Psicologia Ambiental:a busca de um ambiente melhor

Psicologia Ambiental:a busca de um ambiente melhor

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377Dossiê Psicologia AmbientalEstudos de Psicologia 1997, 2(2), 377-398

Abstract: Environmental Psychology, the search for a better environment. Psychology should engage in the analysis of environmental problems, which are, in fact, human-environmental problems, aiming at their solution. To help accomplishing this goal, a brief historical account of Environmental Psychology is presented, emphasizing the theoretical and practical implications of its origins, internal and external to Psychology, with the environmental global crisis as background. Some developments of those sources within the Brazilian context are introduced to favor the integration of studies in the area of person-environment relationships. Some theoretical and methodological aspects are analyzed, especially in terms of the recent international tendency in Environmental Psychology to consider the human and social determination of the so called environmental crisis.

Psicologia Ambiental: a busca de um ambiente melhor

José Q. Pinheiro Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Resumo: A Psicologia precisa se engajar na análise e no encaminhamento de soluções para os problemas ambientais, pois estes são, de fato, problemas humano-ambientais. Para contribuir com esse propósito, um breve histórico da Psicologia Ambiental é apresentado, com destaque para as implicações teóricas e práticas de suas origens, internas e externas à Psicologia, tendo como pano de fundo a crise ambiental global. Descrevem-se alguns desdobramentos dessas fontes no contexto brasileiro, com o intuito de estimular uma crescente integração de esforços na área de estudo das inter-relações pessoa-ambiente. Aspectos teóricos e metodológicos são analisados, principalmente em vista da recente tendência internacional verificada na Psicologia Ambiental de enfatizar a determinação humana e social da chamada crise ambiental.

Palavras-chave: Psicologia Ambiental; relações pessoaambiente; problemas ambientais; multidisciplinaridade

Key-words: Environmental

Psychology; personenvironment relationships; environmental problems; multidisciplinarity

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Otítulo acima deverá ter dado ao leitor a idéia de que este artigo trata da Psicologia Ambiental como uma sub-disciplina da Psicologia voltada para a solução dos problemas ambientais o que, em parte, está correto. No entanto, como pretendo mostrar mais adiante, todas as chamadas questões ambientais são na verdade questões humano-ambientais, refletindo não uma crise ambiental, mas uma crise das pessoas-nos-ambientes (Corraliza, 1997; Pol, 1993). Isto posto, passo a abordar uma das principais razões para o surgimento da Psicologia Ambiental: os problemas ambientais.

Psicologia e problemas ambientais, um paradoxo?

Todos nós temos tido contato com informações sobre os graves problemas ambientais que nosso mundo enfrenta atualmente, se não por interesse profissional, possivelmente porque a veiculação dos mesmos pela mídia causa repercussão social e garante audiência. Assim, tentarei não repetir obviedades, apenas enfocar alguns pontos mais importantes para os fins deste trabalho.

O crescimento populacional tem sido objeto de inúmeras análises, sendo um dos eixos centrais da chamada crise ambiental. Vale destacar aqui o fato de que durante 9,9% da história da humanidade fomos menos de 10 milhões de pessoas habitando o planeta; só muito recentemente nos aproximamos dos quase 6 bilhões atuais. Se, por um lado, tal fato ironicamente demonstra nosso crescente sucesso como espécie reprodutora, por outro sugere nosso total despreparo para lidar com 100.0 novos vizinhos (total de nascimentos menos total de mortes), em média, por dia! Ou uma nova Argentina por ano! A tendência da população mundial está sendo dobrar a cada 35 anos aproximadamente ou, dito de outra forma, quadruplicar a cada 70 anos (Veitch & Arkkelin, 1995, p. 230). Traduzindo para o cotidiano de nossas vidas, isso significa, por exemplo, que o mundo que um avô tem em mente ao contar suas histórias (ou realizar todas as suas atividades como ser humano) não tem quase nada em comum com o mundo das aspirações de seus netos. João e Maria continuam a se perder na floresta, e não no estacionamento de um shopping center.

