A abordagem multimétodos em Estudos Pessoa-Ambiente: Características, definições e implicações

A abordagem multimétodos em Estudos Pessoa-Ambiente: Características, definições...

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A Série: Textos de Psicologia Ambiental junta artigos previamente publicados, trextos traduzidos, textos de alunos das disciplinas Psicologia Ambiental e Psicologia Social, bem como trabalhos dos membros do Laboratório de Psicologia Ambiental da UnB. A série tem fim didático, sendo preparado pelo Laboratório de Psicologia Ambiental da UnB.

Sobre os autores: O primeiro autor é professor no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, Universidade da Brasília; o segundo e terceiro autores são professores no Departamento de Arquitetura e no Departamento de Psicologia, respectivamente, Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail para contato: hartmut@unb.br

Este trabalho contou com o apoio do CNPq. Uma versão preliminar foi apresentada e discutida no grupo de trabalho Psicologia Ambiental do X Simpósio Nacional de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional de Pesquisa e Pósgraduação em Psicologia, Vitório, ES, 2004.

L Como citar

Günther, H., Elali, G. A., & Pinheiro, J. Q. (2004). A abordagem multimétodos em Estudos Pessoa-Ambiente: características, definições e implicações. Série: Textos de Psicologia Ambiental, Nº 23. Brasília, DF: UnB, Laboratório de Psicologia Ambiental.

Laboratório de Psicologia AmbientalUniversidade de Brasília Série: Textos de Psicologia Ambiental, 2004, Nº 23 Instituto de Psicologia

A abordagem multimétodos em Estudos Pessoa-Ambiente:

Características, definições e implicações Hartmut Günther, Gleice A. Elali & José Q. Pinheiro

Queres penetrar no infinito? Avança por todos os lados no finito (Goethe)

Would you tell me, please, which way I ought to go from here?'

That depends a good deal on where you want to get to,' said the Cat.

I don't much care where,' said Alice.

Then it doesn't matter which way you go,' said the Cat. --so long as I get somewhere,' Alice added as an explanation.

Oh, you're sure to do that,' said the Cat, if you only walk long enough.'

(Lewis Carol)

A Psicologia Ambiental (PA) faz parte de um conjunto pouco homogêneo de áreas de estudo dedicadas a compreender as inter-relações entre pessoas e ambientes. Pesquisa os comportamentos e/ou os estados subjetivos das pessoas (P) e as características do ambiente (A) no qual estas agem e com o qual interagem. Ao tratar-se de relação recíproca pessoa-ambiente nem sempre P e A constituem as variáveis antecedentes e/ou critério, pois o foco central dos trabalhos precisa ser a interface entre ambos (P-A). A complexidade de P e de A e, sobretudo, da interação entre os dois, reflete-se no fato de várias disciplinas (como Arquitetura, Desenho Industrial, Geografia Humana, Paisagismo, Planejamento Urbano, Sociologia, entre outras) investigarem aspectos específicos da relação pessoa-ambiente. A variedade de formação e de interesses dos pesquisadores envolvidos implica em uma multiplicidade metodológica entre áreas, além da já enfrentada dentro de cada disciplina, de modo que a complexidade da RPA salienta as limitações metodológicas de cada uma. No entanto, em vez de discutir as vantagens de cada estratégia (X ou Y), é necessário convergir metodologicamente (X e Y), isto é, buscar maneiras de agregar disciplinas, teorias e métodos, a fim de integrar experiências diferenciadas, validando construtos mediante uma perspectiva multimétodos.

No planejamento de qualquer pesquisa, o direcionamento das ações passa, necessariamente, pela definição de métodos para a coleta de dados, sabendo-se que, além do interesse e curiosidade do pesquisador, são essenciais: o conhecimento prévio da temática, a quantificação do tempo disponível e dos recursos existentes (financeiros, materiais e humanos), e o domínio do arsenal de ferramentas passíveis de serem utilizadas. Refletindo a multiplicidade de campos de conhecimento envolvidos nos estudos pessoa-ambiente (EPA), nesse tipo de pesquisa o modo de se coletar e trabalhar dados costuma mesclar métodos e técnicas provenientes de áreas distintas das ciências.

