behaviorismo

behaviorismo

(Parte 1 de 2)

“Muito bem, time! Vou explicar como vocês podem ganhar o Prêmio Águia”. PROGRAMA DE PONTOS DO TREINADOR DAWSON1

“Quero um pouco de concentração aí na quadra. Vocês não deveriam errar tanto as bandejas nos treinos!”, gritou Jim

Dawson, no treino de basquete. Jim era treinador do time de basquete do Colégio Clinton Junior High, em Columbus, Ohio. Estava preocupado com o desempenho dos jogadores durante uma série de exercícios que usava para dar início a cada sessão de treinamento. Havia também um problema de atitude. “Alguns deles simplesmente não são jogadores de conjunto”, pensava ele, consigo mesmo. “Alguns deles realmente têm uma atitude ruim”.

Com o auxílio de. Daryl Siedentop, da Universidade Estadual de Ohio, ele elaborou um sistema motivacional em que os jogadores poderiam ganhar pontos pelo desempenho nos exercícios de bandeja, de arremesso com salto e de lances livres, durante o treino diário. Além disso, poderiam ganhar pontos por jogarem pela equipe e por encorajar os companheiros com comentários de apoio. Eram deduzidos pontos, caso o treinador Dawson visse falta de energia ou uma má atitude. Os pontos eram registrados por estudantes voluntários que serviam de observadores do time. Tudo isso foi explicado aos jogadores em detalhes. No final de cada treino, o técnico elogiava os jogadores que ganhassem muitos pontos, assim como os jogadores que tivessem ganhado mais pontos do que no treino anterior. Além disso, os jogadores que tivessem um número suficiente de pontos tinham seus nomes afixados num local de destaque, no quadro do Prêmio Águia, no corredor que levava ao ginásio, e recebiam um prêmio Águia num banquete no final da temporada. De maneira geral, o sistema foi altamente eficaz. O desempenho nos exercícios de bandeja melhorou de uma média de 68%, antes do sistema, para uma média de 80%. O desempenho nos arremessos com salto melhorou de 37% para 51%. Os lances livres melhoraram, nos treinos, de 59% para 67%. No entanto, a melhora mais dramática foi na categoria do jogo em equipe: o número de comentários de apoio cresceu rapidamente, a ponto de os voluntários não conseguirem registrá-los todos. Além disso, apesar de inicialmente a maioria dos comentários parecerem “bastante artificiais”, no decorrer dos treinos tornaram-se cada vez mais sinceros. No final da temporada, os jogadores estavam demonstrando uma quantidade notável de comportamentos de atitude positiva e, nas palavras do treinador Dawson: “Estávamos mais unidos do que eu jamais poderia imaginar”.

Nós herdamos a capacidade de sermos reforçados por alguns estímulos, sem aprendizagem prévia. Tais estímulos ou eventos, que geralmente são importantes para nossa sobrevivência ou nosso funcionamento biológico, são chamados de reforçadores incondicionados (ou seja, estímulos que são reforçadores, sem serem condicionados). (Às vezes, são chamados também de reforçadores primários ou não-aprendidos.) Exemplos incluem o alimento para uma pessoa faminta, a água para uma pessoa sedenta, o calor para alguém que sente frio e o contato sexual para alguém que se encontre privado desse contato. Outros estímulos se tornam reforçadores devido a determinadas experiências. Especificamente, estímulos que originalmente não são reforçadores podem se transformar em reforços ao ser emparelhados ou associados com

Anotação 1 1 Este exemplo se baseia em um relatório de Siedentrop (1978).

