Despertando os sentidos da educação ambiental

Despertando os sentidos da educação ambiental

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MATAREZI, J. Despertando os sentidos da educação ambiental

Despertando os sentidos da

Educar, Curitiba, n. 27, p. 181-199, 2006. Editora UFPR181 educação ambiental

Arising the senses about

environmental education

José Matarezi *

Buscando o sentido

O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do Universo.

Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência, as coisas e os eventos.

O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.

Me recuso a viver num mundo sem sentido.

Precisamos buscar o sentido.

Pois isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.

Só buscar o sentido faz, realmente sentido.

Tirando isso, não tem sentido. Leminski

Neste artigo, a partir da perspectiva crítica, transformadora e emancipatória da educação ambiental, são apresentados alguns resultados do programa Trilha da vida: (re)descobrindo a natureza com os sentidos, criado e desenvolvido desde 1997, pelo LEA/CTTMar/Univali em parceria com a Facinor e a ONG Voluntários pela Verdade Ambiental. A Trilha da Vida enquanto proposta de educação ambiental comunitária e em unidades de

* Especialista em Análise e Educação Ambiental (UFPR). Pesquisador/colaborador da Faculdade Intermunicipal do Noroeste do Paraná – Facinor (Loanda, PR). Professor/Pesquisador do Laboratório de Educação Ambiental (LEA) do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar

(CTTMar) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali). E-mail: jmatarezi@univali.br Paixão e com-paixão no sentido abordado por Bader Burihan Sawaia em seu artigo Par-

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 181-199, 2006. Editora UFPR182 conservação, não deve ser confundida como mera atividade de sensibilização, ultrapassando em muito esta dimensão e apontando para objetivos educacionais, conservacionistas e terapêuticos. A Trilha da vida atualmente está sendo implementada em diversos locais através de uma rede de núcleos disseminadores da metodologia. Este processo exige uma formação continuada para as equipes executoras em cada um dos seus núcleos disseminadores. Uma breve fundamentação do programa à luz dos chamados “experimentos educacionais transdisciplinares” é apresentada como forma de romper com a anestesia e perda de sentidos generalizados das sociedades de consumo no mundo globalizado. Por fi m é evidenciado o seu potencial transformador e emancipatório a partir de algumas categorias originadas de relatos de grupos que vivenciaram a Trilha da vida. Palavras-chave: vivências; sentidos; complexidade; experimento educacional; transdisciplinaridade.

This paper comprises an analysis of the Program “Trilha da vida” (Track of life): (re)descovering nature through the senses from the critical, transforming and emancipatory perspective of environmental education. The LEA/CTTMar/Univali in partnership with the Facinor and the NGO Voluntários pela Verdade Ambiental created this program in 1997 and it has been developed and analyzed since then. First located at the “Natural Park of Pedras Vivas”, in the municipality of Florianópolis/SC, the “Trilha da vida” (Track of Life) is nowadays being implemented in many places through a network of stakeholders for the Trilha da Vida dissemination. The “Trilha da vida” has educational, conservation and therapeutical purposes as a Community-based and Protected Areas Environmental Education and must not be misunderstood as a mere activity of sensitization. Therefore, it demands a continued capacity-building process of the stakeholders in each place. At the Paraná State this process has been co-ordinated by Facinor through research and extension projects. I present a short theoretical background of the program through the lens of a “transdisciplinary educational experiments” as form to breach with the anesthesia and generalized loss of senses of the consumption societies in the global world. Finally, I show up its transforming and emancipatory potential from some key categories originated from the focal groups reports that had experienced the “Trilha da Vida”. Key-words: experiences; senses; complexity; educational experiment; transdisciplinary.

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Para começo de conversa...

Deparo-me neste momento com a sensação de incapacidade, de impotência mesmo, portanto dotado de forte envolvimento afetivo. Como gostaria de poder em poucas e simples palavras transmitir aos leitores e leitoras o total signifi cado de uma trajetória de vida, de certos conceitos-chave para a educação ambiental que acredito, me anima e me tem/faz/é sentido. Mais especifi camente de uma proposta de educação ambiental construída e vivenciada de forma coletiva, chamada Trilha da vida: (re)descobrindo a natureza com os sentidos, a qual tem sido desenvolvida e analisada ao longo destes últimos sete anos.

