Desenvolvimento sustentável com Abelhas sem ferrão

Desenvolvimento sustentável com Abelhas sem ferrão

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Preservação da sub-bacia do Rio dos Cochos – desenvolvido pela Cáritas Diocesana de Januária com financiamento da Misereor (entidade da Igreja Católica na Alemanha) e em parceria com a ASSUSBAC - com as linhas de ação: Capacitação para educação ambiental, Recuperação e preservação das nascentes, recuperação e preservação das matas ciliares, combate a erosão e voçorocas, gestão de recursos hídricos, implantação de kits pedagógicos de manejo de água, criação e cultivo apropriado para o semi-árido, aproveitamento de frutos do cerrado, cursos, seminários e encontros para troca de experiência. Outro projeto bastante significativo foi um projeto de construção de barraginhas para captação de água de chuvas superficiais, financiado pela Fundação Banco do Brasil e executado pelo CAA – Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas em parceria com a ASSUSBAC (2007).

As Comunidades da sub-bacia do Rio dos Cochos estão inseridas no Cerrado que é o segundo maior Bioma do Brasil, cobrindo 20% do território nacional e 57% do território mineiro, com uma flora considerada entre as mais ricas das savanas tropicais. No cerrado encontramos mais de 1.0 espécies de plantas. A fauna do Cerrado é composta por uma diversidade enorme de espécies, incluindo répteis, mamíferos, anfíbios, insetos, peixes e aves. Com relação à mastofauna, ela apresenta cerca de 194 espécies sendo 18 endêmicas, ou seja, aquelas espécies que são encontradas apenas ali, como exemplo o tatu canastra, cachorro vinagre, tamanduá bandeira e outros que também estão na lista de animais ameaçados de extinção devido ao desmatamento para a produção de grãos. Por apresentar diferentes fitofisionomias o Cerrado possui uma grande diversidade de anfíbios e répteis. Estudos já realizados em diversos pontos do bioma já registraram aproximadamente 113 espécies de anfíbios sendo 32 endêmicas. No caso dos répteis já foram catalogadas 115 espécies de serpentes sendo, 59 lagartos e 25 anfisbenas. Cerca de 856 espécies de aves ocorrem no bioma Cerrado. Algumas são bem conhecidas como o soldadinho (Antilophia galeata), encontrado em mata de galeria, o tiziu (Volatina jacarina), a seriema (Cariama cristata), a gralha-docampo (Cyanocorax cristatellus), o papagaio-galego (Amazona xanthops), a ema (Rhea americana), o bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), a corruíra (Troglodytes aedon), sem falar na grande diversidade de insetos, inclusive abelhas indígenas sem ferrão (INSTITUTO CERRADO, 2008).

2.2 Abelhas sem ferrão

As abelhas compõem um dos maiores clados da ordem Hymenoptera, com cerca de 16.0 espécies, agrupadas em gêneros e subgêneros, porém estima-se que existam no mundo mais de 20 mil espécies, sendo que pelo menos 3000 ocorrem no Brasil (OLIVEIRA & KERR, 2000). A maioria delas não formam colônias e são conhecidas como abelhas solitárias. As que formam colônias são chamadas de "abelhas sociais". Destas, de 300 a 400 não possuem ferrão (CARVALHO-ZILSE et al., 2005).

As abelhas indígenas sem ferrão pertencem à subfamília Meliponíneos que pertence à família Apidae. A sua criação constitui a Meliponicultura, palavra usada pela primeira vez em 1953 no livro de Paulo NOGUEIRA-NETO, um estudioso e pesquisador destas espécies. Alguns exemplos de abelhas sem ferrão encontradas no Brasil: jataí (Tetragonisca angustula), mandaçaia (Melipona quadrifasciata), uruçu (Melipona sp), borá (Tetragona sp) e tataíra ou caga-fogo (Oxytrigona sp).

A família Apidae ainda se divide em mais três subfamílias: Apíneos, onde se encontra a Apis mellifera, abelha com ferrão bastante conhecida no Brasil como abelha Africanizada e teve sua introdução no Brasil no ano de 1839 trazidas de Portugal por padres jesuítas. Bombíneos, popularmente conhecidas como mamangavas ou mamangabas e os Euglossíneos, abelhas das orquídeas (NOGUEIRA-NETO, 1997).

