Para uma imaginação sociológica da ecologia: uma análise do pensamento de anthony giddens

Para uma imaginação sociológica da ecologia: uma análise do pensamento de anthony...

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Os sistemas peritos estariam envolvidos na criação de riscos de grande conseqüência e na geração de incertezas manufaturadas impulsionando o surgimento de uma modernidade radicalizada (ou reflexiva). Esses riscos são avaliados a partir de vários pontos distintos. Giddens toma, primeiramente, uma leitura objetiva deles. Ele argumenta que os riscos contemporâneos são diferenciados no que tange à sua (i) intensidade e ao seu (i) escopo. Assim, ele chama a atenção para o fato de que, em certos âmbitos da vida social moderna, riscos envolvendo conhecimento especialista podem envolver conseqüências catastróficas. Riscos modernos têm a sua origem, como já notamos, i) em “ambientes criados”. Sua origem está relacionada à “infusão de conhecimento humano no meio ambiente material” (GIDDENS, 1991: 127).

A disseminação dos sistemas peritos altera substancialmente a relação das pessoas com o meio ambiente, envolvendo, como assinala Dickens (1992), uma grande contradição:

“a natureza está se tornando cada vez mais socializada, na medida em que sociedade e natureza estão se tornando crescentemente integradas. Mas, de outro lado, é justamente em razão de tal socialização, e do distanciamento das relações sociais e instituições envolvidas em sua produção, que as pessoas se afastam de uma associação tangível com os processos e mecanismos da natureza e das circunstâncias envolvendo a sua manipulação” (DICKENS, 1992: 151).

A modernidade radical (ou reflexiva) leva, então, a um distanciamento espaço-temporal da natureza. A transformação da natureza, por meio da produção de bens, envolve cada vez mais uma divisão de trabalho global. A escassez perde qualquer caráter “local” ou “regional” e pode ser produzida artificialmente por um processo produtivo que é, em última instância, global. O mesmo processo tende a acontecer com a poluição. No início da industrialização, o escopo dos impactos ambientais era mais regional ou nacional, mas, atualmente, eles podem vir a alcançar um âmbito transnacional ou global, desvinculando-se de seu local de origem. Nesse novo contexto, pessoas e organizações podem se distanciar dos efeitos ambientais que criam ou podem, por outro lado, sofrer justamente com o impacto ambiental produzido por outros, espacial e temporalmente distantes.

Esse distanciamento espacial da transformação da natureza propiciada pela produção, combinado com o distanciamento temporal envolvido com os efeitos ambientais, torna problemática a confiança depositada pelas pessoas nas formas usuais de conhecimento. Como indica Dickens (1992), as velhas formas de confiança, baseadas em experiência e observação direta (conhecimento leigo), sofrem um deslocamento através da preponderância do conhecimento e especialização científicos que passam a ser mediadores no contato com a natureza. Uma das principais conseqüências desse processo é que o camponês que estabelecia uma “inter-relação íntima e cognitiva com a natureza” tende a desaparecer.

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As possibilidades de reverter todo esse processo parecem ser bastante remotas. Como Giddens nos alerta, não “podemos escapar da civilização científicotecnológica, não importando as “nostalgias verdes” que ela tende a provocar” (1996b: 241). Isso porque os sistemas peritos tendem a se mostrar como um aspecto inescapável da modernidade e passam a estar presentes nas próprias tentativas de “salvar a natureza”:

“(...) uma pessoa pode chegar a extremos para evitar ingerir alimentos que contêm aditivos, mas se ela não cultivar tudo que come, deverá necessariamente confiar que os fornecedores de “alimentos naturais” oferecem produtos superiores. (...) Mas mesmo uma pessoa que tenha efetivamente optado por uma separação radical como essa acharia virtualmente impossível escapar de todo impacto dos sistemas de medicina e pesquisa médica, dado que eles influenciam muitos aspectos do “ambiente de conhecimento” assim como os elementos concretos da vida social cotidiana. Por exemplo, afetam a regulamentação da produção de alimentos – sejam eles ‘artificiais’ ou ‘naturais’”. (GIDDENS, 2002).

A seguir iremos nos deter nas implicações políticas que surgem desse quadro. Quais são as respostas políticas que Giddens vislumbra frente ao novo quadro de riscos da modernidade?

