Alternativas para redução do desperdício de materiais nos canteiros de obra

Alternativas para redução do desperdício de materiais nos canteiros de obra

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Coletânea Habitare - vol. 2 - Inovação, Gestão da Qualidade & Produtividade e Disseminação do Conhecimento na Construção Habitacional 22410.

Vahan Agopyan é engenheiro civil (1974) e mestre (1978) pela Universidade de São Paulo - USP. Doutor em Engenharia Civil pela University of London, Inglaterra (1982). Professor titular e livre-docência na USP. Diretor do Departamento de Engenharia de

Construção Civil da Escola Politécnica. Atuou de 1994 a 1988 na ABNT como membro do

Conselho Diretivo e como presidente do COBRACON. Em 2001, foi membro do Comitê Assessor de Engenharia Civil no CNPq. Coordenador de Engenharia da FAPESP. Membro do Conselho Direto do IMT - Instituto Mauá de Tecnologia, e Pesquisador do IPT de 1985 a 2002. Atua nas áreas de Matérias e Componentes de Construção, Materiais Não-

Metálicos, Qualidade da Construção Civil e Construção Sustentável. Pesquisador-bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. E-mail: agopyan@pcc.usp.br

Ubiraci Espinelli Lemes de Souza é engenheiro civil (1983), mestre (1989) e doutor (1996) pela Universidade de São Paulo - USP. Professor livre-docente (2001) da USP no período de 1984 a 2001. Atualmente é professor associado em regime parcial. Atua na área de Processos Construtivos. E-mail: ubiraci.souza@poli.usp.br

José Carlos Paliari é engenheiro civil (1994) pela Universidade Federal de São Carlos e mestre (1999) pela Universidade de São Paulo - USP. Foi professor auxiliar de 1997 a 1999 e atualmente é professor assistente da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar.

Atua nas áreas de Processos Construtivos, Materiais e Componentes de Construção,

Gestão e Produtividade no Uso de Recursos Físicos nos Canteiros de Obras. E-mail: jpaliari@power.ufscar.br

Artemária Coêlho de Andrade é engenheira civil (1996) pela Universidade Federal do Piauí - UFPI e mestre (1999) e em doutoramento desde 2000 pela Universidade de São

Paulo - USP. Estagiária da Sociedade Técnica de Engenharia - Steng, em 1995 e 1996 nas áreas de Cálculo Estrutural e Fiscalização e Consultoria. Atuou como assistente de professor em 1998 na USP na área de Tecnologia e Gestão da Produção. E-mail: aandrade@pcc.usp.br

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Alternativas para redução do desperdício de materiais nos canteiros de obra

Vahan Agopyan, Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, José Carlos Paliari e Artemária Coêlho de Andrade

Resumo

Este projeto teve como objetivo contribuir para a redução de custos das edificações e para a garantia da qualidade de processos e produtos do setor da Construção Civil. Desenvolveu-se uma metodologia para a me- dição das perdas de materiais, a qual foi aplicada em cerca de 100 canteiros de obra. O trabalho foi realizado por uma rede nacional de pesquisa envolvendo 16 universidades em 12 estados brasileiros. O trabalho contou também com a participação de várias entidades setoriais de diversas regiões do país, tais como SEBRAE, SENAI, SINDUSCON e SECOVI. O estudo confirmou que existe grande variabilidade nas perdas de materiais nos canteiros de obra e identificou as suas principais causas.

A título de exemplo, são apresentados, detalhadamente, os indicadores de perdas e consumo de materiais dos serviços estrutura de concreto armado (abordando os materiais concreto usinado e aço) e execução de alvenaria (tratando-se dos blocos e argamassas de assentamento) e, também, de forma resumida, os indicadores obtidos para os revestimentos de argamassa, gesso e cerâmica.

