Contribuição para o Desenvolvimento de Competências de Empreendedorismo Social: O Caso do CALIPRO/UFSC

Contribuição para o Desenvolvimento de Competências de Empreendedorismo Social: O...

(Parte 1 de 3)

I ENEDS Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 16 e 17 de Novembro de 2005

Contribuição para o Desenvolvimento de Competências de Empreendedorismo Social: O Caso do CALIPRO/UFSC

Gabriela Borsatto (UFSC) gaby@deps.ufsc.br

Salomão Almeida Pereira (UFSC) salomao@deps.ufsc.br

Renata Melo e Silva de Oliveira (UFSC) renata_ep@yahoo.com.br

Osvaldo Luiz Gonçalves Quelhas (UFF) quelhas@latec.uff.br Álvaro G. Rojas Lezana (UFSC) lezana@deps.ufsc.br

Resumo

Atualmente, a demanda da sociedade pela atuação responsável de organizações públicas, privadas e do terceiro setor tem crescido significativamente. No âmbito das instituições educacionais, o empreendedorismo social igualmente tem se tornado uma necessidade para prover oportunidades de integração dos discentes no ambiente que irão encontrar nas organizações onde atuarão profissionalmente. O objetivo deste trabalho é apresentar um relato baseado no estudo de caso das ações do Centro Acadêmico Livre de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina. Faz-se reflexão sobre a influência de tal atividade na sensibilização de estudantes de graduação no que se refere à Responsabilidade Social. Palavras-chave: Responsabilidade Social; Empreendedorismo Social; Desenvolvimento de Competências.

Ainda hoje é muito grande a carência de ações sociais em grupos menos favorecidos da sociedade, elevada notadamente pela desigualdade, pobreza e marginalização, apesar do empenho de diversas pessoas e organizações em tentar mudar essa história através de programas de responsabilidade social.

As desigualdades sociais vêm crescendo de forma a preocupar todos os setores da economia e da sociedade, visto que, em função do crescimento da pobreza mundial, que segundo Kuntz (apud PONTES, 2003), com dados cedidos pela ONU, já chega a 1,2 bilhões de pessoas vivendo em condições de pobreza absoluta, considerando a população mundial de 6 bilhões de pessoas (relacionada ao crescimento do consumo e da má distribuição de renda), os problemas que envolvem a sociedade não se limitam mais somente à atenção do Estado, conquistando assim, as atenções da esfera mercantil e não mercantil da sociedade.

A metodologia utilizada para a realização do trabalho foi do tipo observação, ou seja, quando se utilizam os sentidos na obtenção de dados de determinados aspectos da realidade, apresentando também esta pesquisa uma característica qualitativa, tipo, exploratória, na qual foi feito um estudo descritivo de uma organização de representação estudantil. O tipo de observação escolhido foi a observação na vida real, a qual consiste no registro de dados à medida que ocorrem (SILVA, 2005).

Este trabalho visa mostrar como ações do Centro Acadêmico Livre de Engenharia de Produção da Universidade Federal Santa Catarina (CALIPRO/UFSC) — um órgão de representação estudantil — podem influir na sensibilização de discentes de graduação quanto a esta realidade descrita e estimulá-los a desenvolver competências relacionadas a ações empreendedoras e de cunho social, requeridas no mercado de trabalho atualmente.

I ENEDS Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 16 e 17 de Novembro de 2005

2 Empreendedorismo e Empreendedorismo Social

O Empreendedorismo possui vários conceitos, até mesmo distintos um dos outros. No Brasil, o Sebrae é uma das entidades que mais o menciona e eleva através de eventos, premiações e pesquisas, como a Feira do Empreendedor — que visa “fomentar e diversificar as atividades econômicas, por meio da oportunidade do contato direto com as principais potencialidades estaduais” (FEIRA DO EMPREENDEDOR, 2005) —, o Prêmio Sebrae Prefeito Empreendedor — “a prefeitos [...] e a administradores regionais do Distrito Federal que tenham implantado projetos que alcançaram resultados [...] de estímulo ao surgimento e ao desenvolvimento de [...] MPEs locais [...]” (SEBRAE, 2005a) — e o GEM (Global Entrepreneurship Monitor) — investigação sobre a situação do empreendedorismo em nosso País realizada anualmente desde 2000 juntamente com mais de 30 países (SEBRAE, 2005b).

Souza (2004) discorre de forma direta e de fácil entendimento sobre Empreendedorismo. Para ele, pode-se defini-lo como a capacidade individual que algumas pessoas possuem em empreender, [...] um processo de iniciar e gerir empreendimentos e, numa outra visão, um movimento social que busca a criação e ampliação de emprego e renda.

Sobre o Empreendedorismo Social, Oliveira (apud OLIVEIRA, 2004) apresenta sínteses de conceitos internacionais, Quadro 1, e nacionais, Quadro 2.

Organização Entendimento

Canadian Center

Social

Entrepreneurship (CCSE), Canadá

"Um empreendedor social vem de qualquer setor, com as características de empresários tradicionais de visão, criatividade e determinação, e empregam e focalizam na inovação social [...]. Indivíduos que [...] combinam seu pragmatismo com habilidades profissionais, perspicácias."

Foud Schwab, Suíça

"São agentes de intercambiação da sociedade por meio de: proposta de criação de idéias úteis para resolver problemas sociais, combinando práticas e conhecimentos de inovação, criando assim novos procedimentos e serviços; criação de parcerias e formas/meios de auto-sustentabilidade dos projetos; transformação das comunidades graças às associações estratégicas; utilização de enfoques baseados no mercado para resolver os problemas sociais; identificação de novos mercados e oportunidades para financiar uma missão social. [...] características comuns aos empreendedores sociais: apontam idéias inovadoras e vêem oportunidades onde outros não vêem nada; combinam risco e valor com critério e sabedoria; estão acostumados a resolver problemas concretos, são visionários com sentido prático, cuja motivação é a melhoria de vida das pessoas, e trabalham 24 horas do dia para conseguir seu objetivo social."

