutivamente, levando a cabo experiências que nos proporcionem respostas para as perguntas que temos hoje, assim como de novas perguntas que hoje não podemos antever. Não devemos esperar um modelo geral para a interdisciplinaridade que prescreva o que integrar de cada disciplina, quanto se deve integrar, donde e como fazê-lo, mas apenas, para cada caso concreto de relação disciplinar, decidiremos quais conhecimentos integrar, como fazê-lo, por que devem ser integrados e como avaliar os resultados (Saneugenio, 1991). Quais gestões podem ser realizadas nessa direção? Vejamos o que nos sugerem os trabalhos de alguns autores que refletiram sobre a viabilidade de interdisciplinaridade da Psicologia Ambiental com disciplinas particulares.

Liebow (2002), analisando a relação entre Antropologia Ambiental e

Psicologia Ambiental, afirma que há áreas de trabalhos que podem ter interesse comum para ambas as disciplinas, tais como o estudo do papel das condições ambientais na conformação da organização social e política, o valor do conhecimento ecológico das sociedades tradicionais quanto a relações harmoniosas com o ambiente e o significado de risco em diferentes culturas. Por sua vez, Dunlap (2002), referindo-se à Sociologia Ambiental e

Euclides Sánchez à Psicologia Ambiental, propõe que essas disciplinas possam colaborar na investigação de questões como: o ambientalismo (por exemplo, indagar sobre a classe de pessoas que se filiam aos movimentos ambientalistas ou conhecer as estratégias que empregam para influir nas políticas ambientais), a consciência ambiental (por exemplo, identificar os níveis de conscientização do público sobre os problemas ambientais e sobre os esforços que são feitos para solucioná-los); e o papel das mídias parar atrair a atenção de decisores e de outros atores referente aos problemas ambientais. Pelo seu lado, Churchman (2002), com relação à planificação urbana e à Psicologia Ambiental, observa, na primeira, a tendência para processos de decisão participativos e potencializadores na planificação, orientações que a Psicologia Ambiental deve levar em consideração ao formular um projeto interdisciplinar. Finalmente, a respeito da Psicologia Clínica e da Psicologia Ambiental, Anthony e Watkins (2002) reconhecem a importância do ambiente físico para o diagnóstico e tratamento de disfunções como o estresse, as fobias ou os ataques de pânico; contudo, também reconhecem que, na literatura da Psicologia Clínica, essa importância é praticamente desconhecida.

Uma agenda para o desenvolvimento da interdisciplinaridade

Dos exemplos descritos derivam-se propostas de atividades que podem ser parte de uma agenda para a construção da interdisciplinaridade. Em primeiro lugar, é necessário que se estabeleça uma cooperação entre a Psicologia Ambiental e a(s) disciplina(s) com as quais pode estabelecer áreas de problemas de interesse comum, nas quais possa se concentrar o esforço interdisciplinar. Em segundo lugar, é preciso formular um plano de trabalho em que se precise o nível de análise que cada disciplina enfatizará. Em terceiro lugar, é necessário concordar quanto aos métodos de pesquisa/intervenção que produzam resultados que se complementem. Em quarto lugar, deve-se tratar os conhecimentos obtidos em uma visão integral do problema abordado. Em quinto lugar, temos de continuar com a análise e difusão de experiências de interdisciplinaridade, tal como foi feito no novo

A Psicologia Ambiental e suas Possibilidades de Interdisciplinaridade texto de Psicologia Ambiental editado por Robert Bechtel e Arza Churman (2002), como também se poderia fazer, em um próximo simpósio internacional de Psicologia Ambiental (como este, do qual me sinto honrado em participar), ou através da edição de números especiais sobre interdisciplinaridade nas diversas revistas sobre Psicologia Ambiental. Em sexto lugar, a organização, na universidade, de atividades docentes e de pesquisa interdisciplinares que envolvam também a participação de jovens pesquisadores e estudantes, de modo a contribuir para formar profissionais com uma perspectiva de interdisciplinaridade. Atualmente, de acordo com Wiesenfeld (2001), o ensino universitário não promove a interdisciplinaridade, já que os currículos das faculdades estão separados entre si, formando partes isoladas.

Haveria benefícios para se realizar um projeto de trabalho como esse? Devemos tentar porque, como expressa Churchman (2002, p. 198),

Um dos principais desafiosé como aprender a trabalhar juntos e a entender os

conceitos e preocupações do outro. Dado que cada campo tem forças e qualificações especiais, os benefícios dessa cooperação são vários. De acordo com a minha experiência pessoal, posso dizer que o esforço vale a pena.

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