Impacto da queima da cana - Eleutério Langowsi - www.udaload.blogspot

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Queima da cana – Uma prática usada e abusada Eleutério Langowski 1

Introdução

Nunca antes neste País, como gosta de dizer o Presidente Lula, se falou tanto em canaviais, cana-de-açúcar, álcool, etanol, efeito estufa, aquecimento global, poluição, trabalhadores, capital, usinas, usineiros, combustível, energia, etc. etc. etc..

Na ordem do dia estão plantações de cana, os canaviais, a matéria prima para a fabricação do etanol, a fonte de energia importante para o país e para o mundo. E em conseqüência, vem à tona uma das práticas mais difundidas, a queima do canavial por ocasião do corte.

Os canaviais estão hoje a causar impactos sócio-ambientais de elevada importância, porém pouco considerados em suas peculiaridades (2).

1 Engenheiro Florestal – Crea 8107-D/PR. Perito em Crimes Ambientais Especialista em Gestão e Auditoria Ambiental.

2 Impactos ambientais dos processos produtivos sucroalcooleiros A agroindústria de açúcar e álcool apresenta inúmeros riscos ampliados, principalmente em relação ao potencial de impactos ambientais como as emissões atmosféricas, contaminação nas águas e no solo. Além de problemas ambientais, a cultura e o processamento da cana geram outros tipos de impactos negativos, dentre esses se destacam os sociais tais como:

•Mudanças no modo produtivo dos municípios inseridos na economia;

•Sucroalcooleira; competição com outros cultivos alimentares; concentração da posse da terra e a incorporação de terras de pequenos e médios produtores pelas empresas agrícolas.

Em relação aos principais impactos ambientais ocasionados pelos diferentes processos produtivos, pode-se dividi-los em 2 categorias, os gerados da fase agrícola e os da fase industrial. Na fase agrícola destaca-se:

•Redução da biodiversidade causada pelo desmatamento e pela implantação da monocultura canavieira;

•Contaminação das águas superficiais e do solo através da prática excessiva de adubos, corretivos minerais e aplicação de herbicidas;

•Compactação do solo através do tráfego de maquinaria pesada durante o plantio, os tratos culturais e a colheita;

•Assoreamento de corpos d’água devido a erosão do solo em áreas de renovação de lavoura;

•Eliminação de fuligem e gases de efeito estufa na queima durante o período de colheita.

Já na fase industrial pode-se relacionar:

•A geração de resíduos potencialmente poluidores como a vinhaça e a torta de filtro;

•A utilização intensiva de água para o processamento industrial da cana de açúcar;

•O forte odor gerado na fase de fermentação e destilação do caldo para a produção de álcool.

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Os canaviais se encontram em franca expansão na região noroeste do Paraná.

Inúmeras propriedades onde o uso predominante era pastagens ou agricultura estão sendo ocupadas com plantios de cana.

O mapa abaixo demonstra a localização da lavoura canavieira no Brasil.

Como se pode verificar no mapa acima, depois de São Paulo, o Paraná é o estado que possui maior área ocupada com cana. São Paulo possui aproximadamente 2,5 milhões de hectares plantados com cana.

O Paraná atinge patamar de 500 mil hectares.

Somente na região de Cianorte, num raio de 50 km, são cerca de 40 mil hectares a serem queimados, mais que a metade da área do município.

(AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA E O SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL: O CASO DAS USINAS LOCALIZADAS NAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DOS RIOS PIRACICABA, CAPIVARI E JUNDIAÍ - Fabrício José Piacente - Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de Economia da UNICAMP para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Econômico - área de concentração: Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Ramos. Campinas-SP Novembro de 2005.)

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Conforme se verifica na tabela acima, são sete milhões de hectares ocupados com a cultura da cana-de-açúcar, sendo colhidas anualmente cerca de seis milhões, no Brasil afora. Como a maioria da área tem sido queimada anualmente, é muito grande o impacto ambiental proveniente dessa prática.

A indústria do álcool baseia-se na produção de matéria prima que se dá em uma fase predominantemente agrícola (3) onde são utilizados fertilizantes químicos ou

3 A parte agrícola apresenta aspectos e características ligados diretamente a essa vertente da economia, ao processo de ocupação territorial e a utilização excessiva de recursos naturais como água e solo. Já a divisão industrial apresenta seus aspectos mais ligados intimamente com os processos de transformações da matéria prima, que também são responsáveis pela geração de diversas externalidades. De forma geral, trata-se de um setor altamente dependente de recursos naturais, principalmente água e solo, e que está instalado em áreas econômica e socialmente importantes do país.

Essa dependência mostra que o gerenciamento dos recursos ambientais envolvidos deve ser tratado como de importância estratégica por essas empresas, uma vez que o esgotamento ambiental é um fator relevante na limitação da capacidade produtiva. (AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA E O SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL: O CASO DAS USINAS LOCALIZADAS NAS BACIAS HIDROGRÁFICAS DOS RIOS PIRACICABA, CAPIVARI E JUNDIAÍ - Fabrício José Piacente - Dissertação de Mestrado apresentada ao Instituto de

QUEIMA DA CANA – UMA PRÁTICA USADA E ABUSADA Folha 3/15 fertirrigação por vinhaça em alguns casos, pesticidas agrotóxicos diversos, seja no plantio, no desenvolvimento ou na preparação para a colheita (os conhecidos maturadores (4), dentre os quais, o glifosato) (5). Para o plantio é exigida a preparação do solo, que é feita através de mecanização pesada e movimentação de terra.