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Se os números acima são assustadores per se, suas implicações relativas às diferentes regiões do globo são ainda mais preocupantes. Segundo dados da Conferência Internacional da ONU sobre População e Desenvolvimento (Gonçalves, 1996), os países em desenvolvimento são responsáveis por 95% do crescimento demográfico mundial, sofrendo muito mais suas conseqüências sociais, econômicas e ambientais. A população do continente africano, por exemplo, cresce a uma taxa média de 2,9% ao ano, enquanto que a média na Europa é de 0,25% (negativa, portanto!), o que irá acentuar ainda mais as diferenças de qualidade de vida entre as duas regiões.

Nossa América Latina cresce, em média, 2,1% ao ano, mas nossos problemas se agravam ainda mais por termos o índice de urbanização mais elevado do planeta (72%). O chamado êxodo rural transferiu do campo para as periferias miseráveis de nossas grandes cidades um contingente populacional deslocado tanto espacial, como temporalmente; tanto social e economica, como ideologicamente. O modelo hegemônico de sociedade baseado no consumo de grande escala, desenvolvimento tecnológico e exploração dos recursos naturais provoca profundos desequilíbrios em micro e mega escala. América do Norte e Europa, com menos de 12% da população mundial, consomem mais de 42% de toda a energia produzida no mundo, sendo responsáveis por cerca de três quartos do efeito estufa antropogênico (Altvater, 1995).

O impasse de nossa civilização frente à crise ambiental tem sido objeto da atenção de autores e instituições científicamente sérios e respeitados, pois negar a existência desses problemas não irá melhorar, ou mesmo garantir, a qualidade de vida de nossos netos. Lester Brown (1994), presidente do Worldwatch Institute, defende que a saída para o problema do crescimento demográfico e degradação dos sistemas naturais envolve planejamento familiar, melhoria do status da mulher e adoção de estratégias de desenvolvimento que explicitamente incluam a redução da pobreza. Cita ainda conclusões de instituições científicas que não deixam dúvidas sobre a seriedade da situação:

No início de 1992, a Academia de Ciências dos Estados Unidos e a Sociedade Real de Londres apresentaram um documento conjunto, sem precedente, comunicando que os avanços na tecnologia e na

380Dossiê Psicologia Ambiental ciência não mais poderiam ser considerados como forma de evitar quer a degradação ambiental irreversível, quer a permanência da pobreza para a maior parte da humanidade. Mais tarde, no mesmo ano, a União de Cientistas (Union of Concerned Scientists) distribuiu o documento Os cientistas do mundo advertem a humanidade, assinado por cerca de 1600 destacados cientistas de todo o mundo, incluindo 102 ganhadores do Prêmio Nobel. Esse documento afirma que a continuação das atividades humanas destrutivas “pode alterar o mundo vivo, de maneira que este será incapaz de sustentar a vida na forma como a conhecemos”. Além disso os cientistas advertiram que “é necessário que mudemos radicalmente a forma de nos relacionarmos com a terra e a vida nela existente, se quisermos evitar uma enorme miséria humana, e se não quisermos ver mutilado o nosso lar global neste planeta”. (p. 244)

Norman Myers, um dos mais respeitados cientistas do mundo na área ambiental (Segurança ambiental, 1995), alerta para as profundas mudanças que essa situação irá provocar em nossos estilos de vida. Ele avisa ainda que tais mudanças serão tão amplas que causarão “alterações sísmicas em nossos sistemas de valores e paradigmas sociais” (p. 54); para ele as mudanças virão, queiramos ou não, quer sejam planejadas ou não.