Que legitimidade me é dada para tal feito? Talvez pelo fato de ter acompanhado esta trajetória desde sua concepção e criação, me seja solicitada tal missão. Talvez por ter sido objeto da mesma, ao mesmo tempo em que sujeito do processo, e nesta dualidade indissociável, poder identifi car e compreender através da experiência, a natureza do poder transformador desta proposta. O ideal seria poder construir este texto com todas as pessoas envolvidas que vivenciaram a Trilha da Vida até o momento. O desafi o de dar conta desta complexidade é imenso, para não dizer impossível, através das nossas limitadas formas de expressão e linguagem escrita.

No contexto desta publicação, se me fosse possível, eu acrescentaria uma sessão de vivências signifi cativas capazes de despertar os sentidos e as paixões,1 individual e coletivamente, para esta busca de sentidos da própria educação ambiental enquanto unidade entre prática e teoria política. Reconheço esta impossibilidade, mas também não posso me furtar ao compromisso de socializar e compartilhar com as/os educadoras/es ambientais algumas experiências, aprendizados, conhecimentos e descobertas resultantes das inúmeras vivências propiciadas pelo programa Trilha da Vida a mais de 20 mil pessoas desde os primeiros experimentos em 1997.

Parece que me encontro na grande fl oresta, chamada educação ambiental, na qual terei que trilhar sem ter todos os conhecimentos, aprendizados e permissões necessárias. Nesta caminhada, quase como uma iniciação, sinto necessidade e desejo de ser guiado e orientado pelos mestres que iluminam os caminhos desta fl oresta, que revelam os sentidos desta educação ambien- ticipação social e subjetividade (In: SORRENTINO, M. (Org.). Ambientalismo e participação na

Contemporaneidade. São Paulo: Educ/Fapesp, 2002.) Um guia para esta iniciação pode ser o livro Identidades da educação ambiental brasileira, editado pelo MMA/Brasília, 2004.

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 181-199, 2006. Editora UFPR184 tal2 crítica, popular, transformadora e emancipatória. Estranhamente, para (sobre)viver nesta fl oresta, tenho que re-aprender a conviver, a transcender, me re-ligar com esta fl oresta. Tenho que buscar minha identidade e história de vida enquanto educador ambiental. Encontrar os sentidos e as conexões ocultas que me integram ao lugar onde vivo. Minhas trajetórias pessoais e coletivas. Meus sonhos compartilhados e as nossas utopias concretizáveis. Desenvolver a capacidade rara de “escuta mediativa do mundo”.3 Caminhar com os “pés descalços”4 e provocar descobertas. Buscar a alma global da educação ambiental. Tenho que incorporar determinados princípios, estar e me sentir presente, manifestar minhas paixões. Encontrar a unidade na diversidade própria da educação ambiental.

Na tentativa de abarcar a complexidade e os diversos sentidos possíveis desta educação ambiental, adotei como recurso uma série de metáforas. Isto porque “a capacidade de se produzir metáforas, seja nas artes visuais, seja na linguagem escrita, especialmente na poesia, proporciona ao educando uma visão sintética, uma percepção instantânea e multidirecional da(s) realidade(s)” (PERALTA, 2002, p. 120). Muitos destes “sentidos” podem ser visualizados a partir das diversas narrativas relatadas pelos grupos participantes da “Trilha da Vida”. Optei por incluir estas contribuições e sistematizações, individuais e coletivas, sempre na forma de categorias e recortes contextualizados nas dimensões teóricas, metodológicas e princípios desta Educação Ambiental. De certa forma há que se perder a alma para salvá-la, dá-la para reencontrá-la. Pois “o sentido interno clama, chama, anuncia, brada, às vezes, o eu. E a alma habita um quase-ponto onde o eu se decide. Alma Global: pequeno lugar profundo, perto do espaço da emoção” (SERRES, 2001, p. 15-18). São estas emoções, presenças, lugares, espaços, movimentos e corpos em que se manifestam os sentidos desta educação ambiental que busco compartilhar. Referência ao texto Repensando a educação para o ecodesenvolvimento, de Paulo Freire Vieira, do livro Ecologia humana, ética e educação: a mensagem de Pierre Dansereau, 1999 (p.

