Pensar a natureza e o ambiente - alguns contributos a partir da Teoria das Representações Sociais

Pensar a natureza e o ambiente - alguns contributos a partir da Teoria das...

(Parte 1 de 4)

Um campo de estudos - as crenças e atitudes em relação ao ambiente e à natureza

Os estudos sobre as “crenças e atitudes do público em relação ao ambiente e à natureza” constituem actualmente uma parte muito substancial da literatura que as ciências sociais dedicam a assuntos ambientais. Em periódicos como Environment and Behavior, Journal of Environmental Psychology, ou Journal of Social Issues essa linha de investigação vem originando numerosas publicações enquadradas por modelos e conceitos da psicologia, da sociologia, da ciência política e da antropologia. Trata-se de uma literatura que começa a ganhar uma importância crescente a partir do final da década de 1970, procurando acompa- nhar aquela que por essa altura começava a ser conhecida como a “preocupação ambiental” (environmental concern) do público. Por essa época tornou-se notório que esta preocupação era elevada um pouco por todo o mundo, mostrando os inquéritos que em muitos países eram já uma maioria aqueles que estavam preocupados com os problemas ambientais (Dunlap, Gallup & Gallup, 1993; Stern & Oskamp, 1987). Acresce que a década de 1970 foi também uma época de afirmação dos novos movimentos sociais (Douglas, 1986; Mertig & Dunlap, 2001; Moscovici, 1993) - como os femininos, ou os ecológicos. Assim, na tentativa de descrever e compreender uma preocupação ambiental cada vez mais visível, as ciências sociais começaram a investir maiores esforços nesta área.

Pensar a natureza e o ambiente - alguns contributos a partir da Teoria das Representações Sociais

Paula Castro Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, Portugal

Resumo

Este artigo apresenta dois estudos conduzidos em Portugal, sob a orientação da Teoria das Representações Sociais (TRS), que analisaram como os portugueses pensam e falam sobre o ambiente e a natureza. É primeiro apresentada uma perspectiva geral do campo de estudos das crenças e atitudes em relação ao ambiente e à natureza e são esboçadas as ideias da TRS que podem contribuir para suprir algumas das suas lacunas. Depois é sumarizado um primeiro estudo por questionário que procurou identificar as representações do ambiente em Portugal. Para responder a questões levantadas pelos resultados deste primeiro estudo foi feito um segundo, com grupos de discussão, e apresentam-se as principais características dos quatro discursos que foram identificados com este. Nas conclusões discute-se qual o valor acrescentado da TRS para este campo, em termos de maior integração teórica e do aprofundamento do diálogo entre os vários quadros teóricos que mais estruturam o campo.

Palavras-chave: teoria das representações sociais; psicologia ambiental; crenças ambientais

Abstract

Thinking about nature and the environment - some contributions from Social Representations Theory. This paper presents two studies, conducted in Portugal within the framework of Social Representations Theory (SRT), and aiming at analyzing how the Portuguese think and talk about environment and nature. A general overview of the field of environmental beliefs and attitudes is first presented, and some of SRT ideas that may help advance this field of studies are advanced. A questionnaire study that aimed at identifying the social representations of the environment present in Portugal is then summarized, and, departing from some of the question it points to, a second study is afterwards presented. It resulted from a series of focus groups, in which four discourses were identified whose main features are summarized. Finally, the value that SRT may add to this field of studies is discussed, in terms of a more consistent theoretical integration.

Key words: social representations theory; environmental psychology; environmental beliefs

Estudos de Psicologia 2003, 8(2), 263-271

Comecemos então por tentar uma caracterização global desta literatura.

No final dos anos 1970, tentava-se sobretudo compreender, como se disse, o que significava a preocupação do público com o ambiente, como é que ela podia ser medida e como deveria ser conceptualizada. Para esta medição surge uma grande variedade de perguntas e de escalas, que em muitos casos são utilizadas apenas uma vez (Darley & Gilbert, 1985; van Liere & Dunlap, 1981). Estes instrumentos de medida incidiam sobre dimensões muito variadas da “preocupação ambiental” - aumento populacional, poluição do ar e da água, esgotamento de recursos naturais, perda de bio-diversidade, etc. - e, em simultâneo, avaliavam conceitos muito diversos - o conhecimento, a atitude, as visões ecológicas de mundo, as intenções comportamentais, o comportamento passado e presente, etc. (Stern & Oskamp, 1987).