Observa-se em praticamente todos os lugares do mundo uma preocupação social, independentemente de seus tons políticos e ideológicos, pelos problemas ambientais. Se lembrarmos também que são os comportamentos das pessoas que agravam (e provocam) os “problemas ambientais”, e que as alterações ambientais, por sua vez, irão interferir na qualidade de vida dessas mesmas pessoas, concluiremos que esses problemas são, na verdade, problemas da humanidade (Corraliza, 1997, p. 27), como apontado no início deste trabalho. Apesar de importantes aproximações entre disciplinas voltadas para a questão ambiental (por exemplo, Ecologia e Economia), a Psicologia precisa fazer parte desse esforço, pela necessidade de se compreender o ser humano frente ao ambiente. Para a Psicologia os problemas ambientais oferecem dupla oportunidade: desenvolver teórica e cientificamente conhecimentos sobre a forma de agir das

381Dossiê Psicologia Ambiental pessoas, e influir nos rumos da sociedade em um de seus aspectos mais fundamentais (Corraliza, 1997).

A Psicologia recebe muitas perguntas sobre o assunto (ainda que poucas se concretizem formalmente), mas tem tido dificuldade em respondê-las de modo conclusivo e aplicável à realidade ampla da crise humano-ambiental ou à orientação de intervenções sócioambientais específicas (Pol, 1993; Stern & Oskamp, 1987). Convém lembrar que a Psicologia, como campo formal de atividade científica, esteve presente apenas na porção mais recente da história da humanidade. Ela está no cenário mundial há pouco mais de um século e, portanto, apareceu depois que a população mundial já ultrapassara o primeiro bilhão. Se considerarmos também que a Psicologia, enquanto prática profissional estabelecida, está restrita essencialmente às zonas urbanas do planeta, talvez possamos concluir que nossa disciplina parece mais ser parte do cenário da crise ambiental do que um agente de sua solução.

Psicologia Ambiental: condicionantes históricos e alguns desdobramentos nacionais

Esforços no sentido de superar as deficiências de conhecimento e de paradigmas da Psicologia em face dos problemas ambientais, entretanto, têm sido empreendidos por alguns psicólogos ambientais, especialmente nos últimos anos. No sentido teórico vemos, por exemplo, preocupação em unificar abordagens tradicionalmente separadas, como cognição e comportamento, em sua relação com o ambiente (Gärling & Evans, 1991). No plano metodológico e aplicado, ocorrem iniciativas que procuram estabelecer as possibilidades de contribuição da Psicologia Ambiental para a interface humanoambiental, como no caso da reunião O papel da ciência psicológica na promoção da qualidade ambiental (Demick & Wapner, 1990).

Ao mesmo tempo, observamos a intensa adjetivação da

Psicologia, talvez como parte de uma paradoxal tentativa de sua própria substantivação, ou construção de uma identidade para a disciplina como um todo. Essa adjetivação da Psicologia, que se baseava no método empregado (e.g., Experimental), objeto ou processo considerado (e.g., Animal e Comparada, do Desenvolvimento),

382Dossiê Psicologia Ambiental finalidades pretendidas (e.g., Clínica, da Saúde), passou nas últimas décadas a enfatizar cada vez mais o contexto. Essa contextualização transformou Psicologia do Trabalho em Psicologia Organizacional (ou das Organizações) e estabeleceu sub-disciplinas como Psicologia Escolar (da Escola?) e Psicologia Hospitalar (do Hospital?). Ora, não seriam todos esses adjetivos de lugar algo como variações sobre um mesmo tema: o do ambiente em que se dá a existência humana? Não seria, portanto, “natural” o surgimento de uma disciplina com o rótulo e os interesses da Psicologia Ambiental?