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Histórico da pesquisa

A preocupação quanto ao uso excessivo de materiais e componentes em obras de construção de edifícios, há muito tempo, faz parte de debates quanto a este segmento industrial. O real conhecimento da situação vigente e uma proposta de caminhos para melhorar o desempenho do setor quanto ao eventual desperdício existente tornam-se indispensáveis no contexto atual de acirramento da competição entre as empresas e de crescentes exigências por parte dos consumidores de obras de edifícios.

O projeto Alternativas para a Redução do Desperdício de Materiais nos Canteiros de Obra caminha no sentido de levantar informações consistentes sobre o assunto e subsidiar políticas de melhoria contínua do setor. Tendo como base inicial experiências vivenciadas por alguns dos pesquisadores que fazem parte do atual grupo de trabalho, elaborou-se uma metodologia para coleta e avaliação de informações sobre o consumo de materiais e componentes em obra, a qual passou – e continua sofrendo tal processo – por contínuos aperfeiçoamentos ao longo de sua aplicação.

A pesquisa foi iniciada por um grupo de sete universidades (Universidade de

São Paulo – USP, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, Universidade Federal do Ceará – UFC, Universidade Estadual de Feira de Santana – UEFS), que receberam apoio financeiro da FINEP – Programa Habitare, através de um projeto de pesquisa proposto pelo Instituto Brasileiro de Tecnologia e Qualidade da Construção – ITQC, e coordenado pelo PCC-USP. Esse grupo de instituições estudou cerca de 40 canteiros de obra. Logo, a pesquisa ganhou a adesão de mais três universidades (Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Universidade Federal da Bahia – UFBA e Universidade Federal do Espírito Santo – UFES), que trouxeram mais de uma dezena de canteiros para estudo.

Um novo grupo de universidades do Nordeste do Brasil, representando os

Estados da Paraíba, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Sergipe e Bahia, apoiado pelo Projeto Setorial da Construção Nordeste, coordenado pelo SENAI da Bahia (através de um contrato firmado com o ITQC, sob a coordenação técnica do PCC), foi treinado para a aplicação da metodologia em aproximadamente 30 canteiros de obra, perfazendo o total de quase uma centena de canteiros de obra distribuídos pelo país.

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Resumo da metodologia

Explicitando o conceito de perdas de materiais

Antes da discussão dos índices de perdas e consumos de materiais, é necessário que se estabeleça a que fases da “vida” do empreendimento tais resultados se referem. Nesse sentido, convém inicialmente notar que o consumo excessivo de materiais pode ocorrer em diferentes fases do empreendimento (Tabela 1): concepção, execução ou utilização.

Tabela 1 – Diferentes fases de um empreendimento e a ocorrência de perdas de materiais

Pode-se citar, quanto à concepção, o caso de um projetista estrutural não explorar adequadamente os limites que o conhecimento atual permite e gerar, assim, uma estrutura com consumo de concreto por metro quadrado de obra muito elevado. O mesmo pode ocorrer quando a definição do traço para a argamassa de contrapiso leva a um consumo desnecessariamente alto de cimento.

No caso da execução, são várias as fontes de perdas possíveis: no recebimento, o material pode ser entregue em uma quantidade menor que a solicitada; blocos estocados inadequadamente estão sujeitos a serem quebrados mais facilmente; o concreto, transportado por equipamentos e trajetos inadequados, pode cair pelo caminho; a nãoobediência ao traço correto da argamassa pode implicar sobreconsumos na dosagem dela (processamento intermediário); o processo tradicional de aplicação de gesso pode gerar uma grande quantidade de material endurecido não utilizado.

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No caso da fase de utilização do empreendimento, por exemplo, a repintura precoce de uma fachada pode representar um consumo de tinta maior que o esperado.

Convém, portanto, ao se discutirem perdas de materiais, entender qual a abrangência em que essas perdas serão abordadas. Nesta pesquisa, foram focadas as perdas que ocorrem especificamente dentro do canteiro de obra, isto é, associadas à fase de execução do empreendimento.