Antes de prosseguir, convém esclarecer a distinção entre técnica e método. O dicionário de Houaiss (Houaiss & Villar, 2001) define técnica como "o conjunto de procedimentos ligados a uma arte ou ciência", enquanto que método é definido como "meio de se fazer alguma coisa, especialmente, de acordo com um plano". O termo método vem do grego, metá hodós - o caminho para algo. No contexto das ciências, o método constitui, então, o caminho para se aproximar a algum objeto de estudo, sendo que métodos múltiplos implicam em caminhos distintos para chegar a um mesmo objeto de estudo. Na medida em que estamos preocupados, neste texto, com os variados caminhos para a compreensão de um fenômeno sócio-espacial, sejam estes predicados por originar-se de áreas de conhecimento distintas (psicologia, arquitetura, etc.) ou embasados em teorias alternativas dentro de uma mesma área (e.g., cognitivo, comportamento), optamos por usar o termo método, reservando o termo técnica para o procedimento em si, independente do contexto ou do objeto de estudo.

Partindo desse quadro geral, neste trabalho abordamos: (a) algumas características dos estudos pessoa-ambiente, (b) as noções de inter- multi- e transdisciplinaridade, (c) a abordagem multimétodos e sua necessidade na área, (d) exemplos de estudos que fizeram uso dessa abordagem,

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Figura 1 A inserção multilateral de diferentes subáreas disciplinas no campo de Estudos Pessoa-Ambiente. (extraído de Günther, 2003, p. 276)

(e) considerações sobre as implicações da opção por esse tipo de trabalho.

A múltipla interface com áreas vizinhas e a falta de uma teoria unificante (e.g., Darley & Gilbert, 1985; Gifford, 2002b; Sime, 1999; Sommer, 2000) são temas recorrentes nas auto-reflexões da Psicologia Ambiental, espelhando suas raízes, internas e externas à própria Psicologia (Bonnes & Secchiaroli, 1992/1995), essas últimas englobando áreas afins, como Biologia, Ecologia, Geografia, Arquitetura e Urbanismo, entre outras. Tal situação tem provocado a dificuldade em identificar o campo de estudo para acomodar as diferentes tendências presentes, o que tem levado à utilização da expressão estudos pessoa-ambiente (EPA). Discutindo a conveniência do termo EPA como representativo da diversidade de abordagens, temas, métodos oriundos de diferentes áreas de conhecimento que estudam a interação entre comportamentos, estados subjetivos e aspectos do ambiente físico, Günther (2003, p. 276) apresenta um modelo de interligação representado na Figura 1. Embora essa ilustração possa sugerir um campo único de objeto de estudo e, neste sentido, argumentar a favor de uma concepção mais unificada da área, deve-se ressaltar que a mesma não tem a intenção de, necessariamente, favorecer uma teoria ou um método único. Como será pormenorizado a seguir, defende-se uma aproximação multilateral ao tema comum pessoa-ambiente a partir das especificidades / idiossincrasias das diferentes áreas de conhecimento que se preocupam com essa relação.

A maneira mais comum de lidar com as múltiplas abordagens, teorias e métodos numa área como a dos EPA é fazer referência à necessidade de um tratamento inter-, multi- e/ou transdisciplinar (IMT) dos temas por ela trabalhados. Porém, antes de discutir esta linha de argumentação é necessário apreciar tais termos. Para tanto recorremos a uma revisão rápida de livros de metodologia científica, selecionados ao acaso por terem um cunho mais geral e introdutório à pesquisa em ciências sociais (e.g., Babbie, 1982; Bickman & Rog, 1998; Bortz & Döring, 1995; Goodwin, 1995; Judd, Smith, & Kidder, 1991; Rogge, 1995; Roth & Heidenreich, 1987; Whitley, 1996). Como resultado desse esforço inicial, nos deparamos com uma curiosidade: nenhuma das obras inclui os termos interdisciplinaridade, multidisciplinaridade, multimétodo, transdisciplinaridade ou triangulação nos seus índices remissivos. Estes livros apresentam diferentes abordagens metodológicas de pesquisa, mas não destacam uma possível integração destas perspectivas distintas, seja na fase da coleta de dados ou de análise dos resultados. Ao mesmo tempo, também o Dicionário de Psicologia, de Stratton e Hayes (1994) [referência?] não traz nenhum dos três termos.

Uma consulta a dicionários não direcionados a uma área específica de conhecimentos, proporcionou algum esclarecimento. No Oxford English Dictionary (OED) (Simpson & Weiner, 1991) consta que o termo interdisciplinary é o mais antigo, tendo surgido em 1937. Por sua vez, o dicionário Houaiss (Houaiss & Villar, 2001) define interdisciplinar como "aquilo que estabelece relações entre duas ou mais disciplinas ou ramos de conhecimento; que é comum a duas ou mais disciplinas". Conforme o OED, o termo multidisciplinary surgiu por volta de 1953, sendo definido pelo Houaiss como aquilo que contém, envolve, distribui-se por várias disciplinas e pesquisas. Já o termo transdisciplinary, usado na forma impressa pela primeira vez em 1973, não consta do dicionário Houaiss, nem do Aurélio (Anjos & Ferreira, 1999), sendo definido pelo OED como: "pertencendo à mais de uma disciplina ou área de conhecimento".