Rótulos, feliz ou infelizmente, têm importância para a comunidade científica e acadêmica, como nos mostra James Lovelock (1995, p. 51), em recente análise do despreparo da ciência diante da crise ambiental. Ele considera que uma das principais dificuldades da ciência para atingir uma (tão necessária) visão unificada e integradora do planeta é justamente o atual estado fragmentário em que se encontra a ciência. Para ilustrar esse ponto de vista ele nos conta como o importante Programa para Mudança Global havia sido inicialmente denominado com o confuso título de “Programa Internacional Geosfera Biosfera”, porque biólogos que participavam do comitê de planejamento acharam que a Biologia seria deixada de fora se não houvesse algum “bio” no nome do programa. Tenho certeza de que não seria difícil encontrarmos episódios parecidos em nossas academias, pois a fragmentação do saber convive com o desejo da interdisciplinaridade entre pesquisadores brasileiros da área ambiental (Serrão, 1997).

A Psicologia Ambiental, por sua vez, não poderia ser muito diferente, ainda mais com sua “dupla personalidade”: parte “psicologia”, parte “ambiental”. Como mostram os italianos Mirilia Bonnes e Gianfranco Secchiaroli (1995), a Psicologia Ambiental formou-se a partir de duas grandes origens, ou raízes teóricas: uma externa à Psicologia, outra interna. Considerar essa dupla natureza é fundamental para uma compreensão adequada da área e de suas dificuldades em encontrar uma identidade teórica, pois desde o princípio essas influências se intercruzam e combinam em esforços de diferentes matizes teóricos e práticos (Bechtel, 1996a; Craik, 1996; Stokols, 1996).

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Na vertente externa de formação, Bonnes e Secchiaroli identificam três grandes tendências, oriundas de disciplinas até então distantes da Psicologia: Arquitetura e Planejamento Ambiental, Geografia e Ciências Bio/Ecológicas. O primeiro grupo influenciador, Arquitetura e Planejamento Urbano, interessava-se pela ação dos espaços edificados sobre o comportamento humano, tendo gerado importantes contribuições, algumas delas de autores publicados no país, como Robert Sommer (1973, 1979), Kevin Lynch (1982) e Terence Lee (1977)1. Dessa origem, que questionava o “egocentrismo” dos designers, explicitaram-se os pressupostos das edificações, nem sempre aparentes mas constituintes daqueles ambientes, e surgiu também a avaliação social da edificação e a preocupação com o ponto de vista e a participação do usuário no processo de planejamento e avaliação ambientais. Essa interface da Psicologia Ambiental é certamente a mais desenvolvida no Brasil (Pinheiro, 1985; Sánchez, Wiesenfeld & Cronick, 1987), principalmente em conseqüência da procura da Psicologia por arquitetos e planejadores, interessados em fundamentar melhor seus trabalhos (sobre a relação Psicologia-Arquitetura, ver artigo de Gleice Elali, neste número).

A segunda influência externa veio da Geografia que, segundo

Bonnes e Secchiaroli (1995), nos anos 40 já apresentava preocupação pela noção de terrae incognitae, o “fascinante mundo que jaz nos corações e mentes das pessoas” (p. 12). Autores desse segmento consideravam central o papel dos fatores socioculturais na conformação do comportamento espacial humano e achavam que este, ao longo do tempo, ajudava a definir a morfologia do território. Ao incluírem a mediação dos processos de cognição espacial e percepção ambiental na correlação dinâmica entre pessoa e ambiente, esses geógrafos se aproximavam de áreas tradicionalmente estudadas por psicólogos, como a abordagem piagetiana da cognição espacial, por exemplo. Um desses geógrafos, de orientação fenomenológica, foi o criador do termo topofilia, e já teve dois de seus livros publicados no Brasil (Tuan, 1980, 1983).

Essa interface da Geografia com a Psicologia já viu entre nós a aproximação acadêmica da tradutora dos livros de Tuan, Professora Livia de Oliveira, da UNESP de Rio Claro, com o grupo de psicólogos que, na USP de Ribeirão Preto, realizam pesquisas em percepção do espaço. Cabe destacar que essa mesma professora e o arquiteto Vicente

384Dossiê Psicologia Ambiental del Rio organizaram recentemente importante coletânea sobre a produção brasileira na área de percepção ambiental (Del Rio e Oliveira, 1996), na qual não aparecem psicólogos, apesar da especificidade conceitual do tema e da manifesta (no prefácio da obra) intenção dos organizadores no sentido de incluí-los.

