O desenho infantil na ótica da ecologia do desenvolvimento humano

O desenho infantil na ótica da ecologia do desenvolvimento humano

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 1, p. 97-106, jan./abr. 2005

Luciane Germano Goldberg* Maria Angela Mattar Yunes# José Vicente de Freitas¶

RESUMO. Este trabalho resultou de reflexões sobre a Abordagem Ecológica do Desenvolvimento Humano de Urie Bronfenbrenner associada ao pensamento de estudiosos da Educação Ambiental. O foco deste artigo será compreender a relação entre percepção, o desenho e o conceito de atividade molar na perspectiva ecológica de Bronfenbrenner. Pressupõe-se que o desenho é também uma forma de expressar criativamente a percepção que as crianças têm dos ambientes que habitam. Será ressaltada a importância da imaginação e potencial da expressão do desenho como importante ferramenta na construção de conhecimentos e integração de experiências originadas em contextos variados. Estas experiências gráficas fazem parte do crescimento psicológico e são essenciais para a formação de indivíduos sensíveis, criativos e capazes de transcender e transformar a realidade. Para trabalhar com estas idéias são exemplificados desenhos de crianças de uma ONG no Extremo Sul do Brasil que propõe educação ambiental através de arte-educação.

Palavras-chave: desenho infantil, ecologia do desenvolvimento, arte-educação.

ABSTRACT. This work is a result of reflexions on the Ecology of Human Development of Urie Bronfenbrenner associated to thoughts of Environmental Education scientists. The focus of this article is to understand the relation among perception, drawing and the concept of molar activity under the ecological perspective of Bronfenbrenner. We supposed that drawing is also a way to express with creativity the perception children have of their own environment. The importance of imagination and the potential of expression of drawing will be emphasized as a relevant tool to build knowledge and integrate experiences which are originally from different contexts. These graphic experiences are part of psychological evolution and are essential to raise sensitive and creative individuals who are able to transcend and transform reality. In order to work with these ideas we bring examples of children’s drawings produced in a non governmental institution located in the extreme south of Brazil and we propose environmental education through art education.

Key words: Children’s drawing, ecology of development, art education.

* Arte-educadora e mestre em Educação Ambiental pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG/RS.

# Doutora em Educação: Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Coordenadora do Centro de

Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de Rua. Departamento de Educação e Ciências do Comportamento Fundação

Universidade Federal do Rio Grande.

¶ Doutor em História e Sociedade pela UNESP. Coordenador e docente do curso de Pós Graduação em Educação Ambiental da

Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG/RS.

O desenho infantil é um dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento integral do indivíduo e constitui-se num elemento mediador de conhecimento e autoconhecimento. A partir do desenho a criança organiza informações, processa experiências vividas e pensadas, revela seu aprendizado e pode desenvolver um estilo de representação singular do mundo.

O presente trabalho origina-se de um olhar investigativo em que o ponto de partida é a arteeducação aliada aos princípios da Educação Ambiental. Foram utilizados alguns conceitos da abordagem ecológica de desenvolvimento humano de Urie Bronfenbrenner (1979/1996) como base teórica para observação e análise de desenhos infantis realizados no contexto de uma ONG. Esses desenhos

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 1, p. 97-106, jan./abr. 2005 configuram-se nesta pesquisa como expressão da percepção que as crianças têm dos ambientes que habitam. Para Bronfenbrenner (1979/1996), estamos em constante crescimento psicológico a partir das relações de reciprocidade, sentimento afetivo positivo e equilíbrio de poder (1996) que se desenvolvem entre pessoas e entre pessoas e os seus ambientes. Desta forma, o desenho infantil pode emergir como uma atividade molar que faz o elo de representação destas relações e de outras vivências significativas para o desenvolvimento social, afetivo e cognitivo (Goldberg, 2004).