As abelhas sem ferrão podem ser divididas em duas tribos: Meliponini: são abelhas grandes, que chegam a medir 1,5 cm. Usam barro e própolis para construir a entrada dos seus ninhos. As mais conhecidas são a jupará (Melipona compressipes manaosensis), a uruçu (M. scutellaris), a uruçu-boca-de-renda (M. seminigra merrilae), a uruçu-boi (M. nebulosa), a uruçu-mirim (M. cesiboi), a jandaíra (M. fulva) e a mandaçaia (M. quadrifasciata);

Trigonini: são abelhas pequenas, conhecidas como abelhas enrola-cabelo, canudo ou arapuá. A mais conhecidas são a jataí (T. angustula), arapuá (Trigona spinipes), borá (Tetragona sp.) etc. Como não têm ferrão, estas abelhas se defendem enrolando-se nos cabelos e pêlos, entram nos ouvidos, nariz e olhos. A entrada de seus ninhos tem formato de tubo e é construída com cera (IBAMA, 2005).

Os Meliponini se caracterizam por não construírem células reais, dessa forma, rainhas, operárias e machos nascem e desenvolvem-se até o estágio adulto em células de cria de igual tamanho. Os Trigonini constituem um grupo muito diversificado, com dezenas de gêneros e constróem quase sempre células reais, maiores que as outras, de onde emergem as futuras rainhas (NOGUEIRA-NETO, 1997).

Nas fêmeas dessas 4 subfamílias que constituem os Apídeos, somente as dos

Meliponíneos não têm ferrão. Com algumas exceções, a característica comum desses 4 grupos é ter, nas patas traseiras das fêmeas, uma concavidade onde elas carregam o pólen das flores ou outras substâncias para os seus ninhos (NOGUEIRA-NETO, 1997).

As operárias de meliponíneos vivem em média de 30 a 40 dias e são quase brancas ao saírem dos favos, escurecendo com o passar do tempo. Na vida adulta, desempenham diversas funções no ninho, seguindo normalmente a seguinte ordem: faxineiras - nutrizes - arquitetas - ventiladoras - guardas - campeiras. Dependendo de cada espécie, os ninhos contêm de 500 a 80 mil indivíduos (NOGUEIRA-NETO, 1997).

Os Meliponíneos ocupam grande parte das regiões de clima tropical do planeta, ocupando também, algumas importantes regiões de clima temperado subtropical. Assim, essas abelhas são encontradas na maior parte da América Neotropical, ou seja, na maioria do território Latino-Americano. Os pontos mais ao Sul estão numa área central da Argentina (Arizona, Província de San Luis). Na Federação Brasileira, o limite austral está no Rio Grande do Sul, nas proximidades do Uruguai. Também nas Américas, os pontos mais ao Norte estão no Estado Mexicano de Sonora, próximos dos USA. Nas ilhas do Caribe, ocorrem em Cuba, Jamaica, Guadalupe, Montserrat, Dominica, Trinidad. Na África, vão dos países do Sul do Sahara, até o Transvaal, na África do Sul. Na Federação Australiana vivem na sua metade Norte, aproximadamente. Do Sul da Índia se estendem ao Estado de Uttar Pradesh, no sopé do Himalaia, no Norte da Federação Indiana. Habitam a ilha de Taiwan (NOGUEIRA-NETO, 1997).

As abelhas indígenas constroem os seus ninhos com materiais diversos, que encontram na natureza, e também com outro material secretado por elas: a cera. Para ficar completa, é preciso ainda considerar também o cerume. Este é, basicamente, uma mistura de cera com a resina (própolis) que as abelhas recolhem de árvores ou arbustos feridos. A cera é secretada pelos Meliponíneos jovens em glândulas existentes no dorso do abdômen, entre os segmentos abdominais. A própolis é usada para calafetar as fendas da colméia e, sobretudo, para uma defesa mais direta da colônia (MARINHO et al., 2005).

2.2.1 Produção de mel

Do néctar é fabricado o mel, guardado em potes (saborás) e não em favos como nas

Apis mellifera (NOGUEIRA-NETO, 1997), mel este muito apreciado pelos agricultores, por ser tido como medicinal, utilizado em chás na cura de resfriados, tosses, gripes, bronquite etc. Ele contém inúmeros nutrientes como açúcares, proteínas, vitaminas, gorduras e até antibióticos (EMBRAPA, 2001), sendo menos viscoso e “enjoativo” em relação ao mel da abelha africanizada.

Algumas espécies têm a fama de serem “sujas” por visitarem fezes, inclusive humanas, para fazerem seus ninhos. Com destaque para a arapuá, que constantemente é visto se utilizando destes materiais. Assim, faz-se necessário a pasteurização do mel antes de comercializado quando se detecta que a abelha visita fezes de vertebrados (NOGUEIRANETO, 1997).

A produção varia entre as espécies, mas é certo que produzem menos mel que a Apis.