4. AFASTANDO-SE DO NATURALISMO

Em As Conseqüências da Modernidade, Giddens (1991) menciona a possibilidade, sob as bases de um realismo utópico, de “humanizar a tecnologia”. Ele escreve aí que “a lógica do desenvolvimento científico e tecnológico sem amarras” deverá ser enfrentada de modo a evitar danos sérios e irreversíveis futuros. Essa “humanização da tecnologia”, continua ele, é propensa a envolver “a crescente introdução de questões morais na relação agora amplamente ‘instrumental’ entre seres humanos e o meio ambiente criado” (1991: 169).

Nessa obra, Giddens não vai muito além dessa proposta. Em Para Além da

Esquerda e da Direita, sua obra posterior, ele retoma essas questões e argumenta que a crise ecológica está no centro da possibilidade de uma renovação política da esquerda. A importância da questão ambiental para a renovação da política contemporânea é afirmada logo no início da obra, onde Giddens afirma que “a crise ecológica está no âmago deste livro” (1996b: 19). Porém, nesta obra, nem sempre se torna muito clara a forma pela qual a questão ecológica se intercala com o projeto político de fundar uma nova agenda de política radical.

Um ponto de partida para examinar essa relação diz respeito às contradições que o citado autor vê no radicalismo político contemporâneo. Para Giddens (1996b), o radicalismo esteve sempre associado a um anseio de mudança e, até mais importante, à esperança de que esta mudança pudesse ser de alguma forma administrada. Ao mesmo tempo, no pensamento político moderno, radicalismo foi visto como sinônimo de “pensamento de esquerda”. “Há muito tempo”, escreve ele, “a idéia de radicalismo político está essencialmente ligada ao pensamento socialista” (1996b: 09).

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Um dos argumentos que invadem a tese de Giddens em Para Além da

Esquerda e da Direita é que esse quadro estaria se alterando substancialmente em razão do surgimento da incerteza e do risco artificial. As ideologias contemporâneas (socialismo, neoliberalismo) se mostrariam incapazes de fornecer uma resposta política para eles, uma vez que ambas compartilhariam uma confiança excessiva na ligação entre conhecimento e controle. Uma ligação que foi, segundo ele, a essência das ambições da esquerda e o pesadelo da direita. Haveria hoje uma inversão de papéis envolvendo a esquerda e a direita, de um lado, e o radicalismo e o conservadorismo, de outro. A associação da esquerda com radicalismo seria hoje um equívoco, uma vez que a esquerda teria se tornado conservadora, enquanto a direita estaria tornando-se radical. De um lado, a esquerda estaria concentrada em “conservar” as estruturas do Estado de Bem-Estar social, enquanto os neoliberais se mostrariam “radicais” ao defenderem cegamente as mudanças advindas com o capitalismo7.

Mas o problema não reside apenas nessa simples inversão. A questão reside no fato de que tanto a esquerda como a direita apresentariam, atualmente, elementos de “radicalismo” e “conservadorismo” simultaneamente. A política estaria passando por uma espécie de hibridização ofuscante, o que significa que o radicalismo não teria desaparecido, mas que estaria se apresentando de diferentes formas. Não só o radicalismo político teria perdido os seus laços estreitos com a esquerda, como também o radicalismo, que a esquerda e a direita deixariam para nós, seria um tanto contraditório para enfrentar os riscos e as incertezas artificiais envolvidas na relação entre conhecimento e controle.

Deve-se frisar que, ao contrário do que poderíamos pensar, a mistura entre conservadorismo e radicalismo, que tanto esquerda como direita estariam operando, não seria algo necessariamente indesejável. Na verdade, o radicalismo político hoje deveria justamente integrar algum tipo de conservadorismo. O que ele chama especificamente de conservadorismo filosófico é, em sua visão, fundamental para pensar a política contemporânea e o próprio radicalismo político. Como é indicado na seguinte passagem:

“O que poderia ser chamado de “conservadorismo filosófico – uma política de proteção, preservação, solidariedade – adquire atualmente nova importância para o radicalismo político. A idéia de viver com imperfeição, antigo ponto de ênfase do conservadorismo filosófico, poderia ter se transformado em proposta radical. Um programa político radical deve reconhecer que o confronto com o risco artificial não pode assumir a forma de ‘mais do mesmo’, uma exploração infinita do futuro à custa da proteção do presente ou do passado” (1996b: 19).

