A psicologia ambiental: competência e contornos de uma disciplina. comentários a partir das contribuições

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Gabriel Moser1 Universidade Paris V

Este texto apresenta uma síntese reflexiva e crítica a respeito dos temas do Simpósio Internacional Psicologia e Ambiente, conforme desenvolvidos pelos sucessivos participantes. Inicia pela questão da unidade da psicologia ambiental focalizando o seu objeto, o seu papel e a sua utilidade; a seguir, discute a psicologia ambiental entre a afirmação disciplinar e a errância pluridisciplinar; e, ao enfocar o tema psicologia ambiental e políticas públicas, propõe marcos de referência para uma visibilidade política eficaz. À guisa de conclusão, apresenta um programa para o futuro.

Descritores: Psicologia ambiental. Pesquisa interdisciplinar. Políticas públicas.

Simpósio de São Paulo sobre “Psicologia e Ambiente”, cujos textos foram aqui apresentados, foi organizado em torno de três questões fundamentais: 1) Qual é objeto da Psicologia Ambiental face à diversidade? 2) Como se situa a Psicologia Ambiental em relação a uma abordagem pluridisciplinar do conhecimento?, e 3) Qual é a relação entre Psicologia Ambiental e Política Ambiental? A resposta à primeira questão condiciona, de algum modo, as respostas à segunda e, sobretudo, à terceira questão. Propor

Psicologia Ambiental da Universidade de Paris V, França. Diretor do Laboratório de Psicologia Ambiental do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França; membro da diretoria da IAPS. Endereço eletrônico: gabriel.moser@univ-paris5.fr

Gabriel Moser estas interrogações e discuti-las com especialistas originários da América Latina, da América do Norte e da Europa poderá, certamente, ampliar o debate quanto à posição da psicologia ambiental face às questões da cultura, dimensão cuja consideração em nossa disciplina é fundamental.

1. A unidade da Psicologia Ambiental em questão, ou como desenterrar velhos demônios

Como acentua M. V. Giuliani, a Psicologia Ambiental parece colocar um problema mesmo para aqueles que trabalham na área. Qual é a identidade da Psicologia Ambiental? Tem ela uma unicidade, além da diversidade de suas abordagens?2 Colocar a questão do objeto da Psicologia Ambiental face à diversidade das realidades humanas, como está precisado na introdução ao simpósio, subentende que poderia haver aí não apenas uma psicologia ambiental, mas Psicologias Ambientais. Ora, este ponto de vista, que não é novo em psicologia3 , é perigoso na medida em que ele ameaça a própria unidade da disciplina e, em consequência, também a sua sobrevivência. Na leitura das diferentes contribuições do primeiro dia parece haver, com efeito, uma certa confusão entre o objeto de nossa disciplina, as temáticas às quais ela é levada a se interessar e os procedimentos científicos utilizados para adquirir os conhecimentos necessários e específicos à disciplina. Resulta daí também uma certa ambigüidade quanto ao seu papel e à maneira como deve funcionar a disciplina.

a) O objeto da psicologia ambiental

A Psicologia Ambiental é uma disciplina que trata do “psicológico”, quer dizer, do indivíduo enquanto ser que pensa, que sente e que age, de um

2 Este primeiro tópico se baseia nas contribuições de E. Wiesenfeld, V. Giuliani, E. Rabinovich, G. Evans, M. V. Corral e L. Kruse.

3 Ver especialmente os freqüentes debates observados na França entre a Psicologia Clínica e a Psicologia dita “Experimental”.

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lado, e do ambiente, de outro lado. Trata-se de Psicologia, portanto de uma disciplina que lida com o indivíduo em sua relação com o ambiente.

Porém aqui termina o consenso. Imediatamente aparecem diferentes concepções da disciplina quando se trata de precisar “o que” estudar e “como” estudar. Assim, para G. Evans, a Psicologia Ambiental é definida como o estudo científico da relação entre o ambiente físico e o comportamento humano. Segundo este autor, toda pesquisa na disciplina deve dirigir-se ao ambiente físico, o único objeto que pode satisfazer as exigências de um método científico e que pode permitir realizarmos a transição entre os nossos discursos e o dos engenheiros que supostamente aplicariam os nossos saberes. Para saber qual é a influência do ambiente físico no comportamento, é preciso distinguir claramente esses dois termos. Isto não implica excluir toda investigação baseada em declarações do indivíduo mas a perceber claramente os seus limites. Igualmente, damos importância demasiada aos fatores culturais. Enquanto psicólogos, colocamos o acento principalmente sobre as diferenças individuais e não o suficiente sobre as diferenças ambientais. Em outros termos, as diferenças interculturais seriam essencialmente devidas às variações ambientais.