Pensar e ver o mundo ecologicamente significa abrir nossas percepções para um mundo complexo, vivo, dinâmico e intenso. Nesse mundo existem muitos vetores em constante e mutante interação que contribuem incessantemente para o nosso desenvolvimento psicológico. Buscar conhecimentos sobre a relação homem/ambiente, contextualizar suas perspectivas de interações/transações (Yunes, 2001) e refletir sobre as possibilidades de desenvolvimento saudável requerem a compreensão de um ser humano inserido em diferentes ambientes proximais e distais. Sendo assim, Urie Bronfenbrenner (1979/1996, 1998) sabiamente nos ajuda a ver e pensar o mundo a partir de um referencial teórico definido inicialmente a partir da "forma como a pessoa percebe e lida com o seu ambiente" (Bronfenbrenner, 1979/1996, p. 5). Para ele o meio ambiente ecológico é constituído por uma série de estruturas, encaixadas uma dentro da outra, representando os diferentes meios em que o indivíduo transita, de forma direta ou indireta. Estes ambientes atuam como sistemas de influência na construção das suas identidades. Nesta abordagem, todos os ambientes estão inter-relacionados e o importante é a maneira como a pessoa percebe os ambientes e interage dentro deles e com eles.

A pessoa é uma entidade em crescimento e está se desenvolvendo constantemente a partir das relações de reciprocidade criadas entre ela e os diferentes ambientes que habita. Para Bronfenbrenner (1979/1996), o meio ambiente não se limita a um único ambiente imediato, mas inclui a interconexão entre os ambientes que sofrem influências internas e externas oriundas de meios mais amplos. É relevante apontar no conceito de meio ambiente a visão sistêmica, em que todos os elementos envolvidos no contexto cotidiano do indivíduo em desenvolvimento são importantes. Muitas pesquisas nas áreas da

Psicologia e da Educação foram realizadas fora do contexto, buscando reproduzir situações artificiais em laboratório; porém, para se estudar o indivíduo em desenvolvimento é preciso apreender seu contexto, suas atividades cotidianas, e compreender suas percepções. Com base nestas idéias, Portugal (1992) afirma:

Na investigação ecológica as propriedades do sujeito e do meio, as estruturas ambientais e os processos que ocorrem nelas e entre elas, devem ser vistos como interdependentes e analisados em termos sistêmicos. Apenas deste modo, podemos identificar o processo de interação mútua entre o sujeito em desenvolvimento e o mundo em transformação (p. 50).

Para uma melhor compreensão deste dinamismo apresentaremos alguns conceitos-chaves da abordagem ecológica de desenvolvimento humano, que incluem primeiramente os contextos de desenvolvimento e o meio ambiente ecológico. Para Bronfenbrenner (1979/1996), os sistemas que compõem e organizam o meio ambiente constituem-se pelo encaixe de estruturas concêntricas denominadas microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema, que compreendem, além do comportamento dos indivíduos, as conexões entre outras pessoas, a natureza dos vínculos e a influência direta ou indireta sobre a pessoa em desenvolvimento nos contextos em que ela habita e atua de forma ativa. O microssistema se refere aos ambientes em que a pessoa convive mais diretamente, como a família, a escola ou o ambiente de trabalho. O mesossistema representa as inter-relações existentes entre dois ou mais ambientes (microssistemas) em que a pessoa participa de forma ativa. O exossistema caracteriza-se por um ou mais ambientes que não envolvem a pessoa como um participante ativo, mas que exercem ou sofrem influência de eventos que acontecem no ambiente imediato em que a pessoa atua. O macrossistema se compõe de valores culturais, crenças, aspectos históricos, sociais, ideológicos que afetam os outros sistemas, caracterizando padrões generalizados e determinando propriedades específicas dos exo, meso e microssistemas.