A terceira influência centrípeta a ter contribuído para o surgimento da Psicologia Ambiental foi decorrência de uma crescente preocupação das ciências naturais pelos “problemas ambientais” e pelo papel desempenhado pelo ser humano nesse contexto. Tomando o programa internacional das Nações Unidas para o meio ambiente (MAB, ou Man and Biosphere) como exemplo paradigmático, Bonnes e Secchiaroli mostram como as iniciativas da ONU na área passaram de um enfoque exclusivamente de ciências biológicas para uma concepção mais abrangente, em que os seres humanos não eram apenas o “fator antrópico” (p. 14). Assim, somava-se às dimensões espacial e temporal a percepção ambiental, ali definida de modo abrangente, caracterizada como um fenômeno psico-social, em que processos cognitivos e afetivos estão implicados na representação do ambiente, tanto na esfera individual como na coletiva.

É difícil avaliar a extensão atual dessa interface no Brasil. Ela possivelmente se espalha por universidades, instituições de pesquisa, órgãos da administração pública dos vários níveis (e.g., Secretarias de Meio Ambiente e de Planejamento, CETESBs, FEEMAs etc.), cooperativas (agrícolas ou de outros tipos) e os vários tipos de ONGs (Organizações Não-Governamentais) surgidas no setor. Aqui, a ligação Psicologia Ambiental-Ciências Bio/Ecológicas parece repetir o quadro das barreiras encontradas para uma atuação conjunta das ciências naturais e sociais na área dos recursos naturais, a saber: a “fraqueza” das ciências sociais, sua percebida ilegitimidade, as punições decorrentes da pesquisa interdisciplinar, a falta de estruturas de apoio e conflitos relativos a controle e poder (Heberlein, 1988).

Vale destacar entre nós a trajetória de uma disciplina próxima, a

Educação Ambiental, da qual a Psicologia Ambiental já começa a se aproximar (e.g, Kuhnen, 1995, 1997). Os que sentiram primeiro a necessidade da Educação Ambiental foram os que trabalhavam “lá fora”, no ambiente, e se deram conta da necessidade de enquadrar

385Dossiê Psicologia Ambiental também o elemento humano. Assim, fiscais do IBAMA, extensionistas da EMBRAPA, biólogos marinhos, ambientalistas de ONGs, botânicos e muitos outros foram os primeiros a se envolver com o assunto e a procurar os educadores, que teriam se aliado ao processo em um segundo momento. Ilustrativo do paralelo são os estudos feitos pelo biólogo mineiro (e autor de histórias infantis) Ângelo Machado (1978) sobre a representação infantil da floresta e seus bichos, tema que ainda hoje continua a atrair a atenção de profissionais das ciências biológicas (Mendes & Schall, 1995), e que talvez pudesse ser enriquecido pela participação cooperada de psicólogos.

A progressiva convergência de interesses que deu origem à Psicologia Ambiental sofreu também a ação de forças que, atuando dentro da Psicologia, conduziram setores desse campo de conhecimento a gradativamente considerar aspectos molares, não só do ambiente social, mas também do ambiente físico, em sua inter-relação com pessoas e grupos. Nesse processo de tentar compreender melhor o interrelacionamento entre processos psicológicos e aspectos do ambiente, duas grandes tradições teóricas em Psicologia se viram envolvidas: a Psicologia da Percepção, que define o ambiente principalmente em termos físicos e perceptuais, e a Psicologia Social, caracterizada por um ponto de vista mais molar.