A produção canavieira se dá através da monocultura da cana. Qualquer monocultura por si só, é causa de danos ambientais. Um dos fatores mais conhecidos de desequilíbrio ambiental da monocultura da cana é a proliferação de pomba amargosa, pois em meio aos canaviais encontra abrigo onde possa nidificar com segurança. Mas o maior problema é a ausência de bolsões de reservas florestais e de áreas de preservação permanente, devidamente conservados. Os plantios de cana normalmente avançam em toda a área anteriormente ocupada com culturas agrícolas ou pastagens.

No Paraná, no entanto, já há sinais de reversão, pois, exige-se dos proprietários a regularização das áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente.

Economia da UNICAMP para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Econômico - área de concentração: Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Ramos. Campinas-SP Novembro de 2005.)

4 O maturador “round-up”, que é comprovadamente tóxico, está sendo utilizado. O efeito combinado entre adubos e maturadores, para a saúde dos trabalhadores, principalmente quando é feita a queima da cana, é muito pouco conhecido e deveria ser motivo de pesquisas. Não há informações se o período de carência está sendo respeitado pelas empresas. (FUNDACENTRO - Reuniões entre FUNDACENTRO e Representações Sindicais dos Trabalhadores no Setor Sucroalcooleiro em 2006 São Paulo Fevereiro de 2007)

5 A aplicação de maturadores vegetais na cultura da cana-de-açúcar tem se tornado uma prática comum, com o objetivo de antecipar a maturação natural e assim disponibilizar matéria-prima de boa qualidade para industrialização antecipada, e também auxiliar os produtores no manejo das variedades.

Os maturadores são definidos como agentes reguladores do crescimento vegetal que podem causar diminuição do crescimento sem alterar eventos fisiológicos que operam no processo de sintetização e armazenamento de açúcares, resultando em acumulação de mais açúcar (sacarose) nos colmos. Os maturadores podem agir através da indução da diminuição do crescimento da planta, e também pela atuação sobre as enzimas (invertases), que catalisam o acúmulo de sacarose nos colmos.

Os principais produtos utilizados como maturadores no mercado são: Ethrel (Ethefon), regulador de crescimento, aumenta teor de sacarose, reduz a isoporização e inibe o florescimento. Round-up (Glyfosate), ao contrário do anterior, é um inibidor de crescimento podendo destruir a gema apical da planta, cessando assim, a formação de novos entrenós. Por este fato, a colheita deve ser realizada até 4-5 semanas após a aplicação, a partir do qual irá existir intensa brotação lateral, prejudicial à qualidade da matéria prima. (...) Aumenta o teor de sacarose e inibe o florescimento. (Resultados da aplicação de maturadores vegetais em cana-de-açúcar, variedades RB 72454 e RB 835486 na Região de Araras-SP – Rogério do Nascimento (Voluntário); Antonio Carlos Arabicano Gheller (O); (DBV/UFSCar).)

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Vista aérea de um plantio de cana-de-açúcar (6)

Porém, nem sempre isso se verifica, permanecendo as respectivas áreas de

Reserva Legal em muitos casos, senão na maioria dos casos, ocupadas e exploradas com plantios de cana. É certo, então, que a cultura da cana ocupa grande extensão de área agricultável e não mantêm conservadas com cobertura florestal as respectivas áreas correspondentes à Reserva Legal e Preservação Permanente, nos seus percentuais e metragens recomendados por legislação específica.

As usinas, de uma forma geral, não são as proprietárias de todas as terras utilizadas no plantio de cana. Grande parte das áreas é fruto de arrendamentos em percentuais pré-estabelecidos, em prazos de cinco anos ou mais. Interessa tanto para o arrendante como para o arrendatário um maior retorno econômico sobre a mesma área. No entanto interessa mais para os proprietários arrendantes dos terrenos que os canaviais ocupem toda a área, inclusive as de Reserva Legal. Algumas usinas já estão realizando um trabalho no sentido de separar e averbar as áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente. Porém, ainda é muito comum encontrar áreas onde a ocupação das áreas de Reserva Legal avança para áreas onde deveria estar localizada a Reserva Legal.

Os plantios de cana-de-açúcar são feitos para serem colhidos em média anualmente por um período de 05 (cinco) anos. Após o corte, vem a rebrota, que manejada adequadamente fornece uma nova colheita a cada ano. No quinto ano, no entanto, a produtividade média cai substancialmente e o plantio tem que ser reformado após o corte, com novo plantio.

A mão de obra

A cultura canavieira é grande empregadora de mão de obra, pois vêm de uma tradição secular onde os senhores dos engenhos do ciclo do açúcar mantinham mão de obra escrava dado o seu baixo custo como fator de produção (7). A tônica é

6 Coopersucar.

7 Etanol revela face da desigualdade – Longe dos holofotes, indústria da cana reproduz modelo de relação trabalhista do século XVII – Prestes a ser transformado em commodity internacional, o etanol brasileiro virou a alternativa energética do século XXI. Ao mesmo tempo em que substitui o petróleo, é também menos poluente. Essas qualidades intrínsecas do produto estão promovendo uma verdadeira revolução no campo. Os usineiros estão eufóricos com a exuberância econômica que está por vir, como resultado de investimentos externos esperados nos próximos dez anos, de até US$ 100 bilhões.

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