Proposta de resposta a partir da comparação entre ?environment and behavior? e ?journal of environmental psychology?

Proposta de resposta a partir da comparação entre ?environment and behavior? e...

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Este artigo define o campo em Psicologia Ambiental a partir de dados referentes aos periódicos Environment and Behavior e Journal of

Environmental Psychology. Para isto, baseia-se na tipologia de Stokols que caracteriza a transação humano-ambiente em duas dimensões básicas: formas de transação cognitiva (ou simbólica) x comportamental

(ou física); e fases de transação ativa x reativa, gerando quatro modos de transação: interpretativa; avaliativa; responsiva; operativa. Conclui que diferentes modos de transação pessoas-ambiente são tanto áreas estáveis de interesse quanto há diferenças entre os periódicos. Conclui que a importância do contexto sociocultural sobre o objeto de estudo estaria implícita na própria definição de ambiente. Ao final, estabelece a diferença entre pesquisa aplicada e orientada.

Descritores: Psicologia ambiental. Objeto. Fatores socioculturais. Pesquisa. Periódicos.

credito que um curso introdutório de qualquer disciplina começa com uma definição do campo: “ O que é ***? Com o que ela lida? etc.”, mas gostaria de saber quantos setores científicos existem nos quais a questão

1 Pesquisadora Senior do Instituto de Ciências Cognitivas e Tecnologias do Conselho

Nacional de Pesquisa (CNR-Itália), especialista em Psicologia Ambiental e coordenadora de pesquisas na Universidade de Roma “La Sapienza”. Endereço eletrônico:

vittoria.giuliani@istc.cnr.it

Maria Vittoria Giuliani parece problemática mesmo para aqueles que trabalham no campo, como é o caso da Psicologia Ambiental. Porque a dificuldade em definir o campo?

Alguns anos atrás, um artigo de Stokols (1995), que apareceu na American Psychologist, disparou um debate sobre a identidade da Psicologia Ambiental. Nele, o autor sustentava que a identidade do setor como uma área específica de estudo - isto é, como um campo caracterizado por um paradigma específico - tinha se tornado crescentemente “difusa” e “transparente” por três razões fundamentais: a sua complexidade multidisciplinar, o seu escopo internacional, e a incorporação de questões ambientais em todos ou quase todos os setores da psicologia. De acordo com Stokols, a Psicologia Ambiental tenderia a continuar perdendo a sua identidade porque cada vez mais os seus princípios conceituais e metodológicos estão sendo incluídos em outras áreas da psicologia e em outras disciplinas como um resultado de uma crescente conscientização da necessidade de uma abordagem “contextual” para resolver problemas sociais importantes, como poluição e a qualidade total do ambiente, violência urbana, o impacto de novas tecnologias sobre o trabalho e a vida cotidiana, na saúde, e o envelhecimento da população mundial.

Mais recentemente, Sime (1999), a partir de uma pesquisa em seis manuais sobre Psicologia Ambiental, publicados entre 1995 e 1997, intitulado - não coincidentemente - “O que é a Psicologia Ambiental”, mostra como as visões de vários estudiosos diferem tanto quanto ao paradigma teórico e às metodologias que definem este campo de pesquisa, quanto ao papel assinalado para a psicologia como parte do estudo das relações entre as pessoas e o ambiente.

Finalmente, Bonnes e Bonaiuto (2002) avaliam que “nos últimos 15 anos, por meio do aumento da influência da perspectiva ecológica plena, o ambiente ecologicamente considerado se tornou crescentemente central para a Psicologia Ambiental”, com a Psicologia Ambiental sendo crescentemente vista como “psicologia ambiental da sustentabilidade”.

Contudo, muitas das diferenças em definir a Psicologia Ambiental surgem não da análise do que está sendo estudado e de como aqueles que se definem como psicólogos ambientais a estudam, mas das diversas avaliações do que deveria ser feito: “é” usualmente significa “deveria ser”.

Portanto, penso ser útil tentar responder à questão em termos empíricos / operacionais, supondo que o objeto da Psicologia Ambiental é com o que os psicólogos ambientais lidam ou, para ser mais precisa, sobre o que estão escrevendo.

Com este propósito, escolhi selecionar as duas publicações internacionais mais representativas no campo para ver se e como os interesses daqueles que se identificam com o nome de Psicologia Ambiental foram orientados nos últimos anos. Tenho consciência de que uma grande parte da atividade realizada neste campo não está refletida nestes periódicos - em particular, a pesquisa aplicada está definitivamente sub-representada (o quadro poderia ser diferente se fôssemos examinar as contribuições apresentadas na IAPS2 e EDRA3), e que o mundo dos de fala inglesa está sobrerepresentado com respeito às contribuições da comunidade que não fala inglês - contudo, os dois periódicos, em seus muitos anos de publicação certamente oferecem um quadro bastante completo da disciplina.

Aqui temos os dados essenciais concernentes aos dois periódicos Environment and Behavior (E&B) e Journal of Environmental Psychology (JEP). Os programas editoriais incluem uma definição geral do campo e alguns indicadores sobre possíveis tópicos, como veremos a seguir.

Environment and Behavior

1. Foi fundada em 1969 (com apenas 2 números naquele ano), tendo sido uma publicação trimestral de 1970 a 1980; e 6 números por ano, desde 1981. O último número examinado foi o vol. 34, n. 5 e o total de artigos publicados até o momento é 1025.

