Para uma imaginação sociológica da ecologia: uma análise do pensamento de anthony giddens

Para uma imaginação sociológica da ecologia: uma análise do pensamento de anthony...

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Goldblatt (1996) argumenta que Giddens veio a negligenciar, em seus últimos trabalhos, a dimensão do capitalismo em prol do industrialismo na explicação da mudança ambiental. Como afirmamos anteriormente, essa crítica não procede inteiramente. Isso ocorre por duas razões. A primeira delas se refere, como vimos, ao fato de que a afirmação de Giddens de que o “industrialismo se torna o eixo principal da interação dos seres humanos com a natureza em condições de modernidade” pode ser interpretada de uma forma mais ampla. Giddens parece atribuir maior primazia ao industrialismo em face do impacto mais difuso dos sistemas peritos na modernidade que passam a integrar até mesmo outros eixos institucionais da modernidade (Estadonação e capitalismo). Uma segunda razão está associada ao próprio interesse de Giddens pelo capitalismo. Em seus últimos trabalhos, este autor faz várias advertências em relação ao impacto do próprio capitalismo sobre o meio ambiente. Um aspecto que, por sinal, Goldblatt (1996) não ressalta em sua crítica. Giddens procura deixar claro, em As Conseqüências da Modernidade, que “quaisquer que sejam os novos desenvolvimentos tecnológicos a ocorrerem (...) há limites intrínsecos aos recursos disponíveis para acumulação indefinida” (1991: 171). Em outros trabalhos, é possível verificar que esta preocupação se mantém. As considerações de Giddens sobre a possibilidade de realizar uma ordem econômica pós-escassez estão diretamente associadas com o tema ecológico. No entanto, ele nos fala que, nessa nova ordem econômica, o ímpeto capitalista de acumulação contínua passa por um processo de dissolução. Seria ela justamente uma alternativa ao sistema econômico capitalista, no qual “o crescimento econômico contínuo torna-se prejudicial ou claramente contraproducente”, sendo que o “etos do produtivismo passa a ser amplamente questionado” (GIDDENS; 1997: 232).

Ambiente & Sociedade – Vol. IX nº. 1 jan./jun. 2006

ENTRE O RADICALISMO E O CONSERVADORISMO

7. POLÍTICA ECOLÓGICA:

Embora Benton (1999) concorde com Giddens sobre os desafios colocados pelo movimento ambiental em relação ao pensamento de esquerda, ele vê problemas na interpretação de Giddens sobre as contradições ideológicas envolvendo esquerda e direita. Assinala Benton (1994) que, embora buscasse se apoiar em muitos aspectos ligados ao Estado de Bem-Estar social ao longo da história do século X, a esquerda também foi crítica de muitas de suas características (burocracia, paternalismo, dependência, etc). O que significaria que ela não poderia ser tomada como “conservadora”. Por outro lado, continua Benton (1994), nem todos os conservadores defendem ferozmente o capitalismo como os neoliberais o fazem, e alguns deles continuam a criticar esse sistema em razão de seu impacto no âmbito dos valores familiares. O que, por sua vez, indicaria que não seria válido vê-los como “radicais”.

As observações de Benton (1994) parecem ser pertinentes sobre muitas dessas questões. Mas ainda vale nos perguntarmos se esse tipo de crítica invalida o que Giddens tem a nos dizer. Se Benton (1994) parece encontrar exemplos que sustentam o seu argumento, isso não é diferente para Giddens (1996b). Embora qualquer generalização possa se mostrar como perigosa num quadro como esse, não é inapropriado ver os neoliberais como a ala mais influente e significativa do pensamento conservador no mundo de hoje, como também não é incoerente o argumento de Giddens ao afirmar que a esquerda, sob o ataque neoliberal, tenha esquecido um pouco a sua crítica ao Estado de Bem-Estar e tenha tomado uma postura mais defensiva. A tentativa de Benton (1999) em encontrar provas em contrário parece fazê-lo desviar dessas sutilezas.

Em segundo lugar, os argumentos de Giddens não repousam basicamente na mudança de papéis entre esquerda (transformando-se em conservadora) e direita (transformando-se em radical). Como indicamos, isso seria simplificar demais os argumentos do autor. A questão parece ser um pouco mais complexa do que isso. Basicamente, seu argumento é de que o radicalismo acabou perdendo seus “laços estreitos” com a esquerda e, por esse prisma, seria comum vermos a esquerda se mostrando como “conservadora” em determinados momentos e “radical” em outros, como também seria comum vermos neoliberais serem “radicais” em alguns pontos e “conservadores” em outros. Em resumo, “radicalismo” e “conservadorismo” permanecem na política contemporânea, mas seria cada vez mais difícil associá-los diretamente a qualquer pólo ideológico (direita ou esquerda).