Como se pode ver, Bronfenbrenner expande a visão sobre ecologia e meio ambiente, comumente pensada apenas na área das ciências naturais. Castro (1992) busca a origem etimológica da palavra ecologia, constituída por dois termos gregos: oikos, que significa habitação, família e logia, que significa

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universoSendo assim, a questão ecológica reside

dizer, ler, anunciar. A partir daí ele percebe que não há referência à natureza, como a maioria das pessoas costuma pensar, mas à habitação, implicando o sentido do homem e do universo em seu ser. Partindo deste raciocínio podemos então “ver com outros olhos” a relação do ser humano com o meio onde ele vive. Habitamos muitos lugares, desde o nosso corpo, a nossa casa, cidade, país, continente, planeta, também nas relações dos indivíduos a partir da habitação destes ambientes e nas dinâmicas interações entre os mais variados espaços mentais, sociais e geográficos. O homem constrói seu universo, habita os espaços e projeta ações, configurando um cenário social e cultural específico em cada região.

É preciso pensar na atual estrutura social do

Ocidente e nas oportunidades oferecidas para que as pessoas possam se desenvolver com êxito. Numa sociedade capitalista, êxito é sinônimo de condição que permita adquirir objetos de desejo e de consumo. Pela forma como essa sociedade está estruturada somente uma pequena parcela das pessoas tem a oportunidade de alcançar tais objetivos.

É preciso pensar de forma ecológica, analisar as relações entre os diferentes sistemas, pois as “condições sócio-econômicas, as tensões do emprego, o planejamento urbano, o sistema de transporte, o poder hipnótico da televisão, e outros fatores, são circunstâncias determinantes do funcionamento famliar” (Portugal, 1992, p. 116) e sujeitos à “toxicidade” de outros ambientes sociais

(Garbarino, 1995).

Se pensarmos que a família (microssistema) é um dos núcleos mais importantes para o desenvolvimento dos indivíduos, é de extrema importância atentar para as relações existentes entre as crianças e os adultos que as rodeiam no ambiente familiar. Que tipo de indivíduo se forma em famílias em que não há tempo para o diálogo ou para atividades em conjunto? A palavra-chave é oportunidade. Oportunidade para muitas interações ou “interacionamentos”, conforme propõem Yunes, Miranda e Cuello (2004). Na vida em família, é preciso oportunizar que a criança “veja” mais do que televisão, pois segundo Bronfenbrenner (1979/1996), a televisão tem origem em fontes externas que constituem parte do exossistema, por isso reproduzem idéias, disseminam ideologias e modos de vida (macrossistema), podendo ser responsável pelo isolamento da criança de contatos significativos com outras crianças e adultos. Para o autor da abordagem ecológica, é importante que o indivíduo participe e interaja nos mais variados contextos, o que intensifica seu desenvolvimento, permitindo que se desenvolvam novas competências cognitivas e sociais. Além disso, a comunicação entre os ambientes é de extrema importância e é uma importante dimensão do mesossistema:

de duas vias entre esses ambientesé de

O potencial desenvolvimental da participação em múltiplos ambientes varia diretamente com a facilidade e extensão da comunicação crucial importância a inclusão da família na rede de comunicação, por exemplo, o desenvolvimento da criança tanto na família quanto na escola é facilitado pela existência de canais abertos de comunicação em ambas as direções (Bronfenbrenner, 1979/1996, p.167).

de avaliações

Se a comunicação e a integração entre ambientes comuns à pessoa em desenvolvimento são um fator estimulante ao crescimento psicológico, podemos pensar as influências da desconexão atual entre a escola e a família. Nossas experiências no trabalho com escolas ilustram a deficiência na comunicação inter-ambientes. Neste espaço de integração entre segmentos tão importantes, não se tem contato com pais ou responsáveis, pois este espaço de diálogo não existe dentro da escola a não ser nos dias de entrega

A escola parece estar “de costas” para a família e para a comunidade. Poucos pais acompanham as atividades escolares de seus filhos, o que em princípio impossibilita um canal de comunicação e integração das atividades escolares e domésticas. Assim, escola e família são mundos completamente diferentes em que a criança assume papéis distintos e fechados em cada contexto. Se somos o resultado de nossas vivências, que experiência significativa se leva da escola hoje, ainda centrada no sistema tradicional? Isso responde e justifica o desinteresse dos jovens pela escola?

