A psicologia ambiental e as diversasrealidade humanas

A psicologia ambiental e as diversasrealidade humanas

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Esther Wiesenfeld1 Instituto de Psicologia - Universidade Central de Venezuela

Este artigo baseia as respostas quanto ao objeto da psicologia ambiental e seus aspectos constitutivos na análise dos periódicos Environment & Behavior, Journal of Environmental Psychology, congressos e estudos latino-americanos. Considera que a definição do objeto, circunscrita a perspectivas que diferem em suas dimensões ontológicas, epistemológicas e metodológicas, ocasiona várias psicologias ambientais. Para contribuir para o desenvolvimento do conhecimento e favorecer as condições de vida e do planeta, as distintas psicologias ambientais deveriam dialogar. Conclui que o enfoque adotado é que levaria a abordar a realidade de modos distintos.

Descritores: Psicologia ambiental. Objeto. Análise de conteúdo. Periódicos.

m primeiro lugar, quero felicitar as coordenadoras deste simpósio pela organização do evento. As temáticas propostas, assim como a diversidade de países representados na exposição das mesmas, constituirá, sem dúvida, um marco na Psicologia Ambiental, do qual serão protagonistas todos os presentes. Também quero felicitá-las porque organizar um evento como este, dadas as sérias dificuldades econômicas que atualmente enfrentam nossos países latino-americanos, não é tarefa fácil.

1 Professora do Instituto de Psicologia e coordenadora dos programas de Mestrado e de Especialização em Intervenção Psicossocial da Universidade Central da Venezuela. Editora Associada do Journal of Commnunity and Applied Social Psychology.

Endereço eletrônico: ewiesen@reacciun.ve

Esther Wiesenfeld

Pelas razões anteriores e pela maravilhosa oportunidade que me brindam de participar com vocês neste simpósio, sinto-me muito agradecida. Estou segura de que todos sairemos enriquecidos com os debates que aqui sejam suscitados, com novos conhecimentos e, sobretudo, com muitas inquietudes a ser canalizadas em nosso fazer como psicólogos ambientais.

Objeto da Psicologia Ambiental e aspectos constitutivos desse objeto

Vou me referir agora ao tema 1, cuja primeira pergunta trata do objeto da Psicologia Ambiental e dos aspectos da realidade que constituem esse objeto.

Perguntar-se a respeito do objeto, quer dizer, o que é, é perguntar-se a respeito da ontologia ou natureza do objeto. E responder a isto implica referir-se às posturas meta-teóricas ou paradigmáticas em que se fundamentam as diversas formas de concebê-lo e às estratégias metodológicas empregadas para a construção do conhecimento a respeito do dito objeto. Quer dizer, falar da ontologia de um objeto implica também falar em como nos aproximamos do objeto para conhecê-lo e em como construímos tal conhecimento.

Para tratar estas questões no campo da Psicologia Ambiental, irei me referir em primeiro lugar a: a) quais têm sido os principais objetivos da disciplina, isto é, o que se propôs, particularmente: ao que o seu objeto de estudo se refere, b) o que foi alcançado com respeito a tais aspirações, e c) que reflexões, lições e/ou recomendações podemos derivar da análise realizada.

A que se propôs a Psicologia Ambiental

A Psicologia Ambiental tem sido definida como a disciplina que estuda as transações entre as pessoas e seus entornos, com vistas a promover uma relação harmônica entre ambos, que redunde no bem-estar humano e na susteotabilidade ambiental.

Para cumprir esse propósito, os pioneiros da Psicologia Ambiental colocaram como objetos principais:

A Psicologia Ambiental e as Diversas Realidade Humanas

- estudar a relação pessoa-ambiente no contexto natural, vista como totalidade (ontologia),

- abordar a dita relação de maneira holística (metodologia),

- incorporar diversas perspectivas teóricas em seu estudo (epistemologia),

- enfatizar a dimensão social da relação humano ambiental,

- estabelecer vínculos com outras disciplinas interessadas na temática humano ambiental (interdisciplinaridade),

- aplicar os conhecimentos obtidos para melhorar a qualidade ambi- ental e, por conseguinte, a qualidade de vida dos usuários dos ambientes (pertinência social).

A definição e objetivos da Psicologia Ambiental apontam pelo menos para dois objetos - pessoas e ambientes - que a disciplina tenta abarcar em sua diversidade.

