Ecoideologias associadas aos movimentosambientais: contribuições para o campo da educação ambiental

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ROCHA, R. G. Ecoideologias associadas aos movimentos ambientais...

Educar, Curitiba, n. 27, p. 5-73, 2006. Editora UFPR5

Ecoideologias associadas aos movimentos ambientais: contribuições para o campo da educação ambiental

Eco-ideologies associated to environmentalism: contributions to environmental education fi eld

Ronaldo Gazal Rocha*

Diferentes abordagens de desenvolvimento levantam múltiplas possibilidades de interpenetração dos campos natural e social, mediado pela subjetividade humana. Assim sendo, a caracterização de ecoideologias, freqüentemente associadas aos movimentos ecológicos, pode nos fornecer subsídios importantes para a análise de questões ambientais. Na tentativa de discutir os aspectos relacionais dos estudos taxionômicos que vigoram atualmente, consideraremos a origem e as interpenetrações de determinados campos – ou ecoideologias – como forma de compreender o processo de organização dos movimentos ambientalistas nacionais. A partir dos anos 90, fi ca patente a infl uência dos movimentos ambientalistas no cenário mundial, especialmente nos campos da política e da economia, o que gera situações de impacto em valores culturais e institucionais. Ainda que a maior parte dos problemas ambientais persista, o estudo das tipifi cações desses movimentos nos auxilia a avaliar seu potencial transformador, expondo dimensões e confl itos capazes de organizar novas identidades culturais. Tais considerações, longe de serem apresentadas como de caráter hegemônico, buscam contribuir para uma crítica ecológica mais consistente. Palavras-chave: ecoideologias; movimentos ambientais; educação ambiental; ética.

* Mestre em Educação (UFPR). Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR, Área Educação e Trabalho, Linha de Políticas e Gestão da Educação. E-mail: ronaldogazal@ibest.com.br

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Different approaches on development raise multiple possibilities of interaction of the natural and social fi elds, intermediated by the human subjectivity. Therefore, the characterization of eco-ideologies, often associated to ecologic movements, may supply us with important data for the analysis of the environmental issues. In attempting to discuss the relational aspects of the taxonomic studies effective at present, we considered both the origin and the interaction of certain fi elds - or eco-ideologies - as a way of comprehending the organizational process of the national environmentalist movements. From the 90’s, the infl uence of the environmentalist movements in the worldwide scenario is clear, most specially in the political and economic fi elds, creating impact situations in cultural and institutional values. Although most of the environmental issues are bound to last, the study of the variations on those movements might help us assessing their changing potential by exposing dimensions and confl icts capable of organizing new cultural identities. Such considerations, far from being presented as of hegemonic character, seek to contributing to a more consistent ecological criticism. Key-words: eco-ideologies; environmentalism; environmental education; ethics.

Um dos primeiros aspectos relevantes acerca das origens do ambientalismo é o fato de ter se estruturado a partir do interesse de alguns elementos das elites americanas ou européias. Para esses, a procura por melhores condições de vida, a preservação da vida selvagem e a vida numa perspectiva “ecológica” de busca por uma harmonização entre o homem e a Natureza, transformou-se em motivos justifi cados para, muitas vezes, transferirem enormes fortunas em prol da causa ambiental. Associados a essa aristocracia, um grupo de “ecologistas” políticos dedicou-se à organização e estruturação do corpo teórico que acabaria por evoluir em uma tradição às causas pela Natureza.

Idéias preservacionistas podem ser encontradas em documentos ofi ciais desde o século XVII, sem que, contudo, possa ser possível se referir a noção de movimento (especialmente do ponto de vista social). Entretanto, esse corpo teórico permaneceu por um longo período restrito a determinados círculos sociais, mais como uma tendência intelectual.

Foi ao fi nal dos anos 60 que, em países como os Estados Unidos e Alemanha e, de forma geral, na Europa Ocidental, o “movimento ambientalista de massas, entre as classes populares e com base na opinião pública, (...) então

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 5-73, 2006. Editora UFPR57 se espalhou rapidamente para os quatro cantos do mundo” (CASTELLS, 1999, p. 154). Partindo de movimentos pacifi stas, antinucleares e de contracultura, o ambientalismo de recusa1 se iniciava com uma diversidade de defensores, o que explicaria historicamente, seu caráter multifacetado.

Partindo de múltiplas representações, o ambientalismo possui internamente lacunas e pontos de confl ito entre seus promotores. Entretanto, tais aspectos estão mais freqüentemente relacionados a sua operacionalização (tática, linguagem, prioridades) do que em relação aos seus princípios (defesa do ambiente atrelada aos valores humanos).