No entanto, nos anos 1980, apenas três destas escalas são consideradas “psicometricamente respeitáveis” (Darley & Gilbert, 1985, p. 962) - a Escala de Atitudes Ecológicas, de Maloney et al. (1973); a Escala de Preocupação Ambiental, de Wiegel & Weigel (1978); e a Escala NEP (New Environmental Paradigm), de Dunlap & Van Liere (1978) -, o que diz bastante sobre a dispersão do campo.

Tendo em conta esta dispersão, no início da década de 1980, Van Liere & Dunlap (1981) procuram examinar até que ponto as várias medidas propostas pelos diferentes autores poderiam ser consideradas equivalentes. Das suas análises concluem que “os diferentes tipos de preocupação ambiental podem ser mais distintos do que havia sido suposto até então” (p. 668). Esta diferença é sobretudo relevante no que respeita às medidas que incidem sobre o comportamento, pois medir as preocupações das pessoas não parece ser o mesmo que medir os seus comportamentos, ou intenções comportamentais (Van Liere & Dunlap, 1981). Ou seja, o que as pessoas dizem que fazem ou que estariam dispostas a fazer pelo ambiente parecia estar pouco relacionado com o seu nível de preocupação com os problemas ambientais.

O que caracterizará a década de 1980 será, então, a ideia de que é necessário separar as duas vertentes da “preocupação ambiental” - a vertente comportamental e a vertente atitudinal ou representacional. A partir dos anos 1980, as medidas referentes ao nível atitudinal e representacional irão complexificar-se e irão continuar a proliferar, numa tendência que irá prolongar-se durante toda a década de 1990. E esta literatura começou a ser conhecida como incidindo sobre as atitudes e crenças do público em relação ao ambiente.

A título de exemplo pode indicar-se que ao longo destes 30 anos os conceitos que os investigadores estudaram foram, entre outros, os seguintes: a preocupação (concern) ambiental (Aragonés & Amérigo, 1991; Smith & Bell, 1992); o conhecimento, ou informação, sobre assuntos ambientais (Arcury, 1990; Krause, 1993); a responsabilidade ambiental (Stone, Barnes & Montgomery, 1995); a percepção de ameaça pessoal pelos problemas ambientais (Baldassare & Katz, 1992); o ambientalismo (Milbrath, 1984); a apatia em relação a assuntos ambientais (Thompson & Barton, 1994); as crenças e atitudes em relação ao ambiente (Kanagy & Willits,

1993; Stern, Dietz & Kalof, 1993); as visões ecológicas de mundo (Dunlap & van Liere, 1978; Stern, Dietz, & Guagnano, 1995; Bechtel, Corral-Verdugo & Pinheiro, 1999); as racionalidades culturais e os mitos da natureza (Dake, 1982; Ellis & Thompson, 1997; Steg & Sievers, 2000).

Acresce que à proliferação de medidas e conceitos que as linhas anteriores atestam, se somou alguma indefinição conceptual. É frequente diferentes autores proporem que os mesmos instrumentos medem conceitos diferentes. A título de exemplo, podemos ver como é que diferentes autores caracterizam o que a escala de Dunlap & Van Liere (1978), a escala NEP, mede. Alguns dirão que ela mede valores (Blake, 2001); outros (Schultz & Stone, 1994) que ela mede environmental concern; já Parker & McDonough (1999) e Rauwald & Moore (2002) propõem que ela é uma medida de atitudes ambientais; para Hodgkinson & Innes (2000), ela mede a aceitação de uma visão ecológica de mundo; por sua vez, Schultz & Zelezny (1998) usam-na como uma medida da “consciência das consequências” dos problemas ambientais.

Assim, embora esta literatura seja conhecida como incidindo sobre as atitudes e crenças do público em relação ao ambiente, na realidade há alguma falta de teorização por parte dos utilizadores deste conceitos. Somente a partir da segunda metade dos anos 1990 começarão a surgir propostas para uma teorização mais sustentada, e para a concomitante clarificação conceptual do campo. Regressaremos a esta questão mais à frente.

Por agora, terminemos de esboçar a visão geral deste campo. Para isso, é ainda necessário referir que esta área se caracterizou ao longo destes anos por: - desenvolver trabalhos de natureza sobretudo quantitativa, baseados em escalas e questionários, sendo muito raros os trabalhos de cariz qualitativo (mas ver Robins & Greenwald, 1994; Castro & Lima, no prelo). - procurar as razões para as diferentes formas de ver o ambiente e a natureza sobretudo nas inserções sociais objectivas dos indivíduos, sendo estas quase sempre operacionalizadas por variáveis socio-demográficas, como a idade, o nível de escolaridade, o sexo e o rendimento; - completar com frequência, as análises relativas às variáveis socio-demográficas com a introdução de outras variáveis, das quais as mais importantes têm indubitavelmente sido os valores (Inglehart, 1995; Axelrod, 1994; Stern et al., 1995) e a ideologia política (Schultz & Stone, 1994, Dunlap, van Liere, Mertig & Jones, 2000).