Falar do mesossistema escola e família significa considerar elementos essenciais para o desenvolvimento dos indivíduos, pois tanto a família como a escola são ambientes formadores de atitudes, opiniões, valores, crenças e ideologias. Nos dias atuais, a escola tem sido cada vez mais responsável pela educação de valores fundamentais e condutas pró-sociais como amor, solidariedade, compaixão, respeito ao próximo e ao ambiente. Essa mesma escola parece não estar preparada para uma educação integral e sistêmica, pois sua estrutura fragmentada e

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 1, p. 97-106, jan./abr. 2005 impessoal não lhe permite “pensar ecologicamente” o desenvolvimento humano e sua responsabilidade e compromisso com esta questão. Os professores dificilmente terão experimentado uma vivência diferente daquela que reproduzem, e revelam uma necessidade de reflexão e aprendizado de novas práticas educativas, construídas de forma coletiva.

Pensando maior e retornando à estrutura social atual, percebe-se que estes problemas refletem um sistema mais amplo, que comanda comportamentos, pensamentos e tomadas de decisão. No nível do macrossistema está um projeto de civilização moderna do qual ainda sofremos fortes conseqüências. Um projeto em que a ciência, calcada na razão, responde a todas as questões da humanidade, a sensibilidade é considerada supérflua. Foi criada uma nova natureza, a natureza humana, que precisa se distanciar do grotesco mundo natural, demonstrar superioridade. Com a modernidade o homem passa a ser o centro do universo, comandando e guiando a carruagem dos tempos. Muitas glórias se têm deste processo civilizador, mas também muitas desgraças, pois se construiu uma mentalidade individualista e antropocêntrica. Se nada impõe limites à humanidade, se tudo se torna possível, até recriar a própria espécie, não há muito de que se espantar em alguns comportamentos da sociedade pós-moderna. Com essa idéia de civilização surge a educação, responsável pela adequação das pessoas a este projeto social.

Vivemos a era em que tudo é possível, a era do individualismo, da violência e da apatia. A mídia é responsável pela banalização da vida, pois assistir a uma chacina no telejornal tornou-se comum. Ninguém mais se choca com assassinatos e tragédias, desde que suas vidas estejam fora desses problemas. Tudo é facilmente produzido, o terrorismo e a guerra são exemplos, como se a humanidade já não tivesse presenciado o suficiente nas duas grandes guerras mundiais.

Estamos vivendo um período de transição e mudança de valores, mas não podemos deixar de analisar que valores estão emergindo dessa nova sociedade pós-moderna: a descartabilidade? A apatia? A desigualdade? A arrogância? Frente a um colapso socioambiental, que surge como uma bomba-relógio pronta para ser detonada, é essencial a convergência de idéias e ações para a solução dos problemas, ainda que no nível cotidiano das pessoas. A abordagem ecológica de Bronfenbrenner nos alerta para a importância do contexto no desenvolvimento humano, afasta-nos das concepções inatistas e nos mostra o conjunto de energias e vetores que influenciam e constituem novos indivíduos, aqueles que, como nós, são responsáveis pelo futuro da humanidade. Compreendendo os contextos, do micro ao macrossistema e identificando os principais vetores responsáveis pela construção dos indivíduos é possível intervir na esfera das políticas públicas e proporcionar oportunidades de participação da comunidade na tomada de decisões e na solução de problemas socioambientais. Este é um processo lento que necessita da intervenção dos mais variados meios, especialmente da mídia, tão presente no cotidiano da maioria da população.

Há muito que se pensar e é preciso dar oportunidade para que crianças e adolescentes possam participar de atividades de cooperação, solidariedade e ajuda, e não apenas de jogos de violência ou competição, presentes no seu cotidiano. Quantos dos nossos jovens serão capazes de examinar os acontecimentos locais e globais de forma crítica? Quantos perceberão as relações existentes entre suas vidas e o sistema econômico? Quantos conseguirão conhecer seu poder político individual e coletivo? Quantos terão consciência de si e de suas potencialidades? Que subjetividades estão sendo construídas?