Sendo assim, para compreender a infl uência das ecoideologias associadas aos movimentos ambientalistas no campo da Educação Ambiental, destacamos algumas premissas que se encontram dispersas em seus discursos e que sustentam sua crítica: 1) Relação estreita e ambígua com a ciência e a tecnologia – Muitas instituições ambientalistas contam com cientistas que assessoram a tomada de decisões. Ao mesmo tempo, existe uma enorme desconfi ança na possibilidade de desenvolvimento contínuo dos benefícios gerados por essa ciência. Assim, ora se aproximado, ora se afastando do campo científi co, o ambientalismo revela um caráter contraditório de dependência e descrença epistemológica; 2) Luta por uma redefi nição histórico-social em termos de espaço – A transformação estrutural das sociedades e seu realinhamento com base em novos princípios éticos está entre as prioridades dos ambientalistas. Na era da informação, inúmeras interações sociais se estabelecem sem obrigatoriedade de contigüidade física (televisão, internet, telecomunicações) defi nindo a maior parte dos processos dominantes de poder, riqueza e informação. Contudo, tais mecanismos não são sufi cientes para suplantar as experiências que privilegiam a interação social. Ao contrário, os ambientalistas estabelecem estra- tégias locais que estimulam a participação e envolvimento pessoal O termo foi utilizado no início do movimento ambientalista para expressar uma forma de ver o mundo em que não se acreditava ser possível viver ecologicamente na sociedade industrial. Isto implicava distanciamento político e, até mesmo, isolamento social – vida em comunidades alternativas – de seus integrantes que não acreditavam que fosse possível eliminar o individualismo, a competividade e o produtivismo no interior das sociedades capitalistas. O ambientalismo de recusa foi considerado uma visão ingênua, romântica e pouco viável, já que as comunidades alternativas não são solução para o conjunto da humanidade. Cada subsistema tem sua forma própria de poder. Assim, na economia, a estrutura de poder

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grande apreço pela autenticidade cultural de diversas tradições”

em seus próprios espaços, obrigando a reorientações dos sistemas hegemônicos de poder. 3) Busca por uma nova temporalidade – Alguns aspectos interessantes de análise, no que concerne ao fator tempo, são apresentados por Castells (1999) que considera a possibilidade de existência de três temporalidades: cronológica – característica do modelo industrial de produção; é seqüenciada e disciplinadora do comportamento humano, gerando poucas experiências externas aos padrões de medida institucionalizados; intemporal – partindo-se do paradigma informacional e da sociedade em rede; é aquela evidenciada pelos fenômenos voltados à instantaneidade (guerras e transações fi nanceiras “instantâneas”) ou a descontinuidade aleatória (hipertexto); glacial – implica em um processo evolucionário de longo prazo, que esteja voltada ao equilíbrio dos sistemas naturais (incluindo os humanos), por meio de um projeto duradouro que desenvolva uma “conscientização ecológica” planetária. 4) Criação de uma nova identidade – Talvez uma das tarefas mais difíceis enfrentadas pelos ambientalistas esteja no convencimento dos indivíduos de uma nova identidade para a espécie humana. A cultura humana necessita reconhecer-se como parte integrante de um todo, onde cada homem é apenas mais um elemento da Natureza. Nesse sentido, o desenvolvimento de uma “identidade sócio-biológica” não traz atrelada a si a “negação das culturas históricas”. Ao contrário, “os ecologistas têm profundo respeito pelas culturas populares, e 5) Combate incessante ao nacionalismo do Estado – Se, por defi nição, o Estado-nação “tende a exercer poder sobre um determinado território”, então, a adoção dessa noção interfere de maneira categórica na sustentabilidade dos ecossistemas, posta a complexa interação reticular que transcende a territórios pré-defi nidos. Os problemas apresentados às comunidades locais precisam, muitas vezes, de soluções compartilhadas internacionalmente.

Encarado dessa forma, o ambientalismo nos propõe a construção coletiva de uma nova perspectiva de vida na qual se impõe, nas palavras de Castells (1999, p. 160), como uma:

identidade global proposta a todos os seres humanos, independentemente

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 5-73, 2006. Editora UFPR59 de seus vínculos sociais históricos ou de gênero, ou de seu credo religioso. Contudo, uma vez que a maioria das pessoas não vive no plano cosmológico, e a aceitação de nossa natureza compartilhada com a dos mosquitos ainda impõe certos problemas táticos, a questão decisiva para a infl uência da nova cultura ecológica consiste em sua capacidade de unir traços de culturas distintas em um hipertexto humano, constituído de diversidade histórica e comunalidade biológica.