Elas dependem da flora meliponícola, sendo a produção maior quando a florada da espécie visada está no auge, caindo quando ela cessa (YAMAMOTO et al., 2007; BASTOS, 1995).

Mesmo sendo menor a produção do mel destas abelhas, em que alguns meliponicultores conseguem coletar de 5 a 8 litros de mel/colônia/ano, o retorno econômico é alto, pois o preço final que pode chegar a R$ 10,0 o litro no Sudeste (EMBRAPA, 201).

2.3 Polinização

As abelhas têm sido criadas para produção de mel, cera, pólen e própolis. Entretanto, muito mais importante que esses produtos é a polinização de plantas úteis propiciada por esses insetos (MARINHO et al., 2005). As flores possuem odor e cores chamativas, assim como oferecem pólen e néctar como atrativo para que estes animais possam realizar suas atividades (EDWARDS, 1981 apud MARINHO et al., 2005).

Normalmente, o néctar é aproveitado como fonte de água e carboidratos, e estes insetos procuram as plantas nectaríferas e poliníferas para sua alimentação. Em contrapartida, muitas espécies vegetais apresentam glândulas de néctar (nectários) nas suas flores, de maneira que, ao visitar esta fonte de néctar, o animal fatalmente irá esbarrar nas anteras e carregar o pólen para outras flores, efetuando assim a polinização. Esta relação entre plantas e animais intermediada pelo néctar tem evoluído mutuamente, e uma miríade de espécies vegetais e animais, com as mais variadas adaptações morfológicas, surgiram sobre a Terra desde então (WIKIPEDIA, 2008).

Há uma fidelidade muito alta nas abelhas campeiras quando se trata de visita aos mesmos tipos de flores, durante cada incursão forrageira. Assim, há uma tendência a não misturar pólens diferentes, tendência que é eficiente para fins de polinização. Abelhas de uma mesma colméia se mostram fiéis a flores da mesma espécie vegetal enquanto esta se mostra atraente a ela (NOGUEIRA-NETO, 1997).

Um trabalho, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), intitulado “Uso de abelhas sem ferrão na polinização e estudo da entomofauna associada ao camu-camu (Myrciaria dubia) na Amazônia Central”, teve como objetivo manejar abelhas provenientes de um meliponário em áreas de plantio do camu-camu, um fruto rico em vitamina C, visando o aumento da produtividade, já que segundo o Instituto, essas abelhas são responsáveis por 30 a 90% da polinização das árvores, dependendo do bioma considerado e por 38% da polinização da flora mundial. Inclusive, são realizados testes de polinização por meliponíneos sob sistema de cultivo em estufas em vários países como Japão, México e Costa Rica (COLLETO-SILVA & LIMA, 2007).

Certas características dos meliponíneos, quando comparadas à Apis mellifera, os tornam particularmente adequados para a polinização de plantas em estufas, principalmente em espaço reduzido: a ausência de um ferrão funcional, a baixa agressividade das espécies, a menor amplitude de vôo de forrageamento e o menor tamanho populacional de suas colônias (MALAGODI-BRAGA, 2004).

No Brasil, foram feitos testes de polinização no morangueiro com várias espécies de abelhas-sem-ferrão, dentre as quais a jataí (T. angustula) se mostrou a mais eficiente. MALAGODI-BRAGA et al. (2004) encontraram diferença significativa na produção de morangos sob efeito da polinização por esta abelha, apresentando frutos com maior peso.

Outras culturas também vêm sendo testadas no Brasil, como o pimentão, tomate e umbu (SOLANGE et al., 2004 apud MALAGODI-BRAGA et al., 2004), entre outras.

A meliponicultura tem fundamentação na resolução CONAMA nº 346, de 17 de agosto de 2004, que disciplina a proteção e a utilização das abelhas silvestres nativas, bem como a implantação de meliponários. Um ponto que a resolução destaca é a utilização da atividade como conservadora da biodiversidade, dizendo: “Considerando que o Brasil, signatário da Convenção sobre a Diversidade Biológica - CDB, propôs a ‘Iniciativa Internacional para a Conservação e Uso Sustentável de Polinizadores’, aprovada na Decisão V/5 da Conferência das Partes da CDB em 2000 e cujo Plano de Ação foi aprovado pela Decisão VI/5 da Conferência das Partes da CDB em 2002...”

2.4 Criação de meliponíneos na questão econômico-social

O projeto “Desenvolvimento Sustentável com Abelhas Sem Ferrão” tem como uma de suas metas constituir uma nova opção de renda aos moradores das comunidades rurais carentes da sub-bacia do Rio dos Cochos, oferecendo subsídios para que continuem a viver em suas terras de origem: o campo, já que muitas vezes são obrigados a deixá-las em busca de uma vida melhor na zona urbana de outras cidades como São Paulo, Brasília ou cidades próximas. Isto implica em afastamentos e separações de muitas famílias, que são obrigadas a se distanciarem, pois anseiam por maior estabilidade financeira, o que não alcançam se continuarem ali da forma como é hoje.