625). Alusão ao famoso artigo/discurso O cientista de pés descalços, de Pierre Dansereau, 1963 (In: VIEIRA, P. F. e RIBEIRO, M. A. (Orgs.). Ecologia humana, ética e educação: a mensagem de Pierre Dansereau. APED, 1999, p. 493-509). As parcerias do programa tiveram início com a ONG Movimento Verde Mar Vida – MVMV (Florianópolis, SC – 1998 a 2000), juntamente com o projeto Utopias Concretizáveis Interculturais da FURG/DLA (Rio Grande, RS), sendo atualmente realizado em parceria com a ONG Voluntários

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Afi nal de qual Trilha da Vida estamos falando?

Atualmente com dimensão de programa, a Trilha da vida: (re)descobrindo a natureza com os sentidos surgiu como projeto de educação ambiental comunitária e em unidades de conservação. Foi criada e está sendo desenvolvida, desde 1997, pelo Laboratório de Educação Ambiental (LEA) do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar (CTTMar) da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) em parceria5 com a Faculdade Intermunicipal do Noroeste do Paraná (Facinor – Loanda, PR) e com a ONG Voluntários pela Verdade Ambiental (V-Ambiental/Itajaí, SC). Atualmente busca-se a implementação de uma Rede de Núcleos Disseminadores da Trilha da Vida, contemplando a formação continuada de coletivos educadores. No estado do Paraná o núcleo disseminador está vinculado a Facinor, com sede no município de Loanda no extremo noroeste do estado.

Tendo como base o enfoque socioambiental e de conservação das diversidades biológica e cultural na exploração de trilhas perceptivas6 e interpretativas, caracteriza-se como um experimento educacional transdisciplinar, que integra objetivos educacionais, conservacionistas e terapêuticos. Partindo-se do campo da educação ambiental comunitária (MATAREZI et al., 2003, p. 204), busca promover uma reaproximação dos participantes com o meio ambiente nos seus aspectos naturais, sociais, culturais e históricos, e por esta via, estimular uma refl exão crítica das inter-retro-ações históricas entre a sociedade, o indivíduo e o lugar onde se vive. Isto é feito por meio de vivências em grupo nas quais as pessoas experimentam diferentes situações de olhos vendados e descalças, exercendo intensamente o tato, olfato, paladar e audição (MATAREZI, 2000/2001 e 2004); em ambiente de Floresta Atlântica e ecossistemas costeiros associados do sul da Ilha de Santa Catarina (Florianópolis, SC) ou em pela Verdade Ambiental (Itajaí, SC), com o Centro Municipal de Educação Alternativa (Cemespi) de Itajaí (SC) e com a Faculdade Intermunicipal do Noroeste do Paraná (Facinor – Loanda, PR).

Entre 1998 e 2000 teve apoio da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza (FBPN). Termo adotado pelo programa Trilha da Vida para designar as atividades de interpretação ambiental realizadas em trilhas ecológicas utilizando-se os experimentos de primeira mão, excetuando-se, num primeiro momento, a visão, ou algum dos sentidos. Normalmente em vivências que geram descobertas e narrativas em grupo. Os pressupostos da educação inclusiva foram criados na década de 70, e têm fundamentado inúmeros projetos e programas educacionais. Por educação inclusiva se entende o processo de inclusão dos portadores de necessidades especiais ou de distúrbios de aprendizagem na rede comum de ensino em todos os seus graus. Assim, a educação inclusiva é atualmente um dos maiores

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 181-199, 2006. Editora UFPR186 ambientes simulados de diferentes biomas brasileiros.

Um dos aspectos relevantes é o fato de o programa representar a disseminação de novas metodologias de Educação Ambiental, valorizando as diversidades culturais e ambientais em signifi cativas vivências. Ou seja, pode-se trabalhar as relações “Eu – Meio Ambiente”, “Eu – O Outro” e “Eu – Comigo Mesmo” de forma vivencial e refl exiva. Portanto, ultrapassa em muito a dimensão de atividade apenas de sensibilização. A associação e o entendimento da “Trilha da Vida” enquanto experimento educacional que passa e é potencializado pelo sensível, mas não se limita a ele, é fundamental para sua adequada disseminação.