Tais considerações, longe de serem apresentadas como de caráter hegemônico, buscam contribuir para uma crítica ecológica mais consistente, sem, contudo, pressupor a existência de um tipo ideal de militante. Somos a única espécie capaz de antever o que o nosso comportamento viabiliza para nosso futuro. O que muitos teóricos procuram é justamente chamar a atenção para as relações estreitas que se estabelecem entre os sistemas, particularmente aqueles alcançados pela ação do homem. Nesse sentido, a análise de Hughes (1989, p. 1-4) nos apresenta um esquema de interconexões de subsistemas, no qual as sociedades estariam organizadas a partir de quatro eixos fundantes: o Estado, a Cultura, a Economia e o Parentesco. Segundo o modelo (Figura 1), as comunidades estruturam-se a partir

FIGURA 1 – ORIGEM DE ECOIDEOLOGIAS

FONTE: HUGHES, 1989, p. 1-4

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Educar, Curitiba, n. 27, p. 5-73, 2006. Editora UFPR60 da cooperação de suas partes – nação, raça, cultura, linguagem, proximidade geográfi ca e/ou identidade coletiva – organizadas por um senso coletivo em associação a uma tradição e história comuns, fundamentais para a vida em sociedade. Tal qual na Natureza, as sociedades humanas também se organizariam em sistemas – autônomos, porém extremamente interconexos – capazes de afetarem-se uns aos outros. Cada qual ao seu modo, os subsistemas dariam origem a formas específi cas de poder expressas, no interior das sociedades, em restrições religiosas, étnicas ou mesmo de nacionalidade.2

Uma vez concebidos esses subsistemas sociais, poderíamos articulá-los aos ideais ecológicos, como forma de compreender quatro ecoideologias específi cas. Cada uma revela certo grau de contribuição para a delimitação teórica do campo ambiental. O nativismo acredita na possibilidade de vida harmônica com a Natureza considerando tanto os europeus, como os norte-americanos, culturas alienadas. O ecofeminismo desponta como movimento que procura romper com as relações de submissão da mulher, particularmente nas culturas patriarcais que a associam a uma condição inferior devida a sua “natureza submissa”. O ecossocialismo considera que a cooperação e proteção ecológica devem ser priorizadas pela sociedade industrial capitalista de consumo que só “enxerga” a produção pelo lucro. O ecoanarquismo concentra suas atenções nas conseqüências antiecológicas do excesso de centralização governamental e no crescimento do complexo industrial armamentista, propondo a descentralização das estruturas sociais refl etidas em sistemas bio-eco-regionais.

Levando em consideração aspectos naturais, econômicos, sociais e políticos, a perspectiva ecológica apresenta-se como um espaço de análise e discussão que busca articular questões desenvolvimentistas e de bem-estar coletivo com o gerenciamento mais racional dos recursos do meio. Para tanto, é necessário que tentemos detectar pontos que nos permitam reconhecer o surgimento e a caracterização de importantes – e discrepantes – movimentos ambientalistas, particularmente no Brasil. Entretanto, a difi culdade de articulação entre campos tão distintos nos obriga a perceber que “este desafi o não é somente técnico-científi co, mas também político-ideológico, já que um novo padrão de exploração [de recursos materiais e humanos] implicaria transformações na infra-estrutura produtiva, nas relações de poder e na cultura” (SILVA, 1999, p. 1).

estaria em classes; nas relações familiares, recairia sobre o gênero, a preferência sexual ou a idade; na política, apontaria para o poder estatal, os complexos industriais bélicos e a repressão social. A noção de forças produtivas da natureza foi proposta por Gutelman (1974), citado por Diegues (2000), considerando que processos como a fotossíntese, e noções como a de cadeias trófi cas, são elementares para a explicação do funcionamento das sociedades pré-capitalistas e

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Consciente de que toda tipologia é restritiva e, por vezes, reducionista de aspectos signifi cativos, concordamos com DUPUY (1980, p. 23) quando afi rma que “as diversas correntes que constituem o movimento ecológico são tão disparatadas que se pode falar [de uma] nebulosa ecológica” que se apresenta através de ações conjuntas e propostas políticas as mais variadas, mas tendo sempre em comum a necessidade de análise e discussão das relações estabelecidas entre a Natureza e a Sociedade. Na visão de Loureiro (2000a, p. 21):

o ambientalismo é (...) concebido como um projeto realista e utópico de múltiplas orientações, que se inscreve na política mundial, simultaneamente, como um posicionamento de apropriação simbólica e material que vai desde o questionamento da sociedade industrial capitalista e das características intrínsecas das leis de mercado, até as iniciativas comportamentais ecologicamente corretas, tendo como eixo analítico o processo de atuação humana no ambiente e a discussão acerca da relação sociedade-natureza, visando a alcançar uma nova base civilizacional.

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