Ashoka, Estados Unidos

"Os empreendedores sociais são indivíduos visionários que possuem capacidade empreendedora e criatividade para promover mudanças sociais de longo alcance em seus campos de atividade. São inovadores sociais que deixarão sua marca na história."

Fonte: Adaptado de Oliveira (apud OLIVEIRA, 2004) Quadro 1 – Conceitos sobre Empreendedorismo Social: Visão Internacional

Autor Conceito

Ashoka

Empreendedores

Sociais e Mackisey e Cia. INC (2001)

“Os empreendedores sociais possuem características distintas dos empreendedores de negócios. Eles criam valores sociais pela inovação, pela força de recursos financeiros em prol do desenvolvimento social, econômico e comunitário. Alguns dos fundamentos básicos do empreendedorismo social estão diretamente ligados ao empreendedor social, destacando-se a sinceridade, paixão pelo que faz, clareza, confiança pessoal, valores centralizados, boa vontade de planejamento, capacidade de sonhar e uma habilidade para o improviso.”

Rouere e Pádua (2001)

“Constituem a contribuição efetiva de empreendedores sociais inovadores cujo protagonismo na área social produz desenvolvimento sustentável, qualidade de vida e mudança de paradigma de atuação em benefício de comunidades menos privilegiadas.”

Fonte: Adaptado de Oliveira (apud OLIVEIRA, 2004) Quadro 2 – Conceitos sobre Empreendedorismo Social: Visão Nacional

Nacional e internacionalmente, este conceito ainda está em construção (Oliveira, 2004).

I ENEDS Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 16 e 17 de Novembro de 2005

3 Responsabilidade Social e a Universidade

A Responsabilidade Social não deve ser tratada como uma obrigação, mas fazer parte dos valores das pessoas e das práticas de negócio ou de gestão das organizações, valendo para setores públicos e privados. As organizações têm trabalhado exaustivamente criando gestões socialmente responsáveis, mas pouco é trabalhado com as pessoas que as formarão.

“A Responsabilidade Social tem que ser tratada como um compromisso das organizações com a sociedade, pois é da sociedade que partem os recursos, que devem ser retribuídos não apenas na forma de produtos ou serviços, mas especialmente através de ações sociais voltadas para a solução de problemas da sociedade, sobretudo da comunidade que a cerca” (MELO NETO e FROES, 1999).

Isto pode ser complementado por Alledi e Quelhas (2002), que afirmam que a finalidade da Responsabilidade Social é promover o bem estar dos diversos públicos de uma organização.

Para o Instituto Ethos (2005), a Responsabilidade Social é uma forma de conduzir os negócios de tal maneira que a torna parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social. Assim, a Responsabilidade Social numa organização possui ação coletiva, que reflete sua ação cívica (mobilizando seus colaboradores) pela da cidadania e do desenvolvimento sustentável.

Conceitos, como Responsabilidade Social, vêm amplamente sendo divulgados, principalmente por empresas que se consideram socialmente responsáveis. Segundo Passador (2002), as empresas demonstram a Responsabilidade Social ao comprometerem-se com programas sociais voltados para o futuro da sociedade. A segunda edição da pesquisa “Ação Social das Empresas” do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2004) — IPEA — relata que mais de 70% das empresas atuam na área social. Boa parte dessas empresas faz pequenos trabalhos voluntários voltados para a comunidade próxima à empresa e ótimos exemplos vêm de algumas grandes empresas, como a campanha da Avon pela “Valorização da Mulher“.

Santos Filho (2005) argumenta que:

“Neste contexto, é papel das universidades proporcionarem a reflexão, o debate e o questionamento sobre a Responsabilidade Social e o papel dos alunos como futuros agentes transformadores e solucionadores dos problemas e das questões sociais do Brasil. É papel, ainda, destas instituições oferecer aos alunos uma formação que atenda não apenas as suas necessidades, como também as necessidades do mercado e da sociedade. O desafio é quebrar o paradigma de que a Responsabilidade Social é modismo, que os envolvidos em programas sociais buscam apenas notoriedade. É preciso provocar uma mudança de cultura a respeito da responsabilidade social”.

O ideal é que o universitário tenha um contato com esses valores ainda dentro da academia, desenvolvendo atividades de cunho social, tal como o trote solidário. Isso pode fazer com que ele se diferencie dos seus concorrentes no momento em que estiverem disputando uma vaga de uma organização, além de desenvolverem diversas competências que servirão para suas vidas profissionais e pessoais.

Ou seja, o ideal é que o estudante tenha contato com a Responsabilidade Social assim que entra na universidade. Tendo essa percepção, muitas universidades vêm estimulando seus alunos a trocarem os trotes tradicionais, como ainda são conhecidos, pelos solidários — ou cidadãos —, preparando melhor seus alunos desde o início para o mercado de trabalho.

A Organização das Nações Unidas — ONU — traçou as “Metas do Milênio”, aprovadas por 191 países que a compõem, em 2000, e, em cima disso, O Instituto Faça Parte lançou, no Brasil, a campanha “8 Jeitos de Mudar o Mundo”, descrita na Figura 1, a seguir.

O CALIPRO/UFSC utiliza as idéias contidas nesta campanha como pano de fundo para a realização dos seus trotes. A partir das metas aprovadas da ONU, estas passaram a servir de base para elaboração do Projeto Executivo do Trote Solidário realizado pelo CALIPRO.

I ENEDS Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 16 e 17 de Novembro de 2005

(Parte 1 de 3)

Comentários