As oportunidades são diversas, principalmente em relação aos recursos naturais locais, mas, com a falta de estímulo e apoio eles são ora subaproveitados, ora super aproveitados, causando degradações ao meio. O baixo nível tecnológico empregado também é causa de baixo crescimento econômico-social da população (ASSUSBAC, 2007).

A meliponicultura tem grande aceitamento em regiões áridas e semi-áridas brasileiras

(CASTRO, 2007). O projeto a se desenvolver, implementa ações de melhoria tecnológica para implantação de criatórios de abelhas sem ferrão, considerada animal tradicional de convivência nas propriedades destas e demais regiões do estado. Além disso, proporcionar a preservação de espécies, já que muitas plantas são polinizadas exclusivamente por estas abelhas.

Muitas famílias na região da sub-bacia do Rio dos Cochos têm interesse em criar abelhas sem ferrão, mas não possuem o conhecimento necessário para iniciar o meliponário. Neste contexto, esse projeto poderá garantir as condições de uso das abelhas através da informação, na auto-sustentação de uma comunidade. Sem contar os ganhos em uma alimentação saudável da população criadora e dos futuros compradores do mel das abelhas indígenas, já que é um dos melhores para a saúde, com destaque para a saúde das crianças, melhorando inclusive, o rendimento escolar.

O mel produzido pela abelha Jataí, segundo FABICHAK (1989), é composto essencialmente de levulose, uma substância mais doce que a sacarose, numa concentração de 45%; de dextrose menos doce que a sacarose, com uma média de 25%; contém ainda pequena porcentagem de outras substâncias e muita água. O mel puro de Apis contém menos de 25% de água.

O mercado para este tipo de mel é garantido, pois mesmo com o preço mais elevado quando comparado ao mel da abelha Apis, as pessoas, sabendo das propriedades farmacológicas e do sabor deste, tendem a procurá-lo (JATI, 2007; SOUZA et al., 2004). Nos dias atuais, quase não se encontram comerciantes que vendem o mel verdadeiro de abelhas sem ferrão, muitas vezes, como nos foi dito por moradores, os vendedores colocam pequena parte deste mel e completam com mel normal, quando não depositam outras substâncias piores (JATI, 2007).

As vantagens da criação de meliponíneos não param aí, ainda podem ser comercializados a cera e o própolis, além da gratificação que é dada ao produtor pela beleza dos insetos, por conhecer seu comportamento na colônia e nas flores e pelo prazer que se tem contribuindo para sua conservação (ALONSO, 1998).

3. MATERIAL E MÉTODOS

O estágio foi desenvolvido no Projeto “Desenvolvimento Sustentável com Abelhas

Sem Ferrão” na cidade de Januária, Minas Gerais, no período de 13 de julho a 19 de julho de 2008 com duração de 56 horas. Além disso, cumpriu-se um período complementar de estágio no referido projeto, visando a triagem, fixação e identificação dos espécimes de abelhas sem ferrão coletados no Norte de Minas, com duração de 36 horas. Totalizando 92 horas.

3.1 Atividades desenvolvidas 3.1.1 Levantamento de espécies de abelhas sem ferrão

O trabalho de campo, destinado à busca das colméias com auxílio dos moradores foi realizado em seis comunidades rurais, anteriormente já descritas. Cada colméia localizada foi georreferenciada por meio de um GPS (Global Position System) modelo Garmin®. Os pontos foram nomeados de acordo com o nome da comunidade (Sam, Bar, Rod etc.) e um número.

Inicialmente, as abelhas foram localizadas e, em seguida coletou-se, em recipientes plásticos, algumas abelhas para posterior identificação da espécie. Os indivíduos foram conservados em álcool a concentração de 70%.

Espécies notadamente já coletadas, tiveram apenas a marcação da sua localização georreferenciada. Os frascos foram identificados com etiquetas de acordo com o nome do ponto.

As coordenadas geográficas dos pontos de interesse colhidas com o GPS foram transferidas ao computador com auxílio do software Trackmaker® (Anexo I).

As abelhas foram transportadas até a Escola Agrotécnica Federal de Inconfidentes,

Minas Gerais, onde foram triadas, fixadas em triângulos e identificadas. As espécies desconhecidas serão encaminhadas a especialistas para identificação.

3.1.2 Aplicação de questionário

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