Contudo, o modo de concebê-los, assim como os aspectos tratados em ambos os objetos, a ênfase em um e/ou em outro e a forma de entender e estudar sua relação, varia segundo a fundamentação teórica e metodológica assumida pelos profissionais, seus interesses e valores pessoais e institucionais, sua formação e experiência profissional, sua visão de mundo, o contexto de seu fazer e outros fatores, muitos dos quais conjunturais.

Os objetivos mencionados, formulados principalmente a partir da literatura psico-ambiental nos Estados Unidos, assemelham-se em grande medida aos que acompanharam os inícios da Psicologia Ambiental na Europa, embora as razões do surgimento da disciplina variaram em um e no outro contexto (Pol, 2001). Assim, enquanto a Psicologia Ambiental norteamericana teve como foco o indivíduo e a otimização de sua relação com o ambiente, a Psicologia Ambiental européia nasceu com forte vocação social, produto da crise social e habitacional da pós-guerra.

Do seu lado, os inícios da Psicologia Ambiental na América Latina foram, de modo marcante, influenciados pelos temas e enfoques adotados nos Estados Unidos, à margem de sua pertinência em nossa região.

Esther Wiesenfeld

O que aconteceu?

Vejamos agora quais foram alguns dos aspectos mais freqüentemente abordados pela Psicologia Ambiental. Para isso nos basearemos, em primeiro lugar, na revisão dos temas tratados nos artigos publicados nos últimos seis anos (1997-2001, nos. 1 e 2) nas revistas Environment and Behavior (E & B) e Journal of Environmental Psychology (JEP).

Também consideraremos os trabalhos desenvolvidos na América Latina, o que nos permitirá comparar a produção latino-americana com a de outras latitudes. Vamos nos apoiar, para esta análise, na revisão de Pinheiro (2001) com relação à Psicologia Ambiental no Brasil, na de Wiesenfeld (2001b), com base nos trabalhos latino-americanos apresentados até 1999 em diferentes encontros e publicações, as quais se somam as 21 apresentações em Psicologia Ambiental no Congresso Interamericano de Psicologia no Chile, 2001, e nas apresentações no I Encontro Latino-americano de Psicologia Ambiental ocorrido em setembro deste ano no México.

Sabemos que esta revisão não esgota a temática psicoambiental, mas constitui, a nosso ver, um aspecto representativo da mesma. Vejamos, então, o que trazem as revisões.

O total de 332 artigos publicados, 185 deles na revista E&B e 147 na

JEP, e as 191 apresentações nos últimos nove Congressos Interamericanos (1985-2001), mais os 120 apresentados nos dois Encontros Latinoamericanos de Psicologia Ambiental e alguns textos e artigos de autores latino-americanos, mostram uma ampla diversidade temática quanto à dimensão humana e quanto à ambiental.

Assim, contemplaram-se níveis distintos da escala humana (desde individual e comunitária até grandes conglomerados), tipos de autores, segundo sua etapa de desenvolvimento humano (crianças, adolescentes, adultos, idosos), gênero (homens, mulheres), variáveis demográficas e culturais (imigrantes, moradores de rua), usos de determinados ambientes (doentes no caso de hospitais, escolares no caso de instituições educativas, donas de casa no caso de entornos residenciais, empregados no caso de instituições de tra-

A Psicologia Ambiental e as Diversas Realidade Humanas balho), processos psicológicos, sociais e culturais (percepção, crenças, atitudes, representações sociais, experiências, preferências, identidade, apego, apropriação, sentido de lugar, comportamento pró-ambiental, condutas deterioradoras, avaliação pós-ocupação, compromisso ambiental, privacidade, territorialidade, bem-estar, interação social, reciclagem, diferenças culturais em alguns destes processos, participação cidadã).

Igualmente foram trabalhadas diferentes escalas do ambiente (desde micro como o espaço doméstico, intermediários como a vizinhança, até macro como a cidade), tipos de ambientes (residenciais, urbanos, rurais, recreativos, laborais, educativos, hospitalares), fatores ambientais específicos (design, decoração, ruído, iluminação, cor) ou gerais (qualidade ambiental) e processos ambientais (conservação ou deterioração, sustentabilidade, risco ambiental e desastres naturais).