Pode-se dizer que a Trilha da Vida está em constante processo de evolução e construção, uma vez que sua concepção é resultado não apenas da minha caminhada enquanto educador ambiental, mas também de uma construção coletiva envolvendo dezenas de colaboradores ao mesmo tempo em que exige certo rigor metodológico. Portanto, há uma metodologia fundamentada nos chamados experimentos educacionais transdisciplinares adaptada aos diferentes sujeitos e grupos participantes, ambientes, recursos disponíveis e, principalmente, do contexto e seus objetivos pedagógicos. Justamente por representar uma gama de possibilidades é que se torna necessário uma sólida fundamentação teórica para que a proposta possa ser disseminada dentro da perspectiva crítica, emancipatória e transformadora da educação ambiental. Como desdobramento da Trilha da Vida estão sendo desenvolvidos e implementados diversos experimentos educacionais dos quais destacamos o Jardim Inclusivo, criado em 2004 pela equipe do Centro de Educação Alternativa de Itajaí (Cemespi), com assessoria técnica e metodológica da equipe do Programa Trilha da Vida. Este desdobramento tem possibilitado ações concretas de aproximação da educação ambiental com a educação inclusiva,7 normalmente negligenciada nas propostas de educação ambiental. Da mesma forma está ocorrendo com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Loanda (PR) através de projeto de pesquisa e extensão da Facinor, em fase fi nal de implementação.

Em 2003 a dissertação de mestrado de Ângela Ferreira Schmidt8 permitiu a emergência de indícios que confi rmam a suposição inicial de que a Trilha da Vida pode se constituir em um ambiente de aprendizagem. Já o trabalho de con- desafi os do sistema educacional brasileiro. Dissertação intitulada Trilha da Vida e Ambientes de Aprendizagem: uma análise na busca de convergências e apresentada em 2003 à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica da São Paulo, como exigência parcial à obtenção do título de Mestre em Educação: Currículo, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Cândida Moraes.

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 181-199, 2006. Editora UFPR187 clusão de curso da acadêmica Renata Costella Acauan9 realizou Diagnósticos Rápido Participativos (DRP’s) associados a vivências na Trilha da Vida com a comunidade do Ribeirão da Ilha em Florianópolis, SC, ampliando o alcance e a possibilidade de aplicação da metodologia Trilha da Vida em processos de construção coletiva-participativa, como DRP’s e Agendas 21 local.

No fi nal do ano de 2003, o Governo Federal, através do Ministério do

Meio Ambiente (MMA) e do Ministério da Educação (MEC), incorporou a Trilha da Vida entre as metodologias de capacitação de 400 “delegados” de todo o Brasil durante a Conferência Nacional do Meio Ambiente e Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente (CNIJMA), realizada em Brasília (DF) entre os dias 21 e 30 de dezembro de 2003. Meses antes, em setembro a Trilha da Vida também foi uma das metodologias utilizadas no I Encontro da Juventude pelo Meio Ambiente visando a formação e capacitação de mais de 300 jovens representantes dos Conselhos da Juventude dos Estados ocorrido em Louziânia (GO/Brasil). Neste evento foi criada a Rede da Juventude pela Sustentabilidade (Rejuma).

Em 2004 a Trilha da Vida participou com uma grande montagem no V

Fórum Brasileiro de Educação Ambiental ocorrido em Goiânia (GO) no período de 3 a 6 de novembro de 2004. Neste evento foram atendidas cerca de 300 pessoas de todo o país (10% do total de inscritos no evento), em vivências de grupos pequenos de no máximo 20 participantes.

A Trilha da Vida enquanto experimento educacional transdiscipli- Trabalho intitulado: COLUVI: conhecendo o lugar onde vivo. Educação Ambiental Comunitária no Ribeirão da Ilha, Florianópolis – SC. Trabalho de conclusão apresentado em 2003 ao curso de Oceanografi a da Univali, para obtenção do grau de Oceanógrafo, sob orientação de José

Matarezi e Renata Inui Zimermam. Referências ao livro O sentido dos sentidos: a educação do sensível (DUARTE JUNIOR,

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