Esse quadro nos coloca a seguinte e incômoda questão: devemos rechaçar esse caráter “híbrido” da política contemporânea? A resposta de Giddens a essa questão é, como vimos, negativa. Para ele: “Todos nós deveríamos nos tornar conservadores agora”, porém, “não de uma forma conservadora” (1996b: 60-1). Se isso é ou não possível, o que Giddens parece nos dizer é que tanto esquerda quanto direita estariam fazendo isso na prática, mesmo que cada uma delas o faça ao preço de uma contradição incômoda.

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Ainda que os argumentos de Giddens em relação a esses pontos possam ser vistos como controversos, é justamente nesse campo que ele mais se aproxima do ideário ambientalista, fato desconsiderado, por sua vez, na análise de Benton (1999). A idéia de que a política ecológica é uma política que está para além da esquerda e da direita tem sido, afinal, uma marca do próprio pensamento ambiental. Como Vincent (1995) nos lembra, o principal slogan dos verdes britânicos tem sido: “Nem à esquerda nem à direita, mas para a frente”. Assim, embora existam versões tanto da direita como da esquerda do pensamento ambiental, muitos ambientalistas tendem a desconfiar e rechaçar essa “adaptação”8. Questões como essas parecem ser espinhosas mas, ao nosso ver, são cruciais nos debates contemporâneos sobre a crise ecológica. Deixe-nos dar um breve exemplo das implicações desta questão para os debates que ocorrem dentro da sociologia e política ambiental.

Hoje, nas ciências sociais, há uma discussão intensa sobre conceitos como desenvolvimento sustentável e modernização ecológica9. No interior dessa literatura apresenta-se uma tentativa de diferenciar estes conceitos entre si, como também as várias versões existentes dentro deles, a partir da postulação de modelos “fortes” e “fracos”. Outros mencionam os termos “radical” e “superficial” para se referirem aos diferentes modelos de sustentabilidade (ou desenvolvimento sustentável) e modernização ecológica10. Não é difícil notar que há uma tentativa de se encontrar, então, o que seria um modelo político radical desses conceitos. Na verdade, essa discussão só reflete um debate mais longo sobre a diferença entre a existência de um ambientalismo mais “superficial” e outro mais “radical” (DOBSON, 1990). Do mesmo modo que alguns buscam diferenciar o “ambientalismo” (mais superficial) do ecologismo (mais forte), outros tentam diferenciar uma “sustentabilidade fraca” de uma outra supostamente “radical” (ou forte). Assim, os problemas que atingem esses conceitos passam pelos problemas indicados por Giddens em relação ao conservadorismo e radicalismo. A dificuldade de tornar esses conceitos politicamente radicais deve-se ao fato de eles possuírem um perfil nitidamente conservador. Afinal, o ideal da sustentabilidade aproxima-se da idéia de conservação, que tem uma familiaridade, por sua vez, com o próprio conservadorismo político. Também é o caso para o apelo ao princípio de precaução (ou prudência), que tanto modernização ecológica quanto sustentabilidade expressam11. Pela sua origem, prudência parece ser um termo mais próximo do pensamento conservador do que radical. Essas observações também valem para o caso envolvendo a teoria da Sociedade de Risco do sociólogo alemão Ulrich Beck. Como afirma Klaus Eder (1996: 216): “A idéia de uma Sociedade de Risco é uma idéia fundamentalmente conservadora – ela implica o distanciamento do que faz a vida arriscada, um retorno para um mundo que evita os perigos”. Talvez isso não seja necessariamente um problema, uma vez que, como indica Giddens, todos “nós deveríamos nos tornar conservadores agora”. Nesse caso, conceitos como sustentabilidade e sociedade de risco podem ser vistos como similares, tendo em vista esse perfil político que caracteriza cada um deles.

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8. PARA UMA IMAGINAÇÃO SOCIOLÓGICA DA ECOLOGIA

Diferentemente de outros trabalhos mais contemporâneos, Giddens não apresenta um trabalho muito sistemático sobre as implicações da questão ecológica para a época moderna. Também não analisa extensamente a implicação desse tema para a própria Sociologia. No entanto, o caráter sistemático e extenso de uma obra nem sempre é razão para o seu sucesso. Características como estas não tornam necessariamente clarividentes as questões que podemos presumir sejam as mais centrais. Afinal, como nos lembra Taylor (2000), “pensadores profundamente inovadores não têm de ser rigorosos para originar idéias importantes. Aquilo que capturam em imagens marcantes pode inspirar outras mentes, mais exigentes em termos filosóficos”. Essa afirmação parece fazer muito sentido quando pensamos no trabalho de Anthony Giddens e de sua relação com a questão ambiental contemporânea. Ainda que Giddens não seja um autor rigoroso em sua abordagem da temática ambiental, o que não é o caso para a sua abordagem de outros aspectos relacionados à teoria sociológica, sua obra parece pertinente para pensar a forma como a teoria social e a ecologia podem vir a ser integradas sem reproduzir qualquer tipo de falácia naturalista. O que é algo importante, talvez, para a construção de uma imaginação sociológica da ecologia.

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