Da mesma forma, o desempenho no uso de materiais nos canteiros de obra pode ser analisado segundo dois tipos de abordagem:

- calculando-se o seu consumo por unidade de serviço (por exemplo, 15 kg de cimento por metro quadrado de contrapiso); ou

- calculando-se o valor de suas perdas (por exemplo, ao se considerar que o consumo teoricamente necessário de cimento para o contrapiso é de 10 kg, o consumo indicado no exemplo anterior levaria a uma perda de 50%, isto é, teria havido um consumo adicional de 5 kg de cimento em relação aos 10 kg definidos como necessários).

Nota-se, portanto, que o cálculo do valor da perda carece de uma definição prévia de uma referência considerada como perda nula. Reside aqui a dificuldade de se uniformizarem os diferentes números citados na bibliografia, já que diferentes referências são adotadas para representar o consumo mínimo necessário.

Outra dificuldade encontrada é quanto à definição da unidade através da qual se medem as perdas. Assim, uma perda de 10% em volume de areia, contida por exemplo em argamassas que endureceram e viraram entulho, pode ser bastante significativa sob o ponto de vista da quantidade de material que terá de ser retirada da obra, e do espaço necessário para a deposição dele (gerando prejuízos ao meio ambiente). Tais perdas, no entanto, podem não ter a mesma significância se expressas em termos financeiros, pelo empreendedor, em comparação com todos os outros gastos inerentes ao negócio imobiliário. Há, portanto, que se deixar sempre clara a unidade na qual se está mensurando as perdas: física (volume ou peso) ou financeira.

Há que se perceber também a existência de perdas que saem da obra como entulho e aquelas que ficam incorporadas à obra (como, por exemplo, na forma de sobreespessuras de revestimentos).

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Finalmente, deve-se ressaltar que a parcela a ser considerada desperdício físico de materiais depende, para sua definição, de uma avaliação custo–benefício quanto às perdas detectadas.

Nesta pesquisa, foram focadas as perdas físicas de vários materiais, tendo-se sempre como referência (ou consumo representativo de perda nula) as prescrições de projeto. Por exemplo, no caso do concreto usado nas estruturas, o consumo seria aquele apropriado na “cubagem” a partir da planta de formas. No caso do cimento usado no revestimento de parede interna, o consumo real de cimento é confrontado com aquele calculado a partir da espessura de revestimento planejada e do traço da argamassa preconizado pela construtora. Portanto, não se está fazendo análise das especificações, mas detectando-se os consumos que excedem os especificados. Cabe ainda ressaltar que, conforme anteriormente citado, ao se levantar as perdas físicas totais, os números mostrados representam uma soma das perdas que saem (entulho) com as que ficam incorporadas. Tais perdas não são totalmente evitáveis, carecendose de uma análise adicional para definir qual parcela da mesma poderia ser considerada desperdício.

Fluxograma dos processos para a análise da ocorrência de perdas

Dentro do canteiro de obras, o material passa por diversas etapas até o seu destino final, ou seja, ele é recebido, estocado, processado e, por fim, aplicado, sendo que, entre cada uma dessas etapas, ele é transportado. Entendendo-se como processos todas as etapas relacionadas ao fluxo do objeto (no caso os materiais), a elaboração desse fluxograma consiste no levantamento de todas as etapas de um serviço em estudo, além da representação do relacionamento entre elas.

Na Figura 1 apresenta-se um fluxograma do processo de execução de um revestimento em argamassa produzida na própria obra (areia, cal e cimento), adotando-se o procedimento de “descansar” a argamassa de cal antes de compor a argamassa final com cimento.

Através desse fluxograma dos processos, identificam-se as várias possibilidades de ocorrência de perda de material. Nesse exemplo específico, pode-se ter perda no recebimento devido a sacos rasgados, perda na dosagem dos materiais na produção da argamassa, perda durante o transporte e, por fim, perda na aplicação, que poderá resultar em entulho (argamassa que cai no chão e não é reaproveitada) ou ser incorporada na edificação (na forma de sobreespessura de revestimento).

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Figura 1 – Fluxograma do processo de execução de revestimento de argamassa

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