Embora os autores dos artigos publicados nas revistas E&B e JEP são, em sua maior parte, dos Estados Unidos ou trabalham nos Estados Unidos, também estão representados autores de outros países e continentes, sem que se identifique alguma preferência pelo tema ou o modo de abordagem segundo o contexto de procedência. Isto é, indistintamente podemos encontrar coincidências entre os temas de investigação entre autores latinoamericanos, norte-americanos, europeus ou africanos, assim como discrepâncias temáticas entre autores de um mesmo país. Mais ainda, identificamos temas similares porém tratados de diversas óticas, tanto teóricas quanto metodológicas, em um mesmo país ou entre países do mesmo ou diversos continentes. Por exemplo, o tema do ambiente residencial foi investigado com base nas atribuições sociais quanto ao interior da moradia, às propriedades visuais e às valorações afetivas das áreas residenciais, à interação social segundo a organização espacial da moradia, ao significado do lar, à avaliação da satisfação residencial, aos usos de diferentes espaços residenciais, à identidade de lugar, à percepção da qualidade do ambiente residencial, à relação entre privacidade e design, para citar alguns.

A variedade de aspectos estudados com respeito a um mesmo entorno em um mesmo país sugere que a seleção de tópicos de estudo ou de inter-

Esther Wiesenfeld venção em Psicologia Ambiental não deriva necessariamente de suas particularidades essenciais, ou das pessoas, ou da relação entre ambos. Tão pouco aponta para a preponderância de certos tópicos ou problemas discriminados por contextos (países, regiões ou continentes). Por exemplo, no México, Serafin Mercado e outros desenvolveram um modelo de habitabilidade residencial baseado em um modelo cognitivo comportamental, enquanto que Miguel Angel Aguilar tratou deste tema de uma perspectiva construtivista, e Bernardo Jimenez sugeriu o emprego da Investigação Ação Participativa, que corresponde a uma perspectiva teórico crítica.

A variedade resenhada parece antes sugerir que a eleição temática obedece a motivos que transcendem a especificidade psicoambiental, tais como inclinações pessoais. Além disto, como esta diversidade se expressa em um mesmo país, pode-se supor alguma ou todas as seguintes opções: a) que a eleição temática em questão ocorre à margem das demandas do contexto; b) que tais demandas ou prioridades são compreendidas de diversas maneiras pelos profissionais, e c) que os critérios para estabelecer as ditas prioridades são relativos. Deste modo, se a moradia é uma prioridade, deveriam existir certos indicadores que justifiquem tal prioridade, assim como orientações e critérios para enfrentá-la, mas isto não é o que costuma ocorrer.

Além disto, não se trata apenas de ignorar o contexto, ou da falta de correspondência entre as prioridades do investigador e as do contexto. Parece que a diversidade temática e intra-temática e as discrepâncias no modo de tratá-las, inclusive intra-país, ou o seu oposto, que dizer, algumas coincidências entre países, sugerem, adicionalmente, as seguintes considerações:

1. A ausência de um fio condutor ou de uma linha de investigações derivada do diálogo entre as demandas do contexto e os recursos, existentes ou potenciais, da Psicologia Ambiental para satisfazêlas. Em conseqüência, tão pouco existem delineamentos ou parâmetros claros que orientem o exercício profissional, os conteúdos docentes, as investigações e intervenções acadêmicas ou extra acadêmicas. Esta relativa independência entre os interesses do in-

A Psicologia Ambiental e as Diversas Realidade Humanas vestigador e os problemas em seu contexto não é necessariamente negativa, se considerarmos que, com freqüência, a formulação dos problemas do contexto está sujeita, por sua vez, a interesses políticos e de outras índoles, que não necessariamente colocam o ser humano e seu ambiente como prioridades. Nestes casos, a suposta neutralidade do profissional poderia contrabalançar este tipo de viés perverso. Não obstante, a mesma neutralidade poderia atentar contra a ingerência do investigador como co-autor, negociador ou catalizador de interesses antagônicos, entre cidadãos e entidades com distintos tipos de poder, cujo propósito seria coerente com os princípios da Psicologia Ambiental: conseguir uma harmonia pessoa-ambiente.