Uma tal concepção da Psicologia Ambiental está, obviamente, do lado oposto a uma concepção transacional cujo ponto de partida é o vivido pelo indivíduo. Nesta ótica, o objeto da disciplina é a relação indivíduo-ambiente, os termos indivíduo e ambiente não sendo independentes entre si. Como lembra E. Wiesenfeld, a Psicologia Ambiental tem como objetivo estudar a relação indivíduo-ambiente, abordá-la de um modo holístico, colocar a ênfase na dimensão social desta relação e estabelecer os elos com outras disciplinas interessadas nesta temática. Isto permite defini-la, pois mesmo se as definições não são consensuais, todas aderem a esta noção de “relação indivíduo-ambiente”. Este princípio relacional, declinado em termos de interação ou de transação, fornece o quadro de análise da disciplina. Assim, em cada exame da relação com o ambiente, a atenção se dirige tanto ao indivíduo quanto ao próprio ambiente. Pode-se, portanto, definir a Psicologia Ambiental como sendo o estudo das interrelações entre o indivíduo e seu ambiente físico e social, nas suas dimensões espaciais e temporais.

Gabriel Moser

Como salienta L. Kruse, a noção de ambiente nas Ciências Sociais não é a mesma das Ciências da Natureza. Nas Ciências Sociais, o ambiente é geralmente considerado como uma construção daquele que o percebe. De modo evidente, a dimensão cultural está presente na relação com o ambiente. O enquadramento ambiental não é um espaço neutro e isento de valores, ele é culturalmente marcado. As análises em termos de comportamentos compatíveis com um desenvolvimento durável são confrontadas, de modo recorrente, às diferenças culturais (cf. Corral). O ambiente, enquanto tal, veicula significações; nossa visão da natureza humana se exprime na maneira como nós moldamos o espaço construído; e este espaço construído retorna a nós, re-significando quem nós somos e o que devemos fazer (Getzel, 1975). A adesão a uma posição determinista, ou mesmo interacionista, conduz certamente a reconhecer que o ambiente tem um efeito direto nas ações do indivíduo, porém o ambiente propicia, antes de tudo, o sentido e a identidade, situando o indivíduo social, economica e culturalmente. O contexto ambiental, objeto de percepções, de atitudes, e de comportamentos nele manifestados, necessita igualmente da consideração da dimensão temporal (Moser & Uzzell, 2003). A relação com um espaço dado é, além do presente, tributária de seu passado e do futuro. Os lugares têm um passado que contribui para a sua interpretação atual, e um futuro que é suscetível de nos guiar em nossas ações por meio de nossas representações antecipatórias.

Devido ao seu objeto, a Psicologia Ambiental foi, e é, antes de tudo, uma Psicologia do espaço, na medida em que ela analisa as percepções, as atitudes e os comportamentos do indivíduo em sua relação explícita com o contexto físico e social no qual ele evolui. Desta maneira, a relação indivíduo-ambiente é analisada nos seguintes quatro níveis de referência espacial e social: 1) o micro-ambiente: o espaço privado, a moradia, implicando o indivíduo; 2) os ambientes de proximidade: os espaços partilhados semipúblicos, o habitat coletivo, o bairro, o lugar de trabalho, os parques e os espaços verdes, concernentes à comunidade de proximidade ou de vizinhança; 3) os ambientes coletivos públicos: as cidades, os vilarejos, e os povoamentos diversos, implicando os agregados de indivíduos; e 4) o ambiente global: o ambiente em sua totalidade, construído ou não, os recursos naturais

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e os concernentes à sociedade enquanto tal. Esta distinção é importante porque ela permite analisar a relação indivíduo-ambiente em termos da relação com o ambiente em suas dimensões físicas e precisar as relação com o outro que cada um dos diferentes níveis implica. Com efeito, os problemas colocados em questão não são os mesmos segundo a escala em que nos situamos e, em conseqüência, o mesmo se aplica às modalidades de intervenção com as quais o psicólogo ambiental pode se comprometer.

Na perspectiva de uma definição da Psicologia Ambiental, podemos também, como mostra M. V. Giuliani, enumerar e identificar as preocupações da disciplina segundo a classificação de Stokols (1978), que distingue a transação ativa ou reativa que está implicada na cognição ou no comportamento. Isto permite classificar os grupos de temáticas em: modo interpretativo, modo avaliativo, modo operativo (referente à ação) e modo reativo. Decorre claramente que certas abordagens são mais centradas na aplicação, enquanto outras se inscrevem essencialmente em uma questão acadêmica.

Cada temática inscrita na relação indivíduo-ambiente, em um dos quatro níveis identificados acima, pode se constituir como um objeto de análise em termos de psicologia ambiental, mas não pode ser apenas ela a única identificada com a disciplina. Em outros termos, uma disciplina não poderia ser definida pelas temáticas que a preocupam e, a fortirori, não se limita a uma ou outra dessas temáticas. Assim, a Psicologia Ambiental sobreviveu felizmente à “Psicologia Arquitetural”, cara a Canter (1970), e ela sobreviverá à tendência atual identificada como “Psicologia verde” por Pol, como “Psicologia do desenvolvimento durável” por Bonnes e Bonaiuto (2002), ou como “Psicologia da conservação” por certos colegas anglo-americanos. O fato de identificar e singularizar uma Psicologia que lida com os comportamentos em relação ao desenvolvimento durável impede abordar esta problemática em termos de Psicologia Ambiental, quer dizer, de re-situar estes comportamentos em uma problemática mais ampla de relação com o ambiente tal como sugere, por exemplo, o modelo CIS (Cidades, Identidade e Sustentabilidade) de E. Pol. Uma visão fragmentada impede igualmente o uso de uma análise cultural das interações indivíduo-ambiente, cuja utilidade é amplamente mostrada por V. Corral. Certamente, a Psicologia Ambiental

Gabriel Moser se alimenta, mais do que outras disciplinas da Psicologia, da demanda social, mas ela adere a paradigmas que vão além da simples respostas a ela.