Sem querer entrar nas razões políticas e de organização científica que possam ter provocado o surgimento de um novo termo a cada vinte anos, é possível resumir o significado do IMT utilizando a última definição apresentada, ou seja, como uma abordagem pertencente a mais de uma disciplina. Assim, fazer referência a um método como IMT, não implica maiores problemas, pois, uma vez constatada a utilidade de uma ferramenta, é possível nos apropriarmos da mesma e, se for o caso, modificá-la/ajustá-la para os propósitos específicos da investigação.

Assim, ao se referir a um objeto de estudo ou campo de atuação como IMT, nós, que estudamos a relação pessoa-ambiente, devemos podemos [será que de fato não é dever, no sentido de obrigação enquanto pesquisadores desta área? ]relembrar a definição de territorialidade de Gifford (2002a) como sendo "um padrão de comportamentos e atitudes por parte de indivíduos ou grupos, baseado em controle percebido, tentado ou real sobre um espaço físico, objeto ou idéia definíveis, que pode envolver ocupação, defesa, personalização e demarcação habitual" (p. 150). Sob esta perspectiva, onde está o objeto de estudo pessoa-ambiente, como está

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multiterritorial, [ao invés de retirar "pode ser

delimitado e defendido? Ou, nas palavras de Sommer (2000), trata-se de uma disciplina ou de um campo de estudo? Localiza-se dentro de um território acadêmico profissional distinto, implicando, portanto, defesa contra intrusos oriundos de outros territórios, que porventura queiram se apropriar deste objeto? Ou será que tal objeto pode ser encontrado em diferentes territórios, o objeto é territórios", e substituir por "é multiterritorial"acho interessante manter a frase e acrescentar o seu termo como para ênfase] o que implicaria a necessidade de se aprender a linguagem e os modos de comportamento desses diferentes territórios para poder ser referenciado de maneiras distintas e apropriadas? Ou, ainda, será que ao redor do objeto se forma um novo território, cuja língua e modo de tratar são próprios? Wilk (2000) aponta as implicações da conceituação e localização de objetos de estudo, caracterizando saber interdisciplinar como "conhecimento suficiente acerca de duas disciplinas para poder aplicar um ao outro", enquanto o saber transdisciplinar implicaria num conhecimento mais profundo, até mesmo acerca dos pressupostos epistemológicos e paradigmáticos envolvidos, a ponto de poder superar as fronteiras entre as áreas.

A pesquisa social baseada em múltiplas abordagens metodológicas tem uma longa tradição nas ciências sociais. Em 1933, Lazarsfeld, Jahoda e Zeisel publicaram um estudo sobre os desempregados de Marienthal, um vilarejo perto de Viena, Áustria. Os autores, respectivamente, sociólogo com doutorado em matemática aplicada, psicóloga social com doutorado em psicologia geral, e cientista social com um doutorado em ciências sociais e outro em direito, faziam parte do centro de pesquisa em psicologia econômica. Neurath (1983) observa que o que tornou este trabalho um clássico "foi a então relativamente nova combinação entre observação qualitativa e análise de dados quantitativa" (p. 124). Enquanto Mayring (2002) cita partes do estudo de Lazarsfeld et al. como exemplos de diferentes vertentes da abordagem qualitativa, o próprio Lazarsfeld insistiu na combinação de vários métodos (e.g., 1944, p. 60).

Duas palavras-chave caracterizam a abordagem metodológica implícita no estudo de Lazarsfeld et al. (1933): multimétodos e triangulação. O primeiro termo parece dispensar definição. O segundo é definido por Vogt como "usando mais do que um método para estudar a mesma coisa" (1993, p. 234). Qual, entretanto, a vantagem de se usar mais de um método para investigar a mesma coisa?

Em resposta a essa questão, Kish (1987) aponta três critérios para avaliar delineamentos estatísticos e metodológicos: representatividade, randomização e realismo. Observa que um mesmo estudo, dificilmente, teria todas estas qualidades, ao mesmo tempo, vez que constituem, respectivamente, características predominantes da observação, do experimento e do levantamento de dados (survey). Esse autor aponta ainda que, ao escolher um ou outro desses métodos, o pesquisador está, necessariamente, assumindo uma solução de compromisso em relação ao resultado final de seu trabalho. Sob essa perspectiva, Ao mesmo tempo, [será que não é 'sob essa perspectivo' mesmo?] é possível tratar as considerações de Kish como sugestão para se utilizar mais de um método ao estudar um tema qualquer, visto que, por si, cada uma das abordagens é incompleta.