outros reforçadores. Estímulos que se transformam em reforçadores, dessa maneira, são chamados de reforçadores condicionados. (Às vezes, são chamados também de reforçadores secundários ou aprendidos.) Exemplos de reforçadores condicionados incluem o elogio, uma fotografia de uma pessoa amada, livros que gostamos de ler, nossos programas de televisão favoritos e roupas que nos fazem ficar com boa aparência. Quando um estímulo se transforma em reforçador, através de associação com outros reforçadores, estes outros reforçadores são chamados, às vezes, de reforçadores de troca. Considere, por exemplo, o tipo de treino realizado com golfinhos no Sea World. Logo no início do treino, o treinador pareia o som produzido por um aparelho manual, o clicker, com a entrega de um peixe ao golfinho. O peixe é um reforçador de troca e, depois de certo número de pareamentos, o som do clicker se torna um reforçador condicionado. Posteriormente, ao ensinar um golfinho a realizar um truque, o clique é apresentado como um reforçador condicionado imediato, e o som do clicker continua a ser intermitentemente pareado com o peixe. Reforçadores de troca podem ser condicionados ou incondicionados.

Os pontos que o treinador Dawson usou, nos treinos de basquete, não eram reforçadores primários para os jogadores. Temos dúvidas de que os jogadores se esforçariam muito, ou feito qualquer esforço, para conseguir os pontos em si. Os pontos se transformaram em reforçadores condicionados porque foram pareados com reforçadores de troca, incluindo elogios por parte do treinador Dawson, o prêmio Águia no banquete do final da temporada e a divulgação dos nomes dos jogadores, no quadro do Prêmio Águia, no corredor que levava ao ginásio. Anteriormente, as honras e os elogios provavelmente (talvez na infância) foram pareados com outros reforçadores (por exemplo, abraços das mães); além disso, provavelmente ainda são ocasionalmente seguidos por reforçadores de troca no ambiente natural.

Lembre-se de que no Capítulo 3 dissemos que reforçadores positivos têm um efeito direto sobre comportamentos que os precedem imediatamente. No entanto, os pontos do programa do treinador Dawson somente eram concedidos no final do treino. Haveria reforçadores imediatos contingentes à melhora do desempenho? Há várias possibilidades.

Talvez os jogadores notassem que os observadores estavam registrando pontos logo depois da ocorrência de um comportamento correto, o que pode ter funcionado como reforçador condicionado. Ou talvez, à medida que aumentavam os comentários positivos dos colegas, tais comentários podem ter funcionado como reforçadores condicionados imediatos para a melhora no desempenho. Terceiro: imediatamente após um bom desempenho, um jogador poderia ter pensado, “Vou ganhar muitos pontos depois do treino”, e tal fato pode “ter feito a ponte” para o reforçamento. Assim, ainda que a melhora geral pudesse ser atribuída ao programa de pontos, e os pontos fossem reforçadores positivos condicionados, o melhor desempenho dos jogadores nos treinos não foi devido ao efeito direto dos pontos como reforçadores condicionados.

Alguns reforçadores condicionados, chamados de fichas, podem ser acumulados e trocados por reforçadores de troca. Um programa de modificação de comportamento no qual indivíduos podem ganhar fichas, por determinados comportamentos, e podem trocar suas fichas por reforçadores de troca é chamado de sistema de fichas. Por exemplo: uma professora de jardim de infância pode implementar um sistema de fichas no qual as crianças têm a possibilidade ganhar estrelas douradas por vários comportamentos, tais como uma estrela para cada criança por brincar de forma cooperativa durante o intervalo ou uma estrela por resposta correta dada em sala de aula. No final do dia, as crianças poderiam trocar suas estrelas por reforçadores de troca; por exemplo, cinco estrelas para jogar um jogo no computador ou três estrelas por criança por cinco minutos extras no momento de ouvir histórias. Praticamente qualquer coisa que possa ser acumulada pode ser usada como meio de troca num sistema de fichas. Em alguns sistemas de fichas, os indivíduos ganham discos plásticos (como fichas de pôquer), que podem guardar até que estejam prontos para trocá-las por reforçadores de troca. Em outros sistemas de fichas, são pagos com “dinheiro de papel”, no qual estão escritos (para controlar a utilização e facilitar o registro) o valor que ganharam, o nome do indivíduo, o nome do funcionário que o pagou, a data e a tarefa que o indivíduo realizou para ganhar a ficha. Em outros sistemas, ainda, como no programa do treinador Dawson, os indivíduos recebem pontos que são registrados ao lado dos seus nomes, num quadro ou em cadernetas que guardam consigo. (Programas de reforçamento com fichas são discutidos também no Capítulo 25.)