Em algumas passagens, Giddens parece indicar que o paradoxo político atingindo a direita e a esquerda estaria se desdobrando para a questão ambiental e, em especial, para o próprio ambientalismo. Em primeiro lugar, os dilemas envolvendo o caráter “conservador” e “radical” da esquerda e da direita seriam um problema que atingiria o próprio movimento ambiental. A tendência de ver o movimento verde

Ambiente & Sociedade – Vol. IX nº. 1 jan./jun. 2006 como herdeiro do radicalismo de esquerda teria contribuído para justamente obscurecer as afinidades desse movimento com o pensamento conservador. Em cada caso, seja no ambientalismo ou no conservadorismo, existe, como ele nota, “uma ênfase na preservação, restauração e conserto” (1996b: 19). Nesse sentido, embora o movimento ambiental seja visto como um movimento “radical”, os valores que ele apóia possuem um perfil nitidamente “conservador”. A ação radical do movimento ambientalista não está calcada somente na idéia de mudança, mas de “conservação” e “preservação”. Desse modo, tal qual o neoliberalismo, o radicalismo do movimento ambiental estaria ocultando seu viés nitidamente conservador.

Giddens traça pontos que seriam comuns tanto ao conservadorismo quanto ao ambientalismo. Dentre eles estão: a) a crença de que o crescimento econômico em si mesmo é perigoso; b) o vínculo que ambos estabelecem entre gerações do passado, presente e futuro; e c) a convicção de que o desenvolvimento individual está associado a formas comunais de vida. Apesar dessas semelhanças, em seus trabalhos é dirigida uma crítica às falácias “naturalistas” que atingem o ambientalismo. Em suas palavras: “não podemos defender a natureza da maneira natural mais do que podemos defender a tradição da maneira tradicional – no entanto cada uma delas, com freqüência, precisa ser defendida” (GIDDENS, 1996b: 19). Isso implicaria incorporar o pensamento ambiental sem levar com ele algumas de suas falácias. A política ambiental deveria partir do contexto da “natureza humanizada”, o que implica que as “decisões sobre o que preservar, ou lutar para recuperar, podem raramente ser tomadas com referência àquilo que existe independentemente dos seres humanos” (1996b: 119). Por isso, a teoria do valor de Goodin, um importante representante do pensamento ambientalista contemporâneo, é criticada. Autores como ele fundamentariam o valor de recursos com base no grau de “naturalidade” por eles expresso. Em Goodin, afirma Giddens, a natureza é defendida de maneira natural. Vale reproduzir na íntegra as palavras de Giddens em relação a esses pontos:

“A teoria verde do valor difere das duas [neoliberal e marxista] por ligar valor aos recursos naturais ou, visto que a palavra “recurso” sugere ambientalismo, aos atributos naturais que os tornam valiosos. Eles são valiosos, argumenta Goodin, exatamente por resultarem de processos naturais e não de atividades humanas. (...) [no trabalho de Goodin], o que é especialmente valioso nos produtos de processos naturais é que eles são produtos de algo maior do que nós mesmos” (apud GIDDENS, 1996b: 233).

Em visões como essa, estabelece-se uma relação estreita entre o “natural” e o “autêntico”. O que torna um recurso “natural” é a sua “não artificialidade” e o fato de não poder ser reproduzido pelos seres humanos. Como indica Giddens, qualquer objeto que é falsificado, “não importando o quão meticulosamente isto feito, não tem o valor do artigo autêntico” (1996b: 233).

Em Para Além da Esquerda e da Direita, não são esclarecidos quais princípios deveriam guiar a política ecológica. Contudo, Giddens parece indicar alguns aspectos

Para uma imaginação sociológica da ecologia – C L L que poderiam servir de ponto de partida. Em primeiro lugar, o ambientalismo e a política ecológica deveriam abandonar uma ênfase sobre o “natural” como um meio para resolver as disputas concernentes ao “o que preservar?”. Isso porque qualquer política ambiental voltada para a “conservação” ou “proteção” pressupõe, de antemão, algum tipo de intervenção humana que invalidaria as bases do que pode ser considerado como “natural”. Vale transcrever na íntegra seus argumentos sobre esse ponto, já que eles parecem bater de frente com muitas idéias provindas do pensamento ambientalista:

“A ecologia privilegia os sistemas que ocorrem naturalmente em relação aos outros, mas isso é um erro. Sem dúvida, existe uma série de situações nas quais a humanidade deveria tentar eliminar os efeitos colaterais. Entretanto, a maioria dos modos de vida com os quais temos de lidar são sistemas ecossociais: eles dizem respeito ao meio ambiente socialmente organizado. Nenhum apelo à natureza pode nos ajudar a decidir se essa retratação é ou não adequada em qualquer caso específico. Na maioria das áreas ambientais, não poderíamos começar a desenredar o que é natural do que é social - mais importante ainda, procurar fazer isso é geralmente irrelevante para os esforços a fim de elaborar programas de ação (...)”. Dessa forma, todos os debates ecológicos atualmente versam sobre a natureza controlada. É claro que isso não significa dizer que a natureza passou completamente para o controle humano; os limites desse controle são expostos pelos próprios fracassos nas tentativas de estendê-lo indefinidamente. No entanto, a questão de o quanto devemos “acatar” os processos naturais não depende do fato de alguns desses processos serem extensos demais para que possamos abrangê-los. Ela depende de em que medida concordamos com o fato de que seria melhor restaurar alguns fenômenos naturais que influenciam ou poderíamos influenciar. Qualquer restauração é, em si, pelo menos de maneira indireta, uma forma de controle – a criação de parâmetros de “proteção” (1996b: 240).

A partir dessa perspectiva, surgem três questões cruciais para a política ecológica na obra de Giddens (1996b). A questão da preservação da natureza é, primeiramente, uma questão eminentemente normativa. Como ele afirma na seguinte passagem: “A pergunta “como viveremos?” é suscitada por qualquer tentativa de decidir o que preservar – da natureza e do passado (...)” (1996b: 241). Em segundo lugar, tal como Ulrich Beck, ele busca enfatizar que essas questões nos remetem ao caráter problemático dos sistemas peritos na modernidade. “Tão importante para as questões ecológicas quanto o controle do meio ambiente”, diz ele, “é o controle da ciência e da tecnologia, vistas no contexto da indústria moderna” (1996b: 241). Em terceiro lugar, Giddens associa as questões envolvendo a proteção ambiental com aquelas relativas à identidade pessoal. A degradação ambiental possuiria um signo positivo na medida em que ela parece sugerir que os cuidados com o corpo e com o self tanto podem como devem ser mesclados com programas de renovação ambiental. Há, então, um vínculo em seu trabalho entre proteção ambiental e a segurança ontológica da identidade pessoal. Uma vez que a questão de “como viveremos?” estaria implicada nos conflitos sobre preservação ambiental, isso nos remeteria à necessidade de “deliberar, de uma

Ambiente & Sociedade – Vol. IX nº. 1 jan./jun. 2006 forma aberta e pública, de que maneira a restauração social e ambiental poderia estar ligada à busca de valores positivos de vida” (1996b: 256). Desse modo, Giddens vincula aqui a política ecológica com seu conceito de política de vida, uma política voltada aos estilos de vida de grupos sociais e que está focada, portanto, para a questão da identidade na modernidade.

Por outro lado, esse vínculo entre política de vida e política ecológica não sugere, e parece até mesmo se chocar, com a idéia difundida na literatura ambiental de que a preservação ambiental deva implicar uma preservação da tradição. Na verdade, seu argumento segue numa direção inversa. Na questão ambiental, esse argumento de Giddens parece ir contra, ou pelo menos não aceita inteiramente, o argumento daqueles que defendem que há uma relação direta e absoluta entre a preservação de ecossistemas e a manutenção de estilos de vida de grupos sociais específicos.

Para finalizar esta parte, retornemos especificamente às questões envolvendo a política ecológica e sua relação com a ciência e tecnologia que recebem uma atenção crescente do autor. Em Para Além da Esquerda e da Direita, Giddens descreve algumas das incertezas envolvendo as tecnologias modernas, como o hormônio do crescimento, biotecnologia e AIDS. Em muitos desses casos, não é a ciência em si que está em julgamento, mas o envolvimento da ciência e da tecnologia com a orientação moderna para o controle. Muito do que Giddens argumenta aqui ecoa algumas das teses de Ulrich Beck (1992) sobre a emergência da Sociedade de Risco. No passado, as inovações e especulações científicas tinham condições de manter-se dentro de uma esfera específica. Ele também reconhece o caráter “experimental” que envolve as novas tecnologias modernas e que são ressaltadas por Beck em sua visão da Sociedade de Risco como uma “sociedade laboratório”. A própria modernidade teria se tornado um grande experimento, mas sem que as condições de controle dos experimentos científicos usuais se mantivessem. De um lado, as inovações e discussões científicas expressam um potencial cada vez maior de impacto em nossas vidas diárias, mas, ao mesmo tempo, elas estariam se tornando mais problemáticas. Cada vez mais, descobertas científicas e o uso de tecnologias são questionados e muitas delas são operacionalizadas sem serem “testadas”. Logo, o perfil de “imparcialidade” da ciência torna-se cada vez mais questionado com a ciência rompendo as fronteiras de seu próprio campo.