Pode ser que tais tentações de fragmentação da disciplina advenham de uma certa lacuna mencionada por L. Kruse: o fosso entre as noções teóricas transversais à disciplina e os projetos empíricos. Pelo fato de estar essencialmente preocupada em responder à demanda social, a acumulação e a sistematização dos conhecimentos se tornam secundárias. É ainda L. Kruse quem reivindica pesquisas globais que combinem comportamento e condutas, de um lado, e cognições e emoções de outro. Este tipo de pesquisa deveria ser, entretanto, preponderante em nossa disciplina, na medida em que é destas abordagens que os avanços teóricos podem se alimentar.

b) papel e utilidade social da Psicologia Ambiental

A utilidade social da Psicologia Ambiental não está certamente em pauta. O que coloca, aparentemente, um problema é o seu papel, quer dizer, o lugar que se pressupõe que ela ocupa. Podemos opor uma Psicologia Ambiental que seria uma disciplina exclusivamente científica, ocupada com a acumulação de conhecimentos teóricos, a uma Psicologia centrada na resolução de problemas e na intervenção? Aqui, igualmente, encontramo-nos levados a um debate que tem, em psicologia, um sabor requentado. Ele remete, com efeito, a uma eterna distinção entre uma Psicologia fundamental, pouco preocupada com a aplicação, de um lado, e uma Psicologia aplicada ou uma aplicação da Psicologia, de outro. Isto permite a alguns estudiosos identificar dois tipos de Psicologia: as científicas (puras e desinteressadas), e as profissionais, algumas vezes descritas como «comerciantes». Se tal distinção pode ter um certo sentido em Psicologia Geral, ela é, ao contrário, completamente absurda quando se trata de uma disciplina indutiva como a Psicologia Ambiental. É possível imaginar uma Psicologia Ambiental que se limite a construir seus conhecimentos em laboratório? Certamente não. Obviamente, a Psicologia Ambiental deve, mais do que outras disciplinas, procurar um compromisso entre a pesquisa fundamental e a pesquisa aplicada, mas não escapará nunca da crítica de alguns autores que lastimam que a

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psicologia ambiental esteja mais centrada em problemáticas do que na (ou nas) teoria(s), quer dizer, que ela procuraria antes de tudo construir instrumentos para a intervenção (Darley & Gilbert, 1985).

Do mesmo modo, não se pode argumentar sobre especificidades psico-ambientais diferentes tomando como ponto de partida lógicas metodológicas que se opõem ou seriam incompatíveis. Propondo a abordagem construtivista como alternativa à abordagem transicional, E. Wiesenfeld se refere à importância da ação e da intervenção em psicologia ambiental. Consideramos este método não como uma alternativa mas como um enriquecimento que permite contribuir, de um modo diferente, à construção de conhecimentos da disciplina. Não caiamos na eterna armadilha da oposição entre métodos qualitativos e métodos quantitativos; trata-se de um debate estéril e esterilizante do qual os psicólogos são especialmente ávidos. A especificação metodológica apoiada em uma singularidade cultural é uma argumentação desenvolvida igualmente por E. Rabinovich, referida aos processos de subjetivação. A “poética”, conceito extremamente interessante na medida em que se inscreve na transação indivíduo-ambiente, dá conta da estruturação individualizante. O próprio princípio desta estruturação, longe de ser uma especificidade brasileira, parece-me justamente universal. É a maneira como ela pode ser evidenciada no Brasil, sua natureza, sua singularidade e sua especificidade, que são brasileiras. Em outros termos, as metodologias desenvolvidas em psicologia ambiental devem possibilitar dar conta das especificidades culturais. Com efeito, a identificação de especificidades culturais só pode ser feita pela comparação entre culturas diferentes, e é precisamente a abordagem da Psicologia Ambiental que permite o interêsse na contextualização das cognições, das emoções e dos comportamentos. Para evidenciar as maneiras culturalmente específicas de pensar o seu lugar de vida, de agir no ambiente, é preciso que elas sejam evidenciadas por meio de métodos culturalmente neutros. As especificidades e diferenças culturais são analisadas por meio de procedimentos científicos que permitem a sua expressão singular, e não independentemente deles. Fazer a diferença entre, de um lado, a coleta de dados a sua sistematização, e de outro lado, a sua interpretação, permite dar o destaque essencial a toda singularidade.

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