Por fim, para concluir esta perspectiva geral do campo, há ainda que dizer que, deste grande conjunto disperso de estudos, foram ao longo do tempo emergindo com bastante clareza três quadros teóricos principais, presentes desde o início e que organizaram muitos dos estudos. Um quadro teórico é oriundo da Sociologia e encabeçado por R. Dunlap e seus colaboradores (Dunlap, 1993, 2002), propondo um modelo que ficou conhecido como HEP-NEP; a esta tradição virão juntar-se investigadores como P. Stern e colaboradores (1993; 1995) e R. Bechtel (1999, 2000), muito atentos à perspectiva da Psicologia Social. Um outro quadro é oriundo da Ciência Política, protagonizado por R. Inglehart, e conduzido

P.Castro pela noção de “valores pós-materialistas” (Inglehart, 1977); um terceiro quadro encontra as suas raízes na Antropologia e na Teoria Cultural de M. Douglas e A. Wildavski (1982).

A partir de meados dos anos 1990, estes quadros começam a dialogar entre si (ver Dunlap & Mertig, 1995; Inglehart, 1995; Poortinga, Steg & Vlek, 2002) e também a incorporar uma parte da literatura que nasceu fora deles, suscitando uma reflexão mais fundamentada do campo. No entanto, vale a pena insistir que estas tentativas de diálogo e de integração são muito recentes, e continua a poder dizer-se que o campo sofre, nas palavras de Stern et al. (1993), da “falta de um quadro teórico geral” (p. 323), e que continua a haver uma grande necessidade de o unificar e clarificar conceptualmente (ver também Stern et al., 1995).

Acresce que se encararmos este campo de estudos do ponto de vista da Psicologia Social, nos deparamos com uma situação algo paradoxal. Por um lado, os conceitos mais frequentes neste campo são conceitos que poderíamos chamar endógenos à Psicologia Social. O conceito de atitude, tão determinante neste campo de estudos, é, por exemplo, um conceito que acompanha a Psicologia Social desde os anos 1920 e é para ela central. O mesmo pode ser dito de conceitos como os de crença, valor e norma. Por outro lado, e para além da exportação dos conceitos referidos, a Psicologia Social não tem tido uma visibilidade especialmente acentuada nesta área.1

Ora, no património da Psicologia Social, existindo várias teorias e perspectivas que poderiam contribuir para o alargamento teórico-empírico deste campo, existe uma em particular que me parece que poderá ter um contributo importante - a Teoria das Representações Sociais (TRS). É no sentido de tentar mostrar algumas das potencialidades desta teoria para dar resposta às lacunas deste campo que irei orientar as restantes páginas deste artigo.

Um balanço de algumas lacunas desta área, para o colmatar das quais a TRS poderia contribuir, seria então o seguinte: os estudos nesta área precisam de aprofundar a sua consistência teórica, nomeadamente clarificando as semelhanças e diferenças que existem entre os dois conceitos fulcrais de atitudes e crenças; precisam de ser capazes de continuar a alargar o diálogo entre os quadros teóricos que mais têm estruturado o campo e precisam de levantar novas questões, que permitam ir para além das que se relacionam com as inserções sociais objectivas.

Irei então relatar dois estudos que foram conduzidos em

Portugal sob a orientação da TRS e que procuravam analisar como os portugueses pensam e falam sobre o ambiente e a natureza. O artigo está organizado da seguinte forma. Em primeiro lugar, são apresentadas as linhas teóricas gerais derivadas da TRS que orientaram o primeiro estudo, que serão contrastadas com outras perspectivas que marcam o campo. Depois será sumarizado o primeiro estudo, feito por questionário, e que procurou identificar as representações do ambiente em Portugal, recorrendo à escala NEP.

Os resultados deste primeiro estudo levantaram uma nova série de perguntas, a que se tentou responder com um estudo de cariz qualitativo, que teve como material de base as transcrições do que foi dito em cinco grupos de discussão sobre o ambiente e a natureza. As principais características dos quatro discursos que foram identificados com este estudo serão, então, apresentadas. Por fim, nas conclusões, irei discutir qual o valor acrescentado da TRS para este campo de estudos, em termos de um quadro teórico mais integrado.