Em muitos casos que envolvem riscos de grande conseqüência, não é possível tomar decisões sobre previsões exatas. As conseqüências advindas com as inovações tecnológicas são geralmente incertas e imprevisíveis. As acusações de alarmismo por parte daqueles que desejam minimizar os riscos e acusações de imprudência com relação às autoridades é algo que permanecerá latente nos conflitos sobre riscos. Esse parece ser um dilema político que se tornaria rotineiro nas condições da sociedade de risco. Como ele mesmo ressalta, “mesmo que haja algum risco, este provavelmente será objeto de controvérsia. Simplesmente não temos como saber de antemão se estamos sendo mesmo alarmistas ou não” (2000: 144).

Qual a importância da obra de Giddens para os debates envolvendo

Sociologia e a questão ecológica? Para considerar esse aspecto, podemos tomar algumas das interpretações e críticas já feitas em relação ao seu trabalho. Até agora, avaliamos

Para uma imaginação sociológica da ecologia – C L L três fases do trabalho do autor que apresentam uma aproximação com a temática ambiental. Para cada uma delas poderemos encontrar uma crítica específica presente em outros trabalhos. Usaremos essas análises para tecer algumas reflexões finais sobre a contribuição do trabalho de Giddens para a integração entre sociologia, política e as questões ambientais.

5. TEORIA DA ESTRUTURAÇÃO, SOCIEDADE E NATUREZA

Como vimos, a teoria da estruturação parece estar fundada numa distinção entre sociedade e natureza. Esse parece ser um dos aspectos que mais poderiam afastar o trabalho de Giddens da possibilidade de “ecologizar” a teoria social. Alguns autores que trabalham com esse tema criticam seu trabalho justamente em razão desse ponto. Dickens (1999) argumenta que, ao sustentar essa distinção, Giddens “continua a fragmentar o conhecimento”. O’Brien (1999), por sua vez, argumenta que enquanto a “teoria da estruturação inicialmente distinguiu sociedade e natureza”, seu trabalho posterior estaria por rever tal proposição.

Até o momento, Giddens não abandonou a sua idéia de hermenêutica dupla e, assim, é de se esperar que a distinção que ele faz entre ciências sociais e naturais seja defendida até hoje. A teoria da estruturação parte da idéia de que as ciências sociais são caracteristicamente hermenêuticas. Na segunda edição das Novas Regras do Método Sociológico, ele mantém essa posição e argumenta que “o elemento hermenêutico envolvido [nas ciências sociais] não tem paralelo nas ciências naturais, que não lida deste modo com agentes portadores de saber – mesmo no caso do mais elaborado comportamento animal” (1996a: 21). Mas, ao mesmo tempo, esse ponto de vista não implica ver a natureza como uma entidade afastada dos seres humanos. Como indicamos, a natureza no contexto da teoria da estruturação apresenta-se sempre como uma “natureza socializada”. A questão a saber é, portanto, se esse ponto de vista de Giddens vai contra uma sociologia ecológica (situação a) ou se ela pode, até mesmo, contribuir para a construção desta última (situação b).

Ao fazerem aquelas críticas, Dickens (1999) e O’Brien (1999) lembram os argumentos de Catton e Dunlap (1978) que, ao final da década de 70, lançaram a idéia de criação de uma sociologia ambiental. Para estes autores, a criação de uma sociologia ambiental implicava assumir várias premissas e uma delas defendia a tese da igualdade biocêntrica. Esta última significaria que “nenhuma espécie, incluindo a espécie humana, é considerada como de maior valor, ou em algum sentido, superior do que qualquer outra espécie” (DRYZEK, 1997). Assim, em 1978, Catton e Dunlap lançaram um pressuposto para a criação da sociologia ambiental que estabelecia que “Seres humanos são apenas uma espécie entre muitas outras que estão interdependentemente envolvidas na comunidade biótica que modela a nossa vida”.