Por sua vez, Brewer e Hunter (1989) afirmam que pesquisa de campo, levantamento de dados, experimentação e pesquisa não-reativa constituem os principais métodos das ciências sociais. Indicando a possibilidade de, sempre que possível, adotar-se uma estratégia de pesquisa multimétodos, eles - como Kish - apontam que:

interpretar os resultados de qualquer um destes métodos é tarefa incerta na melhor das hipóteses. A maior fonte de incerteza é que qualquer estudo utilizando apenas um único tipo de método de pesquisa (...) deixa de lado hipóteses rivais não testadas (...) que colocam em questão a validade dos achados do estudo. (p. 14)

Analisando as aproximações metodológicas que facilitam a compreensão das experiências ambientais humanas, Uzzell e Romice (2003) indicam como os principais modos de pesquisa as mapas mentais [é mapa mesmo, não sei que houve, alias, sei, foi da tradução do termo francês 'cartes mentales'], os percursos sensoriais e avaliativos, a avaliação da impressão/percepção, a simulação, os questionários, a observação, o mapeamento [idem] comportamental, os construtos pessoais de Kelly e os diferenciais semânticos. Além disso, os autores salientam que, no diálogo com outras áreas de conhecimento, sobretudo nos campos mais aplicados, como Arquitetura e Urbanismo, os métodos não devem ser encarados como barreiras:

individualmente cada um destes métodos produz informações sobre um aspecto da experiência ambiental; em conjunto, podem oferecer uma representação holística e continuada da experiência ambiental dos indivíduos. (p. 83)

Como se configura, então, a presença da abordagem multimétodos nos EPA? Se constatamos, acima, a ausência de termos como interdisciplinar, multidisciplinar, transdisciplinar, multimétodos ou triangulação nos livros metodológicos em geral, observa-se, por outro lado, em três livros metodológicos de pesquisadores que estudam a relação pessoa-ambiente a inclusão dos termos multimétodos (Bechtel, Marans & Michelson, 1987; Sommer & Sommer, 2002; Zeisel, 1984), transdisciplinar (Zeisel, 1984), ou triangulação (Sommer & Sommer, 2002) nos seus índices remissivos, sendo que Sommer e Sommer dedicam o primeiro capítulo à abordagem multimétodos. Vários dos livros introdutórios da área destacam a natureza multimétodos e/ou eclética da Psicologia Ambiental ao apresentar os métodos utilizados na área. Assim, Aragonés e Amérigo (2000) reforçam a posição de

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Brewer e Hunter (1989), ao observar que "el objeto de estudio de la Psicología Ambiental no ha sido exclusivo de esta disciplina, sino que otras disciplinas han participado activamente en su desarrollo, lo que ha favorecido un panorama plurimetodológico que contribuye a aumentar la complejidad a la hora de intentar buscar una unidad metodológica" (p. 40/41). Uma rápida revisão de outros livros introdutórios à Psicologia Ambiental, reforça a constatação de Aragonés e Amérigo, como se vê nos textos de Fisher, Bell e Baum (1984, e edições subseqüentes), Moser e Weiss (2003), Gifford (2002a), Hellbrück e Fischer (1999), Lee (1976/1977), ou Veitch e Arkkelin (1995).

Esses livros fazem, ao mínimo, menção da natureza multimétodos da área e, nos casos de Hellbrück e Fischer, Lee, e Veitch e Arkkelin, apresentam ainda vários métodos com mais detalhes. Por isso, chama a atenção que alguns livros introdutórios sequer tratem da questão do método (e.g., Bonnes & Secchiaroli, 1992/1995; McAndrew, 1993). Coube a Proshansky, Ittelson e Rivlin (1970) apontar uma distinção, não encontrada em textos posteriores com a mesma ênfase, entre métodos centrados nas pessoas e métodos "cujo foco é o ambiente, seu uso e impacto, ao invés de indivíduos e objetos no ambiente" (p. 589).

O que não foi encontrado nesses textos, com exceção de Sommer e Sommer (1980) ou Moser (2003), é o passo além da descrição de diferentes métodos. Se constatarmos que nos EPA usa-se mais que uma abordagem, um método, faz-se necessário integrá-los de alguma maneira, tanto no que se refere a sua aplicação prática quanto em termos dos resultados encontrados. Mas, como?

Antes de apresentar alguns exemplos e reflexões nesse sentido, especialmente acerca de casos concretos, optamos por resumir os métodos, adotando como base as categorias propostas por Proshansky et al. (1970): métodos centrados nas pessoas e métodos centrados no ambiente.