A Teoria das Representações Sociais e os estudos sobre o ambientalismo

A TRS é uma teoria com uma sólida tradição de reflexão sobre a utilização de conceitos como os de atitude e crença (ver Jaspars & Fraser, 1984; Jodelet, 2002), sendo esta uma das vantagens que me parece poder trazer a este campo. Comecemos então por ver uma breve caracterização da Teoria e depois veremos como ela tem organizado estes conceitos.

A TRS é uma teoria sobre as thinking societies, ou seja, uma teoria que assume que os indivíduos e os grupos são bricoleurs activos de representações sobre objectos sociais relevantes, as quais constróem a partir das várias crenças que circulam constantemente pelas sociedades.

Desde o seu início, a Teoria, através da obra do seu primeiro proponente (Moscovici, 1976) definiu as representações sociais como incluindo quer comportamentos, quer crenças, quer atitudes. Estas últimas são, por sua vez, definidas como avaliações globais de um objecto, que o consideram quer positivo, quer negativo, ou seja são vistas, como referindo-se ao componente avaliativo (Moscovici, 1976, p. 6 e 69). 2 Esta forma de conceptualizar as atitudes permite clarificar, em simultâneo o que se entende por crenças. Estas são antecedentes das atitudes, no sentido em que, instadas a explicar porque motivo avaliam negativamente um objecto, as pessoas irão recorrer a um conjunto de crenças para o fazer - isto é, irão produzir afirmações às quais pode ser ligado um gradiente de concordância e discordância, ou de verdade e falsidade.

Trata-se de um ponto muito relevante, porque tem implicações óbvias para a pesquisa. Em primeiro lugar, implica que é necessário separar conceptualmente e operacionalizar de forma distinta os dois conceitos de crenças e de atitude. Para além disso, quando se pretendem estudar as ideias do público sobre o ambiente com recurso à TRS, isto significa que somos obrigados a ir para além do simples estudo de crenças e atitudes, uma vez que, como estas não são equivalentes às representações sociais, é preciso ir mais longe. É necessário estudar como as crenças se organizam e se estruturam em constelações que possam verdadeiramente ser chamadas representações sociais (Doise, Clemence & Cioldi, 1993).

É precisamente este passo que nem sempre é dado nos estudos sobre as ideias ambientais do público. Muitos destes estudos param quando encontram, por exemplo, um conjunto de crenças que recebe um alto nível de acordo por parte do público.

Evidentemente que, a este respeito, o facto de as crenças ecológicas receberem um elevado acordo por parte do público é o resultado mais conhecido e mais replicado da literatura, um pouco por todo o mundo. Crenças como a de que a natureza tem um equilíbrio delicado, e de que os recursos do

Natureza e ambiente: representações sociais nosso planeta são limitados, suscitam por todo o mundo muito mais acordo, incomparavelmente, do que as que propõem que a humanidade foi feita para governar a natureza, ou que os recursos da terra são muito abundantes. Quando este tipo de questões são apresentadas em questionários a públicos variados, a tendência média maioritária é para estes concordarem ou concordarem muito com as que vão no sentido próecológico.

Um dos modelos que foram mencionados como constituindo uma das mais proeminentes tradições neste campo - o modelo HEP-NEP - baseia-se, então, neste facto confirmado e replicado para defender que a humanidade está a mudar radicalmente a sua forma de encarar as suas relações com a natureza, estando a encaminhar-se consensualmente para formas mais respeitosas e ecológicas de se relacionar com esta (Dunlap, 2002; Dunlap & Mertig, 1995; Furnam, 1998). Para esta perspectiva, as velhas ideias antropocêntricas relativas à natureza estariam a ser substituídas por novas ideias ecológicas, em consequência da humanidade se estar a dar conta da seriedade e da importância dos problemas ambientais. Esta substituição é encarada por esta perspectiva como algo não problemático, como um simples processo de substituição, no qual as velhas ideias antropocêntricas são abandonadas e as novas ideias ecológicas são adoptadas.

Contudo, se nos basearmos na Teoria das Representações Sociais, veremos emergir uma ideia muito diferente sobre a forma como as novas e as velhas ideias se relacionam entre elas. E encontraremos fortes objecções, quer teóricas quer empíricas, a esta visão de relações não problemáticas entre o velho e o novo, e à forma simples como o modelo HEP-NEP supõe que o novo substitui o velho.