2. Fragmentação dos ambientes, assim como dos processos psicológicos, em termos de variáveis, evidenciada a partir da enumeração de fatores estudados com relação a um ou outro objeto. Tal fragmentação é contrária aos requisitos ontológicos, se recordarmos sua aspiração à apreensão molar da transação pessoa-ambiente. Assim, o lugar acaba por reduzir-se ao seu aspecto empírico e a subjetividade dos processos cognitivos, experiências, afetos, comportamentos das pessoas, a imagens, atitudes, preferências, empiricamente mensuráveis para a sua validação empírica. Adicionalmente, encontramo-nos frente aos múltiplos fatores constitutivos dos objetos fragmentados, cujas definições variam segundo os enfoques teórico-metodológicos que os fundamentam. É assim que o estudo da moradia remete desde enfoques cognitivos comportamentais a uma concepção da moradia muito diferente, vista da fenomenologia ou da psicanálise. Como conseqüência deste aspecto, existe nas disciplinas ambientais uma espécie de Torre de Babel conceitual - citando Moraes (1997) - pois os mesmos termos aludem a conteúdos distintos. O termo sustentabilidade é um claro exemplo disto. Se nos colocarmos no lado otimista, diríamos que a diversidade permite abrir o objeto a diferentes perspectivas, o que reduz a hegemonia de uma postura sobre a outra, em nosso caso, a

Esther Wiesenfeld dominação da perspectiva positivista ou pós-positivista. Assim, à visão de pessoa e ambiente como realidades objetivas, independentes de nosso modo de acessar o seu estudo, incorporam-se visões como as construtivistas, ainda timidamente presentes na disciplina. Esta postura concebe a relação pessoa-ambiente como totalidade, inseparável e incompreensível à margem das condições do contexto social, político, econômico em que emerge, e em virtude das mudanças no dito contexto, tais relações são igualmente dinâmicas e, portanto, históricas e relativas. Desta maneira, à variedade temática e geográfica mencionada nos estudos psicoambientais, somam-se diferentes opções paradigmáticas. Estas opções são as que fundamentam a definição do objeto de uma ciência, de modo que o mesmo objeto será concebido de distintas maneiras de acordo com o marco meta-teórico em que se baseia. Sem subestimar as vantagens que, desde o nosso ponto de vista, tem a incorporação de distintas perspectivas teórico-epistemológicas como as mencionadas, é algo a ser notado que, dos 332 artigos publicados em E&B e no JEP desde 1998 até 2002, 305 deles, 175 em E&B e 128 em JEP, apoiaram-se em teorias inscritas nos paradigmas positivistas ou pós-positivistas. Somente 27 trabalhos (8 em E&B e 19 em JEP), fizeram-no sob outros enfoques, como o transacionalismo, a fenomenologia, o construtivismo social, o enfoque ecológico, a ecoanálise (combinação de enfoque ecológico e psicanálise), o enfoque sociocultural, a teoria fundamentada, a teoria feminista, a teoria crítica. Estes números representam respectivamente 4% e 13% dos artigos publicados em cada uma das revistas, em um total de 8%.

3. Tendência à investigação, mas não ao uso e aplicação dos resulta- dos. Neste particular, existe um divórcio entre teoria e prática; entre a academia, âmbito predominante para a produção teórica, e instituições não acadêmicas ou de orientação fundamentalmente aplicada ou técnica. Assim, enquanto a academia oferece uma informação pouco pertinente e difícil de ser traduzida em termos de

A Psicologia Ambiental e as Diversas Realidade Humanas ação, as instituições não acadêmicas demandam informação cientí- fica para a solução de prementes problemas sociais, que a Psicologia Ambiental não está capacitada a prover. Portanto, não é de se estranhar a falta de aplicabilidade e de aplicação dos resultados das investigações, pois muitas delas oferecem o que não se pede e, paralelamente, não estão em condições de trazer o que é requisitado.

Esta falta de pertinência dos resultados é contrária aos requisitos de utilidade social da disciplina.

4. Orientação individual nas investigações psicoambientais, não obs- tante o reconhecimento da natureza social dos processos psicológicos, fica distante da declaração de identidade da Psicologia Am- biental como disciplina psicossocial.

5. Isolamento disciplinar, em que existem escassos vínculos com outras áreas da psicologia como a psicologia clínica, ou comunitária, assim como com algumas disciplinas como a arquitetura ou a planificação urbana, onde a relação resulta mais evidente. Este isola- mento disciplinar da Psicologia Ambiental contradiz seu reiterado chamado à interdisciplinaridade.

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