Estes autores defenderam essa idéia no final da década de 1970. Teria ela, hoje, uma importância para a criação de uma teoria social ecológica? Há razões para acreditar que não. Já em 1979, Catton e Dunlap reviram o seu postulado e argumentaram que a sua proposta de uma sociologia ambiental não recusa que o

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“Homo Sapiens é uma espécie “excepcional”, mas que as características excepcionais da nossa espécie (cultura, tecnologia, linguagem, organização social sofisticada) de modo algum isentam os humanos dos princípios ecológicos e das influências e coerções ambientais” (CATTON E DUNLAP, 1979).

Como vimos, nem Giddens postula que os seres humanos estejam isentos das coerções materiais. O que ocorre é justamente o contrário. Ele mesmo argumenta que, a partir de sua teoria da estruturação, “as coerções fundamentais sobre a ação estão associadas às influências causais do corpo e ao mundo material” (1989: 140). Um postulado que passou despercebido em muitas análises de sua obra. Então, a questão não parece ser se seres humanos estão isentos ou não de coerções ecológicas, já que esse parece ser um ponto consensual entre estes autores. A questão crucial é saber se podemos especificar distinções entre os seres humanos e outras espécies e que implicações isso pode ter para a ecologização da teoria social.

Se analisarmos mais de perto essa questão, iremos notar que o ponto de vista de Giddens (1989) é muito próximo de uma série de autores que buscam ecologizar a teoria social e que vêem como crucial a demarcação da distinção entre seres humanos e outras espécies de animais. O argumento de que seres humanos se apresentam como distintos de todos os outros animais em razão de sua natureza social, e que essa sua especificidade é crucial para entender a relação dos grupos humanos com o seu meio ambiente, é defendido por vários autores. Entre eles estão Wolfe (1990), Benton (1994) e Barry (1999). Uma teoria social que se mostrasse insensível às capacidades únicas dos seres humanos, não reconhecendo sua condição de ser parte e, ao mesmo tempo de estar à parte do meio ambiente, seria incapaz de entender e reconhecer a variedade e complexidade que pode envolver as relações dos mais diferentes grupos humanos e de seus ambientes (BARRY, 1999). Logo, se ainda faz sentido falarmos de especificidades dos seres humanos em relação às outras espécies, faz sentido também fazermos uma distinção entre sociedade e natureza.

Poderíamos tornar nossas as palavras de Barry (1999), quando este argumenta que “poderia-se sugerir que a diferença entre humanos e animais nãohumanos é uma diferença em tipo antes do que de grau”. Nesse caso, a excepcionalidade humana ainda pode ser aceita porque, embora uma série de qualidades humanas possa ser encontrada em outros animais, o gap entre eles e a espécie humana mantémse de um modo significativo. Todos os estudos das ciências naturais que Wolfe pôde examinar mostram que muitas qualidades humanas podem ser encontradas em outros animais. Mas como ele busca indicar, tais estudos continuam a mostrar que “muitas capacidades humanas se mantêm únicas” (1990: 631). Embora possamos encontrar o que poderíamos considerar como linguagem, comunicação e simbolização em outros animais, nenhuma delas se aproxima da forma pela qual processos como estes se expressam em humanos.

Isso não significa que devemos fechar nossos olhos para as implicações mútuas existentes entre sociedade e natureza. Caso contrário, não faria sentido falarmos de uma relação entre uma coisa e outra se elas fossem marcadas apenas pela semelhança. A contribuição da teoria da estruturação reside justamente neste ponto. Seu ponto de

Para uma imaginação sociológica da ecologia – C L L partida hermenêutico nos chama a atenção para as capacidades cognitivas e práticas únicas dos seres humanos. A condição dos seres humanos como “agentes portadores de saber” é ainda um ponto importante de análise na relação que as sociedades humanas sustentam com o seu ambiente.

6. MODERNIDADE E MUDANÇA AMBIENTAL

Goldblatt (1996) vê a interpretação fornecida por Giddens sobre a modernidade como um ponto de partida crucial para uma ecologização da teoria social. A visão de Giddens permitiria vincular dois eixos centrais da modernidade – industrialismo e capitalismo – com a degradação ambiental moderna. Ao mesmo tempo, ele argumenta que Giddens seria inovador ao associar estes problemas com o processo de urbanização. Nesse caso, parece que não temos muito o que dizer sobre a contribuição do trabalho de Giddens quanto a este ponto, uma vez que esse reconhecimento já seria expressado por autores como Goldblatt (1996). O problema, no entanto, está na crítica que Goldblatt insiste em fazer ao trabalho de Giddens no âmbito destas questões. Gostaríamos de retornar a ela mais uma vez.

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