2 IAPS: International Association for People-Environment Studies. 3 EDRA: Environment Design Research Association.

Maria Vittoria Giuliani

2. Programa editorial:

- trabalhos teóricos sobre as inter-relações entre ambientes humanos e sistemas comportamentais e trabalhos metodológicos quando o foco primário se refere à relação ambiente-comportamento;

- relatos de pesquisa relacionados com a avaliação de ambientes planejados para cumprir com objetivos específicos, por ex., os efeitos sociais de diferentes tipos de alojamento ou a efetividade de áreas de tratamento hospitalar;

- estudos relacionados a crenças, significados, valores e atitudes de indivíduos ou grupos referentes a vários ambientes, por ex., o significado e os valores ligados à vizinhança, cidades, vias e dispositivos de transporte, ou área de lazer;

- estudos referentes a ambientes físicos onde a missão humana está amplamente implícita ou socialmente subdesenvolvida;

- estudos sobre o planejamento, política, ou ação política objetivando controlar ambientes ou comportamentos.

Journal of Environmental Psychology

1. Foi fundado em 1981, é publicado trimestralmente, o último número examinado foi o vol. 2, n. 3 e o total de artigos publicados até o momento é 509.

2. Programa editorial:

- artigos empíricos e conceituais que possibilitam o avanço da compreensão das relações entre as pessoas e o seu entorno físico. São contemplados os aspectos teóricos, metodológicos e práticos dessa compreensão procurando promover o desenvolvimento científico deste campo interdisciplinar.

- o entorno físico inclui tanto o ambiente construído e feito pelo homem quanto o ambiente natural.

- o objetivo do JEP é publicar artigos de alto padrão acadêmico que têm o potencial de aumentar o bem-estar humano.

Selecionar os critérios para classificar os muitos artigos publicados desde então (o número total de artigos soma 1534) não é uma tarefa fácil; basta ver os levantamentos sobre o JEP publicados pelo Annual Review of Psychology para verificar quantos diferentes critérios podem ser adotados.

Escolhi três critérios de classificação:

O primeiro é o conjunto estabelecido por Stokols (1978) que considera os vários modos de transação humano-ambiente; o segundo é o tipo de ambiente considerado; e o terceiro é a tipologia humana. Nesta apresentação, tratarei apenas do primeiro.

Segundo Stokols (1978), a transação humano-ambiente “pode ser caracterizada em termos de duas dimensões básicas: 1. Formas de transação cognitiva (ou simbólica) x comportamental (ou física); e 2. Fases de transação ativa x reativa. Consideradas conjuntamente, essas dimensões produzem quatro modos de transação humano-ambiente, como mostrado no Quadro 1.

Quadro 1. Os quatro modos de transação humano-ambiente (citado por Stokols, 1978)

CognitivaComportamental
FASE DEAtiva
TRANSAÇÃOReativa Avaliativa Responsiva

Interpretativa Operativa

Excluí da análise os trabalhos que tratavam de questões gerais teóricas, metodológicas ou de planejamento, que não se ajustavam ao esquema acima (n=228). As maiores áreas de pesquisa foram caracterizadas segundo o modo pelo qual foram tipicamente focalizadas, obtendo-se o seguinte esquema:

1. modo interpretativo: cognição espacial, mapas cognitivos, labirintos, percepção do ambiente; significado e sentido de lugar, lugar e processos de identidade, processos afetivos; personalidade e o ambiente;

Maria Vittoria Giuliani

2. modo avaliativo: avaliação de qualidade ambiental, preferências e satisfação; atitudes ambientais e disposição, preocupação ambiental e valores, percepção de risco;

3. modo operativo: comportamento pró-ambiental (reciclagem, lixo, uso de energia etc.), intervenções para preservar o ambiente; controle do ambiente, territorialidade e privacidade, espaço pessoal; organização e uso do espaço, escolhas locacionais, participação em planejamento;

4. modo responsivo: conseqüências comportamentais e de saúde de estressores, comportamento de enfrentamento; impacto do ambiente construído/natural sobre desempenho, saúde e comportamento.

Ás vezes, algumas simplificações foram necessárias dado que, como

Stokols (1978) observou, os limites entre os diferentes modos não são sempre claros e distintos, e numerosos estudos compreendem mais do que um único modo. Por exemplo, os estudos sobre densidade ou apinhamento freqüentemente examinam não apenas as reações das pessoas mas também aspectos de avaliação e interpretação; atitudes pró-ambientais são freqüentemente consideradas em relação ao comportamento, etc. Além do mais, a classificação é ainda provisória e planejo realizar uma avaliação posteriormente. Contudo, mesmo com essas limitações, um quadro geral do campo pode ser derivado.

A comparação de um espaço relativo devotado aos diferentes modos (ver Tabela 1), durante a vida inteira dos periódicos, mostra diferenças significativas (c2=51,788, df=3, p<.001).

Em ambos, e mais no JEP, a forma de transação a quem foi dada prioridade é o modo cognitivo. Em particular, o modo interpretativo parece ocupar um terço dos artigos do JEP, enquanto a maior ênfase do J&B está no modo avaliativo.

Tabela 1: Porcentagem de artigos focalizando cada modo transacional

Modo transacional E&B (%) JEP (%) Total Interpretativo 16,38 3,79 2,23

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