Fichas constituem um tipo de reforçador condicionado, mas estímulos que não podem ser acumulados também podem ser reforçadores condicionados. Um exemplo comum, já mencionado, é o elogio. Uma mãe, que expressa satisfação diante do bom comportamento do filho, tem probabilidade, ao mesmo tempo, de sorrir para a criança, abraçá-la, brincar com ela e dar-lhe uma guloseima ou brinquedo. O elogio normalmente se estabelece como reforçador condicionado durante a infância, mas continua a se manter como tal para os adultos; quando as pessoas nos elogiam, geralmente estão mais propensas a nos favorecer de várias maneiras do que quando não nos elogiam.

A maior vantagem do uso de reforçadores condicionados num programa de modificação de comportamento é que eles podem ser liberados de forma mais imediata do que o reforçador de troca. Dessa maneira, ajudam a intermediar atrasos entre comportamento e reforçadores mais poderosos.

Antes de encerrar esta seção, vamos mencionar brevemente o princípio da punição condicionada, que é muito semelhante ao do reforçamento condicionado. Exatamente da mesma maneira que um estímulo que é pareado ao reforçamento se torna, ele próprio, reforçador, assim também um estímulo que é pareado com punição se torna, ele próprio, punitivo. “Não!” e “Pare com isso!” são exemplos de estímulos que se tornam punições condicionadas porque, freqüentemente, são seguidos de punição, caso o indivíduo continue a emitir o comportamento que os provocou. Além disso, há a possibilidade de estabelecer um sistema de fichas de punição, com as mesmas características das fichas reforçadoras. O sistema de demérito utilizado nas forças armadas é um exemplo de um sistema de fichas punitivo. No entanto, existem problemas associados ao uso da punição (ver Capítulo 12).

1. A Força dos Reforçadores de Troca

O poder de um reforçador condicionado depende, em parte, do poder reforçador do(s) reforçador(es) de troca em que se baseia. Por exemplo: suponha que o treinador Dawson tivesse usado apenas elogios, como reforçador de troca, para os jogadores que ganharam pontos. Nesse caso, os pontos teriam sido reforçadores eficazes apenas para os jogadores para quem o elogio do treinador fosse um reforçador eficaz.

2. A Variedade dos Reforçadores de Troca

Um estímulo pode se tornar um reforçador condicionado devido a pareamentos com um único reforçador de troca. Isso é ilustrado pelo exemplo do sorveteiro que toca um sino ao se aproximar de um bairro. Depois de alguns pareamentos, o som do sino do sorveteiro será um reforçador condicionado para as crianças do bairro. Um reforçador condicionado que é pareado com um único reforçador de troca é chamado de reforçador condicionado simples. Em contraste, um estímulo que é associado a muitos tipos diferentes de reforçadores de troca é denominado de reforçador condicionado generalizado. No começo da vida, por exemplo, os pais alimentam seus bebês, lavam-nos, brincam com eles e satisfazem suas necessidades de muitas outras maneiras. Por ser, dessa forma, pareada com muitos tipos de reforçadores, a atenção do adulto se torna um poderoso reforçador generalizado. De maneira semelhante, o dinheiro é um poderoso reforçador generalizado para nós, devido a seus pareamentos com alimento, roupas, abrigo, transporte, lazer e outros reforçadores (ver Figura 4-1).

O poder de um reforçador condicionado depende, em parte, do número de diferentes reforçadores de troca disponíveis para ele. Tal fator está relacionado ao anterior, pois, se houver disponibilidade de muitos reforçadores de troca diferentes, então, a qualquer momento, ao menos um deles provavelmente será forte o bastante para manter as fichas com alto poder de reforçamento para qualquer indivíduo do programa. Exemplos dos principais tipos de reforçadores condicionados são dados na Tabela 4-1.