Desta forma pode-se perceber a importância de se resgatarem as singularidades do indivíduo, de promover seu autoconhecimento. Para Guattari (1991), deve haver uma revolução planetária, não só em escala visível, mas também no nível da sensibilidade, da inteligência e do desejo. Segundo o autor, deveria haver uma recomposição da práxis humana nos mais variados domínios e em todas as escalas (individuais e coletivas) no próprio cotidiano, uma mudança fundamental das mentalidades em busca das singularidades, de novas práticas, estéticas por meio de um trabalho potencial de subjetivação. Deve haver a instauração de novos sistemas de valorização, percepção e expressão.

Em conseqüência da globalização assistimos à dissolução de muitas crenças e costumes de comunidades tradicionais em modos de vida pasteurizados e moldados ao sabor de uma cultura homogeneizada, sem identidade própria. É preciso resgatar a singularidade, em oposição à individualidade que trancafia pensamentos, isola mentes, proíbe contatos mais intensos.

Loubet (1979) confirma estas idéias apontando a importância da singularidade do indivíduo no desenvolvimento da cultura de um povo: “Uma

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 1, p. 97-106, jan./abr. 2005 identidade cultural só é mantida e desenvolvida quando as peculiaridades internas de um povo o singularizam. Só este cunho pessoal, individualizante, oferece um contraponto equilibrante no processo de integração da segunda natureza do homem, a cultura” (p. 28).

Não podemos então deixar de pensar na responsabilidade da constituição de subjetividades dos indivíduos com desenvolvimento psicológico sadio (Bronfenbrenner, 1990, 1991, Yunes e cols., 2004), se somos, ao mesmo tempo, agentes e objetos da cultura e tudo o que produzimos e construímos, constitui um modo de vida que tem uma subjetividade, que se amplia do individual para o coletivo numa escala macro, construindo padrões comportamentais e atitudinais de ação e transformação do mundo. Entendemos que o desenvolvimento psicológico sadio se dá a partir de interações com um ou mais adultos que queiram o bem incondicional das crianças que estão sob seus cuidados (Bronfenbrenner, 1991).

Guattari (1992) afirma que a subjetividade pode ser definida como “o conjunto de condições que torna possível que instâncias individuais e/ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial, em adjacência ou em relação de delimitação com uma alteridade ela mesma subjetiva” (p. 19).

A partir dessas idéias pode-se perceber que, em semelhança à teoria ecológica de Bronfenbrenner, esta proposição explicita a presença de objetos, atividades e especialmente outras pessoas, que emitem linhas de força, valências e vetores que atraem e repelem e orientam o comportamento e o desenvolvimento das pessoas em direção ao crescimento psicológico. São os processos proximais primários, definidos por Bronfenbrenner e Morris (1998) como os verdadeiros motores do desenvolvimento psicológico. É como se existisse em cada pessoa um mundo virtual que pode ser exteriorizado pela linguagem, seja ela gráfica, escrita ou falada, na medida em que fatos, acontecimentos ou outras pessoas provocam sua expressão. A subjetividade de cada um se constrói, então, pelos processos gerados nessa tensão entre o indivíduo e seus ambientes de atuação. Segundo Guatarri (1992):

De uma maneira mais geral, dever-se-á admitir que cada indivíduo, cada grupo social veicula seu próprio sistema de modelização da subjetividade, quer dizer, uma certa cartografia feita de demarcações cognitivas, mas também míticas, rituais, sintomatológicas, a partir da qual ele se posiciona em relação aos seus afetos, suas angústias [...] (p. 21/2).

Assim, acreditamos que temos necessidade de expressar nossa subjetividade, por qualquer via, artística ou não. A linguagem artística permite um devir criador que tem um papel importante na construção das identidades individuais e coletivas, podendo resgatar a singularidade perdida nas massas sem face do mundo contemporâneo.

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