Sem dúvida, esta distinção remete à questão figura-fundo, i.é, ao esclarecimento do foco de um determinado estudo, em termos do tipo de relação tratada: (a) quais as características do ambiente em função das pessoas - centrado no ambiente, (b) quais os atributos das pessoas em função do ambiente - centrado nas pessoas, ou (c) centrado na transação entre pessoa e ambiente. Essa versatilidade instrumental implica expressivo esforço por parte de seus praticantes, pois ela contraria as tradições intelectuais, profissionais e ideológicas em que os profissionais de distintas disciplinas são treinados. Não é raro nos depararmos, por exemplo, com arquitetos tentando tratar dos "aspectos subjetivos" do ambiente, ou psicólogos referindo-se à importância das características físicas do mesmo (Elali & Pinheiro, 2003; Pinheiro, 2000, 2002).

Métodos centrados na pessoa incluem os "herdados" da psicologia social (como experimento, entrevista, questionário, observação), que precisam apenas poucas adaptações à especificidade de um EPA e que são apresentados com mais detalhe em outros capítulos deste livro, de modo que segue apenas um parágrafo resumindo suas principais características. Os já mencionados textos (Babbie, 1982; Bickman & Rog, 1998; Bortz & Döring, 1995; Goodwin, 1995; Judd, Smith, & Kidder, 1991; Rogge, 1995; Roth & Heidenreich, 1987; Sommer & Sommer, 2002; Whitley, 1996) permitem um aprofundamento nos métodos relacionados a seguir.

Experimento. Trata-se de um método oriundo das ciências naturais, introduzido e explicitado na psicologia por Wundt (1906/2004). Consiste de observações sistemáticas sob condições controladas pelo experimentador. Entre os métodos disponíveis ao pesquisador nas ciências de maneira geral, é o único cujos resultados permitem afirmações do tipo A (variável independente ou antecedente) causa B (variável dependente ou critério). Além dos textos indicados acima, mencionamos ainda os textos de Campbell e Stanley (1963/1979) e McGuigan (1968/1976), como referências sobre o método experimental, acrescentando a ressalva de que experimentos não são muito comuns na área de EPA. Uma das características normalmente apontadas da Psicologia Ambiental é o estudo dos seres humanos em seus contextos regulares de vida, com o ambiente exercendo papel integral no processo (e.g., Ittelson, Proshansky, Rivlin, & Winkel, 1974).

Observação. O jogador de baseball Yogi Berra, conhecido por suas afirmações humorísticas, comentou certa vez, 'simplesmente olhando, pode-se observar muita coisa' (Berra, 1998, p. 95). A observação constitui, sem dúvida, o ponto de partida para qualquer ciência, desde que seja sistemática. Diferentemente do experimento, que consiste na criação de cenário para que determinado comportamento possa acontecer para ser observado, o método observacional tanto é utilizado em situações não-estruturadas, fora de controle do experimentador, quanto implica, de maneira geral, múltiplos comportamentos e/ou múltiplos atores. Uma vantagem adicional deste método é que, na medida em que o "participante" da pesquisa não sabe que está sendo observado, o método torna-se não-invasivo, não provocando reatância (Webb, Campbell, Schwartz, & Sechrest, 1966; Webb, Campbell, Schwartz, Sechrest, & Grove, 1981). Nesta coletânea, os capítulos de Mara Campos-de-Carvalho e de José Pinheiro e Gleice Elali tratam de estratégias metodológicas que envolvem aplicações da observação aos EPAs. [ este tipo de observação não estaria melhor em nota de rodapé? Acho não, pode-se colocar aqui mesmo - é freqüente fazer referência de um capítulo a outro dentro de coletâneas ]

Entrevista. Bingham e Moore (1959) definem a entrevista como uma conversa com propósito, temática que é aprofundada neste livro, no capítulo de Isolda Günther.

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Questionário. Se a entrevista é uma conversa com propósito, o questionário corresponde a uma variante escrita da entrevista, tipicamente auto-aplicada. O assunto é explorado em detalhes no capítulo de Hartmut Günther nesta coletânea.

Auto-relatos. Textos escritos ou gravação de voz ou vídeo, narrados em primeira pessoa e relativos à vivência pessoal do autor ou sua percepção sobre a experiência do grupo. Abrangendo um período específico de tempo, pode ocorrer concomitantemente aos fatos, ou referir-se a uma fase anterior. Esse livro apresenta dois capítulos relacionados a auto-relatos, versando sobre diários de viagem e autobiografias ambientais, desenvolvidos por J. Pinheiro e G. Elali a partir de pesquisas realizadas.

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