3. O Esquema de Pareamento com o Reforçador de Troca

O reforçamento condicionado é mais eficaz quando o reforçamento de troca não for apresentado depois de cada ocorrência do reforçador condicionado. Por exemplo: os jogadores do programa do treinador Dawson tinham que ganhar um certo número de pontos antes de receberem reforçamento de troca.

Figura 4-1 Por que o dinheiro é um reforçador condicionado generalizado?

4. Extinção do Reforçador Condicionado

Para que um reforçador condicionado se mantenha eficaz, deve continuar a ser associado com um reforçador de troca adequado, ao menos ocasionalmente. Caso o treinador Dawson tivesse descontinuado os reforçadores de troca, como os elogios e o “Programa Águia”, os jogadores poderiam eventualmente ter parado de se engajar nos comportamentos esperados por Dawson para conseguir pontos. Deixar de fornecer reforçamento de troca para um reforçador condicionado é chamado de extinção de um reforçador condicionado e é semelhante ao procedimento descrito no Capítulo 5 para extinguir uma resposta.

Exemplos de reforçadoresExemplos de reforçadores Exemplos de reforçadores
condicionados simplescondicionados generalizados incondicionados
Milhagem aérea Dinheiro Alimento
Ouvir: “Seu pedido está Pontos no programa Água
pronto”, em um restau- do treinador Dawson
rante para viagem
Um bilhete de metrô Elogio Sexo
Um cupom para Um cupom para comida Calor
hambúrguer grátis e bebida grátis num res-

TABELA 4-1 EXEMPLOS DE REFORÇADORES CONDICIONADOS taurante

Como o Princípio Pode Ter Efeito Indesejado

Inadvertidamente, pessoas não familiarizadas com o princípio de reforçamento condicionado podem aplicá-lo mal, de várias maneiras. Uma aplicação errônea muito comum ocorre quando um adulto repreende uma criança por se comportar inadequadamente, mas (a) não fornece nenhum tipo de “punição de troca” (ver Capítulo 12) junto com a repreensão; e (b) não reforça um comportamento alternativo desejado. A repreensão, sem dúvida, é dada na expectativa de que seja punitiva, mas, muitas vezes, não é esse o caso. Na verdade, a atenção que acompanha tais estímulos verbais negativos pode até ser altamente reforçadora, principalmente para indivíduos com déficits de desenvolvimento, que freqüentemente não recebem muita atenção por parte de adultos. Dessa forma, repreensões e outros estímulos verbais negativos (tais como “Não!”) podem se transformar em reforçadores condicionados, e o indivíduo se comportará de maneira inadequada a fim de obtê-los.

Na verdade, até mesmo estímulos que normalmente são punitivos podem se tornar reforçadores condicionados através de associação com reforçadores primários poderosos. O exemplo clássico é o do pai que bate no filho por mau comportamento e depois, “sentindo-se culpado” devido ao choro que se segue, imediatamente abraça a criança e lhe dá sorvete ou algum outro mimo. O resultado possível desse procedimento impensado é que a criança desenvolva um “gosto por apanhar”; ou seja, o apanhar pode se transformar num reforçador condicionado que manteria, ao invés de eliminar, o mau comportamento que o antecede.

Outra Cilada

A extinção de um reforçador condicionado pode ser inadvertidamente aplicada, com resultados desastrosos, por pessoas não familiarizadas com tal aspecto do reforçamento condicionado. Um exemplo disso é uma professora que dá estrelas por bom comportamento, mas deixa de usar reforçadores de troca eficazes. O resultado é que as estrelas eventualmente perdem qualquer valor reforçador que possam ter tido quando inicialmente apresentadas. A falha em utilizar reforçadores de troca eficazes pode ser responsável pela falta de motivação às vezes demonstrada pelos alunos em certos sistemas de fichas. Anotação 2

(Parte 1 de 2)

Comentários