A teoria ecológica de James Gibson constitui um dos elementos do primeiro grupo, com sua ênfase no papel exercido pelos fatores físicos do ambiente2. Por seu turno, a tradição transacionalista da escola de Princeton enfatiza o papel de fatores individuais e subjetivos, na medida em que consideram percebedor e realidade percebida como parte de um mesmo processo (e.g., Ittelson, 1973). E teríamos ainda Egon Brunswik e sua teoria probabilística, que também é considerado como uma das influências formadoras da Psicologia Ecológica de Barker (1968), da tradição seguinte.

Da tradição da Psicologia Social, o primeiro nome a ser mencionado é, obrigatoriamente, Kurt Lewin (1965). Criador do termo ecologia psicológica (além do mais abrangente espaço vital), Lewin é mais conhecido em Psicologia Ambiental por sua famosa equação: C= f (P x A), na qual a visão psicológica tradicional de ambiente (A) determinando o comportamento (C) é confrontada pela constante

386Dossiê Psicologia Ambiental interação (a multiplicação) entre pessoa (P) e ambiente, que influenciam-se mutuamente, são variáveis interdependentes. Já Roger Barker (1968), ex-colaborador de Lewin, desenvolveu com colegas a Psicologia Ecológica, hoje considerada como uma das mais importantes vertentes formadoras da Psicologia Ambiental. Como essa contribuição já foi objeto de outro trabalho (ver artigo de Carneiro e Bindé neste número), cabe aqui apenas enfatizar a criação do conceito de behavior setting, que, segundo Barker, não deveria representar nem comportamento, nem ambiente, mas uma entidade mista formada por ambos. Outro seguidor das idéias de Kurt Lewin, Urie Bronfenbrenner (1979), desenvolveu a noção de ecologia do desenvolvimento humano, tendo criado um enfoque psicossocial, cuja repercussão ultrapassa os limites dos estudos de desenvolvimento humano propriamente dito, pois enfatiza processos causais bidirecionais entre pessoas e ambiente.

Os poucos trabalhos realizados entre nós sobre Psicologia Ambiental são característicos dessa vertente centrífuga da Psicologia Ambiental, pois seus autores são psicólogos treinados em programas dos grandes centros de pós-graduação em Psicologia do país e/ou do exterior (Almeida, 1981; Campos de Carvalho, 1993; Campos de Carvalho & Rossetti-Ferreira, 1993; Günther & Rozestraten, 1993; Melo, 1990, 1991; Pinheiro, 1985). A Psicologia Ambiental também já foi identificada como área emergente da Psicologia Social brasileira (Bomfim, Freitas & Campos, 1992).

Convém, por oportuno, observar que parece estar havendo crescente interesse pela área das relações pessoa-ambiente entre nós, a julgar pela quantidade de trabalhos de brasileiros apresentados no recente Congresso da Sociedade Interamericana de Psicologia, em São Paulo, em julho último. O volume de Resumos registra um total de 25 comunicações em Psicologia Ambiental e Ecologia Social (entre workshops, temas livres e posters), sendo 16 de brasileiros. Além dos trabalhos inscritos diretamente na área, outros tratavam de temática relacionada, mas foram inscritos em áreas mais “tradicionais” da Psicologia (e.g., Ferreira, 1997; Padovani & Campos de Carvalho, 1997; Sarriera, 1997), refletindo a posição institucional de seus autores, como mencionado nas sessões de discussão e trocas de experiências (Pinheiro & Weisenfeld, 1997; Pinheiro, Elali, Bindé & Carneiro, 1997). O pe-

387Dossiê Psicologia Ambiental queno número de simpósios e mesas redondas da área no evento (apenas 3), no entanto, parece indicar pouca integração entre profissionais, temas de investigação, e estratégias teórico-metodológicas.

Essas foram as tendências gerais de formação da Psicologia Ambiental; mas como teriam elas conduzido essa área de estudos e pesquisas até os dias de hoje?

A retomada dos problemas humano-ambientais

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