Do ponto de vista teórico, a Teoria adverte-nos para o seguinte: “Quando se examina a variedade de representações que existe, se é surpreendido por duas coisas: a redescoberta e a reiteração obstinadas dos mesmos temas pelo ser humano e sua extraordinária fecundidade em inventar ideias (…)” (Moscovici, 1984, p. 967). Ou seja, a TRS aponta-nos a necessidade de examinar as relações dialécticas entre o velho e o novo.

Ora é particularmente importante levar estas relações em conta num domínio como aquele que aqui nos ocupa. Porque poucas palavras da nossa herança comum estão mais carregadas de múltiplos sentidos do que a palavra natureza (Williams, 1980; Soper, 1995), e porque há muitos séculos - pelo menos desde a Grécia Antiga - que o par natureza–cultura ocupa um lugar absolutamente central nas nossas formas de pensar, de falar e de nos organizarmos socialmente (Latour, 1994; Moscovici, 1972, 2001; Steiner, 1984). Ora o facto de estarmos a rediscutir e redescobrir uma questão que é antiquíssima milita a favor da ideia de que não podemos conceber de forma simplista as relações entre o velho e o novo.

Do ponto de vista empírico, há também indicações relativas a esta dialéctica entre o velho e o novo que provêm directamente dos estudos de Moscovici (1976). Por exemplo, em relação ao tema que ocupou a sua atenção ao formular a teoria - a penetração da psicanálise em França no final dos anos 1950 - foi-lhe possível analisar a comunicação da Igreja Católica. Estas análises levaram-no a concluir que as novas ideias trazidas pela psicanálise foram aceites parcialmente pelos católicos, sem que essa aceitação tenha implicado o abandono das velhas ideias católicas. Ao invés, o que se passa é um complexo processo de acomodação e conciliação, que tem como resultado que as novas ideias e as velhas passem, no final a viver em paz, conjuntamente, e com transformações mútuas.

Pelo que ficou dito, é possível ver que a TRS não tem uma concepção das pessoas como organismos que encontram informação e que são incapazes de lidar com o stress que representa encontrar informação contraditória. Pelo contrário, a teoria é sobre seres sociais, que, juntos, constróem representações. Seres suficientemente activos e criativos para serem capazes de misturar e de conciliar ideias que à primeira vista pareciam contraditórias (ver também a este propósito Billig, 1991; Wagner, Duveen, Verma & Themel, 2000).

Estudo 1

No primeiro estudo que conduzimos (Castro & Lima, 2001), pretendíamos pois conhecer as representações do público português sobre a natureza e o ambiente. Para a sua concretização recorremos à escala NEP e a um conjunto de outras escalas que aplicamos num questionário. No entanto, embora recorrendo ao instrumento desenvolvido no âmbito do modelo HEP-NEP, não partimos do pressuposto de que as novas ideias ecológicas estariam a substituir de forma não problemática as velhas ideias antropocêntricas, como pretende este influente quadro teórico.

Pelo contrário, baseando-nos na Teoria das Representações Sociais, partimos antes das seguintes ideias: (1) as velhas e novas ideias sobre as relações entre a humanidade e a natureza que circulam pelas sociedades tendem a co-existir e a interagir de formas complexas; (2) Esta interacção assume diferentes formas, abrindo assim diferentes possibilidades para pensar e argumentar, ou seja, originando diferentes representações sociais; e (3) por sua vez, as representações sociais são mais do que apenas conjuntos de crenças.

Tendo estes pressupostos como guia, realizamos um estudo por questionário com 460 residentes na Área Metropolitana de Lisboa (idade média = 30,2). O questionário incluía a Escala NEP na versão reformulada por Dunlap e colegas em 1992. Incluía também perguntas destinadas a examinar os valores, identidades e crenças sobre a ciência (todas as questões respondidas em escalas de Likert de cinco pontos).

No tratamento dos dados, encontrámos, através de um conjunto de análises factoriais, dois grandes factores gerais de crenças (ver Castro & Lima, 2001, para uma descrição detalhada). O primeiro factor de crenças, ou sistema de crenças, denominado Prudência compreende as seguintes ideias: a Terra tem limitações de espaço e recursos; as pessoas também estão sujeitas a limites naturais; estamos a abusar do ambiente e a perturbar o delicado equilíbrio da natureza, o que nos pode conduzir à catástrofe; a ciência fornece-nos respostas relativas.

P.Castro

(Parte 1 de 4)

Comentários